O Cinema de acção de Hong Kong é a principal fonte da fama global da indústria de cinema de Hong Kong. Combina elementos do cinema de acção codificado por Hollywood, com as tradições estéticas e de contagem de histórias chinesas, criando uma forma culturalmente distinta que tem, no entanto, um grande apelo transcultural. Em anos recentes, o fluxo inverteu-se um pouco, com filmes de acção norte-americanos e europeus a serem bastante influenciados pelas convenções de gênero honconguesas.

Os primeiros filmes de acção de Hong Kong favoreceram o estilo wuxia, enfatizando o misticismo e a luta de espadas, mas esta tendência foi politicamente suprimida nos anos 30 e substituída por estilos em que se mostrava nos filmes mais kung fu desarmado e realista, frequentemente com o herói popular Wong Fei Hung. Distúrbios culturais do pós-guerra conduziram a uma segunda vaga de fimes wuxia com violência altamente acrobática, seguida pelo aparecimento dos filmes de kung fu mais destemido, pelos quais o estúdio Shaw Brothers se tornou mais conhecido. Os anos 70 viram a ascensão e a morte repentina da superestrela internacional Bruce Lee. Foi sucedido nos anos 80 por Jackie Chan—que popularizou o uso de comédia, acrobacias perigosas, e localizações urbanas e modernas em filmes de acção—e Jet Li, cujas habilidades wushu genuínas apelaram tanto às audiências orientais com ocidentais. O trabalho inovador de cineastas e produtores como Tsui Hark e John Woo introduziram ainda mais variedade (por exemplo, luta com armas, triades e o sobrenatural). Um êxodo de muitas figuras principais para Hollywood nos anos 90 coincidiu com um declínio na indústria.

Os primórdios do cinema de artes marciais O contributo mais característico do mundo sinófono para o cinema de acção é o filme de artes marciais, tendo os mais famosos sido produzidos em Hong Kong. O género apareceu inicialmente na literatura popular chinesa. O início do século XX testemunhou uma explosão do que foi chamado de romances wuxia (habitualmente traduzido como "cavalheirismo marcial"), geralmente serializados em jornais. Estes eram contos de heróicos guerreiros espadachins, muitas vezes com elementos místicos ou fantásticos. Este género foi rapidamente tomado pelos filmes chineses, particularmente na capital cinematográfica da época, Xangai. A partir dos anos 20, filmes wuxia, frequentemente adaptados de romances (por exemplo, The Burning of the Red Lotus Monastery de 1928 e as suas dezoito sequelas) foram extremamente populares e o género dominou o cinema chinês durante vários anos.(Chute & Lim, 2003, 14-15)

O crescimento chegou ao fim nos anos 30, devido à oposição oficial da parte das elites políticas e culturais, especialmente do governo Kuomintang, que via o género como promoção de superstição e anarquia violenta.(Chute & Lim, 2003, 2) O cinema Wuxia foi recuperado em Hong Kong, na época uma colónia britânica com uma economia e cultura bastante liberais e uma indústria cinematográfica em desenvolvimento. O primeiro filme de artes marcias em Cantonês, a língua chinesa falada dominante em Hong Kong, foi The Adorned Pavilion (1938).

Cinema de artes marciais do pós-guerra No final dos anos 40, distúrbios na China continental—a Guerra Sino-Japonesa, a Guerra Civil Chinesa e a vitórias dos Comunistas—desviaram o centro do cinema sinófono para Hong Kong. A indústria continuou a tradição wuxia em filmes B e serials em Cantonês, embora o mais prestigiado cinema em mandarim geralmente ignorou o género. Animação e efeitos especiais desenhados directamente na película à mão foram usados para simular as capacidades de voo e outros poderes preternaturais dos personagens; títulos tardios neste ciclo incluem The Six-Fingered Lord of the Lute (1965) e Sacred Fire, Heroic Wind (1966).(Chute & Lim, 2003, 2)

