A ordem dos neurópteros (Neuroptera; do grego neuron = nervura e pteron = asa) é representada pelos crisopídeos, bicho-lixeiro (Família Chrysopidae) e formiga-leão (Família Myrmeleontidae), sendo que seus nomes populares podem variar em cada região. Esta ordem pertence à superordem Neuropterida (Insecta: Holometabola), com cerca de 5.500 espécies conhecidas em 18 famílias, e há aproximadamente 6 mil espécies descritas, distribuídas em 17 famílias, sendo que entre elas, Chrysopidae e Mymeleontidae são as mais abundantes e amplamente distribuídas, com cerca de 2 mil espécies. São holometábolos predadores e podem ser encontrados em cavernas, vegetação em geral e agroecossistemas, com larvas que podem ser terrestres ou aquáticas. As larvas de algumas espécies podem ser encontradas no solo ou na serrapilheira. Devido ao comportamento predatório, têm sido utilizados no controle biológico de algumas pragas, como ácaros, afídeos e cochonilhas.
Características Gerais esquerda|miniaturadaimagem|240x240px|Ovos pedunculados A ordem Neuroptera recebe este nome por possuir muitas nervuras nas asas, formando uma trama. O sistema de nervação das asas pode variar, contudo na maioria das espécies, além das nervuras principais, existem nervuras acessórias, formando uma trama ou retículo, semelhante às asas das libélulas (odonatos), e possuem 2 pares de asas. Morfologicamente, esses insetos apresentam um aparelho bucal mandibulado do tipo mastigador, cabeça variável, grandes olhos compostos; antenas com muitas articulações curtas ou alongadas (moniliformes, filiformes, setáceas ou clavadas) e ocelos presentes ou não. Tanto os adultos quanto as larvas são predadores de insetos de corpo mole, como cochonilhas, pulgões, ovos e larvas neonatas de lepidópteros, ainda que muitos se alimentem de secreções açucaradas produzidas por hemípteros, pólen e outras substâncias encontradas na natureza, apresentando, portanto, dieta onívora. Têm sistemas de comunicação através de vibração do substrato, cujos sinais geralmente são utilizados no comportamento de corte e para localização ou reconhecimento de presas. Possuem reprodução sexuada, são ovíparos, muitas vezes, com ovos pedunculados; as larvas das principais famílias são terrestres, oligópodes (muitos pares de pés) e, geralmente, tecem casulos de seda onde ocorre a transformação em pupa.
Aspectos Morfológicos Indivíduo Imaturo Os ovos possuem a forma oval ou cilíndrica e são colocados sobre um pedicelo de·diferentes alturas (Cluysopidae e Mantispidae), às vezes diretamente sobre madeira em apodrecimento no solo (Ascalaphidae), sob a lâmina d'água (Sisyridae), em grupos ou de forma isolada. O rompimento do ovo dá-se pelo movimento de contração e expansão abdominal da larva, que promove pressão sobre a região da micrópila, por onde emergem utilizando-se do ovirruptor, estrutura em forma de crista ou lâmina muito dura, localizada na região clípeo-labral.
