Alberto Vítor, Duque de Clarence e Avondale (Nome pessoal em inglês: Albert Victor Christian Edward; Windsor, 8 de janeiro de 1864 — Norfolk, 14 de janeiro de 1892) foi o filho mais velho de Eduardo, Príncipe de Gales, (futuro Eduardo VII) e de sua esposa, a princesa Alexandra da Dinamarca, sendo neto da rainha Vitória. Desde seu nascimento foi o segundo na linha de sucessão ao trono, mas não se tornou rei porque morreu antes de seu pai e de sua avó.
Alberto era chamado familiarmente de "Eddy" e muitos biógrafos referem-se a ele dessa forma. Quando jovem, viajou pelo mundo todo como guarda-marinha. Quando adulto, alistou-se no exército, mas não participou ativamente de nenhuma manobra militar. Após duas tentativas fracassadas, foi acertado seu casamento com a princesa Maria de Teck em 1891. Apenas algumas semanas depois, ele morreu em uma recorrência da pandemia de gripe de 1889-1890. Maria casou-se com seu irmão mais novo, que se tornaria rei, como Jorge V, em 1910.
Seu intelecto, sexualidade e sanidade têm sido objeto de muita especulação. Rumores ligavam-no ao Escândalo da Cleveland Street, que envolveu um bordel homossexual, mas não há provas conclusivas que confirmem ou desmintam seu envolvimento no caso ou a sua orientação sexual. Alguns autores argumentam que ele seria o assassino em série conhecido como Jack, o Estripador. Entretanto, documentos da época mostram que Alberto não se encontrava em Londres à época dos assassinatos, de forma que tal teoria foi amplamente rejeitada.
Primeiros anos esquerda|miniaturadaimagem|Alexandra, Princesa de Gales com seu primeiro filho, o Príncipe Albert Victor, Duque de Clarence e Avondale, em 1864 Alberto Vítor nasceu de um parto prematuro (sua mãe encontrava-se no 7º mês de gestação) em 8 de janeiro de 1864, em Frogmore House, Windsor, Berkshire. Era o primeiro filho de Alberto Eduardo, príncipe de Gales, e de Alexandra da Dinamarca. Por desejo de sua avó, a rainha Vitória, ele recebeu o nome de seu falecido avô, mas sempre foi chamado familiarmente de "Eddy". Como neto da monarca reinante, recebeu no nascimento o estilo de "Sua Alteza Real, o Príncipe Alberto Vítor de Gales".
O príncipe foi batizado na capela privada do Palácio de Buckingham, em 10 de março de 1864, pelo arcebispo da Cantuária, Charles Thomas Longley. Seus padrinhos foram a rainha Vitória (sua avó paterna), o rei Cristiano IX da Dinamarca (seu avô materno, representado por seu irmão, o príncipe João de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg), o rei Leopoldo I da Bélgica (seu tio-bisavô), a duquesa viúva de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg (sua bisavó materna, representada pela Duquesa de Cambridge), a Duquesa de Saxe-Coburgo-Gota (sua tia-avó por casamento, representada pela Grã-duquesa do Mecklemburgo-Strelitz), o conde de Hesse (seu bisavô materno, representado pelo Duque de Cambridge), a princesa herdeira da Prússia (sua tia paterna, representada por sua irmã, a princesa Helena) e o príncipe Alfredo (seu tio paterno).
