Carlos von Koseritz (Dessau, 7 de junho de 1830 - Porto Alegre, 30 de maio de 1890) foi um professor, folclorista, empresário, político, jornalista e escritor teuto-brasileiro. Considerado um dos mais completos, versáteis, eruditos e ativos jornalistas do século XIX no estado do Rio Grande do Sul, exerceu larga influência em sua época, despertando ao mesmo tempo acesas polêmicas pelas suas ideias avançadas e inconformistas e pela combatividade com que as defendia. Fundou vários jornais e colaborou em outros, escreveu vasta quantidade de artigos e deixou diversos livros de pesquisa, teoria e literatura, que revelam um amplo espectro de interesses.
Biografia
Primeiros anos na Europa
Nascido Carl Julius Christian Adalbert Heinrich Ferdinand von Koseritz, era filho do major e barão Karl Johann Friederich von Koseritz, diretor do Correio prussiano, e de sua esposa Wilhelmina Caroline Stedingk. Fez seus primeiros estudos no colégio Philantrophium de Dessau, a na adolescência revelou-se um interesse pela política, participando de movimentos liberais em Berlim. Sua rebeldia fez com o que os pais o colocassem em um internato, mas quatro semanas depois abandonou o local. Depois passou a estudar os clássicos e a literatura romântica, entre eles Schiller, além de obras de tema militar e crônicas de viajantes.Weizenmann, Tiago. "Sou, como sabem...": Karl von Koseritz e a imprensa em Porto Alegre no século XIX (1864-1890). Doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2015, pp. 30-33 Mais tarde, Koseritz ingressou no Exército para uma campanha contra a Dinamarca, sendo seu batalhão dissolvido no final da guerra.Porto, Aurélio. O Trabalho Alemão no Rio Grande do Sul. Santa Teresinha, 1934
Chegada ao Brasil
Desejando ingressar na Marinha de algum país estrangeiro, em 1850 embarcou no navio Diana, com destino à Bahia. A experiência naval foi para ele frustrante, e em 1851 estava em Hamburgo. No mesmo ano, porém, em 22 de junho, embarcou de volta ao Brasil, como grumete do veleiro Heinrich, o mesmo que trouxe um contingente de mercenários alemães, os Brummer, recrutados para lutar na Guerra contra Oribe e Rosas. Ao chegar ao Rio de Janeiro, engajou-se como mercenário Brummer, sendo incorporado ao 2º Regimento da Reserva da Cavalaria, mas logo desertou, alegadamente antes de fazer o juramento à Bandeira.
Muitos destes mercenários desertaram com a conivência das autoridades. Cerca de vinte por cento morreram de frio, por desnutrição ou doenças decorrentes da carência alimentar. Apenas 450 aguardaram o término do contrato engajados no exército. Eles permaneceram no Rio Grande do Sul, atraídos pelos núcleos alemães no Sul e pelas novas colônias que se abriram depois de 1850, onde receberam terras. Os Brummer exerceram influência nos locais onde se estabeleceram, trabalhando como comerciantes, diretores de colônias, agrimensores, professores ou agricultores.
