Ceuta () é uma cidade autónoma da Espanha situada na margem africana da desembocadura oriental do estreito de Gibraltar, na pequena península de Almina, em frente a Algeciras e ao território britânico de Gibraltar, situadas no lado oposto do estreito. O território constitui um exclave espanhol no norte da África, com o qual faz fronteira com Marrocos a oeste e sudoeste, e é rodeado a norte, leste e sul pelo mar Mediterrâneo.
Do lado de Marrocos, as zonas fronteiriças pertencem à prefeitura de Fahs-Anjra a oeste e a província de M'diq-Fnideq, a sudoeste, ambas na região de Tânger-Tetuão-Alucemas. A cidade marroquina mais próxima, situada junto ao único posto fronteiriço, é Fnideq.
O território tem de área e segundo dados de janeiro de 2011, tinha habitantes (). A população é composta sobretudo de cristãos e muçulmanos, havendo também uma comunidade judaica e uma pequena comunidade hindu. As zonas urbanizadas situam-se no istmo e em parte no chamado Campo Exterior, na parte mais continental, a oeste do istmo. O centro urbano e os bairros mais antigos situam-se perto do porto e na encosta do Monte Hacho, que domina a cidade.
Graças à sua situação estratégica, o porto de Ceuta tem um importante papel na passagem do Estreito, assim como nas comunicações entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico. Devido ao relevo acidentado e à escassez de água, energia e matérias primas, tanto o setor primário, à exceção das pescas, como o secundário, têm pouco peso na economia local e até mesmo o setor da construção está muito restringido devido à escassez de solo. O estatuto de zona franca e uma série de vantagens fiscais favorecem um intenso comércio. Em 2010 o Produto Interno Bruto de Ceuta foi de euros.
O território foi constituído cidade autónoma em 1995, apesar de a constituição espanhola de 1978 reconhecer o direito a constituir-se como comunidade autónoma. Desde 2004, está em preparação um novo estatuto de autonomia que converteria Ceuta numa comunidade autónoma. Não obstante, no que diz respeito ao ensino superior, ainda depende da Universidade de Granada e judicialmente está adstrita ao Tribunal Superior de Justiça da Andaluzia, Ceuta e Melilha, com sede em Granada.
Etimologia A origem do nome remonta à designação dada pelos romanos aos sete montes da região (; "sete irmãos"). Septem foi deformado sucessivamente para Sept, Cepta e Seuta. Geógrafos e historiadores antigos não mencionam o topônimo da cidade, mas um deles, Pomponius Mela, relatou as características orográficas a oeste de Almina, com suas sete colinas simétricas descritas como os Sete Irmãos. Devido à sua semelhança fonética, acredita-se que o topônimo Ceuta derive do numeral Septem (arabizado como Sebta). Os geógrafos e historiadores da Antiguidade não citam o topónimo da localidade, mas um deles, Pompónio Mela, relatava as peculiaridades orográficas do ocidente de Almina, com os seus sete pequenos montes simétricos a que chamou de "Sete Irmãos". Pela sua semelhança fonética pensa-se que Ceuta derivou de Septem, arabizado como Sebta.
História Pré-história e Antiguidade thumb|Vestígios arqueológicos fenícios junto à fachada da catedral
thumb|Restos da basílica paleocristã de Ceuta
Os primeiros vestígios de ocupação humana remontam a No os fenícios fundam a cidade de Abyla no promontório onde atualmente se situa a catedral. Abyla é posteriormente ocupada por gregos da Fócida, que a rebatizaram de Hepta Adelfos.
Em , Cartago conquista a cidade, que passa a ser um domínio púnico. Em , na sequência da rendição de Cartago no fim da Segunda Guerra Púnica, a cidade é cedida ao Reino da Numídia. Em passa a fazer parte da Mauritânia. Este reino foi anexado no Império Romano em pelo imperador Calígula e Ceuta passa a fazer parte da província romana da Mauritânia. Quando Cláudio dividiu essa província em duas, a cidade passou a integrar a Mauritânia Tingitana.
