Cervo-do-pantanal (nome científico: Blastocerus dichotomus), também chamado suaçuetê, suaçupu, suaçuapara, guaçupuçu ou simplesmente cervo, é um mamífero ruminante da família dos cervídeos (Cervidae) e único representante do gênero Blastocerus. Ocorria em grande parte das várzeas e margens de rios do centro da América do Sul, desde o sul do rio Amazonas até o norte da Argentina, mas atualmente, a espécie só é comum no Pantanal, na bacia do rio Guaporé, na ilha do Bananal e em Esteros del Iberá.

É o maior cervídeo sul-americano, podendo pesar até 125 quilos e ter até 127 centímetros de altura. Os machos são um pouco maiores que as fêmeas e possuem chifres ramificados. Os cascos são longos e podem se abrir até cerca de 10 centímetros, graças à presença de uma membrana interdigital, o que é uma adaptação ao deslocamento em ambientes inundados. Apesar de ser um ruminante, seu sistema digestório é menos especializado na digestão de celulose. É preferencialmente solitário e diurno, e seus predadores são a onça-pintada (Panthera onca) e a onça-parda (Puma concolor). Sua dieta constitui-se principalmente de plantas aquáticas. A gestação dura entre 251 e 271 dias, e as fêmeas dão à luz um filhote por vez.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) consideram a espécie como "vulnerável" e sua área de distribuição geográfica foi radicalmente reduzida a partir do . As principais ameaças são a alteração do habitat por conta da construção de usinas hidrelétricas, as doenças advindas de animais domésticos, como a febre aftosa e a caça, principalmente como troféu. Existem inúmeras unidades de conservação em que ocorre a espécie, e ela foi reintroduzida com sucesso na Estação Ecológica Jataí, em São Paulo.

Taxonomia e evolução

O cervo-do-pantanal foi descrito por Johann Karl Wilhelm Illiger, em 1815, inicialmente no gênero Cervus. O gênero Blastocerus só foi descrito em 1844, por Johann Andreas Wagner, e é monotípico.

Estudos moleculares corroboram o monofiletismo da espécie e do gênero e a colocam como grupo-irmão de um clado contendo o veado-catingueiro (Subulo gouazoubira) e o cervo-andino-do-sul (Hippocamelus bisulcus). Entretanto, dados de morfometria de crânio, colocam o cervo-do-pantanal como mais próximo do veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus).

Os cervídeos surgiram na Ásia e chegaram à América do Sul provavelmente pelo estreito de Bering, durante o início do Plioceno. O cervo-do-pantanal existe no Pantanal desde o Pleistoceno, sendo que na Argentina, por exemplo, ele não foi encontrado antes do início do Holoceno. Márquez e colaboradores (2006) mostraram que no Pleistoceno, o cervo estava restrito aos alagadiços do Pantanal e a partir do momento que o clima ficou mais úmido no centro da América do Sul, ele ampliou sua distribuição geográfica.

A taxonomia e sistemática de subespécies do cervo-do-pantanal é muito pouco estudada.

Distribuição geográfica e habitat Inicialmente, o cervo-do-pantanal ocorria desde o sul do rio Amazonas até o norte da Argentina. Ocorria no sudoeste semiárido da Caatinga, no sul do Piauí, oeste da Bahia, e na bacia do rio São Francisco; a oeste das regiões montanhosas na Mata Atlântica do sudeste do Brasil (oeste dos estados de São Paulo e Paraná), no extremo sul do Rio Grande do Sul e extremo norte e oeste do Uruguai.

Já habitou extensas áreas do Brasil Central, Bolívia, Paraguai, Peru e Argentina, mas atualmente, as populações são relictuais e muito reduzidas. No Brasil é abundante no Pantanal, na Ilha do Bananal, no rio Araguaia e no rio Guaporé e em várzeas remanescentes do rio Paraná (entre os estados do Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná). Populações isoladas ocorrem em Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Bahia. A espécie é considerada extinta no Uruguai. Na Argentina, ainda ocorre na foz do rio Paraná, na província de Entre Rios, em Esteros del Iberá, e em algumas várzeas do nordeste deste país. Na Bolívia, é encontrado em savanas e várzeas da região nordeste, desde Otuquis e San Matías até os Llanos de Moxos, ocorrendo nas bacias dos rios Mamoré, Beni e Guaporé. No Paraguai, ocorre nas bacias dos rios Paraná e Paraguai.