Uma contra-tradição aos filmes wuxia emergiu nos filmes kung fu, também produzidos nesta época. Estes filmes enfatizavam o combate desarmado, mais realista e "autêntico”, em oposição ao combate com espadas e o misticismo característicos do wuxia. O mais famoso actor deste género foi o artista marcial Kwan Tak Hing, que se tornou uma figura heróica avuncular para pelo menos algumas gerações de honkongeses ao representar o histórico herói popular Wong Fei Hung em cerca de uma centena de filmes, desde The True Story of Wong Fei Hung (1949) até Wong Fei Hung Bravely Crushing the Fire Formation (1970).(Logan, 1995) Vários elementos duradouros foram introduzidos ou solidificados por estes filmes: o ainda popular personagem do "Mestre Wong"; a influência da Ópera chinesa com as suas artes marciais e acrobacias estilizadas; e o conceito de heróis de artes marciais como expoentes da ética confuciana.

Wuxia New School Na segunda metade dos anos 60, o maior estúdio da era, Shaw Brothers, inaugurou uma nova geração de filmes wuxia, iniciada com Temple of the Red Lotus (1965) de Xu Zenghong, uma refilmagem do clássico de 1928. Estas produções em mandarim eram mais extravagantes e em cor; o seu estilo era menos fantástico e mais intenso, com violência mais forte e acrobática. Foram influenciadas por filmes de samurais importados do Japão e pela vaga de romances wuxia "New School" de autores como Jin Yong e Liang Yusheng que teve início nos anos 1950.(Chute and Lim, 2003, 8 & 15) A tendência pode também ter sido encorajada pela necessidade de reconquistar as audiências locais ao então recentemente popularizado media da televisão.

A “vaga” wuxia New School marcou a mudança dos filmes de acção destinados a uma audiência masculina para o centro do cinema de Hong Kong, que por bastante tempo foi dominado por actrizes e géneros idealizados para uma audiência feminina, como romances e musicais. Ainda assim, durante a década de 60 actrizes do cinema de acção como Cheng Pei-pei e Connie Chan Po-chu atingiram a proeminência a par de actores, como o anterior campeão de natação Jimmy Wang Yu, e continuaram uma velha tradição de mulheres guerreiras presente no género wuxia. Os cineastas mais característicos deste período foram Chang Cheh com One-Armed Swordsman (1967) e Golden Swallow (1968) e King Hu com Come Drink with Me (1966). Hu eventualmente deixou o estúdio Shaw Brothers para prosseguir a sua própria visão do género wuxia com produções independentes em Taiwan, como o extraordinariamente bem sucedido Dragon Inn (1967, também conhecido como Dragon Gate Inn). Chang continuou no estúdio e permaneceu como o prolífico cineasta do Shaw Brothers até ao princípio dos anos 80.

A vaga kung fu da década de 1970 Durante o início dos anos 70 o wuxia deu lugar a uma nova renovação do filme de kung fu, mais gráfico, mais destemido e falado em mandarim, que se tornou o género dominante durante toda a década até ao início dos anos 80. Artistas marciais bem treinados como Ti Lung e Gordon Liu tornaram-se algumas das maiores estrelas de cinema, à medida que proporções cada vez maiores da duração dos filmes eram dedicadas a cenas de combate. Chinese Boxer (1970), protagonizado e dirigido por Jimmy Wang Yu, é largamente considerado como o filme que criou esta “explosão” kung fu. Mas mantendo-se na vanguarda, pelos menos inicialmente, esteve o estúdio Shaw Brothers e o cineasta Chang Cheh. Vengeance (1970), de Chang, foi outro filme a popularizar o género, para o qual ele contribuiu com dezenas de filmes, entre eles, The Boxer from Shantung (1972), Five Deadly Venoms (1978) e Crippled Avengers (1979). O cinema kung fu cinema foi especialmente influenciado pela preocupação de Chang com a sua visão dos valores masculinos e amizade masculina;(Teo, 2003) as figuras de guerreiras que tinham sido proeminentes nos filmes wuxia do final dos anos 60ures foram postas de parte, com algumas excepções proeminentes como a popular Angela Mao.