Idade Média Após quatro séculos de domínio romano, Ceuta é tomada em 429 pelos vândalos comandados pelo seu rei Genserico. Em 534 o general do Império Bizantino Belisário reconquista Septem, durante as campanhas norte-africanas da Recuperatio Imperii empreendidas pelo imperador Justiniano. A cidade serve de base para a organização da conquista das costas de (Málaga) e do que veio a ser a província bizantina da Espânia. O domínio bizantino seria breve, caindo a cidade em mãos dos Visigodos após a retirada dos bizantinos.
Em 709 a cidade é conquistada pelo califado omíada, devido a conflitos internos entre os visigodos. Segundo algumas lendas, a queda da cidade deveu-se à sublevação do Conde Julião, uma figura de origem obscura que era governador da cidade quando a cidade foi conquistada pelos omíadas comandados por Muça ibne Noçáir e Tárique, com os quais teria chegado a acordo para se render.
Em 788 dá-se a invasão pelo emirado Idríssida. Em 931, o califa omíada conquista Ceuta para o Califado de Córdova. Algumas décadas depois sofreu a divisão do Califado em reinos de taifas, e em 1024 encontrava-se sob o domínio da Taifa de Málaga.
Em 1061, o líder Sucute dos berguatas proclamou o estado independente da Taifa de Ceuta, que é conquistada em 1084 pelos Almorávidas comandados por Iúçufe ibne Taxufine. Em 1147 a cidade passa para o Califado Almóada. No mesmo ano ocorre o martírio de e dos seus companheiros.
esquerda|thumb|upright|Interior dos banhos árabes, na Praça da Paz
Em 1232 Ceuta é conquistada pela Taifa de Múrcia, mas logo no ano seguinte a cidade tornou-se independente. A independência terminou em 1236, com a ocupação dos Merínidas. Em 1242 foi tomada pelos Haféssidas. Em 1249 Ceuta passa a ser governada pelos Azáfidas.
Segundo o Tratado de Monteagudo, assinado em 1291 entre as coroas de Castela e Aragão, a cidade ficou na zona de influência de Castela. Em 1305, fazendo então parte do Reino Nacérida de Granada, Ceuta entra no jogo da política mediterrânica de Castela.
No entanto, em 1309 é conquistada novamente pelos Merínidas com apoio de Aragão. Nos anos seguintes, os Merínidas enfrentam vários ataques à cidade lançados pelo reino de Granada. Em 1310, os Azáfidas voltam a tomar o controlo, que perderiam novamente em 1314 para os Merínidas. Os Azáfidas voltam a recapturá-la em 1315. Em 1327 ocorre nova reconquista por parte dos Merínidas. Cerca de 1384 o reino de Granada volta a tomar a cidade, que é cercada pelos Merínidas, que logram retomá-la em 1386.
Apesar de todas as peripécias militares a que esteve sujeita ao longo da Idade Média, Ceuta era uma das cidades mais importantes do Ocidente muçulmano, estimando-se que tivesse chegado a ter cerca de habitantes, superando assim cidades como Valência, Málaga, Jerez, Saragoça, Maiorca, Almeria ou inclusivamente Granada antes do período nacérida, o que é de certa forma notável devido à escassez de água. Essa escassez não parece ter condicionado o desenvolvimento da cidade, devido aos ceutenses se terem tornado mestres no seu aproveitamento. O autor muçulmano Alançari relatava no início do que existiram 25 fontes públicas em Ceuta e se bem que algumas fossem naturais, os historiadores acreditam que a maior parte tivessem que ser artificiais. O geógrafo andalusino do Albacri menciona a existência de um aqueduto, que segundo a tradição local teria sido construído pelo Conde Julião no .
Da conquista portuguesa (1415) ao thumb|A conquista portuguesa de Ceuta representada em azulejos na Estação de São Bento, Porto
A 21 de agosto de 1415 tropas portuguesas comandadas pelo rei acompanhado pelos seus filhos Duarte, Pedro e Henrique desembarcaram no que são atualmente as praias de Santo Amaro e conquistam a cidade para Portugal. Diante das disputas de vários capitães para ficarem com o governo da cidade depois da conquista, Pedro de Meneses apresentou-se ao rei com um pau chamado "aleo", usado num jogo popular na época, e quando lhe perguntou se era suficientemente forte para tomar a seu cargo a responsabilidade do governo de Ceuta terá respondido: «Senhor, este pau basta-me para defender Ceuta de todos os seus inimigos». Pedro de Meneses foi então nomeado primeiro governador e capitão-geral de Ceuta. O pau (Aleo) ainda hoje se encontra na Igreja de Santa María de África e passou de mão em mão por todos os governadores que estiveram no comando da praça jurando defender a cidade tal como o fez Pedro de Meneses.
