De acordo com o censo norte-americano de 2020, 44.978.546 norte-americanos, ou 13,6% da população dos Estados Unidos, autodeclararam-se como sendo de origem alemã, dos quais 15.447.670 (4,7%) autodeclararam-se como sendo de origem totalmente alemã. Esse número torna a alemã a segunda ancestralidade mais autodeclarada pelos norte-americanos, atrás apenas da inglesa (46.550.968).Census Bureau Releases 2020 Census Population for More Than 200 New Detailed Race and Ethnicity Groups Porém, esses dados devem ser analisados com cautela, pois são baseados na autodeclaração dos entrevistados, o que pode não refletir a realidade demográfica.
A presença alemã nos Estados Unidos remonta ao período colonial. Na década de 1670, os primeiros grupos significativos de alemães chegaram às colônias britânicas, estabelecendo-se principalmente na Pensilvânia, em Nova York e na Virgínia. A imigração continuou em grande número durante o século XIX. Entre 1820 e 1970, mais de sete milhões e meio de imigrantes alemães vieram para os Estados Unidos.
Atualmente, os alemães são considerados uma "minoria invisível" nos Estados Unidos. Muito embora milhões de estadunidenses tenham ancestralidade alemã, durante a I e a II Guerras Mundiais, os alemães foram estigmatizados nos Estados Unidos, e seus descendentes perderam praticamente todas as referências culturais alemãs.German-Americans The silent minorityWhatever Happened to German America?Dominic J., PULERA. Sharing the Dream - White Males in Multicultural America, Continuum. 2006 (2006).
Histórico
A imigração no período colonial
Os primeiros imigrantes alemães a se estabelecerem no que viria a ser os Estados Unidos foram indivíduos avulsos na colônia holandesa de Nova Amsterdã, futura Nova Iorque, em 1620. Depois, em 1677, William Penn foi para a Alemanha recrutar colonos para a sua colônia, a Pensilvânia. A liberdade religiosa da Pensilvânia era um atrativo especial para os alemães cuja religião diferia da igreja estabelecida no local onde moravam. Em 1683, treze famílias menonitas fundaram Germantown, hoje parte da Filadélfia. Muitas outras denominações religiosas alemãs seguiram, incluindo calvinistas, amish e seguidores de várias seitas. Em 1745, estima-se que havia 45.000 alemães na Pensilvânia. Muitos deles estabeleceram-se além-fronteira, em busca de terras baratas que coubessem no seu parco orçamento. Isso tornou-os vulneráveis a ataques de indígenas, especialmente diante da relutância do governo de fornecer-lhes defesa, porquanto estava controlado por pacifistas quakers que viviam seguros na Filadélfia.Thomas Sowell. Ethnic America: A History. Editora : Basic Books; Revised ed. edição (21 março 1983).
Em 1709, alemães fundaram Neuberg, hoje chamada Newburgh, perto do Rio Hudson, e depois espalharam-se para o norte do Vale Mohawk. Os alemães do Vale Mohawk chegaram na condição de servos por contrato, que eram pessoas que estavam presas a um contrato pelo qual tinham que trabalhar por um certo tempo em anos (geralmente de três a sete) para pagar os custos da sua viagem para a América. Pelo menos metade da população europeia dos Estados Unidos colonial chegou dessa maneira. Óbitos durante a viagem de navio eram tão altos entre os colonos alemães que muitas crianças já chegavam órfãs. Os servos por contrato eram frequentemente vítimas de pessoas desonestas. Capitães de navio vendiam o passe dos servos por períodos contratuais maiores do que o tempo necessário para quitar a dívida da viagem. Alemães que não sabiam falar inglês estavam mais vulneráveis a essa situação.
