Um clítico ( klitikos, "inflexional") é um morfema em morfologia e sintaxe que possui características sintáticas de palavra, mas depende fonologicamente de outra palavra ou sintagma. Neste sentido, é sintaticamente independente, porém fonologicamente dependente e sempre ligado a um hospedeiro. O clítico é pronunciado como um afixo, contudo desempenha um papel sintático no nível de sintagma. Em outras palavras, clíticos possuem a forma de afixos, mas a distribuição de elementos funcionais. Por exemplo, os pronomes oblíquos átonos do português são clíticos, ele deu-me o presente ou ele me deu o presente.

Clíticos podem pertencer a qualquer categoria gramatical, embora eles sejam normalmente pronomes, determinantes e preposições. Note que a ortografia nem sempre é um bom guia para distinguir clíticos de afixos: clíticos podem ser escritos separados dos elementos em que são ligados, mas às vezes estão unidos às palavras que eles dependem (como o clítico do Latim –que, que significa “e” – conjunção coordenativa aditiva), ou separado por caracteres especiais como hifens ou apóstrofos (como o clítico do Inglês ‘s em "it's" para "it has" ou "it is").

Classificação Dependendo da posição que ocupam em relação à palavra à qual estão conectados, diz-se que os clíticos são:Crystal, David. A First Dictionary of Linguistics and Phonetics. Boulder, CO: Westview, 1980. Print.

Proclítico O proclítico é aquele que aparece antes do seu hospedeiro. É muito comum nas línguas Românicas. Por exemplo, em português, "eu te amo", em espanhol, "tú me gustas" ("eu gosto de você"), em francês, "je t'aime" ("eu te amo").

Enclítico O enclítico é aquele que aparece depois do seu hospedeiro. Latim: Senatus Populusque Romanus "Senado povo-e Romanos" = "O Senado e o povo de Roma" Grego Antigo: ánthrōpoí (te) theoí te "o povo (e) os deuses e" = "(ambos) homens e deuses" Sânscrito: naro gajaśca = नरो गजश् च > com sandhi, नरो गजश्च "o homem o elefante e" = "o homem e o elefante" Tcheco: chceš-li "(você) querer-se" = "se você quiser" Telugo: di nā puvvu = ఇది నా పువ్వు (Esta é minha flor). Com o enclítico ē que indica certeza, esta frase se torna Idi nā puvvē = ఇది నా పువ్వే (Esta é certamente minha flor)

Mesoclítico O mesoclítico é aquele que aparece entre o tronco do hospedeiro e outros afixos. Por exemplo, em português formal, conquistar-se-á, dá-lo-ei, matá-la-ia. Estes exemplos são encontrados mais frequentemente na escrita do que na fala. Inclusive é possível o uso de dois pronomes dentro do verbo, como em  dar-no-lo-á. Como em outras línguas Românicas, o tempo futuro sintético do português vem da fusão do infinitivo e das formas finitas correspondentes do verbo haver (do latino habēre), o que explica a possibilidade de separá-lo do infinitivo.

conquistar-se-á = ele(a) há de conquistar algo

dá-lo-ei = eu hei de dar algo

dar-no-lo-á = ele(a) há de nos dar algo

Endoclítico O endoclítico separa a raiz e é inserido entre as duas partes. Endoclíticos desafiam a Hipótese da Integridade Lexical (ou Hipótesis Lexicalista) e, portanto, por muito tempo eram tidos como impossíveis. No entanto, a evidência da língua Udi sugere que eles existem.Harris, Alice C. (2002). Endoclitics and the Origins of Udi Morphosyntax. Oxford: Oxford University Press. ISBN 0-19-924633-5. Endoclitics também são encontrados em Pashto Craig A. Kopris & Anthony R. Davis (AppTek, Inc. / StreamSage, Inc.) Endoclitics in Pashto: Implications for Lexical Integrity (abstract pdf) e são relatados para existir em Degema.Kari, Ethelbert Emmanuel (2003). Clitics in Degema: A Meeting Point of Phonology, Morphology, and Syntax. Tokyo: Research Institute for Languages and Cultures of Asia and Africa. ISBN 4-87297-850-1.

