Valência (, ; em valenciano e oficialmente: València, ) é um município da Espanha, capital da província homónima e da Comunidade Valenciana. É a cidade mais populosa da sua comunidade autónoma e a terceira mais populosa da Espanha. O município tem de área e em tinha habitantes (). Em 2014, a área metropolitana tinha habitantes.

Situa-se na costa do Mediterrâneo, no leste do país. É uma cidade muito antiga, sendo referenciada já no , e foi fundada em Com uma longa história, diversos museus, tradições populares como as Fallas e a proximidade do Mediterrâneo, é uma das cidades mais conhecidas e visitadas na Espanha.

História

Topónimo O topónimo da cidade deriva do latim Valentia Edetanorum, cujo significado se traduz em "Valor (ou Força) na terra dos Edetanos". Atribuído com a fundação da colónia, segue a tradição já verificada em Itália, no século II a.C., da atribuição de topónimos alegóricos de virtude militar. Os árabes denominaram-na مدينة التراب (Madīna at-Turab, "Cidade da Areia") devido à sua localização na margem do Rio Túria, enquanto que reservaram o termo بلنسية (Balansīa) para a Taifa de Valência. Porém, durante o reinado de Abd al-Aziz a cidade já tinha reivindicado para si o nome de Balansīa, que passaria a ser Valência, València em valenciano, após a conquista por Jaime I de Aragão.

Em 2016, o município concordou por unanimidade na recuperação de um decreto municipal não oficializado datado de 1996, através do qual a única denominação oficial da cidade é aquela em valenciano, València. Esta mudança teve lugar após várias consultas a instituições governamentais, como a Academia Valenciana da Língua.

Ao longo da história, a cidade recebeu diversas alcunhas, como a de Cidade das mil torres, durante os séculos XVII e XVIII, ou a de Capital do Túria. Também foi conhecida como Valencia del Cid.

Em português, a adaptação do topónimo castelhano, à semelhança de outras cidades homónimas, foi-se popularizando, caindo em desuso o exónimo original, Valença, que para ser distinguida das restantes se acompanhava pelo sufixo «de Aragão».

Da fundação romana ao reino cristão-visigodo (séc. I a.C.–VI d.C.)

Em 138 a.C., Valência foi fundada, sob o nome de Valentia Edetanorum, pelos romanos, à época em que era cônsul Décimo Júnio Bruto Galaico. É, por isso, uma das mais antigas cidades da Espanha actual. Em meados do ocorria na cidade um considerável crescimento urbano, motivado pela existência de um porto, e já começava a formar-se uma primitiva comunidade cristã no início do . No surgiram as primeiras ondas invasivas dos povos germânicos (especialmente dos visigodos), e os edifícios romanos adaptam-se progressivamente a uma cidade cristã.

Época muçulmana (séc. VIII–XIII) A cidade desenvolveu-se com a ocupação dos árabes, que a conquistaram no ano de 718. Valência era governada por Agréscio quando foi sitiada pelos invasores. Tanto Agréscio, o defensor, como Tárique, o atacante, sabiam que a situação era complexa e negociaram uma capitulação vantajosa para os cristãos, obtendo, tal como sucederia 500 anos depois no sentido inverso, a entrega da cidade aos sitiantes. Todos os habitantes puderam continuar a viver nas suas casas, com direito à prática da sua religião e à sua organização jurídica e administrativa, desde que aceitassem a autoridade política e militar dos conquistadores e o pagamento de impostos.

Abd al-Allah, filho de Abd al-Raman I (primeiro emir de Córdova), instalou-se em Balansiya (nome de Valência em árabe), e exerce um governo autónomo na área de Valência. Este traz para a cidade a sua língua, religião e costumes, que convivem com a dos habitantes originais, os moçárabes, que eram herdeiros da cultura hispanovisigoda e tinham como religião o cristianismo e como língua o moçárabe.

Começou o reino da Taifa de Valência pelos descendentes de Almançor. Foi a época de máximo esplendor da cidade, onde se criaram sistemas de rega, se desenvolveu a agricultura e aumentou o comércio com as regiões cristãs.

Época da Coroa de Aragão (séc. XIII–XVIII) Reconquista e os Furs

miniatura|Pendão da Conquista, içado quando Jaime I de Aragão entrou na cidade em 1238 Fazendo parte da conquista da taifa de Balansiya, em 1238 o rei da Coroa de Aragão, Jaime I, conquistou a cidade com a ajuda de tropas da Ordem de Calatrava. Realizou-se a divisão das terras como ficou testemunhado no Llibre del Repartiment.

Foi nessa época que se assistiu a um grande desenvolvimento das áreas comerciais e artesanais. Em 1251 criaram-se os Furs de Valência (els Furs), que anos depois se tornariam estendidos ao resto do Reino de Valência. Em 1348 a Peste Negra e sucessivas epidemias dizimaram a população da cidade enquanto estalava uma revolta popular contra os excessos do rei, a guerra da União.Història del País Valencià, Antoni Furió, página 104 Em 1356, foram construídas novas muralhas, ampliando a superfície da cidade. Em 1363 e 1364 a cidade repele por duas vezes o assalto das tropas castelhanas. Como prémio, o Rei Pedro, o Cerimonioso concede à cidade o título de "Duas vezes leal", que está representado pelos dois LL que ostenta o seu escudo.Història del País Valencià, Antoni Furió, página 112 Em 1391 os cristãos assaltam o bairro judaico, e obrigam os judeus a converter-se ao cristianismo. Em 1456 os árabes de Valência sofrem a mesma sorte. Valência foi capital de um dos dois Governos em que se dividia o reino: o de Valência e o de Orihuela.

