O IAI Nesher (Grifo-eurasiático em hebraico) é a versão israelita do caça supersónico Mirage 5 , construído pela empresa israelense Israel Aircraft Industries (IAI) para a Força Aérea Israelita no final dos anos 60.

Tendo sustentado perdas moderadas durante a Guerra dos Seis Dias e na Guerra de Desgaste, a Força Aérea Israelense (IDF/AF) procurou, no final dos anos 60, uma variante aprimorada do bem-sucedido caça francês Dassault Mirage III. A parceria para produzir a aeronave, que seria designada como Mirage 5, foi firmada entre a Dassault e a IAI, porém, em janeiro de 1969, em resposta ao ataque israelense ao aeroporto de Beirute, o governo francês anunciou a imposição de um embargo de armas à Israel. Em resposta ao embargo, Israel decidiu tomar por si próprio o projeto, produzindo as células localmente.

Em 1969, a IAI iniciou os trabalhos de produção, usando, segundo fontes oficiais, um pacote completo de desenhos técnicos e informações detalhadas, obtidas antes da imposição do embargo. A célula do Nesher é idêntica ao do Mirage 5, porém mantendo aviônica israelense e assentos ejetáveis Martin-Baker, de capacidade zero-zero, de produção britânica, além de provisões para uma gama maior de mísseis ar-ar, incluindo o míssil israelense Shafrir, guiado por infravermelho. Em setembro de 1969, o tipo fez seu primeiro voo. Em maio de 1971, o primeiro Ra'am foi entregue à IDF/AF, sendo renomeado como Nesher em novembro daquele ano. O ápice da carreira operacional do Nesher em Israel foi a Guerra do Yom Kippur, em 1973, com o tipo tendo um desempenho satisfatório no conflito.

Em 1974, a produção do Nesher foi descontinuada, sendo substituída por uma variante mais avançada do Mirage, desenvolvida em paralelo com o Nesher, o Kfir. O modelo foi retirado de serviço na IDF/AF no final dos anos 70. Estas aeronaves foram vendidas para a Força Aérea Argentina (FAA), sendo renomeadas como Dagger (adaga, em inglês). Em 1978, a FAA destacou emergencialmente suas primeiras unidades do Dagger nas operações durante o Conflito de Beagle. Os Daggers também foram operados durante a Guerra das Malvinas, em 1982, conduzindo um total de 153 sortidas contra alvos terrestres e navais durante os 45 dias de combate.

Desenvolvimento

Origens esquerda|miniaturadaimagem|O sucesso do Mirage IIICJ durante os conflitos entre Israel e seus vizinhos levou a IDF/AF a considerar melhorias na plataforma Durante o início de 1962, a Força Aérea Israelense (IDF/AF) introduziu em serviço as primeiras unidades do Mirage IIICJ. Pelas próximas duas décadas, esta plataforma seria utilizada para missões de superioridade aérea, tendo um impressionante histórico de abates durante sua vida operacional. O desempenho do Mirage III era considerado altamente satisfatório, sendo seriamente considerado para o desenvolvimento de variantes mais avançadas. No final da década de 60, a IDF/AF via como necessária a aquisição de novas aeronaves, para conseguir substituir as 60 perdas em combate nos constantes conflitos entre Israel e seus vizinhos, como a Guerra dos Seis Dias, em 1967 e a Guerra de Desgaste, que sucedeu logo após e continuou durante o início dos anos 70. Além disso, uma corrida armamentista emergia entre Israel e seus vizinhos, como Egito e Síria, que, na época, recebiam armamento avançado, provindo da União Soviética.

Dessa forma, em julho de 1960, Israel iniciou trabalhos de desenvolvimento conjunto com a fabricante francesa Dassault para desenvolver uma variante do Mirage III adaptado para as necessidades locais. O produto desse programa foi o Mirage 5, e, seria eventualmente designado na IDF/AF como Ra'am (trovão, em hebraico). A Dassault desenvolveu a aeronave sob pedido israelense, que na época, era o principal cliente de exportação do Mirage III e, geralmente, comprava equipamentos franceses para suas forças armadas na época. Os requerimentos específicos da IDF/AF era que a aeronave não contasse com capacidade all-weather (todo tempo), tendo o radar de controle de tiro e aviônicos avançados deletados, tendo isso trocado por uma maior capacidade de carga de armas e alcance. Isso era possível, uma vez que no oriente médio as condições meteorológicas são normalmente boas.