Distinção Uma distinção importante divide o amplo termo "clítico" em duas categorias, clíticos simples e clíticos especiais.Miller, Philip H. "Clitics and Phrasal Affixes." Clitics and Constituents in Phrase Structure Grammar. New York: Garland, 1992. N. pag. Print. Essa distinção é, no entanto, contestada.Bermúdez-Otero, Ricardo & John Payne (2011). There are no special clitics. In Alexandra Galani, Glyn Hicks & George Tsoulas (eds), Morphology and its interfaces (Linguistik Aktuell 178), 57–96. Amsterdam: John Benjamins.

Clíticos simples Clíticos simples são morfemas livres, o que significa que eles podem estar sozinhos em um sintagma ou sentença. Eles não são acentuados e, portanto, são fonologicamente dependentes de uma palavra próxima. Eles só recebem significado desse "hospedeiro".

Clíticos especiais Clíticos especiais são morfemas que são ligados a palavra que eles são dependentes, o que significa que eles existem como uma parte do seu hospedeiro. Esta forma, que não é acentuada, representa uma variante de uma forma livre que carrega acento. Embora as duas variantes tenham significado e composição fonológica semelhantes, o clítico especial é ligado a uma palavra hospedeira e não acentuado.

Propriedades Alguns clíticos podem ser entendidos como elementos passando por um processo histórico de gramaticalização.Hopper, Paul J.; Elizabeth Closs Traugott (2003). Grammaticalization (2nd ed.). Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 978-0-521-80421-9.

item lexical → clítico → afixoKlavans, Judith L. On Clitics and Cliticization: The Interaction of Morphology, Phonology, and Syntax. New York: Garland Pub., 1995. Print.

De acordo com este modelo de Judith Klavans, um item lexical autônomo em um contexto particular perde as propriedades de uma palavra totalmente independente com o tempo e adquire as propriedades de um afixo morfológico (prefixo, sufixo, infixo, etc.). Em algum estágio intermediário deste processo evolucionário, o elemento em questão pode ser descrito como um “clítico”. Como resultado, este termo acaba sendo aplicado a uma classe de elementos altamente heterogêneos, apresentando diferentes combinações de propriedades de palavras e de afixos.

Prosódia Uma característica compartilhada por muitos clíticos é a ausência de independência prosódica. Um clítico se une a uma palavra adjacente, conhecida como seu hospedeiro. As convenções ortográficas tratam os clíticos de diferentes maneiras: alguns são escritos como palavras separadas, alguns são escritos juntos como uma parte de seu hospedeiro, e alguns estão unidos ao seu hospedeiro, mas através de pontuação (um hífen ou um apóstrofo, por exemplo).

Comparação com afixos Embora o termo "clítico" possa ser usado de forma descritiva para se referir a qualquer elemento cujo categoria gramatical seja algo entre uma palavra e um afixo, os linguistas propuseram várias definições de "clítico" como um termo técnico. Uma abordagem comum é tratar os clíticos como palavras que são prosodicamente deficientes: eles não podem aparecer sem seu hospedeiro, e eles só podem formar uma unidade acentuada em combinação com seu hospedeiro. O termo "clítico poslexical" (postlexical clitic) é usado para este sentido mais restrito do termo.Klavans, Judith L. On Clitics and Cliticization: The Interaction of Morphology, Phonology, and Syntax. New York: Garland Pub., 1995. Print.

Dada essa definição básica, são necessários critérios adicionais para estabelecer uma linha divisória entre clíticos pós-lexicais e afixos morfológicos, uma vez que ambos são caracterizados pela falta de autonomia prosódica. Não há um limite natural e claro entre as duas categorias (uma vez que, do ponto de vista histórico, uma determinada forma pode se mover gradualmente de uma para a outra por morfologização). No entanto, ao identificar agrupamentos de propriedades observáveis ​​que estão associados a exemplos de clíticos, por um lado, e exemplos de afixos, por outro, pode-se escolher uma bateria de testes que fornecem uma base empírica para uma distinção clítico / afixo.