Mesmo assim, os alemães continuaram chegando. Entre 1740 e 1750, pelo menos 60.000 chegaram. Entre metade e 2/3 deles eram servos por contrato. Embora os servos por contrato tenham sido submetidos a muitas das restrições e punições impostas aos escravos - incluindo punição corporal - eles tinham algumas proteções legais durante seus anos de servidão. Frequentemente, os servos por contrato recebiam um pequeno salário após alcançarem sua liberdade, e muitos receberam terras. Nem sempre eram as melhores terras. No Vale Mohawk ou no oeste da Pensilvânia, as terras adquiridas pelos alemães eram nas regiões de fronteira, perto de agrupamentos indígenas, os quais não estavam nada contentes de verem suas terras invadidas pelos forasteiros. Muitos colonos que se estabeleceram nessas áreas foram mortos ou sequestrados e mantidos como escravos pelos índios.
A maioria desses colonos era da região do Palatinado e ficaram marcados pelo seu pacifismo e desconfiança do governo. Os palatinos vieram de uma província cujos ancestrais haviam sofrido severas e repetidas destruições pelo exército durante a Guerra dos Trinta Anos. Eles também eram refugiados de perseguições religiosas autocráticas. A liberdade religiosa então existente na Pensilvânia - rara até para os padrões americanos da época - atraía alemães religiosos de seitas religiosas pacíficas. Esses alemães tinham pouco interesse por assuntos de governo e política. Essas comunidades alemãs viviam em auto-isolamento. Elas ficaram isoladas do resto da sociedade americana e internamente separadas conforme as diversas denominações religiosas. A língua inglesa e a cultura dos colonos britânicos tiveram pouca influência nessas áreas de povoamento alemão. Os colonos importavam livros da Alemanha e publicavam jornais e faziam cultos religiosos em alemão. Com o tempo, o idioma inglês paulatinamente penetrou nessas comunidades, frequentemente seguindo a estrutura gramatical alemã, dando origem a um dialeto peculiar, conhecido como alemão da Pensilvânia, o qual é falado até hoje. A mais isolada dessas comunidades alemãs era, e ainda é, a dos amish que, ainda hoje, vivem em comunidades rurais com um estilo de vida ainda bastante parecido ao do século XVIII. Contudo, com o passar das décadas, a maioria dos colonos alemães espalharam-se geograficamente, aprenderam a falar inglês e absorveram e contribuíram com a cultura americana.
No final do século XVIII, as fazendas dos alemães espraiavam-se desde o Vale Mohawk, no norte de Nova Iorque até Savannah, na Geórgia. À medida que os alemães espalhavam-se pelos Apalaches, eles frequentemente viram-se em contato com as comunidades Scotch-Irish. Os irlandeses chegaram antes, e foram os responsáveis por abrir caminho na mata selvagem, caçando, pescando, abrindo os caminhos e lutando contra os índios. Posteriormente, começaram a chegar os alemães e outros colonos. Os alemães e os irlandeses eram muito diferentes em temperamento e comportamento, e geralmente mantiveram-se bastante separados uns dos outros. Os alemães eram geralmente bastante religiosos, luteranos e calvinistas ou seguidores de outras seitas protestantes estritas, e eram conhecidos por serem pacíficos, amigáveis e por terem mantido relações cordiais com os índios. Por sua vez, os irlandeses eram presbiterianos, menos religiosos e estavam constantemente envolvidos em confusões entre eles mesmos e com os índios. Mesmo após um século vivendo nas mesmas regiões dos Apalaches, casamentos entre alemães e irlandeses eram raros.
No final do período colonial, havia cerca de 300.000 alemães e descendentes nos Estados Unidos, cerca de 10% da população americana. Os fazendeiros alemães estabeleceram uma reputação de serem os fazendeiros mais trabalhadores e cuidadosos dos Estados Unidos. As fazendas dos alemães eram conhecidas por sua abundância e limpeza, e os próprios alemães por sua produtividade e vida simples. Um observador contemporâneo notou que os colonos alemães viviam "muito melhor" que os restantes dos americanos.
