A Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre é uma instituição privada de caráter filantrópico e sem fins lucrativos, que mantém um conjunto de nove hospitais de várias especialidades, uma das mais antigas igrejas da cidade, um cemitério histórico com rico acervo de arte fúnebre e um centro cultural, estando localizada no Centro Histórico da cidade brasileira de Porto Alegre. É a mais antiga instituição hospitalar do estado e tem uma trajetória que se confunde com a história da capital gaúcha, tendo prestado serviços de grande relevo à comunidade.
Fundada em 1803 como Hospital de Caridade, em 1822 recebeu aprovação régia para funcionar como uma Santa Casa de Misericórdia, estatuto que havia sido almejado desde sua idealização no fim do século XVIII pelo irmão franciscano Joaquim Francisco do Livramento. Vinculada ao Estado e à Igreja Católica e deles dependente em vários aspectos jurídicos, financeiros e normativos fundamentais, foi a principal instituição de assistência social e de saúde do Rio Grande do Sul ao longo do todo o século XIX, cuidando material e espiritualmente não apenas de doentes, mas também de órfãos, escravos, viúvas, pobres e outros necessitados. No século XIX desempenhou ainda um importante papel em outras esferas. Sua Irmandade mantenedora tinha enorme prestígio e atraía para seus quadros a elite política, econômica, militar e social, sendo um centro de poder, de formação de alianças entre diferentes agentes, e de consagração de modelos de comportamento, filantropia e civilidade, além de organizar uma das principais festas do calendário religioso.
Em 1916 tornou-se uma instituição de direito civil e a influência direta da Igreja foi ultrapassada, direcionando suas atividades exclusivamente para a área da saúde. Foi uma força ativa para a passagem da medicina empírica praticada no século XIX para a medicina científica que se impôs no estado a partir do início do século XX. Participou da fundação e funcionamento da primeira Faculdade de Medicina do estado, hoje incorporada à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e depois em seu seio foi fundada a Faculdade Católica de Medicina, hoje a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, sendo desde o início do século XX uma instituição hospitalar de ensino superior.
Entre as décadas de 1960 e 1980 entrou em profunda crise, com uma administração ineficiente, acumulando uma grande dívida, tendo seus serviços e instalações duramente prejudicados e caindo em descrédito. Estando a ponto de ser fechada, em 1982 assumiu a provedoria o cardeal arcebispo Dom Vicente Scherer, que ao longo de dez anos, com a ajuda de muitos parceiros, dos funcionários e da comunidade, dirigiu um trabalho monumental para sua reorganização e recuperação dos seus serviços e seu prestígio. Neste período a importância da Santa Casa como um patrimônio comunitário também foi reconhecida, sendo organizado um programa de resgate, conservação e valorização do seu vasto acervo arquivístico, bibliográfico, histórico e artístico, levando à criação em 1987 do Centro Histórico-Cultural Santa Casa, que desenvolve importante trabalho de pesquisa e mantém uma série de atividades culturais e patrimoniais para o público. Seu acervo é uma fonte riquíssima para a historiografia, e os prédios antigos da Santa Casa são patrimônio histórico municipal. Seus hospitais voltaram a ser instituições de referência em diagnóstico e tratamento em várias especialidades clínicas e cirúrgicas, entre elas pediatria, oncologia, neurologia, cardiologia, pneumologia, ginecologia e obstetrícia, bem como em transplantes e outros procedimentos de alta complexidade. Em 2024 a Santa Casa possuía nove unidades hospitalares e mais de 1,2 mil leitos, dos quais 192 eram de UTI. Contava com mais de 9 mil colaboradores, 533 médicos residentes e 3.265 médicos ativos, tendo realizado mais de 7,8 milhões de atendimentos de variada natureza, entre consultas, internações, cirurgias, partos, emergências, exames, diagnósticos, tratamentos e outros. Mais de 60% dos atendimentos foram realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
História Antecedentes: as Misericórdias
thumb|Estátua do Irmão Joaquim do Livramento, nos jardins internos da Santa Casa.