Primeiros anos em Pelotas e Rio Grande
Dirigindo-se a Rio Grande, no Rio Grande do Sul, aceitou empregos de cozinheiro, jornaleiro e portuário, mas vivia na miséria e acabou ficando doente. Recolhido à Santa Casa de Misericórdia, após se recuperar conheceu Telêmaco Bouliech, de quem se tornou muito amigo. Mudou-se para Pelotas em 1852, e passou algum tempo na região da Campanha, atuando como professor particular, professor de piano, tropeiro e médico leigo. Sua escolaridade dava-lhe conhecimentos que o povo não tinha e sua têmpera, de muito estudo e dedicação, despertava a admiração de todos. Em torno de 1855 casou-se com Zeferina Maria de Vasconcelos, filha de um estancieiro, voltando a Rio Grande e começando a trabalhar como contador do leiloeiro José Maria Perry de Carvalho. No fim do ano estava em Pelotas outra vez, empregado como professor do Colégio União.Weizenmann, p. 35
Como conseqüência de seus ideais, Carlos von Koseritz passou a colaborar com os jornais da região, como O Noticiador, de Rio Grande. Na tipografia deste jornal, em 1856, publica seu primeiro livro, de fins didáticos, Resumo da História Universal. No mesmo ano entrou para a redação de um pequeno periódico dirigido por Bouliech, fazendo reportagens sobre temas locais e escrevendo artigos sobre a política europeia. Interessado pelo teatro, produziu também textos críticos, que circularam nos primeiros folhetins da cidade. Ligou-se a intelectuais pelotenses como os escritores Bernardo Taveira Júnior e Lobo da Costa, e em 1857, despedindo-se do Colégio União, fundou um colégio particular em parceria com Emil Grauert. O estabelecimento ganhou prestígio e permitiu-lhe viver mais folgadamente.Weizenmann, pp. 35-37 Envolveu-se na política por meio de embates na imprensa contra os progressistas, o partido dominante de Pelotas. Quando Domingos José de Almeida criou seu próprio jornal em 1858, chamado Brado do Sul, considerado o primeiro jornal diário da cidade, convidou Koseritz para dirigi-lo.Spalding, Walter. Construtores do Rio Grande. Sulina, 1969
Nesta época adquiriu uma tipografia para imprimir seus textos de ficção, especialmente novelas, além de textos científicos e de crítica literária, publicados na revista mensal Ramalhete Rio Grandense, que circulou por alguns meses. A publicação tinha uma seção de poesia a cargo de colaboradores. Também atuava como agente dos jornais O Guayba e Deutsche Einwanderer, de Porto Alegre, e A Pátria, do Rio de Janeiro. Cada vez mais envolvido com a imprensa, a política e a literatura, retirou-se da sociedade com Emil Grauert.
Escrevia sobre filosofia, literatura, política e economia. A vida passou a ficar difícil quando Koseritz resolveu polemizar com os políticos locais, especialmente a partir de 1859. A polícia fechou o Brado do Sul e alguns desafetos o atacaram violentamente, dando-lhe uma surra. Desfalecido, foi levado para o hospital pela esposa. Depois de recuperado, contando com o apoio de Domingos José de Almeida, reiniciou suas atividades, retomando seu estilo polemista e questionador. A tensão continuava, e sua casa foi apedrejada. Colocando-se em uma situação perigosa, sentiu-se obrigado a abandonar a cidade, mudando-se para Rio Grande, onde redigiu o jornal O Povo, colaborou com o Eco do Sul e atuou como professor na escola de José Vicente Thibaut. Fazia traduções de novelas estrangeiras e escrevia sobre uma proposta de reforma do ensino. Também fundou lá um estabelecimento de instrução primária e secundária, o Ateneu Rio-Grandense. Novamente as polêmicas e conflitos o cercaram, ganhava novos inimigos, foi acusado de corromper a juventude e recebia novas ameaças, a ponto de evitar sair de casa. Em 1863 o Ateneu foi fechado pelas autoridades, e no ano seguinte Koseritz se mudava para Porto Alegre.Weizenmann, pp. 37-41
Vida em Porto Alegre Logo após sua chegada à capital da província, nasceu sua primeira filha, Carolina Koseritz, que viria a ser sua companheira inseparável por toda a vida. Ela ganharia três irmãs: Adelaide Elisa Aurora (1868), Zelinda Lídia Esmeralda Conradina (1870) e Zeferina (1872).Weizenmann, pp. 41-42
Em Porto Alegre foi convidado a ser representante das colônias alemãs no Rio Grande do Sul. Colaborou com os jornais Jornal do Commercio, Rio Grandense e A Reforma. Em 1865 obteve a cidadania brasileira. Foi redator do Deutsche Zeitung, jornal alemão que seria a porta para seus novos projetos e conquistas. Neste jornal suas posições anticatólicas foram tão exarcebadas que foram diretamente causadoras da fundação do jornal jesuíta Deutsches Volksblatt, em 1871, que buscava se contrapor aos ataques de Koseritz. Também pregou constantemente um maior envolvimento dos descendentes de alemães na política brasileira, além de pressionar o governo por melhores condições para os imigrantes.Becker, Klaus. "Imprensa em língua alemã (1852-1889)". In: Enciclopédia Rio-Grandense. Porto Alegre, 1956.