A imigração em massa do século XIX Imigração alemã para os Estados Unidos (1820–2004) Período Número de imigrantes Período Número de imigrantes 1820–1840 160.335 1921–1930 412.202 1841–1850 434.626 1931–1940 114.058 1851–1860951.667 1941–1950 226.578 1861–1870787.468 1951–1960 477.765 1871–1880 718.182 1961–1970190.796 1881–1890 1.452.970 1971–1980 74.414 1891–1900 505.152 1981–1990 91.961 1901–1910 341.498 1991–2000 92.606 1911–1920 143.945 2001–2004 61.253Total : 7.237.594 O século XIX foi marcado por uma intensa emigração de europeus para diferentes partes do mundo. Entre 1878 e 1892, mais de 7 milhões de alemães deixaram a Alemanha; após a década de 1870, a Alemanha foi um dos países que mais perderam pessoas para a emigração, a grande maioria delas indo para os Estados Unidos. De 1820 a 1840, os alemães representaram 21,4% de todos os imigrantes europeus que entraram nos EUA; 32,2% nas duas décadas seguintes; e no final do século XIX eram o maior grupo de imigração (21,9%) nos EUA.Os Alemães no Sul do Brasil, Editora Ulbra, 2004 (2004) Entre 1824 e 1914, 5.431.100 alemães emigraram, dos quais mais de 90% foram para os Estados Unidos e apenas 93 mil para o Brasil, ou 2%, seguidos da Argentina (0,85%) e do Canadá (0,84%), entre 1871 e 1913.Welfare State and Labor Mobility: The Impact of Bismarckís Social Legislation on German Emigration before World War I
A profissão dos imigrantes foi-se alterando ao longo do tempo. No início do século, a maioria dos imigrantes era de camponeses do sudoeste da Alemanha. Na década de 1840, ainda metade dos imigrantes era camponesa ou diarista. A partir daí, passaram a predominar os trabalhadores industriais e artesãos, refletindo o processo de industrialização na Alemanha. A imigração alemã do século XIX para os Estados Unidos foi marcada por ter incluído uma mão de obra qualificada. Trabalhadores industriais e comerciais foram mais numerosos que os agricultores, no final do século em diante. Isso contrastava com a imigração irlandesa, por exemplo. A proporção de imigrantes alemães qualificados era o dobro da encontrada entre os imigrantes irlandeses. Na Filadélfia, mais da metade dos trabalhadores irlandeses eram não qualificados, comparado a apenas 14% dos alemães.
No final do século XIX, havia quase 8 milhões de alemães de primeira e de segunda geração nos Estados Unidos, cerca de 10% da população. Extraordinariamente diversificados em origem, ocupação, padrões de moradia e crença religiosa, eles eram isoladamente o maior grupo de língua não inglesa nos EUA.
A situação da classe artesã thumb|Imigrante alemão da Baviera, fotografado nos Estados Unidos (cerca de 1905)
O fim das Guerras Napoleônicas, em 1815, afetou a economia da Alemanha. As dívidas e os custos advindos de anos de guerra, ocupação e novas obrigações governamentais pressionaram a economia alemã. Já entre 1830 e 1850, uma combinação de crise comercial com desastre agrícola levou milhares de pessoas de Baden e Württemberg a emigrarem. Assim como na Irlanda, uma escassez da safra de batata também ocorreu na Alemanha. A escassez surgiu em 1842, o que levou os preços dos grãos a aumentarem de 250 a 300%, em dois anos, enquanto os preços da batata aumentaram 425%, entre 1845 e 1847. Condições climáticas adversas também contribuíram para a colheita ruim, fazendo com que os preços dos alimentos disparassem. Rebeliões causadas pela fome generalizaram-se e a emigração aumentou, na década de 1840.Irish and German Immigrants of the Nineteenth Century: Hardships, Improvements, and Success
Os artesãos, que não cultivavam seus próprios alimentos, emigraram em grande número, porque eram especialmente vulneráveis à fome. Embora as importações estrangeiras fossem numerosas nos mercados alemães, a indústria alemã era incapaz de competir. Pessoas de toda a Alemanha emigraram, conquanto o Reno foi a região que mais mandou pessoas para o Novo Mundo. A situação não melhorou na década de 1850, pois não houve alívio econômico. A Alemanha continuou tendo safras ruins anualmente, e os artesãos sofriam ainda mais com a crise. A falência também se tornou comum entre os artesãos. Por exemplo, a taxa de falências entre artesãos aumentou de uma em 250, na década de 1840, para uma em setenta e seis, na década de 1850, o que representava uma triplicação da taxa.