Um afixo liga-se sintaticamente e fonologicamente a um morfema base de uma parte limitada do discurso, como um verbo, para formar uma nova palavra. Um clítico funciona sintaticamente acima do nível da palavra, ao nível do sintagma ou da oração e se liga apenas foneticamente à primeira, última ou única palavra no sintagma ou oração, seja qual for a classe à qual a palavra pertença.Zwicky, Arnold (1977). On Clitics. Bloomington: Indiana University Linguistics Club. Os resultados da aplicação desses critérios às vezes revelam que os elementos chamados tradicionalmente de "clíticos" na realidade têm o status de afixos (por exemplo, os clíticos pronominais das línguas Românicas, discutidos abaixo).Andrew Spencer and Ana Luís, "The canonical clitic". In Brown, Chumakina, & Corbett, eds. Canonical Morphology and Syntax. Oxford University Press, pp. 123–150.

Zwicky e Pullum postularam cinco características que distinguem os clíticos dos afixos: Clíticos não selecionam seus hospedeiros. Ou seja, eles se ligam a qualquer palavra que esteja no lugar certo. Os afixos selecionam seu hospedeiro: eles se conectam apenas à palavra que estão conectados semanticamente e, geralmente, se ligam a uma determinada parte do discurso. Os clíticos não apresentam lacunas arbitrárias. Afixos, por outro lado, muitas vezes são lexicalizados e podem simplesmente não ocorrer com certas palavras. (O plural de inglês -s, por exemplo, não ocorre com "child" - criança, "children" - crianças.) Os clíticos não exibem idiossincrasias morfofonológicas. Ou seja, eles seguem as regras morfofonológicas do resto da linguagem. Afixos podem ser irregulares a este respeito. Os clíticos não exibem idiossincrasias semânticas. Ou seja, o significado do sintagma-mais-clítico é previsível a partir dos significados do sintagma e do clítico. Os afixos podem ter significados irregulares. Os clíticos podem se ligar ao material que já contém clíticos (e afixos). Os afixos podem ser anexados a outros afixos, mas não ao material que contém clíticos. Um exemplo de análises diferentes por linguistas diferentes é a discussão dos possessivos (em inglês), alguns linguistas tratam como um afixo, enquanto outros o tratam como um clítico especial.Spencer, Andrew; Luis, Ana R. (2012). Clitics: An Introduction. Cambridge University Press. pp. 292–293. ISBN 9781139560313. There are two alternatives that have been explored in recent literature.  

Comparação com palavras Semelhante à discussão acima, os clíticos devem ser capazes de se distinguir das palavras. Houve uma série de testes linguísticos propostos para diferenciar entre as duas categorias. Alguns testes, especificamente, baseiam-se no entendimento de que ao comparar os dois, os clíticos se assemelham a afixos, enquanto as palavras se assemelham a frases sintáticas. Os clíticos e as palavras se assemelham a categorias diferentes, no sentido de que eles compartilham certas propriedades com eles. Seis desses testes estão descritos abaixo. Essas, é claro, não são as únicas formas de se diferenciar entre palavras e clíticos.Zwicky, Arnold M. "Clitics and Particles." Language 61.2 (1985): 283-305. Print. Se um morfema é ligado a uma palavra e nunca pode ocorrer em um isolamento completo, então é provável que seja um clítico. Em contraste, uma palavra não está vinculada e pode aparecer por conta própria. Se a adição de um morfema a uma palavra evita a posterior afixação, então é provável que seja um clítico. Se um morfema se combina com palavras simples para transmitir outro grau de significado, então é provável que seja um clítico. Se um morfema for exigido em certa ordem em relação a outros morfemas dentro da construção, então é provável que seja um clítico. As palavras independentes desfrutam de uma ordem livre em relação a outras palavras, dentro dos limites da ordem das palavras da língua. Se o comportamento permitido de um morfema é determinado por um princípio, é provável que seja um clítico. Por exemplo, "a" prossegue substantivos indefinidos em inglês. As palavras raramente podem ser descritas com uma dessas descrições.