Em 1870, durante a Guerra franco-prussiana desliga-se de A Reforma por defender a Alemanha, contra o dono do jornal, Gaspar da Silveira Martins, francófilo.
Em 1872, publica o livro Roma perante o Século, um manifesto contra o novo dogma da Igreja Católica que dava poderes de infalibilidade ao papa. Tal publicação rende-lhe a excomunhão da Igreja Católica. Já maçom e estudioso da filosofia espírita, Koseritz não se abala com a decisão papal e entra para a Igreja Evangélica. Foi opositor ferrenho dos jesuítas e condenava todo fervor o religioso católico.
Fundou em 1876 o jornal A Acácia, redigido em português e direcionado à leitores da maçonaria, seu princípio era "cada homem esclarecido tem que tornar-se maçom e em toda parte onde ainda não há loja tem que ser criada uma", o jornal porém sobreviveu por pouco tempo. No mesmo ano também publica o Koseritz Volkskalender, um almanaque popular, em forma de revista, que surgia sempre no começo do ano e era aguardado com expectativa, pois trazia artigos variados, como literatura, folclore, paleontologia, ciências, cultura gaúcha e agricultura, com informações práticas para os colonos alemães.
Em 1877 lançou A Lanterna, jornal ilustrado de caráter humorístico, um campo estranho aos seus principais interesses, no qual transitava com dificuldade, e por isso a publicação teve vida curta e pouca repercussão.Damasceno, Athos. Imprensa Caricata do Rio Grande do Sul no Século XIX. Globo, 1962, pp. 44-61 Em 1878 colaborou com o jornal literário Álbum do Domingo.Ferreira, Athos Damasceno. Imprensa literária de Porto Alegre no século XIX. EdUFRGS, 1975, p. 103 Depois cria a Gazeta de Porto Alegre, em 1º de janeiro de 1879 que circulou por 5 anos e meio.
Em 1881, Koseritz lança-se no que seriam seus maiores projetos: a Exposição Brasileira-Allemã. O grande objetivo da Exposição era divulgar os produtos brasileiros para os enviados dos principais mercados da Alemanha e, em contrapartida, apresentar aos brasileiros os produtos fabricados pelos alemães. Várias províncias remeteram seus principais produtos, destinados à possível exportação para o mercado alemão. Seria a primeira Exposição Internacional em todo o Império. Para organizar a exposição se contrapôs ao cônsul alemão Wilhelm Ter Brüggen, que também era um dos proprietários do Deutsche Zeitung e parte do seu conselho de administração.
Apesar do sucesso de público que teve a Exposição, Koseritz enfrentou também a má vontade dos comerciantes alemães de Porto Alegre, que receavam a aproximação entre o público e seus fornecedores, temendo que soubessem dos preços reais das mercadorias que vendiam. Sofreu ataques dos jornais, dizendo que tirava vantagens financeiras da Exposição e que fora por pura camaradagem que escolhera a chácara de seu amigo Carlos Trein para a realização do evento. Quando o Deutsche Zeitung, por influência de Ter Brüggen, publica um artigo contra a exposição, Koseritz pede demissão e lança seu próprio jornal, o Koseritz Deutsche Zeitung. Para imensa tristeza de Koseritz, o pavilhão onde se realizava a exposição fora criminalmente incendiado e ele perdeu toda a sua coleção etnográfica, mas não se deixou abater.
Em 1883, elegia-se deputado provincial e tornava-se o porta-voz dos imigrantes alemães. Foi deputado por quatro mandatos e um dos que mais ocuparam a tribuna. Mesmo assim, não parou de produzir, escrevia vários livros, nas mais diferentes áreas de interesse: romances, poesias, peças teatrais, economia, etnologia, livros didáticos, traduções e manuais para imigração. Tudo que lhe despertava o interesse era estudado com afinco e virava um livro. Ao lado da filha preferida Carolina, engajou-se na Emancipação dos Escravos, e em 1884, Porto Alegre tornou-se uma das primeiras cidades as libertar seus negros. Em 1889 foi agraciado pelo imperador com a Ordem da Rosa no grau de oficial.