Num tratado assinado com o rei de Fez, este reconheceu Ceuta como portuguesa. No mundo cristão, a cidade foi reconhecida como possessão portuguesa nos tratados das Alcáçovas (1479) e de Tordesilhas (1494).
Ceuta tornou-se diocese em 1417 por bula do . A partir de 1645 a diocese de Ceuta deixou de pertencer a Portugal, e passou a ser espanhola.
thumb|Gravura de "Septa" na obra "Civitates Orbis Terrarum", de Braun e Hogenberg, 1572
No contexto da Dinastia Filipina, que se seguiu à morte de em 1580, Ceuta manteve a administração portuguesa, tal como Tânger e Mazagão. Todavia, quando da Restauração Portuguesa em 1640 não aclamou o Duque de Bragança como rei de Portugal, ficando sob domínio espanhol. A situação foi oficializada em 1668 com o Tratado de Lisboa, assinado entre os dois países e que pôs fim à guerra da Restauração, no entanto, a cidade decidiu manter a sua bandeira que é composta por gomos brancos e pretos, à semelhança da bandeira da cidade de Lisboa, ostentando ao centro o escudo português.
A cidade é cercada entre 1694 e 1724 pelo sultão alauita Mulei Ismail. Em 1704, apesar de cercada por terra, resiste aos ataques da armada inglesa que tomou Gibraltar. Os marroquinos atacaram por terra, ao mesmo tempo que uma frota anglo-holandesa bombardeia a cidade e tenta um desembarque. Em 1721, Mulei Ismail aproveitou o caos que se vivia em Espanha para desalojar os espanhóis da costa marroquina, tomando São Miguel de Ultramar (Mamora) e Larache, mas não logrou apoderar-se de Ceuta. Após a morte de Mulei Ismail ainda houve cercos marroquinos à cidade entre 1725 e 1728, em 1732, 1757 e 1790-1791.
Em 1812 a Junta da Cidade é convertida num ayuntamiento constitucional. Em 1859–1860 assiste-se à chamada Guerra de África, durante a qual os limites da cidade são expandidos.
Século XX até à atualidade thumb|esquerda|O monumento comemorativo do "Juramento de Llano Amarillo" (ver "Monumento do Llano Amarillo")
Em 1912 é instaurado o Protetorado Espanhol em Marrocos.
A Guerra Civil Espanhola chegou a Ceuta logo no seu primeiro dia. A sublevação foi levada a cabo na cidade na madrugada de 17 para 18 de julho de 1936 por tropas do tenente-coronel Juan Yagüe e não encontrou grande resistência. Militares leais ao governo e personalidades da Frente Popular, como Antonio López Sánchez-Prado, foram posteriormente fuzilados depois de terem sido submetidos a simulacros de julgamentos. Ceuta teve grande importância durante os primeiros meses do conflito como ponto de passagem do Exército do Norte de África na ocupação da Espanha peninsular.
Em 1956 dá-se a independência de Marrocos e, consequentemente, o fim do protetorado. Ceuta serve de base para a retirada das tropas dos territórios emancipados.
Em 1978 a nova constituição espanhola, como outras anteriores, reconhece Ceuta como território integrante da nação espanhola, integrando-a no novo modelo de organização territorial, com a previsão da possibilidade de constituir-se em comunidade autónoma. Em 1995 é promulgado o Estatuto de Autonomia da cidade, que juntamente com Melilha passa a ter o estatuto de cidade autónoma, tornando Ceuta independente da .
Depois de 80 anos sem ser visitada por qualquer monarca espanhol, os reis espanhóis Juan Carlos e Sofia fizeram uma visita oficial a Ceuta a 5 de novembro de 2007.
Geografia O território tem de área e 28 km de perímetro (20 km de costa e 8 km de fronteira terrestre).
Localização thumb|Ceuta vista desde o miradouro de Isabel II
Relevo thumb|Monte Hacho