Educação Quando Alberto tinha pouco mais de um ano de idade, seu irmão, o príncipe Jorge de Gales, nasceu. Devido à pequena diferença de idade entre eles, os irmãos foram educados juntos e, em 1871, a rainha nomeou John Neale Dalton como seu tutor. Os príncipes seguiam um rigoroso programa de estudos, que incluía jogos e exercícios militares, bem como temas acadêmicos. Dalton queixava-se de que a mente de Alberto era "anormalmente dormente".Carta de Dalton datada de 6 de abril de 1879 (Royal Archives), citado em Cook, p. 52. Embora ele tenha aprendido a falar dinamarquês, o progresso em outros idiomas e disciplinas era lento. Alberto nunca sobressaiu-se intelectualmente. Lady Geraldine Somerset culpou Dalton pela pobre educação do príncipe, mas existem possíveis explicações físicas para a desatenção e a indolência de Alberto em sala de aula, como seu nascimento prematuro – que pode ser associado a dificuldades de aprendizado –, ou o chamado petit mal, uma forma leve de epilepsia que se manifesta na infância com episódios de "vazio mental". Sir Henry Ponsonby acreditava que Alberto poderia ter herdado a surdez de sua mãe. miniaturadaimagem|Alberto (em pé) com seus irmãos, em 1875 Considerou-se educar os irmãos separadamente, mas Dalton foi contrário à ideia, alegando ao príncipe de Gales que "o príncipe Alberto Vítor necessita do estímulo da companhia do príncipe Jorge, para incitá-lo a trabalhar em conjunto". Em 1877, os dois meninos foram enviados para o HMS Britannia, navio de treinamento da Marinha Real, iniciando seus estudos dois meses depois dos demais alunos, em virtude de Alberto ter contraído febre tifóide. Dalton acompanhou-os, como capelão do navio. Em 1879, após um grande debate entre a rainha, o príncipe de Gales, seus familiares e o governo, os irmãos foram enviados para uma viagem de três anos pelo mundo, servindo como cadetes do HMS Bacchante. Alberto foi promovido a guarda-marinha em seu aniversário de 16 anos. Os príncipes viajaram pelo Império Britânico, sempre acompanhados por Dalton, visitando as Américas, Ilhas Falkland, África do Sul, Austrália, Fiji, o Extremo Oriente, Singapura, Ceilão, Áden, Egito, Terra Santa e Grécia. Quando retornou à Grã-Bretanha, Alberto tinha 18 anos.
Os irmãos se separaram em 1883: Jorge continuou na Marinha e Alberto ingressou no Trinity College, em Cambridge. James Kenneth Stephen foi designado como seu tutor e chegou a viver em Sandringham nesse período, juntamente com Dalton, que ainda o atendia tanto em Sandringham quando em Cambridge. Alguns biógrafos acreditam que Stephen fosse misógino – embora isso tenha sido questionado recentemente – e que pode ter se sentido emocionalmente ligado a Alberto Victor, mas não se sabe se esses sentimentos eram ou não abertamente homossexuais. Também não se sabe se Alberto teve experiências sexuais em Cambridge, mas havia parceiros de ambos os sexos ao seu dispor. Embora estivesse envolvido na rotina universitária, ele demonstrava pouco interesse na atmosfera intelectual, sendo então dispensado dos exames. Em agosto de 1884, passou algum tempo na Universidade de Heidelberg, estudando alemão. Deixando Cambridge em 1885, onde já havia servido como cadete do 2º Batalhão da Universidade de Cambridge, ele foi anunciado como oficial do 10th Royal Hussars.
Um dos instrutores de Alberto disse que ele aprendia mais ouvindo do que lendo ou escrevendo e que não tinha dificuldades para recordar informações,Major Miles, citado em Aronson, p. 81, Cook, p. 123 e Harrison, p. 92 mas o príncipe Jorge, duque de Cambridge, tinha uma opinião menos favorável sobre o príncipe, chamando-o de "um preguiçoso inveterado e incurável". Muito do tempo de Alberto em seu posto em Aldershot era gasto em treinamentos, dos quais não gostava, preferindo jogar polo. Em 1887, após ser aprovado em seus exames, ele transferiu-se para Hounslow, onde foi promovido a capitão. Nessa época, passou a assumir mais compromissos públicos, visitando a Irlanda e Gibraltar, e inaugurando a Hammersmith Bridge (ponte suspensa que atravessa o rio Tâmisa, em Londres). De sua vida privada, um amigo de infância recordou mais tarde que era monótona: "Os oficiais de seu irmão disseram que queriam fazer dele um homem do mundo. Nesse mundo ele recusou-se a ser iniciado".
