A Igreja da Luz de Lagos, também referida como Igreja de Nossa Senhora da Luz, é uma igreja situada na vila e na freguesia da Luz, no município de Lagos, na região do Algarve, em Portugal.Ficha na base de dados SIPA
A capela-mor da Igreja da Luz de Lagos está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1944.
Descrição A igreja situa-se no interior da vila, nas imediações do castelo, das ruínas romanas, e da praia. No lado setentrional da igreja encontra-se uma pequena área ajardinada, onde antes era o cemitério. É considerada como um dos mais importantes monumentos religiosos no concelho de Lagos.
O edifício está orientado de oriente para ocidente, como era habitual na época de construção, sendo a porta principal virada para poente. Inclui uma torre com relógio. Apresenta uma miscelânea de elementos tardo-góticos, manuelinos e barrocos.
A capela-mor é de planta quadrada, de três tramos, e possui uma abóbada estrelada com cadeia central e três bocetes ornamentados com medalhões, sendo provavelmente a parte mais antiga da igreja que foi preservada. Com efeito, segundo o arqueólogo José Formosinho, a capela-mor foi a única parte da igreja que não foi destruída pelo Sismo de 1755 e depois reconstruída, tendo permanecido com a sua aparência original, de influência gótica. José Formosinho descreveu a capela-mor como «no género da Igreja de N.ª S.ª de Guadalupe, mas posterior e mais rica». O acesso à capela-mor é feito através de um arco ogival tríplice, sustentada por três colunelos, e com capitéis ornamentados com motivos animais e vegetais, no estilo românico. O retábulo está decorado com talha dourada setecentista, apresentando as imagens de Nossa Senhora da Luz, ladeada pelas de São Romão e Santo Estêvão. A abóbada é artesoada, embora de decoração muito sóbria, com bocetes tanto nos pontos de cruzamento como nos cantos. De acordo com José Formosinho, a influência gótica é principalmente visível nas ligações entre as abóbadas cruzadas, nas chaves dos artesões e nas colunas fasciculadas e capitéis. Enquadrou estes elementos «no estilo ogival secundário», uma vez que «não tem a robustez que o período primário conservou do românico, nem o flamejante com a sua abundância de adornos e entrelaçados do períoào terciário. Como êsse período secundário teve a sua quadra no seculo XIV, predominando no século XV e parte do XVI o estilo florido ou flamejante, repito, se não fôra a data, erraria a conclusão a que devia chegar sôbre a época da sua construção. Sobre o altar-mor, considerou que este estava erradamente encostado ao fundo, tendo-o descrito como sendo «de madeira trabalhada em talha, estilo barrôco pobre; seria outrora dourada e destôa em absoluto do estilo da capela».
No interior destaca-se igualmente o zimbório, onde está inscrita a data de 1521 e algumas letras góticas, de significado desconhecido, e uma pia baptismal, de configuração única no Algarve, e que está ornamentada com sete quinas, representando os sete sacramentos. Segundo José Formosinho, um dos florões de letra gótica tinha a inscrição «Amt.º de Freitas mandou a fazer», enquanto que a outra ostentava uma grande cruz de forma florelizada, com a inscrição «na era de 1521» nas suas hastes. No passado a igreja tinha quatro altares, sendo os das Almas e e de São Pedro no lado direito, enquanto que no lado esquerdo encontravam-se os de Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora da Encarnação, tendo esta última acolhido durante algum tempo uma imagem da Capela de Espiche, que depois regressou à sua origem. No lado esquerdo também existia um púlpito. A igreja tambem contava com um baptistério e outras divisões na fachada Norte da igreja, que foram destruídas, tendo os seus vestígios sido descobertos durante trabalhos arqueológicos.
Na área da igreja foi descoberto um conjunto de espólio dos períodos romano, moderno e contemporâneo, que é quase totalmente formado por materiais cerâmicos, com algumas peças metálicas e em vidro. O conjunto inclui fragmentos de cerâmica doméstica, faianças, cerâmica vidrada e terracota, sendo o material romano composto por terra sigillata, uma ânfora e cerâmica comum. Segundo José Formosinho, nos lados nascente e setentrional da igreja existiam vestígios de uma parede amuralhada, que provavelmente servia para defender o santuário, sendo este igualmente protegido pelo castelo, situado a cerca de 50 m de distância.
História Antecedentes e construção O local onde se ergue a igreja foi ocupado pelo menos desde os finais da época romana, devido à presença de uma estrutura com a tipologia de uma sepultura, na qual foram reaproveitados elementos de outros edifícios, provavelmente oriundos de uma povoação próxima.
O santuário foi construído em data desconhecida, sendo originalmente apenas uma ermida. Devido aos elementos constantes na capela-mor, José Formosinho avançou a hipótese que teria sido edificada no século XIV. Segundo a tradição popular, a imagem de Nossa Senhora presente no interior foi resgatada dos mouros que assolavam a baía de Lagos, tendo o monarca reinante ordenado que fosse preservada nesta igreja, que seria protegida por estruturas defensivas em redor e pelo castelo. No zimbório da capela-mor existe a data de 1521, mas José Formosinho argumenta que a arquitectura da capela-mor, e a própria cruz de Avis no florão apontam para uma construção anterior.
Séculos XVIII a XX O edifício da igreja foi muito danificado pelo Sismo de 1755, só tendo sido reconstruída em 1874, embora tenha ficado com uma nova aparência. O único elemento original a permanecer foi a capela-mor, que tinha sobrevivido ao sismo. As obras de reconstrução do corpo da igreja foram supervisionadas por João Marreiros Neto, tendo a data sido recordada com uma inscrição de 1874 na porta principal. A torre foi construída com o apoio das populações locais, que também adquiriram o relógio.