O desenvolvimento larval geralmente tem três ínstares (fases do estágio larval de alguns insetos holometábolos). A forma larval campodeiforme prevalece, com variações em lthonidae, que se assemelha à forma escarabeiforme, e em Mantispidae, com o segundo e terceiro ínstares vermiformes. As larvas podem ser terrestres ou aquáticas, porém todas são predadoras com grande capacidade de caça, com formas características para as diferentes famílias. Os neurópteros alimentam-se geralmente de insetos, entretanto os indivíduos da Família Sisyridae preferem esponjas de água doce ou Bryozoa. São, na maioria das famílias, prognatas (ou seja, possuem acentuada projeção do maxilar inferior para a frente), alongadas, robustas ou frágeis, com peças bucais compridas. Na alimentação, valem-se de um tubo formado pela justaposição da mandíbula e maxila, por onde o fluido corporal das presas é ingerido. Esse tubo formado pela união da mandíbula-maxila pode ser reto ou curvo, com ou sem dentes. As larvas dos mirmeleontídeos constroem, no solo arenoso, armadilhas na forma de funil para captura de pequenas presas. Os crisopídeos alimentam-se de insetos pequenos em meio à vegetação e têm o hábito de carregar no dorso as carcaças dos insetos sugados, bem como resíduos encontrados no ambiente; para isso, o corpo é densamente coberto de cerdas e projeções. Esse comportamento confere às larvas o nome de "bicho-lixeiro". As larvas de nemopterídeos caçam avidamente na superfície do solo inóspito do deserto e as larvas de berotídeos possuem glândulas retais que produzem gases para a captura de presas. A digestão é interrompida no final do intestino médio e os túbulos de Malpighi atuam como glândulas. Os resíduos sólidos são liberados na forma de mecônio durante o estágio de empupação. Ao final do desenvolvimento, a larva tece um casulo, cuja estrutura é mantida por fios de seda produzidos pelos túbulos de Malpighi e exteriorizados pelo ânus. O casulo possui, em geral, duas camadas, a externa com os objetos coletados e guardados sobre o dorso da larva. A empupação ocorre dentro da camada interna. Inicialmente há a formação de uma pré-pupa e, posteriormente, o aparecimento da pupa livre. Ao final da empupação, o adulto emerge e, após alguns instantes, há o desprendimento e distensão das asas após o bombeamento da hemolinfa, formando então o adulto.
Indivíduo Adulto Os neurópteros adultos, de modo geral, caracterizam-se por possuir olhos grandes, esféricos e proeminentes, não apresentando ocelos (exceto em Osmylidae). A cabeça é geralmente mais larga do que longa, havendo, portanto, clípeo e labros mais compactos (exceto em Nemopteridae, que possuem clípeo e labro alongados). A margem distal do labro é escavada, sendo que este, juntamente com o clípeo, recobre as peças bucais desses insetos; os palpos maxilares possuem cinco artículos, sendo o último dilatado, e os palpos labiais apresentam dois ou três artículos que são bem alongados. As antenas podem estar presentes de diversas formas: longas, multiarticuladas, filiformes ou moniliformes, fiabeladas em Dilaridae (macho) e clavadas em Ascalaphidae, Stilbopterygidae e Myrmeleontidae. Protórax móvel, muito grande e longo em Mantispidae, e muito curto, reduzido a um anel, em Ascalaphidae; o meso e metatórax são subdivididos por suturas. As pernas dos neurópteros adultos são comumente finas, longas e ambulatoriais, exceto a anterior de Mantispidae e de alguns Berothidae, que são raptoriais, similares às de louva-deus. Possuem fêmures e tíbias robustos, com cerdas em toda a superfície. Apresentam dois pares de asas membranosas, com grande número de veias longitudinais e transversais (exceto Coniopterygidae, que possui um número reduzido de veias transversais), que geram diferentes padrões de venação; nos hemerobídeos, o par de asas anterior pode se ser mais esclerotizado e assumir a forma de élitro, que não tem mais função de voo, servindo apenas para a proteção do par de asas membranosas. As asas anterior e posterior são geralmente iguais ou subiguais, com diferentes graus de esclerosação, variando de transparentes hialinas a opacas.
Taxonomia e Filogenia Ao abordarmos um panorama histórico-evolutivo, nota-se que há registros fósseis de Neuroptera desde o Permiano Superior, embora de maneira fragmentada, e a afinidade desses fósseis com os táxons atuais é indeterminada. Foram encontrados fósseis do Mesozóico da extinta família Permithonidae, que tem como característica principal a estrutura de asa primitiva, porém sua afinidade com os fósseis atuais também é amplamente discutida. Já no Jurássico aparecem fósseis relacionados a subordens viventes como Myrmeleontiformia e Hemerobiiformia. Do Cretáceo e do Eoceno há pedras de âmbar com espécimes de muitas famílias modernas como Berothidae, Mantispidae e Osmylidae. Atualmente a ordem Neuroptera é mundialmente distribuída (sendo considerada, portanto, cosmopolita), apesar de não ser encontrada na Antártida.
