A língua uolofe (em uolofe: Wolof ou وࣷلࣷفْ) é um idioma falado na região da Senegâmbia, principalmente no Senegal e na Gâmbia, mas também na Mauritânia, na Guiné-Bissau e no Mali.

Possui um total de falantes nativos de em torno de 7,6 milhões, enquanto seus falantes como segunda língua alcançam um total de 15,5 milhões, resultando em uma população falante de aproximadamente 23 milhões. A maior parte de seus falantes nativos são uolofes, população essa que vive na região sengambiana. Em 2001, o Senegal oficializou o uolofe e outras cinco línguas do país, além do francês, já convencionado como língua oficial.

É uma língua ativa, pertencendo à família das línguas atlântico-congolesas, parte da família nígero-congolesa. Distingue-se, no entanto, de outras línguas dessa família ao não ser tonal, assemelhando-se a outras línguas senegambianas. Existe, ainda, a língua uolofe gambiana, distinta do uolofe e mais restrita a seu país de origem. Do ponto de vista tipológico, sua morfologia é aglutinante, possuindo um rico inventário de classes nominais.

O uolofe é notório por sua forte tradição oral. Adotou, ao longo dos séculos, diversos sistemas de escrita, na tentativa de registrar a língua e cultura desse povo. Foi empregada, primeiramente, uma versão adaptada da escrita árabe, chamada de Uolofal, que mesmo tendo sido substituída em registros formais, ainda é utilizada por pessoas de idade mais avançada. Hodiernamente, emprega-se o alfabeto latino adaptado para registrar a língua, baseado no Alfabeto Fonético Internacional (AFI). Existe, também, a escrita garay, criada especificamente para línguas africanas, mas que ainda não obteve reconhecimento generalizado.

Etimologia A origem do termo uolofe (wolof, na língua) é endônima, porém incerta. A principal hipótese é que wolof é derivado de jolof, palavra que indicava a região de Lof, dominada, durante o século XIV, pelo Império Jolof (em português, Uolofe). Assim, cunhou-se o lexema waalof, isso é, habitantes de Lof. Esse termo tornou-se, ao longo do tempo, wolof. O uolofe é uma das poucas línguas subsaarianas a ter recebido estudos linguísticos extensivos, tanto pelos próprios uolofes, como pelos colonizadores franceses. Por isso, não há muitos exônimos de wolof, visto que a academia francesa adotara, desde o início das pesquisas, o termo endônimo, espalhando-o pelo mundo. A pouca variação exônima que existe acerca da palavra é fonológica, configurando exotopônimos, palavras formadas por alterações fonéticas a um endônimo. Em língua portuguesa, por exemplo, o termo é aportuguesado de diferentes formas, como uolofe, uólofe ou jalofo. Em francês, era escrito ouolof, enquanto era grafado em inglês como wollof. Contudo, convencionou-se, com o tempo, o endônimo wolof nesses países.

Classificação A língua uolofe é parte da família nígero-congolesa, dentre a qual configura-se como atlântico-congo, e, mais especificamente, setentrional e senegambiana. Seu parente mais próximo é a língua uolofe gambiana, mas a língua é também relacionada ao fula e ao sererê. O tronco senegambiano, especialmente, destaca-se por não ser tonal, diferente de outras línguas nígero-congolesas. Características comuns dessas línguas são a mutação consonantal e as classes nominais.

A filogenética linguística da família senegambiana é, no entanto, disputada. A teoria convencional, defendida por linguistas como David Sapir, divide a língua em dois troncos: fula-uolofe e as línguas bak, como no cladograma abaixo:

Assim, o uolofe encontra-se em uma categoria distinta dentro das línguas Fula-Uolofe, não sendo particularmente relacionada com alguma outra língua do grupo (exceto o uolofe gambiano). Por um descaso bibliográfico de Wilson, em 1989, houve uma confusão entre o uolofe e o sererê, relacionando o uolofe ao fula erroneamente. Essa informação errada tornou-se notória na bibliografia sobre a língua, pelo alto número de citações à análise de dados feita por Wilson. Em 2010, Guillaume Segerer corrige essa informação, corroborando a teoria de Sapir. Enquanto todas as três línguas possuem classes nominais, existe uma classe específica restrita ao fula-sererê, que confirmou tal tese.

Há, ainda, discordâncias sobre a existência de um tronco senegambiano. Um artigo mais recente, liderado por Harald Hammarström em 2023 e publicado pelo Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, apresentou outra subdivisão para as línguas atlântico-congo, formado o chamado tronco atlântico centro-norte, que adicionou mais línguas ao tronco, mas reduziu as relações próximas entre outras línguas e o uolofe, propondo relação ainda menor entra a língua e o fula-sererê:

Essa visão das línguas atlântico-congo categoriza o uolofe como parte do tronco uolofe-BKK, relacionando a língua às línguas nyun: kasanga, kobiana e o tronco de línguas banyum. O tronco fula-sererê é mantido, e foi proposta uma relação entre as línguas bak e o bijagó. Em ambas as divisões propostas, o uolofe e o nyun são ligados, mas a relação entre o uolofe e o fula-sererê nas ideias de Hammarström é menos profunda que o antes proposto.