Século de Ouro Valenciano

No , Valência atingiu o seu máximo esplendor com a atividade comercial e financeira, possibilitando um importante desenvolvimento urbanístico e cultural. Surgiram conventos, hospitais e jardins, dentro e fora da muralha. Nesta altura, foi construída em estilo gótico e dentro do recinto amuralhado La Lonja.

Esse período é conhecido como o Século de Ouro Valenciano. É acompanhado de um crescimento demográfico que colocou a cidade como a mais povoada na Coroa de Aragão. É reactivado o comércio com a criação da Taula de canvis, e com a construção da Lonja da Seda e dos Mercaderos (1482). Imprime-se em Valência Obres e trobes en lahors de la Verge Maria, o primeiro livro impresso em Espanha, em língua valenciana, e produz-se um auge quanto a obras escritas. Em 1502 é fundada a Universidade de Valência sob o nome de Estudi General.

Perda dos Furs Em princípios do , durante a Guerra de Sucessão Espanhola (Os Bourbon contra os Austriacistas), o Reino de Valência alinhou-se com o Arquiduque Carlos de Áustria. Depois da vitória dos Bourbon na batalha de Almansa, em 25 de abril de 1707, e como castigo, os furs de Valência foram derrogados, e introduziu-se o direito castelhano como lei básica mediante os Decretos da Nova Planta (ou do Novo Plano), promulgados por . Deste modo o rei mudou a capital do reino para Orihuela como modo de ultrajar a cidade, e ordenou que se reunisse a Audiência com o Vice-Rei de Valência, o Cardeal Luis de Belluga, bispo de Cartagena. O Cardeal Belluga opôs-se à mudança de capital tendo em conta a proximidade de Orihuela como centro religioso, cultural e recentemente político em relação a Múrcia (capital de outro Vice-reino e de diocese). Tendo ainda em atenção o seu ódio por Orihuela a qual bombardeou e saqueou incessantemente durante a Guerra de Sucessão Espanhola, abandonou o Vice-Reino de Valência como meio de protestar junto do Rei Filipe V que finalmente devolveu o estatuto de capital a Valência.

Guerra da Independência Espanhola e Revolução Industrial (s. XIX) Mais tarde são construídos nos arredores o mercado central, o mercado de Cólon e a Estação do Norte que constituíram a zona residencial da burguesia.

Valência no século XX O início do século XX O crescimento económico e demográfico resultantes dos movimentos migratórios estabelecidos no interior da província fez com que a cidade se expandisse, absorvendo pequenos núcleos de população, gerando distritos ocupados pelas classes média e operária. Nesta época são abertas amplas avenidas como a Gran Via de Fernando, o Católico, o Passeio do Mar e nesta altura surge também a zona residencial universitária.

thumb|Mercado Central de Valência

No início do século XX Valência era uma cidade industrializada. A seda desaparecera, mas havia produção de peles e couro, madeira, metalurgia e produtos alimentares, estes últimos com vertente exportadora, em particular de vinhos e citrinos. Predominava a pequena empresa, mas cada vez mais se inseria a mecanização e as grandes empresas. A melhor expressão desta dinâmica eram as exposições regionais, em particular a de 1909, feita junto à Albereda (Alameda), onde se mostravam os avanços da agricultura e da indústria. Entre os edifícios mais importantes da época destacam-se os de estilo modernista, como por exemplo a Estació del Nord (Estação do Norte) e os mercados Central e de

Os operários, em número crescente pela industrialização, começaram a organizar-se em demanda de melhores condições de vida. O partido republicano de Blasco Ibáñez recolheu os frutos destas reivindicações e obteve um enorme apoio popular, governando o concelho entre 1901 e 1923.

A primeira guerra mundial afectou muito a economia valenciana ao colapsar as exportações de citrinos. A instauração da ditadura de Primo de Rivera em 1923 travou durante alguns anos a conflitualidade social, mas não apagou a crescente radicalização política. O movimento operário foi consolidando a sua organização sindical, enquanto os sectores conservadores se aglutinavam em redor da Dreta Regional Valenciana (Direita Regional Valenciana).

A república (1931-1939) abriu a via democrática de participação e incrementou a politização dos cidadãos, especialmente com a subida da frente conservadora ao poder em 1933. Este clima marcou as eleições de 1936, ganhas pela Frente Popular, a qual propicia o fervor das classes populares. O levantamento militar de 18 de julho não triunfou em Valência. Durante meses houve um ambiente revolucionário, gradualmente neutralizado pelo governo. Em 1937 Valência, durante o conflito da Guerra Civil Espanhola, foi a capital da Espanha Republicana, até 1939. A marcha da contenda bélica aconselhou trasladar a capital da República para Valência em novembro de 1937: o governo instalou-se no paço de Benicarló, e os ministérios ocuparam vários paços. A cidade foi intensamente bombardeada por ar e por mar, o que trouxe a construção de mais de duzentos refúgios para proteger a população. Em 30 de março de 1939 Valência rendeu-se e as tropas nacionais fizeram a sua entrada.

thumb|O "Palau de la Generalitat" As cheias de 1957 e a década de 1960 Devido ao facto de o Rio Túria ter inundado a cidade em 1957, foi decidido desviar o curso do mesmo para que tal evento não voltasse a suceder. O grande espaço que o rio antigamente ocupava, foi preenchido com espaços verdes e campos de jogos. De facto, este espaço é considerado o maior jardim urbano que existe em toda a Espanha.