Ogum (; ; ; em fon,Gu) é um vodum loá e orixá do ferro, guerra, agricultura, caminhos, caça, tecnologia e protetor de artesãos e ferreiros.
Derivada do iorubá Ògún yè ("Ogum vive"), a saudação "Ogunhê!" é utilizada para esse orixá no Brasil, assim como "Patakori!", que pode ser entendida como uma saudação que exalta Ogum como força suprema e guia maior, aquele que ocupa um lugar de destaque e liderança espiritual, sendo reverenciado como o “chefe da cabeça” (patak = chefe; ori = cabeça) ou o orixá de maior importância e direção para o indivíduo.Vocabulário Português Yorubáhttps://pt.scribd.com/document/330876990/Vocabulario-Portugues-Yoruba-TraduzidoPRANDI, Reginaldo. Ogum: caçador, agricultor, ferreiro, trabalhador, guerreiro e rei. São Paulo: Pallas, 2020a.
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Ogum no Brasil Ogum é uma divindade de culto importante no Brasil devido à sua presença em religiões como a Umbanda, o Candomblé, o Catimbó a Encantaria, o Tambor de Minas, a Jurema Sagrada e os paganismos modernos brasileiros. É geralmente representado e cultuado como uma força da guerra, da abertura de caminhos, da quebra de demandas e da proteção. Alternativamente, quando chamado de Ogum Iara ou em conexão com Iemanjá em lendas ou rituais, associa-se também a praias e águas. Seu domínio pode ser considerado o das ferrovias, estradas e caminhos, e sua cor tradicional é o azul, embora tenha se popularizado sua associação com o vermelho e o branco devido ao sincretismo religioso com São Jorge e ao seu culto associado à malandragem carioca e a malandragem espiritual.Prandi, Reginaldo. Mitologia dos orixás. Companhia das Letras, 2020.CLYNE, Robert Marcel. Ogun Worship in Idanre: Iron and Identity in a Yoruba Town. Ph.D. thesis, Yale University, 1998.
Principalmente no Sudeste brasileiro, Ogum é sincretizado com São Jorge, formando um dos exemplos mais expressivos de sincretismo religioso na cultura brasileira. Diferentemente de outros casos em que o sincretismo apenas mascara o culto de um orixá sob a forma de um santo católico, substituindo sua imagética original, no caso de Jorge e Ogum observa-se uma via de mão dupla. Nessa dinâmica, elementos associados ao orixá se assentam de forma orgânica e significativa que influenciam a imagem de São Jorge e estimulam seu culto popular.Moretti, Altair Moretti Altair. "Sou de Ogum, Sou de São Jorge." Revista Aú 2.02 (2017).Stribel, Guilherme Pereira. "SALVE SÃO JORGE/OGUM: O PADROEIRO DO CARIOCA." Periferia (2018): 274-278.Stribel, Guilherme Pereira. "MORAIS, Marcelo Alonso; MARTINS JÚNIOR, Marco Antônio. Salve São Jorge/Ogum: O padroeiro do carioca. Rio de Janeiro: Ideia Jurídica. 2015. 88p." Periferia 10.1 (2018): 286-290.
O São Jorge da tradição católica, descrito como um guerreiro casto e devoto, símbolo do combate ao pecado e à heresia, é ressignificado no contexto brasileiro como um guerreiro valente e corajoso, amplamente celebrado com cerveja, samba e feijoada. Além disso, torna-se frequentemente patrono simbólico de categorias sociais historicamente marginalizadas, como sambistas, boêmios e os próprios malandros cariocas.COMBS, Sydney. Who was Saint Patrick and why does he have a day? National Geographic, 1 fev. 2019. Disponível em: (inserir URL). Acesso em: 22 abr. 2026.RAMOS, Felipe de Azevedo. Quem foi São Jorge? 7 curiosidades: desde a lua até o dragão. Gaudium Press, 2020.TRATNIK, Polona. Saint George, the Dragon Slayer. 2025. DOI: 10.19233/AH.2025.23. Disponível em: https://doi.org/10.19233/AH.2025.23. Acesso em: 22 abr. 2026.