Antes mesmo do primeiro voo do protótipo, a IDF/AF encomendou 50 unidades do Mirage 5, bem como duas aeronaves biplace (duplo assento), para treinamento e conversão operacional. Porém, o programa foi parado em janeiro de 1969, quando, em resposta ao ataque israelense ao aeroporto de Beirute, o governo francês anunciou a imposição de um embargo de armas à Israel e a "nações em guerra do Oriente Médio". A imposição do embargo evitou a entrega de 30 unidade do Mirage 5, que já estavam pagas por Israel, além da opção de mais 20 unidades da aeronave. Além de evitar a entrega, todo suporte ao Mirage III foi cancelado pelos franceses. Estrategicamente, o embargo provocou um ímpeto à Israel de desenvolver capacidades próprias em sua indústria de defesa, de modo de atender suas demandas.

O embargo foi considerado um revés considerável para a IDF/AF, que queria introduzir em serviço o Mirage 5 para compensar as perdas durante a Guerra dos Seis Dias, tendo que continuar o serviço dos Mirage III, porém, sem apoio oficial da fabricante. Em resposta a decisão francesa, Israel decidiu dar início a um programa próprio para a obtenção das aeronaves. Segundo alguns pesquisadores, Israel deu início a um programa de produção doméstica, tanto da fuselagem (Ra'am A) quanto do motor SNECMA Atar (Ra'am B), com desenhos técnicos obtidos pela Mossad ou pelo próprio fundador da Dassault, Marcel Dassault.

Produção 250px|miniaturadaimagem|Um IAI Nesher israelense.De acordo com os autores Doug Dildy e Pablo Calcaterra, a Dassault proveu, de modo secreto, gabaritos e grandes quantidades de componentes para as células, via um consórcio entre a fabricante, a IAI e a North American Rockwell, que, alegadamente, receberam uma licença de fabricação da aeronave em janeiro de 1968. Dildy e Calcaterra citam que informações detalhadas do motor Atar foram obtidas da fabricante suíça Sulzer, que produziu o motor para os Mirages suíços. Com os desenhos técnicos da Sulzer e os motores que a IDF/AF já tinha em seus Mirages III, foi possível fazer um trabalho de engenharia reversa para produzir os motores domesticamente. Já outras fontes afirmam que Israel recebeu 50 unidades do Mirage 5 desmontadas, vindas direto da França. com a Força Aérea Francesa (AdL'A) integrando unidades que seriam produzidas para Israel em suas fileiras.

Em uma entrevista para a revista aeronáutica americana Wings, em 2001, o engenheiro aeronautico Gene Salvay afirmou que a produção do Nesher se deu de outra maneira. Em janeiro de 1968, a North American Rockwell fez um acordo com a Dassault para entregar um lote de aeronaves Mirage 5 para a IDF/AF, com as células produzidas na Aérospatiale, asas na Reims-Cessna e motores produzidos pela SABCA, na Bélgica. As 61 unidades (51 Mirage 5J, de único assento, e 10 Mirage 5DD, de duplo assento), foram transportados até Israel por aeronaves C-141 Starlifter da USAF e montados por técnicos da North American Rockwell nas instalações da IAI. O fotógrafo e pesquisador David Lednicer fotografou, na fuselagem de um Nesher, a placa de produção pela Aérospatiale.

As células do Nesher é idêntica a do Mirage 5, porém, recebeu aviônicos israelenses, além da adoção de assentos ejetáveis Martin-Baker, de capacidade zero-zero, de produção britânica, além de provisões para uma gama maior de mísseis ar-ar, incluindo o míssil israelense Shafrir, guiado por infravermelho. No total, 51 Nesher S (de assento único) e 10 Nesher T (de assento duplo) foram construídos.

