A Linha do Vouga, originalmente conhecida como Linha do Vale do Vouga, e alcunhada de Linha do Vale das Voltas devido ao seu sinuoso traçado, é um troço ferroviário português de bitola métrica que atualmente liga Espinho a Sernada do Vouga, passando por Oliveira de Azeméis e Albergaria-a-Velha, numa extensão de 61 km. Em Sernada do Vouga, a Linha do Vouga liga-se ao Ramal de Aveiro, de 37 km de comprimento, que atravessa Águeda e termina na Estação de Aveiro, na Linha do Norte. Deste modo, a Linha do Vouga entre Espinho e Sernada do Vouga e o Ramal de Aveiro formam uma ferrovia contínua de bitola métrica de 98 km que liga Espinho a Aveiro via Entre Douro e Vouga e região central do Baixo Vouga. No entanto, na sua extensão máxima, a Linha do Vouga compreendia-se desde a Estação de Espinho, na Linha do Norte, até Viseu, totalizando 140 km, servindo, depois de Sernada do Vouga, vilas como Sever do Vouga, Oliveira de Frades e Vouzela. Com efeito, na sua extensão máxima, a Linha do Vouga entre Espinho e Viseu e o Ramal de Aveiro formavam uma rede de 177 km que ligava entre si a área metropolitana do Porto (com quebra de bitola em Espinho), Aveiro e Viseu. O primeiro troço da Linha do Vouga, entre Espinho e Oliveira de Azeméis, entrou ao serviço em 21 de Dezembro de 1908, tendo a Linha entre Espinho e Viseu sido totalmente concluída com a abertura do troço Vouzela–Bodiosa em 5 de Fevereiro de 1914. O Ramal de Aveiro foi inaugurado em 8 de Setembro de 1911.
Em agosto de 1972, o troço entre Sernada do Vouga e Viseu foi encerrado, com a alegação de que as locomotivas a vapor causavam incêndios florestais. Após a Revolução de 25 de Abril, a Linha do Vouga foi reaberta em julho de 1975, agora com comboios a diesel. No entanto, o troço entre Sernada do Vouga e Viseu acabou por ser definitivamente encerrado em 1 de Janeiro de 1990. Em 2005, devido ao projeto de enterramento da estação ferroviária de Espinho, a Linha do Vouga deixou de começar nesta estação e passou a ter o seu início na estação de Espinho-Vouga. Em finais de 2011, toda a linha entre Espinho e Aveiro esteve à beira de encerrar, no entanto a pressão das populações e autarcas impediu o seu encerramento. Em 1 de novembro de 2013, o serviço regular de passageiros no troço entre Oliveira de Azeméis e Sernada do Vouga foi suspenso. Desde então, esse troço só é utilizado para as automotoras afetas ao troço Espinho–Oliveira de Azeméis se deslocarem às oficinas de Sernada do Vouga. O troço Oliveira de Azeméis–Sernada do Vouga está em risco de encerramento definitivo com a construção de novas oficinas em Paços de Brandão. Em inícios de 2019 foram apresentados planos governamentais para a modernização do troço Espinho–Oliveira de Azeméis da Linha do Vouga, estando a ser estudada a sua conversão para bitola ibérica.
A Linha do Vouga é o único caminho de ferro de via estreita em funcionamento em Portugal. Descrição
Linha do Vouga Traçado A Linha do Vouga é um caminho de ferro em via métrica que ligava, no seu auge, as localidades de Viseu e Espinho, atingindo uma extensão de cerca de 140 km.SILVA e RIBEIRO, 2007:45 Em 1990, o troço de Sernada do Vouga a Viseu, com 79 km de comprimento, foi encerrado, reduzindo a linha aos cerca de 61 km entre Espinho e Sernada.SILVA e RIBEIRO, 2007:53
Actualmente, apenas subsiste a ligação de Espinho a Sernada do Vouga, continuando os serviços pelo Ramal de Aveiro até à localidade com o mesmo nome.
Até 2005, quando o terminal da Linha foi passado para a Estação de Espinho-Vouga, a Linha do Vouga saída da Estação de Espinho, na Linha do Norte; em seguida, abandona a zona litoral e dirige-se para o interior, passando por várias estações e apeadeiros, destacando-se o Apeadeiro de Ul, a interface com a mais curta denominação em Portugal.SILVA e RIBEIRO, 2007:49, 53 A Linha termina na Estação de Sernada do Vouga, sendo continuada pelo Ramal de Aveiro.