A igreja foi muito atingida por um ciclone de 1941, tendo perdido grande parte do telhado. Foram depois feitas obras de restauro, financiadas pelo governo. Porém, pouco tempo depois o telhado ruiu, tendo o arqueólogo José Formosinho referido no seu artigo A Igreja de Nossa Senhora da Luz, publicado no jornal Correio de Lagos em 9 de Janeiro de 1943, que o edifício tinha caído há poucos dias atrás, quando estava a preparar a sua classificação, em colaboração com o arquitecto Baltazar de Castro, director da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. José Formosinho defendeu que a igreja deveria ser classificada com a categoria de Monumento Nacional, «visto que são poucos os exemplares góticos tam perfeitos que temos no Algarve, e datado como êste não conheço mais nenhum». Tal como sucedera em 1755, a única parte da igreja que sobreviveu ao colapso na década de 1940 foi novamente a capela-mor. A capela-mor foi classificada como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 33:587, de 27 de Março de 1944.PORTUGAL. Decreto n.º 33:587, de 27 de Março de 1944. Ministério da Educação Nacional - Direcção-Geral do Ensino Superior e das Belas Artes. Publicado no Diário do Governo n.º 63, Série I, de 27 de Março de 1944.
O escritor José António Pinheiro e Rosa especulou que a queda do telhado terá sido devido a obras de reparação mal executadas. Pinheiro e Rosa, que estava a fazer o inventário da arte sacra no Algarve em 1945, relatou que «parecia que passara por ali o terremoto. Todo o telhado caíra. A igreja era um montão de tábuas, traves, telhas partidas e entulho». No relatório que enviou para a Junta de Província, em 10 de Outubro desse ano, referiu que «foi no concelho de Lagos que encontrei a maior miséria arquitectónica que se pode ver em edifícios sacros da Província. Refiro-me à igreja da Luz de Lagos, cujo telhado caiu por inteiro, ficando de pé só a capela-mór - de valor arquitectónico -, a torre e as paredes. Devo dizer que a manutenção daquele estado de coisas é uma autêntica vergonha para a Província e que a solução alvitrada pelos Monumentos Nacionais - demolir toda a igreja deixando só a capela-mór - é contrária aos interesses espirituais da paróquia e até aos princípios da própria Arte Sacra. Nunca se viu construir-se apenas ... uma capela-mór». Pinheiro e Rosa voltou a exortar para o restauro da igreja durante o II Congresso Regional Algarvio, em 1951, onde afirmou que o problema do restauro e conservação dos templos algarvios ... só pode encontrar-se num entendimento entre as autoridades civis e religiosas». Outro investigador que também chamou a atenção para as condições da igreja foi José Formosinho, do Museu Municipal de Lagos, que alertou a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Nessa época, o pároco da Luz era o reverendo José António Monteiro, que tentou, sem sucesso, proceder a obras de reparação, devido principalmente a problemas financeiros e burocráticos, uma vez que desde a sua classificação que a igreja passou a ser propriedade dos Monumentos Nacionais. Segundo Pinheiro e Rosa, o processo para o restauro da igreja só ganhou um grande impulso após o padre Manuel Madeira Clemente ter assumido a paróquia, em 1950. Manuel Clemente conseguiu conciliar o governo central com a Diocese do Algarve, permitindo a reconstrução do monumento por parte dos Monumentos Nacionais ainda na década de 1950.
A nova igreja foi descrita por Pinheiro e Rosa como «esbelta frente ao mar, graciosa na sua frontaria singela e no elegante denticulado que lhe rodeia exteriormente a capela-mór. O interior ficou sobriamente luminoso, com a teoria de pequenas frestas em ogiva, que lhe abriram no alto das paredes. A capela-mór foi «limpa». E lá admiramos o seu arco de puro ogival, com três colunelos e outras tantas arquivoltas; o tecto artesoado, cujas nervuras descansam em interessantes mísulas; e os três florões da nervura central que são curiosíssimos, pois um tem em monograma as iniciais J. H. S., outro a inscrição: "Mandou fazer Ant.º de Freitas", e o terceiro ostenta, em volta da cruz de Avis, a legenda: "Fes se§na§era§de 1521". Um escorço histórico lavrado em pedra. O fundo da capela-mór é ocupado por um retábulo do século XVIII, que agora foi redourado, e, evidentemente, foi para ali aproveitado de outra parte. Quando fiz o Inventário Artístico, deixei lá a interrogação se não estariam por detrás desse retábulo as duas mísulas exigidas pelas nervuras e até se não estaria entaipada qualquer interessante janela ou fresta gótica. Como os Monumentos Nacionais costumam ser escrupulosos na pesquisa dessas coisas, devo ter-me infelizmente enganado. Foi pena que não se tivessem reconstruído os dois altares - de N. Senhora da Conceição e S. José - que a igreja tinha em 1712, como anotou o Bispo D. António Pereira da Silva, no «Livro para me guiar no Governo do Bispado», manuscrito existente na Câmara Eclesiástica do Algarve. Foi feito um baptistério, que a igreja não possuia, e nele reposta a pia antiga que, embora tosca, é única no Algarve pela sua forma - taça heptagonal- em que se vê um simbolismo riquíssimo - o baptismo, alicerce dos sete sacramentos». Esta intervenção incluiu igualmente a demolição de um edifício antigo e da supressão do cemitério, ambos situados junto da igreja. Pinheiro e Rosa igualmente que estava a ser planeada a instalação de um salão paroquial, de forma a aproveitar as receitas provenientes do Cortejo das Oferendas, que originalmente se destinavam ao restauro da igreja.
Século XXI