O Nesher contava com aviônica muito mais simples do que as utilizadas no Mirage III, sendo, segundo relatos, também menos manobrável. Porém, a aeronave possuía um alcance maior (devido a maior quantidade de combustível carregado) e maior capacidade de carregamento de armas. A aeronave teve um bom desempenho durante a Guerra do Yom Kippur, principalmente em combate ar-ar.

Em meados dos anos 70, o Nesher foi retirado de serviço a favor de uma variante avançada do Mirage, que era desenvolvida em paralelo ao Nesher. A principal diferença era a instalação de um motor turbojato norte-americano General Electric J79, produzido sob licença em Israel, substituindo o motor Atar francês. A aeronave resultado desse programa foi o IAI Kfir.

Histórico Operacional

Israel esquerda|miniaturadaimagem|Um IAI Nesher em missão de combate sobre as Colinas de Golã, na Guerra do Yom Kippur, 1973 Em maio de 1971, a primeira unidade do Ra'am A (que seria renomeado como Nesher S) foi entregue a Força Aérea Israelense (IDF/AF). As entregas continuaram até fevereiro de 1974, com 51 Nesher S (de assento único) e 10 Nesher T (de assento duplo) entregues.

O ápice da carreira operacional do Nesher em Israel foi a Guerra do Yom Kippur, em 1973. A aeronave teve um desempenho satisfatório no conflito, com seus pilotos marcando mais de 100 vitórias em combate. Logo após o conflito, foi tomada a decisão de aposentar o Nesher do serviço ativo na IDF/AF. A introdução em serviço do Kfir, uma variante avançada do próprio Mirage, diminuiu a importância do Nesher no arsenal da IDF/AF, além que as operações de combate em 1973 desgastaram as células rápidamente.

Argentina Em 1978, após a retirada de serviço do Nesher na IDF/AF, a Força Aérea Argentina (FAA) adquiriu 26 unidades do modelo, no interim de um plano de modernização da força. Até de 26 de novembro de 1978 a dezembro de 1980, as 24 unidades do Nesher S e 2 Nesher T haviam sido entregues a FAA, com um segundo lote, de 11 Nesher S e 2 Nesher T chegando até dezembro de 1982. Todas as aeronaves receberam novos sistemas de navegação, como um VOR, rádios VHF ao invés do UHF original, novos freios (incluindo um paraquedas de frenagem) além de trabalhos de inspeção geral e revisão em Israel, antes de serem entregues, junto de um lote de 50 mísseis ar-ar Rafael Shafrir II. No serviço da FAA, a aeronave foi renomeada como Dagger (adaga, em inglês).

As aeronaves, logo após chegarem, foram urgentemente postas em serviço ativo, devido as tensões argentinas com o Chile, no interim do Conflito de Beagle, em 1978. Estas aeronaves foram ativadas no Grupo 6 de Caça (G6C), baseados na Base Aérea de Tandil, na província de Buenos Aires.

Como parte do contrato com a IAI, se iniciou um programa de modernização do Dagger, chamado Sistema Integrado de Navegação e Tiro (SINT). Inicialmente, esse programa tinha a intenção de modernizar o sistema de armas, dando as mesma capacidade do Kfir C.2, israelense. O projeto iniciou em 1981, com a previsão de instalação de aviônicos britânicos, canadenses, franceses e israelenses, como um radar telemétrico IAI Elta EL/M-2001, HUD da Marconi, computador de voo da Ferranti, radar de navegação da Canadian Marconi, além do sistema de navegação inercial da SFIM e um rádio altímetro da TRT. A IAI seria a responsável pelas modificações estruturais a aeronave.

Guerra das Malvinas miniaturadaimagem|Um IAI Dagger argentino Durante a Guerra das Malvinas, em 1982, a FAA destacou os Daggers para as operações de combate, ficando o G6C baseado na Patagônia, ficando sob os comandos da Força Aérea Sul. O Esquadrão II ficou baseado no aeródromo de San Julián, na província de Santa Cruz, com o III Esquadrão ficando baseado na Base Aeronaval (BAN) de Rio Grande, na Terra do Fogo. Estas aeronaves foram utilizadas primariamente em missões de ataque a frota britânica.