Até início do século XIX Porto Alegre não dispunha de nenhum hospital, e os doentes eram atendidos em seus domicílios ou em enfermarias precárias, administradas por José Antônio da Silva, alcunhado Nabos a Doze, e depois pela sua vizinha a negra Ângela Reiuna.Franco, Sérgio da Costa. Porto Alegre: Guia Histórico. Porto Alegre: EdiUFRGS, 2006, 4ª ed. pp. 359-362 Chegando à província em 1788 o Irmão Joaquim Francisco do Livramento, um franciscano dedicado à caridade que estava recolhendo fundos para a construção da Santa Casa de Misericórdia do Desterro, na Ilha de Santa Catarina, tomou conhecimento da necessidade de um bom hospital na cidade e associou-se a José da Silva Flores e Luís Antônio da Silva a fim de criarem um em Porto Alegre. Irmão Joaquim desde logo concebeu-o para ser uma Santa Casa de Misericórdia, à semelhança daquela que estava promovendo em Santa Catarina. A fundação não ocorreu imediatamente. Flores e Silva abriram uma enfermaria por volta de 1795 na Praia do Arsenal, mas era um estabelecimento pequeno e a carência de um hospital adequado continuava. Autores do século XIX dizem que o Irmão Joaquim acompanharia as obras em Porto Alegre depois da fundação, mas segundo Elmar Bones, não há registro seguro de sua passagem pela cidade depois de 1788.Bones, Elmar. Histórias da Santa Casa: O cardeal e o guarda-chuva. Porto Alegre: Já Editores, 2003, pp. 38-43
Desde a fundação da Santa Casa de Lisboa em 15 de maio de 1498, a primeira de todas, sob os auspícios da Coroa portuguesa, as Misericórdias se organizaram amparadas em irmandades criadas especificamente para gerí-las, ao mesmo tempo filantrópicas e de mútuo socorro. Eram irmandades de leigos que deviam reportar-se ao Estado, mas havia um lado religioso importante em sua atividade, que devia ser submetido à aprovação da Igreja. Eram inspiradas nos princípios da caridade cristã, como descrita pelo evangelista nas 14 Obras de Misericórdia, sete espirituais e sete corporais — Espirituais: 1ª – Ensinar os simples; 2ª – Dar bom conselho a quem o pede; 3ª – Castigar com caridade os que erram; Consolar os tristes desconsolados; 5ª – Perdoar a quem nos errou; 6ª – Sofrer as injúrias com paciência; 7ª – Rogar a Deus pelos vivos e pelos mortos. Corporais: 1ª – Remir os cativos e visitar os presos; 2ª – Curar os enfermos; 3ª – Cobrir os nus; 4ª – Dar de comer aos famintos; 5ª – Dar de beber a quem tem sede; 6ª – Dar pousada aos peregrinos e pobres; 7ª – Enterrar os mortos.Tomaschewski, Claudia. Entre o Estado, o Mercado e a Dádiva: a distribuição da assistência a partir das irmandades da Santa Casa de Misericórdia nas cidades de Pelotas e Porto Alegre, Brasil, c. 1847 c. 1891. Doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2014, pp. 16-17; 31-42 thumb|esquerda|Nossa Senhora da Misericórdia em vitral da Casa Genta nos prédios históricos da Santa Casa
Enquanto prometiam ajudar os desvalidos, os irmãos firmavam o pacto de se ajudarem mutuamente em caso de necessidades, e a filiação à Irmandade garantia amparo em caso de doença ou empobrecimento. As Misericórdias dedicavam-se não apenas à prestação de cuidados de saúde, mas a uma ampla gama de ações, incluindo assistência material e espiritual aos presos, moribundos, órfãos, inválidos, anciãos, pobres, viúvas e outros desamparados. Ocuparam um espaço antes atendido por uma rede desconectada de estabelecimentos e programas de assistência, privados e oficiais. Sendo as instituições assistencialistas favoritas dos monarcas, adquiriram enorme prestígio e atraíram uma