O único competidor de Chang como o cineasta mais influente do género foi o seu coreógrafo de acção de longa data, Lau Kar Leung (Liu Chia Liang em mandarin). Lau começou a realizar os seus próprios filmes para o Shaws Brothers em 1975 com The Spiritual Boxer, um predecessor da comédia de kung fu. Em filmes subsequentes como Executioners from Shaolin (1977), The 36th Chamber of Shaolin (1978), e Legendary Weapons of China (1982), Lau deu ênfase à tradição e filosofia das artes marciais e procurou dar mais autenticidade e mesmo maior velocidade e complexidade aos combates.(Logan, 1995)

A explosão kung fu foi parcialmente impulsionada por uma enorme popularidade internacional, e não apenas no Oriente asiático. No Ocidente, filmes kung fu importados, dobrados e frequentemente alterados e com título diferente, exibidos como filmes "B" em cinemas urbanos e na televisão, tornaram o cinema de Hong Kong bastante conhecido, embora não necessariamente muito respeitado, pela primeira vez. Em especial, afro-americanos e outras minorias étnicas adoptaram o género (como é exemplificado pelo popular grupo de hip-hop, Wu-Tang Clan) talvez por ser uma fonte de histórias de aventuras com heróis não-brancos quase sem precendente, que além disso revelava uma forte corrente de orgulho étnico e/ou nacionalístico.African Americans, Kung Fu Theater and Cultural Exchange at the Margins by Amy Abugo Ongiri in the Journal of Asian American Studies. Project Muse PDF version (URL acedido a 1 de Abril de 2006)

Bruce Lee thumb|direita|200px|Escultura de Bruce Lee em Hong Kong. Nenhuma outra figura foi mais responsável por esta fama internacional do que Bruce Lee, um artista marcial e actor, nascido nos Estados Unidos e criado em Hong Kong. Lee completou apenas quatro filmes antes da sua morte aos 32 anos: The Big Boss (1971), Fist of Fury e Way of the Dragon (ambos de 1972) e Enter the Dragon (1973). Mas nesta breve carreira, tornou-se a primeira estrela global de cinema chinesa. O historiador de cinema oriental Patrick Macias atribui o seu sucesso a "(trazer) o espírito guerreiro ao presente… desenvolvendo o seu estilo próprio de luta… e possuir carisma sobre-humano".GreenCine primer: Hong Kong Action de Patrick Macias (URL acedido a 1 de Abril de 2006) Os seus primeiros três filmes ultrapassaram os recordes de bilheteiras locais e tiveram sucesso em grande parte do mundo. O filme em língua inglesa Enter the Dragon, a primeira co-produção entre os Estados Unidos e Hong Kong, fez 90 milhões de dólares a nível mundial, tornando-se o filme com maior sucesso internacional daquela região do globo até então. Para além disso, a sua decisão desde o início de trabalhar para o então recente estúdio Golden Harvest, em vez de aceitar o habitual contrato notoriamente pouco generoso do estúdio Shaws, foi um factor que contribuiu par a subida meteórica do Golden Harvest e o declínio do Shaw.(Logan, 1995)(Teo, 1997)

No seguimento da morte prematura de Lee, emergiu uma pequena indústria de falsos filmes de Lee, com protagonistas que adoptavam nomes semelhantes (Bruce Li, Bruce Lai, etc.), ou cenas não utilizadas de Lee, ou alguma combinação de ambos. A moda passageira fez pouco para criar respeito da maioria da audiência no Ocidente pelo relativamente novo fenómeno do cinema de artes marciais. Mas apesar do tratamento póstumo, Lee continua a lançar uma longa sombra sobre o cinema de Hong Kong.

Jackie Chan e a comédia de kung fu