Nuno Tristão (Porto, 1390 – Costa ocidental de África, 1446) foi um navegador português do século XV, explorador da costa ocidental africana. Apesar de ter sido considerado como o primeiro europeu a alcançar a região da atual Guiné-Bissau, historiadores mais recentes advogam que não terá ido além do rio Gâmbia.
Biografia Criado e educado na Casa do Infante D. Henrique, onde foi armado cavaleiro, e do qual Gomes Eanes de Zurara diz ter sido "o primeiro fidalgo que viu terra de negros", foi homem de grande valor que serviu aquele príncipe nos descobrimentos da costa da Guiné. "Livro de Oiro da Nobreza", Domingos de Araújo Afonso e Ruy Dique Travassos Valdez, J. A. Telles da Silva, 2.ª edição, Lisboa, 1988, tomo III, p. 156
"Casou Nuno Tristão, ignorando-se o nome da mulher, havendo porém a certeza que casou porque a história nos diz que o Infante D. Henrique doou à viúva do seu cavaleiro Nuno Tristão, rendas suficientes para viver.""História e Genealogia", Affonso de Dornellas, Tomo III, p. 36 - "Infantes - Subsídios para o Estudo da Origem desta Família" Recentes descobertas dão por seu nome Beatriz Lourenço, a qual, sendo viúva, houve tença, que lhe deu o Infante. Do matrimónio nasceu João Infante, cujo apelido tomou por se criar na Casa do Infante D. Henrique, ou por seu pai o ter por alcunha.
Primeira viagem Em 1441, Nuno Tristão e Antão Gonçalves foram enviados por D. Henrique com a missão de explorar a costa ocidental da África a sul do Cabo Branco, o ponto mais distante alcançado, cinco anos antes, por Afonso Gonçalves Baldaia. Integrando um mouro que atuava como intérprete, a expedição liderada por Nuno Tristão ultrapassou aquele cabo, avançando até ao Baía de Arguim, na atual costa da Mauritânia, onde fez cerca de uma dezena de cativos, os primeiros escravos africanos levados pelos portugueses para a Europa."Armorial Lusitano", Afonso Eduardo Martins Zúquete, Editorial Enciclopédia, 3.ª edição, Lisboa, 1987, p. 279
Segunda viagem Em 1443, Nuno Tristão foi novamente enviado por D. Henrique, dobrando o Cabo Branco e alcançando a baía de Arguim. Na ilha de Arguim, Tristão encontrou uma aldeia berbere de sanajas, ou azenegues, o primeiro povoado permanente avistado pelos capitães de D. Henrique na costa da África Ocidental. Tristão atacou-a, fazendo cerca de catorze prisioneiros, regressando a Portugal com os cativos. O relato de Tristão sobre a facilidade e rentabilidade das razias esclavagistas nos bancos de Arguim levou numerosos mercadores e aventureiros portugueses a solicitar a D. Henrique licenças para o tráfico de escravos.
Terceira viagem Em 1444 — ou, possivelmente, em 1445 — Nuno Tristão foi novamente enviado pelo Infante D. Henrique para avançar mais para sul, tendo chegado até à atual fronteira entre a Mauritânia e o Senegal, onde termina o deserto do Sara e começa a floresta, e onde a população costeira passava dos berberes sanajas para os uolofes.Barros (1552, Dec I, liv.1, cap.9, p. 73 Acredita-se que Tristão tenha chegado até à Ponta da Berbéria — atual Langue de Barbarie —, na foz do rio Senegal. O mau tempo impediu-o de subir o rio ou de desembarcar, pelo que iniciou a viagem de regresso. No caminho de volta, Tristão parou nos bancos de Arguim e fez mais 21 berberes cativos. Chegando a Portugal, Nuno Tristão declarou ter finalmente descoberto a Terra dos NegrosZurara (1453, cap.30) p.153 — ou seja, a África subsariana —, mais tarde Terra dos Guinéus, ou simplesmente Guiné.
Quarta viagem Em 1446 — ou talvez em 1445 ou 1447, pois a data é incerta —, Nuno Tristão partiu na sua quarta e última viagem ao longo da costa da África Ocidental. Algures a sul do cabo Verde, Tristão encontrou a foz de um grande rio. Levou consigo 22 marinheiros numa lancha, rio acima. Porém, a lancha caiu numa emboscada de treze canoas nativas com cerca de 80 homens armados. Cercado, Nuno Tristão, juntamente com a maior parte da sua tripulação, foi assassinado por setas envenenadas — dois homens poderão ter escapado.Zurara (pp. 252–257), Barros (p. 118). A caravela de Tristão, reduzida a uma tripulação composta pelo escrivão Aires Tinoco e quatro grumetes, zarpou imediatamente em direção de Portugal. No entanto, o relato de Diogo Gomes diverge neste ponto: afirma que a caravela nunca regressou — que as canoas nativas a dominaram e capturaram, arrastando-a depois rio acima, onde foi desmantelada."E tomaram a caravela e levaram-na para dentro do rio e destruíram-na", passagem de Diogo Gomes, citada in Teixeira da Mota (1946, Pt. 1, p. 25)
Não se sabe ao certo até onde Nuno Tristão navegou, nem onde morreu. Até à década de 1940, a tradição portuguesa sustentava que Tristão morrera no Rio do Nuno — Rio Nunez, na atual Guiné-Conacri —, ou que ficara pouco aquém dele, no Rio Grande — hoje rio Geba, na Guiné-Bissau.e.g. Pimentel p.242 garante que se trata do Rio Nunez. Barros (p. 118-20) e Cortesão (p. 13), por seu lado, advogam que era o rio Gebar. Castilho identificada dois possíveis locais para a sua morte: Rio Nunez (p. 193) e o Rio Buba (p. 185n). Por esse motivo, Nuno Tristão foi tradicionalmente creditado como o "descobridor" da Guiné Portuguesa — atual Guiné-Bissau —, chegando mesmo a afirmar-se que teria sido o primeiro europeu a pôr o pé no local onde hoje se situa a cidade de Bissau.e.g. Armando Cortesão (1931: p. 12) Sendo verdade, a última viagem de Nuno Tristão teria representado um grande salto relativamente ao marco português anterior — o Cabo dos Mastros, atual Cabo Naze, no Senegal.