multidão de doadores que queriam se aproximar do poder, e seu funcionamento sempre dependeu fundamentalmente de doações. Além de seu papel assistencialista e religioso, desempenharam um papel político destacado: assumindo parte crucial das funções protetoras e provedoras que julgava-se caber ao Estado, tornaram-se o principal instrumento de ação social da Coroa e um grande reforço na sua legitimação política, através dos relevantes subsídios, privilégios e isenções que as Misericórdias receberam e dos laços de mútuo favorecimento criados com as elites locais. O apoio da Igreja era um fator de grande significado simbólico para a legitimação do trabalho assistencial do Estado e dos benfeitores privados. A ação combinada desses agentes, para além do trabalho de alívio das necessidades dos doentes e desamparados, funcionava ainda como forma de apaziguamento das tensões sociais, de manutenção do status quo e de controle sobre as classes baixas.Lorenzo, Ricardo de. "E aqui enloqueceo": A alienação mental na Porto Alegre escravista, c. 1843 - c. 1872. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2007, p. 80
Suas diretorias invariavelmente eram compostas pelos "homens bons", os cidadãos mais ilustres, que disputavam uma colocação eminente na prestigiosa instituição.Tomaschewski, pp. 124-133 Um lugar na Mesa Administrativa equivalia em prestígio a uma cadeira na Câmara Municipal. O cargo de provedor era ainda mais cobiçado, pois, conforme Claudia Tomaschewski, "controlar uma instituição de caridade proporcionava muito poder a quem estava no comando. Estas pessoas também lutavam para que a sua instituição de caridade tivesse maior visibilidade, recebesse mais recursos do governo e mantivesse certo monopólio sobre determinadas práticas".Tomaschewski, p. 167
Na Irmandade da Santa Casa de Porto Alegre, repetindo o padrão, foi reunida a elite local,Nascimento, Mara Regina do. "A Irmandade do Senhor dos Passos e a Santa Casa de Misericórdia: história, caridade e experiências de urbanidade em Porto Alegre/RS. Séculos XVIII-XIX". In: Paralellus, 2014; 5 (9): 93-118 e para Luiza Kliemann, "não foram poucos os presidentes da Província (governadores) que ocuparam ao mesmo tempo o cargo de provedor da Santa Casa. Alguns auxiliavam a instituição a obter recursos através do seu prestígio, de donativos, de isenções de impostos, outros usaram o cargo apenas em benefício de sua projeção social e política".Apud Nascimento, op. cit. p. 100 Nas palavras de Tomaschewski, thumb|A Santa Casa de Lisboa, modelo para todas as Misericórdias
"As Santas Casas foram instituições centrais nos espaços de colonização portuguesa. Elas se prestam a uma história comparada, e não apenas isso, se prestam a uma história interconectada, pois elas não eram instituições estanques, se relacionavam entre si. Assim como a Misericórdia de Pelotas dependia e seguia o exemplo da de Porto Alegre, ambas enviavam assistidos (especificamente, os considerados loucos) para a Misericórdia do Rio de Janeiro, faziam consultas a seus dirigentes, seguiam modelos de práticas lá implementadas, pediam auxílio na solução de problemas. Além disso, estas irmandades tinham constantes notícias do que ocorria nas demais: se a Misericórdia de Pelotas recebia os relatórios de Rio Grande e Porto Alegre, por exemplo, esta última recebia estes documentos das capitais de outras províncias brasileiras".Tomaschewski, p. 204 thumb|Frontispício da primeira edição impressa do Compromisso da Misericórdia de Lisboa, 1516, mostrando Nossa Senhora da Misericórdia