É uma espécie extremamente dependente de plantas aquáticas, de forma que habita preferencialmente áreas inundáveis com até 60 centímetros de profundidade e com cobertura vegetal baixa. Entretanto, ele pode ser observado em ambientes com maior profundidade. Evita áreas permanentemente inundadas e o padrão de inundações é preponderante na distribuição dos indivíduos no habitat. Sendo assim, o habitat do cervo-do-pantanal é classificado como uma transição entre as áreas permanentemente inundadas e as áreas secas. Esses ambientes são caracterizados pela presença de gramíneas (principalmente do gênero Andropogon), ciperáceas e outras plantas aquáticas, como Thalia geniculata, Canna glauca e Ludwigia nervosa. Pode ser encontrado frequentemente nas "veredas", em meio aos buritis (Mauritia flexuosa), e é o principal habitat da espécie nos Cerrados brasileiros. É possível que ele se adapte a áreas alteradas pelo homem, desde que não seja caçado.

Descrição 220px|thumb|Fêmea do cervo-do-pantanal

É o maior cervídeo da América do Sul, pesando entre 80 e 125 quilos, com 153 a 191 centímetros de comprimento e de 110 a 127 centímetros na altura da cernelha. Os machos tendem a ser maiores que as fêmeas, sendo, em média, 6% mais altos e 13% mais pesados, além de possuírem o pescoço mais musculoso.

200px|thumb|esquerda|O macho do cervo-do-pantanal possui chifres

Somente os machos possuem chifres, que têm uma haste de até 60 centímetros de comprimento. Os chifres possuem quatro ramificações principais que não apontam para o interior da ramificação, o que permite diferenciar a espécie das do gênero Odocoileus. No total, os chifres do cervo-do-pantanal possuem entre 8 e 12 pontas. A haste principal apresenta uma dicotomia próxima à base, e cada ponta se ramifica novamente, o que é raro de se observar no veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus). Podem ser observados machos com chifres durante o ano todo que podem ser trocados a cada mês. Porém, isso geralmente ocorre no inverno e tem relação direta com o ciclo de inundações das várzeas em que habita o cervo-do-pantanal. As trocas são mais frequentes em indivíduos juvenis e idosos, e quando são dominantes em um dado território, elas diminuem, e as galhadas podem ficar retidas por até 32 meses. A pelagem é castanho-avermelhada, lanosa e brilhosa, tornando-se mais avermelhada durante o verão; possui pelos brancos em volta dos olhos, peitoral, pescoço, interior das pernas e nas orelhas. Os juvenis não possuem pelagem manchada e os membros dos adultos são pretos. Os dois dedos dos cascos possuem até 8 centímetros de comprimento e são ligados por uma membrana interdigital que permite que os dedos se abram até cerca de 10 centímetros entre si, condição única entre os cervídeos da América do Sul. Trata-se de uma adaptação ao deslocamento em ambientes pantanosos.

A fórmula dentária é e a largura da coroa dos incisivos e dos caninos é a mesma. Os pré-molares são menos molariformes que os de Ozotoceros, assim como os molares possuem um sulco na cúspide mésio-lingual, diferente também do encontrado em Ozotoceros. O crânio, por sua vez, é muito semelhante ao deste gênero, e se diferencia por conta de seu tamanho maior e pelo formato das órbitas, que possuem disposição mais lateral e inferior. Isso torna a visão do cervo-do-pantanal mais completa quando em direção ao solo, provavelmente uma adaptação aos deslocamentos em área inundadas. Assim como outros cervídeos, possuem a glândula pré-orbital.