Contudo, os historiadores modernos, apoiando-se em provas mais amplas — incluindo os relatos de Diogo Gomes e de Cadamosto —, rejeitam essa hipótese e hoje concordam, de forma geral, que Nuno Tristão terá chegado ao delta do rio Salum, ainda no Senegal, ou, numa interpretação mais generosa, até ao rio Gâmbia.Esta hipótese foi formulada inicialmente por João Barreto (1938), Duarte Leite (1941), Damião Peres (1943), Magalhães Godinho (1945) e Teixeira da Mota (1946), e tem vindo a er comummente aceite desde então. O local exato tem sido objeto de debate. Na sua investigação cuidadosa, o historiador Avelino Teixeira da Mota concluiu que Nuno Tristão terá primeiro avançado pelo rio Salum — Rio de Barbacins (13°57′47″N 16°45′10″W) — e depois enviado a sua lancha pelo rio Diombos — Rio de Lago (13°47′57″N 16°36′19″W) —, cuja margem sul era controlada pelo rei mandinga conhecido como Niumimansa, de Niumi Bato.Teixeira da Mota (1946, Pt. 1, p. 59). Terão sido estes guerreiros mandingas — ou mandinguizadosTeixeira da Mota (1946:59, 64-65), Wright (1976). — que emboscaram e mataram Nuno Tristão. Outros estudiosos atribuem a morte do navegador e do seu grupo ao povo sererês da Senegâmbia. Esta é, atualmente, a interpretação mais consensual.Hair, Paul Edward Hedley, "The Use of African Languages in Afro-European contacts in Guinea: 1440–1560" in Sierra Leone Language Review, n.º 5, 1966, p. 13 Hair, Paul Edward Hedley, Africa encountered: European contacts and evidence, 1450–1700, Variorum, 1997, pp. 213-215 e 248,
A morte de Nuno Tristão, o capitão mais estimado por D. Henrique, marcou um interregno nas expedições henriquinas. Ainda partiria outro conjunto de navios no ano seguinte, que também sofreria baixas significativas; em consequência disso, as expedições portuguesas foram temporariamente suspensas. O Infante D. Henrique só voltaria a enviar uma nova expedição à costa da África Ocidental uma década mais tarde, com Cadamosto, em 1455.
Homenagens Em 18 de fevereiro de 1987, a Câmara Municipal de Lagos colocou o nome de D. Nuno Tristão numa rua do concelho, na antiga Freguesia de São Sebastião.FERRO, 2002:435
Ver também Descobrimentos portugueses Império português
Bibliografia
BARRETO, João (1938) História da Guiné, 1418–1918. Lisboa. BARROS, João de (1552–59) Décadas da Ásia: Dos feitos, que os Portuguezes fizeram no descubrimento, e conquista, dos mares, e terras do Oriente. Vol. 1 (Dec I, Lib.1-5) CASTILHO, A.M. de (1866) Descripção e roteiro da costa occidental de Africa, desde o cabo de Espartel até o das Agulhas, Lisboa: Impresa Nacional, 2 vols.
CORTESÃO, Armando (1931) "Subsídios para a história do Descobrimento de Cabo Verde e Guiné", Boletim da Agencia Geral das Colonias, N.º 75, reimpresso em 1975, Esparsos, vol. 1, Coimbra
GODINHO, Vitorino de Magalhães (1945) Documentos sôbre a Espansão Portuguesa, 2 vols, Lisboa: Gleba. LEITE, Duarte (1941) Acerca da «Crónica dos Feitos de Guinee». Lisboa: Bertrand MOTA, Avelino Teixera da (1946) "A descoberta da Guiné", Boletim cultural da Guiné Portuguesa, Vol. 1. Parte 1 in N.º 1 (Jan), p.11-68, Pt. 2 in N.º 2 (Abr), pp. 273-326; Pt. 3 in N.º 3 (Jul), pp. 457-509. MOTA, Avelino Teixera da (1972) Mar, além Mar: Estudos e ensaios de história e geografia. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar. PERES, Damião (1943) História dos descobrimentos portugueses, Porto: Portucalense. PIMENTEL, M. (1746) Arte de navegar: em que se ensinam as regras praticas, e os modos de cartear, e de graduar a balestilha por via de numeros, e muitos problemas uteis á navegaçao : e Roteyro das viagens, e costas maritimas de Guiné, Angóla, Brasil, Indias, e Ilhas Occidentaes, e Orientaes. Lisboa: Francisco da Silva ZURARA, Gomes Eanes de (1453) Crónica dos feitos notáveis que se passaram na Conquista da Guiné por mandado do Infante D. Henrique or Chronica do descobrimento e conquista da Guiné.
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