Escândalo da Cleveland Street
thumb|left|200px|Alberto Vítor, em 1888 Em julho de 1889, a Polícia Metropolitana descobriu um bordel masculino na Cleveland Street de Londres. Sob interrogatório policial, os prostitutos e cafetões revelaram os nomes de seus clientes, que incluíam o lorde Arthur Somerset, um camarista do príncipe de Gales. Na época, os atos homossexuais entre homens eram ilegais e os clientes enfrentaram o ostracismo social, processos e, na pior das hipóteses, dois anos de prisão com trabalhos forçados. As consequências do escândalo da Cleveland Street implicaram outras importantes personalidades da sociedade britânica. Rumores varreram a alta classe de Londres sobre o envolvimento de um membro da família real: o príncipe Alberto Vítor. Os prostitutos não haviam mencionado o príncipe e sugere-se que o advogado de Somerset, Arthur Newton, produziu e espalhou os rumores para tirar o foco de seu cliente. Cartas trocadas entre o Procurador do Tesouro, sir Augustus Stephenson, e seu assistente, o honorável Hamilton Cuffe, fazem referência codificada às ameaças de Newton para implicar Alberto. O príncipe de Gales interveio na investigação: nenhum dos clientes jamais foi processado e nada contra Alberto foi provado. Embora não haja evidências conclusivas a favor ou contra o seu envolvimento nem se ele já havia visitado algum clube homossexual ou bordel, os rumores e o acobertamento levaram alguns biógrafos a supor que Alberto visitou Cleveland Street e que ele era "possivelmente bissexual, provavelmente homossexual". Isso é contestado por outros biógrafos, um dos quais refere-se a ele como "ardentemente heterossexual" e seu envolvimento nos boatos como "um pouco injusto". O historiador H. Montgomery Hyde escreveu: "não há nenhuma evidência de que fosse homossexual ou mesmo bissexual".
A irmã de Somerset, lady Waterford, negou que seu irmão soubesse algo sobre Alberto: "Tenho certeza de que o menino é tão reto quanto uma linha (...) Arthur não sabe como ou onde o menino passa o seu tempo (...) ele acredita que o menino seja perfeitamente inocente", escreveu ela.Carta de Blanche Beresford, Marquesa de Waterford - datada de 31 de dezembro de 1889 -, a Reginald Brett, 2° Visconde Esher. Citado em Aronson, p. 168 e Cook, pp. 196 e 200. Em cartas privadas ao seu amigo lorde Esher, Somerset negou saber qualquer coisa sobre Alberto, mas confirmou que ouviu os rumores e que esperava que eles pudessem ajudar a anular qualquer acusação. Ele escreveu: "Posso entender a irritação do Príncipe de Gales com o nome de seu filho associado a isso, mas esse era o caso antes de eu sair (...) nós fomos acusados de ir a esse lugar, mas não juntos (...) eles acabarão tendo em audiência pública exatamente o que tentam manter em silêncio. Eu me pergunto se é realmente um fato ou apenas uma invenção ".Carta de lorde Arthur Somerset - datada de 10 de dezembro de 1889 - a Reginald Brett, 2° Visconde Esher. Citado em Cook, p. 197. Ele continuou: "eu nunca mencionei o nome do menino, exceto para Probyn, Montagu e Knollys quando estavam me representando e achei que eles deveriam saber. Se tivessem sido sensatos, ouvindo o que eu sabia e, portanto, o que os outros sabiam, eles deveriam ter abafado o assunto, ao invés da agitação que fizeram com todas as autoridades".Carta de lorde Arthur Somerset - datada de 10 de dezembro de 1889 - a Reginald Brett, 2° Visconde Esher. Citado em Aronson, p. 170, Cook, pp. 199–200 e Hyde (1976), p. 122.
Os rumores persistiram: 60 anos depois o biógrafo oficial do rei Jorge V, Harold Nicolson, ouviu de lorde Goddard – que era um estudante de 12 anos de idade à época do escândalo – que Alberto "havia sido envolvido num escândalo sobre um bordel masculino e que um advogado teve que cometer perjúrio para livrá-lo. O advogado foi suspenso por seu delito, mas depois foi reintegrado". Nenhum dos advogados no caso foi condenado por perjúrio ou afastado durante o escândalo, mas o advogado de Somerset, Arthur Newton, foi condenado por obstrução da justiça por ajudar seus clientes a escapar para o exterior, sendo sentenciado a seis semanas de prisão. Mais de 20 anos depois, em 1910, Newton foi suspenso por 12 meses por má conduta profissional, após falsificar cartas de outro de seus clientes, o famoso assassino Dr. Hawley Crippen. Em 1913, ele foi suspenso indefinidamente e condenado a três anos de prisão por obter dinheiro de forma fraudulenta.
Viagem à Índia thumb|right|250px|Ilustração de 1891 (baseada em foto de 1889) retratando a família de Alberto Vítor (da esquerda para a direita): Alberto Vítor, Maud, Alexandra da Dinamarca, Eduardo VII, Luísa, Jorge V e Vitória.