Como um ruminante, o cervo-do-pantanal possui os mesmo compartimentos estomacais encontrados em outros cervídeos: rúmen, barrete, omaso e abomaso. Apesar de compartilhar tal adaptação dos ruminantes, seu sistema digestório é menos eficiente em digerir a celulose. Além disso, o fígado da espécie, ao contrário do observado em ruminantes domésticos, não possui vesícula biliar.

O cervo-do-pantanal possui 66 cromossomos e o cariótipo é muito semelhante ao do veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus). O cromossomo X é metacêntrico e o Y é acrocêntrico. Os autossomos são acrocêntricos.

Ecologia e comportamento 300px|thumb|O cervo-do-pantanal é um animal majoritariamente solitário O cervo-do-pantanal possui hábitos noturnos em regiões bastante modificadas pelo homem, como observado na bacia do rio Paraná, principalmente devido à pressão de caçadores. No Pantanal, em que a espécie é menos caçada, ela é diurna. É um bom nadador, e é capaz de atravessar grandes distâncias a nado, indo de uma margem à outra, mesmo em grandes rios represados, como o Paraná.

É considerado um animal solitário, apesar de eventualmente ser observado pequenos grupos familiares, compostos de um adulto e um ou mais jovens. Esses grupos são compostos geralmente por fêmeas adultas e sua prole, e são mais frequentemente observado durante a estação chuvosa e podem ter até seis indivíduos. Apesar de majoritariamente solitário, o cervo-do-pantanal apresenta um complexo repertório comportamental, como observado em estudos com animais em cativeiro. Aparentemente, são territoriais, e evidências genéticas corroboram a hipótese de um sistema de acasalamento poligínico nos cervos-do-pantanal. Isso também fica evidenciado pelo registro de comportamento agonístico entre machos adultos. Apesar disso, nunca foi observado a formação de harens. Os territórios dos machos possuem até 12,3 quilômetros quadrados de área, sendo significativamente maiores que os das fêmeas, que possuem no máximo, 5 quilômetros quadrados. A área de vida dentro do território não é fixa, e ela tende a mudar de acordo com as inundações de seu habitat.

Seus principais predadores são a onça-parda (Puma concolor) e a onça-pintada (Panthera onca), apesar de o cervo-do-pantanal não ser a espécie mais visada por esses grandes felinos. Além destes, a sucuri (Eunectes murinus), o lobo-guará (Chrysocyon brachiurus) e jacarés podem predar principalmente os filhotes.

A espécie é parasitada por carrapatos, principalmente do gênero Amblyomma, sendo Amblyomma triste a espécie mais comumente encontrada. A presença de animais domésticos aumenta significativamente a infestação por carrapatos, inclusive de espécies transmissoras de doenças, como o carrapato-estrela (Amblyomma cajennense) e o carrapato-de-boi (Boophilus microplus). O cervo-do-pantanal parece ser um reservatório natural de agentes patogênicos da erliquiose monocítica humana (causada por Ehrlichia chaffeensis) e da anaplasmose (que afeta ruminantes e é causada por Anaplasma marginale).

thumb|esquerda|300px|Fêmea se alimentando de gramíneas O cervo-do-pantanal não é considerado um "pastador" e nem um "podador" típicos, tendo um hábito alimentar e de forrageio intermediário entre essas duas estratégias de obtenção de alimento. Muitas vezes, essa espécie de cervídeo opta pela ingestão de alimentos mais fáceis de digerir, ao contrário do observado em "pastadores" típicos, e possui hábitos oportunistas se comparado aos "podadores" típicos. Ademais, comparado com outros ruminantes, sua dieta tem alto valor nutritivo e melhor digestibilidade. Isso tem relação direta com o fato do cervo-do-pantanal consumir preferencialmente folhas largas e brotos tenros de Discolobium, Aeschynomene e outras plantas aquáticas. Mesmo as gramíneas consumidas são relativamente fáceis de digerir, como Hemarthria altissima. thumb|300px|O cervo-do-pantanal habita áreas alagadas durante a estação chuvosa