Em 2013 os serviços ferroviários foram suspensos no troço entre e , por motivos de segurança, circulando apenas composições com fins técnicos (inspeção, manutenção, etc.), sendo o transporte de passageiros neste trajeto efetuado por táxis ao serviço da C.P. que frequentam locais próximos de cada estação e apeadeiro para tomadas e largadas.
Ramal de Aveiro Obras de arte Pontes Azurva - 28 m Araújo - 14 m Rio Águeda - 64 m Marnel - 23 m Sernada - 173 m
Túneis Eirol - 74 m
thumb|esquerda|Unidades da Série 9 630, parqueadas na estação ferroviária de Sernada do Vouga. Material Circulante e serviços O material circulante utilizado inicialmente na rede ferroviária do Vouga inspirou-se fortemente nos caminhos de ferro franceses, por esta ser a origem dos primeiros administradores. Com efeito, entre as primeiras locomotivas utilizadas nesta linha encontram-se três máquinas tanque trazidas pelo engenheiro Mercier para auxiliar nas obras, tendo duas ficado para os serviços regulares, que foram integradas na Série E21 a E22 da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses. O Caminho de Ferro do Vouga também recebeu, entre 1910 e 1913, sete locomotivas do tipo Mogul, duas fornecidas pela casa Decauville, e cinco pela empresa alemã Orenstein & Koppel, que se tornariam na Série E91 a E97 da CP. Outras locomotivas que prestaram serviço nesta linha foram as da Série E201 a E216.MARTINS et al, 1996:89
Nesta linha circularam as séries 9 300, 9 700, 9 000, ME 50, 9 400 e 9 630; actualmente, apenas as automotoras desta última série circulam nesta linha.
Serviços Entre 1928 e 1972, circulou um serviço de ambulâncias postais nesta linha.MARTINS et al, 1996:54
Sinistralidade e prevenção De acordo com a Rede Ferroviária Nacional, em 2007 esta linha registou um total de 20 acidentes, representando cerca de 30% de todos os sinistros registados em Portugal. No ano anterior tinham sido registados 27 acidentes.http://noticias.pt.msn.com/article.aspx?cp-documentid=10716619 A empresa propõe um investimento de 10 milhões de euros para fecho de passagens de nível, implementação de barreiras automáticas e melhoria no sistema de comando. O objectivo é reduzir em 70% os acidentes registados até ao ano de 2011.
História
Antecedentes e planeamento Primeira fase Desde as primeiras décadas do transporte ferroviário em Portugal que se procurou dotar a região de Viseu de caminhos de ferro, devido à sua riqueza económica. Desta forma, quando estava a ser planeada a Linha da Beira Alta, também se idealizou uma segunda rede ferroviária, no sentido de ligar aquela linha a Viseu. Em 1877, surgiram os primeiros planos para uma linha ferroviária, já com o nome de Vale do Vouga, que ligaria Estarreja a São Pedro do Sul, passando por Albergaria-a-Velha e Vouzela. Porém, devido às dificuldades em construir a linha, numa região de relevo acidentado, as obras foram adiadas, tendo em 1879 sido mudado o ponto inicial para Espinho, que ficava mais próximo da cidade do Porto. Neste período, já se previa que a linha teria um ramal para Aveiro, partindo de Sever do Vouga.SILVA e RIBEIRO, 2007:45-46
Em 1890, Viseu foi ligada à rede ferroviária nacional pela Linha de Santa Comba Dão a Viseu. Na década de 1890, surgiu uma crise económica, que levou a uma redução na confiança em relação ao investimento nos caminhos de ferro, situação que prejudicou as tentativas de arranque de várias empresas neste ramo, incluindo as futuras operadoras das Linhas do Valle do Vouga e do Valle do Lima. Um dos principais motivos para a construção da Linha do Vouga prendia-se com o escoamento da abundante produção agrícola do vale daquele curso de água, especialmente para os mercados do Porto, através da ligação directa com a Linha do Norte. Em 1894, os estudos e os trabalhos de campo para a Linha do Vale do Vouga já tinham sido concluídos, e em Maio desse ano, Francisco Palha já tinha entregue o ante-projecto do troço entre Espinho e o Rio Caima ao governo.