Um dos reflexos desse processo são as festas de São Jorge realizadas no Rio de Janeiro, celebradas em 23 de abril, data que constitui feriado estadual. Embora incluam missas e rituais católicos tradicionais, essas celebrações se destacam, no contexto urbano, por feijoadas, rodas de samba e outras expressões da cultura popular, atraindo grandes multidões de devotos. Eventos desse tipo ocorrem em diferentes pontos da cidade, como na Concha Acústica da Penha e em bares que organizam o chamado Circuito das Feijoadas, além de se espalharem por diversos municípios do estado.Barros, Jacqueline Silva de. "As festas para São Jorge no Rio de Janeiro: um olhar reflexivo sobre a festa em Nova Iguaçu." (2014).Ribeiro, Ana Paula Alves. "Caminhos de Ogum: florindo as ruas, festejando São Jorge e ocupando a cidade." Arquivos do CMD 4.2 (2016): 166-177.
Essas festividades são frequentemente marcadas por elementos da cultura afro-brasileira, mesmo quando organizadas em contextos católicos, refletindo o processo histórico da influência simbólica de Ogum na religiosidade popular. Nesse sentido, a devoção contemporânea ao santo incorpora camadas culturais associadas ao orixá, ainda que sua matriz católica permaneça distinta em termos teológicos.
Isso, no entanto, não exclui o papel da subordinação simbólica do culto africano ao catolicismo, já que, por mais que o arquétipo de Ogum tenha se sobressaído, o sincretismo é, em sua origem, uma imposição colonial. Além de ser representado com o nome e a imagem de São Jorge, em algumas vertentes das religiões afro-brasileiras, Ogum passa a ser associado às cores vermelho e branco, ao invés do tradicional azul, e ao cavalo, ao invés da serpente, o que mostra que, embora sua influência na imagem de São Jorge, a figura de Ogum também é remoldada historicamente por elementos do santo.Siuda-Ambroziak, Renata. "Sincretismos e migrações." Religiosidades em migrações históricas e contemporâneas (2016): 192.Cabral, Jonatas Steigleder, et al. "Sincretismo religioso: uma pesquisa sobre as origens das influências religiosas e culturais que deram origem ao cristianismo no Brasil." Revista Cógnito 5.1 (2023): 2-25.
A forma de culto de conexão com Ogum no Brasil pode variar de acordo com a religião e vertente, mas é bastante difundido que Ogum é um orixá associado aos elementos terra e fogo, com domínio sobre a guerra, o progresso, a conquista e a metalurgia, sendo ligado às cores azul-escuro, verde e vermelho, e aos símbolos da bigorna, faca, pá, enxada, espada e outras armas e ferramentas. Suas oferendas podem incluir inhame assado ou cozido, feijoada, farofa de feijão-fradinho, entre outros, entregues em espaços rituais ou em estradas. Outra maneira de invocá-lo e homenageá-lo é por meio dos xirês ou pontos (cantigas).
Ao mesmo tempo em que é descrito como violento e implacável, também é visto como o pai que nunca abandona e sempre protege seus filhos, incluindo ferreiros, agricultores, carpinteiros e outros ligados às manufaturas. Tendo ensinado o homem a forjar o ferro, é considerado um dos pais da humanidade. Por isso, é um orixá muito querido pelos seguidores das religiões e caminhos espirituais que o cultuam, recebendo muitas oferendas e justificando a grande variedade de cantigas religiosas (pontos e xirês) que o homenageiam.
Nomes
Ogum () possui vários nomes iorubás no candomblé, a citar: Ogulê, Ogundelê, Ogundilê (), Ogundilei, Ogum-de-lei, Ogundemenê (). Entre os fons, é chamado Gu.
No vodu haitiano, foi desmembrado numa família de loás que tem Ogum como prenome: Ferreiro (), Balinjô (), Badagris, Panamá, Olixá (), Ossanguê (; ) Axadê (), Trovão (), Xangô (), Batalá (), Guerriê, Chatarrá, Chal. Na umbanda, como uma série de entidades, aparece como Beira-Mar/Marinho (quiçá de mariuô), Malê, Dilê (Oggun Nile da santeria), Nagô, Iara (), Matinada, Metá, Naruê, Oiá, Rompe-Mato, Xoroquê, Mejê ou Mejejê (). No batuque, como o orixá Avagã.
Pungo Dibudi na regla kimbisa do Santo Cristo da Boa Viagem, Sarabanda, Vento Mal (Viento Malo) e Cabo em Guerra (Cabo en Guerra) no palo, Acutorio Orgulê (Acutorio Orgullé ararás, Noi (Noy), Nou e Ajuagum (Ajuaggún) no cabildo gangá, Iboru e Bocú nos ritos ijexás. Abo Ichokún, Alagwede, Soude, Corona Apanada e Oguedai (Cuba); Aganju (Linguessou ou Linguesú) (Haiti e República Dominicana), Jiyán Petró e Pier Basicó (Rep. Dominicana), Onsú, Neguê e Belié Belcánascido. Em Trindade e Tobago, os Oguns são Olobá (Ologba), Olopelofonte (Olopelophon), Oromelai (Oromelay), Olomené e Oloremai (Oloremay).