A ordem Neuroptera, juntamente com Megaloptera e Raphidioptera, formam a superordem Neuropterida, que é considerada um dos mais antigos táxons dentro dos Holometabola. Segundo evidências morfológicas e moleculares esta superordem é considerada um grupo monofilético tendo como grupo-irmão os Coleópteros. Características sinapomórficas, em sua maioria presentes na larva, distinguem os Neuroptera dos outros Neuropterida. Porém, recentemente, foi feito um estudo filogenético com base em genes nucleares e mitocondriais e dados comparativos de estruturas genitais, fusão dos túbulos de Malpighi no intestino, e estrutura larval que levaram à sugestão de que Neuroptera e Megaloptera seriam um grupo-irmão, formando uma dicotomia com Raphidioptera.
Na filogenia adotada, os Neuroptera se dividem em 17 famílias agrupadas em 3 subordens, sendo elas: Nevrorthiformia, Myrmeleontiformia e Hemerobiiformia. Nevrorthiformia e Myrmeleontiformia estão bem sustentadas por dados moleculares e morfológicos, porém o mesmo não ocorre com Hemerobiiformia. Esses dados apontam que larvas aquáticas eram o estado primitivo do estilo de vida dos Neuroptera, mas dados morfológicos nos mostram que essa característica pode ter sido adquirida secundariamente.
Nevrorthiformia tem um grupo, Nevrorthidae, e constitui a linhagem mais basal dos Neuroptera; já Myrmeleontiformia é formada por dois grupos: o primeiro é constituído por Nemopteridae e Psychopsidae, e o segundo por Nymphidae, Myrmeleoontidae e Ascalaphidae. Os demais grupos pertencem à subordem Hemerobiiformia, cuja monofilia ainda não está estabelecida.
Subordem Nevrorthiformia Nevrorthidae Essa pequena família se divide em quatro gêneros e 19 espécies sobreviventes distribuídas em regiões subtropicais e de clima quente. Além delas há nove espécies fósseis pertencentes a cinco gêneros extintos, encontrados em âmbar do Eoceno. Essas inclusões de âmbar revelam a primeira evidência da presença da família Nevrorthidae no Cretácio Médio, com uma idade aproximada de 100 milhões de anos
Subordem Myrmeleontiformia miniaturadaimagem|220x220px|Blue-eyed lacewing (Neuroptera: Nymphidae)|esquerda
Nymphidae Os Nymphidae são uma pequena família com 35 espécies restritas à Austrália, Nova Guiné e ilhas próximas. Uma espécie foi descrita nas Filipinas, mas até hoje não pode-se afirmar a existência dessa espécie nessa região, pois seu único espécime conhecido está perdido. As ninfas dessa família são muito importantes porque apresentam características plesiomórficas para o clado das famílias Nymphidae + Nemopteridae + Myrmeleontidae + Ascalaphidae, apresentando o registro fóssil mais antigo dentre elas.Henry, C.S. (1982) Neuroptera. In: Parker, S. (Chief Ed.), Synopsis and Classification of Living Organisms. Vol. 2.
McGraw-Hill Book Co., New York, 470–482.
miniaturadaimagem|Mexoleon papago (Neuroptera: Myrmeleontidae)
Myrmeleontidae Como características gerais, apresentam cabeça mais larga que o tórax, antenas curtas e com ápice mais espesso, asas longas e estreitas, pernas curtas e abdômen alongado e fino. Suas características gerais se assemelham muito às das libélulas, a diferença maior e passível de identificação do grupo são suas antenas, que não tem forma ciliar e são visíveis a olho nu sem dificuldade e o seu tamanho varia de 25 a 75 milímetros. São insetos predadores, encontrados sem dificuldade em áreas tropicais. É a família mais numerosa da Ordem Neuroptera, com cerca de 1.500 espécies. Os adultos voam pouco e com lentidão, são atraídos pela luz e podem ser vistos perto de fontes luminosas durante a noite . A vida adulta dura de alguns dias a poucas semanas.