Em Janeiro de 1895, os concessionários já tinham divulgado ao público o percurso que tinham planeado para a linha. Esta ligaria Espinho ao Caminho de Ferro de Viseu, passando por Vila da Feira, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Sever do Vouga, Couto de Esteves, Oliveira de Frades e Vouzela. O primeiro tramo seria de Espinho a Valle Maior, servindo as localidades de Paços de Brandão, São João de Ver, Vila da Feira, São João da Madeira, Couto de Cucujães, Oliveira de Azeméis, Macinhata do Vouga, Travanca, Branca e Carvalhal da Portela, e teria cerca de 55 Km de extensão, com um prazo de construção de cerca de dezoito meses. Previa-se que a segunda parte, desde Valle Maior até Viseu, demoraria aproximadamente dois anos para ser construída. O custo total das obras em ambos os lanços, mais os estudos do segundo, além de despesas administrativas e outros encargos, foi computado em 2:530.000$000 Réis, dos quais 630:000$000 seriam lançados em acções pela companhia, e o restantes 1:900.000$000 seriam obtidos através de obrigações. Em 10 de Outubro do mesmo ano, foi revelado o projecto definitivo, produzido sob a coordenação do engenheiro Xavier Cordeiro, que incluia o ramal entre Sever do Vouga e Aveiro. Devido ao relevo montanhoso, foram utilizados limites de 90 m para as curvas, e de 25 mm para as rampas. Em 30 de Julho de 1896, o projecto da linha foi estudado e homologado pelo Conselho Superior de Obras Públicas.
Segunda fase Nos finais do século XIX, verificou-se um atraso no crescimento da rede ferroviária nacional, contexto que atingiu também a Linha do Vouga. Esta situação só foi resolvida após a entrada de Manuel Francisco de Vargas para a pasta das Obras Públicas, Comércio e Indústria, tendo sido responsável pela publicação de vários alvarás que reorganizaram e definiram as concessões ferroviárias, como as das Linhas do Corgo e do Vouga. Assim, dois alvarás, de 11 de Julho de 1889 e 23 de Maio de 1901, autorizaram o empresário Francisco Pereira Palha a construir e explorar, ou a formar uma empresa com esse fim, uma linha férrea de via estreita entre Torredeita e Espinho, com um ramal para Aveiro em Sever do Vouga, durante um período de 99 anos. No primeiro diploma, emitido pelo Ministro das Obras Públicas, Eduardo José Coelho, não foi atribuída qualquer subvenção, nem garantias de juro, sendo totalmente da responsabilidade do concessionário a angariação dos recursos financeiros necessários. Para publicar este alvará, seria necessário um depósito de garantia no valor de 50 mil réis. Nesta altura, um dos maiores adversários à construção da Linha do Vouga era a Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, devido ao traçado paralelo desta via férrea em relação à Linha do Norte no troço junto a Espinho. Para resolver este conflito, o então Ministro das Obras Públicas, Elvino José de Sousa Brito, inseriu, numa portaria de 11 de Maio de 1900 sobre um acordo com a Companhia Real acerca da Linha de Vendas Novas, uma cláusula onde compeliu a Companhia a desistir de quaisquer reclamações sobre a Linha do Vouga ou o Ramal de Aveiro.
Quando entrou em vigor a lei de 14 de Julho de 1899, que instituiu o fundo especial de caminhos de ferro, para subsidiar a construção de linhas complementares e a realização de obras e melhoramentos necessários, foi pedido que fosse aplicada à Linha do Vouga. Porém, este direito foi negado, uma vez que a linha não tinha sido classificada como complementar à rede ferroviária dos Caminhos de Ferro do Estado. Esta decisão seria posteriormente revertida por Manuel Francisco de Vargas no segundo alvará, onde ficou estabelecido que a Linha receberia os benefícios referentes à quinta base da lei de 14 de Julho de 1899, que se referia à cedência dos impostos de trânsito e selo durante trinta anos, e a isenção de impostos nas acções e obrigações durante o mesmo período, tendo sido igualmente aplicada a redução do depósito a 8 mil réis, como previa a lei de 1899.