Vodu haitiano
Badagris era originalmente uma divindade iorubá, adotada pelos aradás, cujos atributos são o ferro, a guerra e o relâmpago. Segundo Louis Maximilien, Ferreiro é filho de Badagris e amante de sua madrasta Erzulie e foi sincretizado com São Jorge; Balinjô também é associado a Jorge. Panama é o protetor das palmeiras e é descrito usando chapéu de abas largas com tecido de folhas de palmeira. Olixa é tido como cruel e mal-humorado, enquanto Ossangué faz curas milagrosas. Guerriê porta gorro vermelho e uma espada.
Santiago Maior no vodu haitiano e santeria de Porto Rico No Brasil, é associado a Santo Antônio
João Batista com Ogum Trovão do vodu haitiano e Ogum da santeria de Cuba. Na santeria, Ogum ainda é associado a São Pedro.
Religião iorubá Na religião iorubá, é citado como o primeiro orixá a descer ao reino de Ilê-Aiê ("Terra"), com o objetivo de encontrar uma habitação adequada para a futura vida humana e, consequentemente, recebe o nome de Oriki ou Osin Imole, que significa o "primeiro orixá a vir para a Terra." Foi provavelmente a primeira divindade cultuada pelos iorubás.
Considerado senhor do ferro, da guerra, da agricultura e da tecnologia, Ogum era o filho mais velho de Odudua. Este último era o rei fundador da cidade de Ifé, e Ogum assume o título de rei regente da cidade quando seu pai perde momentaneamente a visão.
Arquétipo De acordo com Pierre Verger, o arquétipo de Ogum é o das pessoas fortes, aguerridas e impulsivas, incapazes de perdoar as ofensas de que foram vítimas. Das pessoas que perseguem energicamente seus objetivos e não se desencorajam facilmente. Daquelas que, nos momentos difíceis, triunfam onde qualquer outro teria abandonado o combate e perdido toda a esperança. Das que possuem humor mutável, passando de furiosos acessos de raiva ao mais tranqüilo dos comportamentos. Finalmente, é o arquétipo das pessoas impetuosas e arrogantes, daquelas que se arriscam a melindrar os outros por uma certa falta de discrição quando lhe prestam serviços, mas que, devido à sinceridade e franqueza de suas intenções, tornam-se difíceis de serem odiadas.
Representatividade Por causa deste contexto, compreende-se a popularidade de Ogum. Especula-se que ele tenha sido a primeira divindade cultuada pelos iorubás na África Ocidental; além disso, era um dos deuses em que os escravos africanos recorriam. Os seguidores de Ogum podem jurar a verdade em tribunais "beijando" um pedaço de ferro ou metal, enquanto que os motoristas carregam um amuleto de Ogum para evitar acidentes de trânsito.
Em outras mitologias Ogum é conhecido no candomblé como o orixá ferreiro. Ele é irmão de Exu, com quem é considerado dono de todos os caminhos e encruzilhadas, e identificado no jogo do merindilogum pelos odus etaogundá, odi e obeogundá, representado materialmente e imaterial através do assentamento sagrado denominado Ibá de Ogum. Já na santeria, ele é um dos quatro orixás guerreiros, representando o solitário hostil que vaga pelos caminhos. Além disso, Ogum é o dono dos montes junto com Oxóssi e dos caminhos, este último junto com Eleguá.
Cultura popular Ogum é homenageado na música de sucesso "Ogum", gravada originalmente por Zeca Pagodinho, em 2008, homenageando também São Jorge, com quem é sincretizado.
Em 2022 o rapper brasileiro Criolo lançou a canção "Ogum Ogum" em parceria com a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade, com quem performou no Rock in Rio naquele ano.
Bibliografia
Categoria:Ogum Categoria:Deuses do álcool Categoria:Deuses do fogo Categoria:Deuses da caça Categoria:Deuses dos ferreiros Categoria:Deuses da guerra Categoria:Voduns masculinos Categoria:Santeria Categoria:!Mais Negritudes em Teoria da História na Wiki