Distribuição

Geografia e diásporas 253x253px|thumb|Zonas de língua uolofe no Senegal.O uolofe é falado por uma parcela significativa da população em 5 países: Senegal (onde é língua oficial), Gâmbia, Mauritânia, Guiné-Bissau e Mali, todos na região da Senegâmbia. No entanto, a população é mais concentrada nos países Senegal e Gâmbia, que compõem parte significativa dos falantes. Com a colonização francesa dessa região, houve grande diáspora dos falantes da língua, espalhando-se por muitos países da Europa, como a França e Itália, e para outros países, como os Estados Unidos.

Os falantes senegaleses compõem a maior parte dos falantes da língua, com um total de 6,84 milhôes de falantes e constituindo 89% dos falantes nativos. Em 2001, o Senegal tornou língua nacional seis línguas do país: o diola, o malinquê, o pular, o sererê, o soninquê e o uolofe, constituindo passo histórico para a nação, antes havendo somente o francês como língua oficial instituída. O francês segue sendo a língua mais empregada no Senegal, mas o uso do uolofe e as outras línguas nacionais segue aceito e reforçado. O uolofe não é língua oficial em nenhum outro país.

Há, ainda, uma população de falantes como segunda língua de 15,5 milhões, concentrados principalmente no Senegal e países vizinhos, como Gâmbia e Mali. No total, o uolofe é falado por aproximadamente 23 milhões de pessoas ao redor do mundo, sendo falado por aproximadamente 0,3% da população global. Essa estatística, para falantes nativos, é de aproximadamente 0,1% da população mundial.

Segue uma tabela que detalha a população de falantes nativos do uolofe, seja na senegâmbia ou em diásporas:

+População de falantes nativos do uolofe e diásporas País População Status oficial Falado por Senegal 6 840 000 38% da população Gâmbia 362 000 16,5% da população Guiné-Bissau 10 000 0,5% da população Mauritânia 20 300 0,4% da população Mali 79 200 0,3% da população Itália 79 000 0,1% da população França 35 000 0,05% da população EUA 22 500 0,007% da população Outros 200 000 Inclui Gabão, Costa do Marfim, Canadá, entre outros Total 7 648 000Falado por aproximadamente 0,1% da população global

Dialetos O uolofe possui alguns dialetos. No entanto, há poucos estudos relacionados aos dialetos do uolofe. Ademais, pela forte tradição oral diversa da língua, o Centro de Linguística Aplicada de Dacar (CLAD), que mais se aproxima de um regulador da língua, não é prescritivo acerca da variação dialetal, dificultando ainda mais a disponibilidade de informações sobre os dialetos. Os dialetos são todos inteligíveis entre si. Recentemente, o dialeto de Dacar vem assumindo certo prestígio como forma padronizada, porém, isso não é algo oficial. Seguem os principais dialetos uolofes:

Uolofe Dialetos Dialeto baol Dialeto cayor Dialeto de Dacar Dialeto diolof Dialeto lebou Dialeto jander

O dialeto de Dacar, também chamado de uolofe urbano, por encontrar-se na capital do Senegal, é alvo frequente de alternâncias de código, ou variações linguísticas diafásicas, em que usa-se, informalmente, um uolofe com menos influência francesa, enquanto o uolofe empregado em contextos mais formais apresenta, frequentemente, estruturas gramaticais e vocábulos derivados do francês. Há, por exemplo, a alternância na ordem entre substantivos e adjetivos. Existe também uma espécie de harmonia vocálica, em que as palavras do francês sofrem mudanças em suas vogais para torná-las mais próximas do uolofe.

História miniaturadaimagem|Regiões dominadas pelo Império Uolofe.|318x318px A história do povo uolofe e, consequentemente, sua língua, é marcada por uma sucessão de conquistas, revoluções e outros conflitos armados. Sabe-se que o Império Uolofe expandiu-se da região de Jalof, dominando cinco estados principais: Ualo (ou Waalo), Kayor, Baol, Sine e Saloum, com a região de Jalof em si encontrando-se mais ao interior.

A partir do século XVII, quando o comércio com os europeus passa a se fortalecer, as regiões de Kayor e Baol ganham muita influência, fragilizando o poder e domínio de Jalof. A rivalidade entre Kayol e Baol transforma-se em guerra civil, resolvida, com muito esforço, pelo poder central em Jalof. Esse conflito (e muitos outros) minimizou a capacidade expansiva do Império, tornando a língua restrita geograficamente à Senegâmbia. Ademais, houve, durante a mesma época, ataques frequentes de mauritânios, que levaram aspectos da língua e cultura uolofe de volta às suas terras nativas.

História do vocabulário O uolofe possui um vocabulário muito diverso em origem, devido às interações com diversos povos ao longo dos séculos. Destacam-se três grupos: empréstimos do soninquê, os do árabe, e aqueles de origem europeia. esquerda|miniaturadaimagem|186x186px|Mapa etnolinguístico do Senegal contemporâneo. Destaca-se os uolofes (grafados Wolof) e os malinquês (grafados Malinké) Por ser um povo localizado próximo aos uolofes, os soninquês (e também os malinquês) realizavam trocas comerciais frequentemente com os uolofes, levando a um número extenso de empréstimos relacionados a bens, finanças e comércio dessas línguas na língua uolofe. Ademais, há também empréstimos de termos mais cotidianos, devido à presença de plantações de amendoim de fazendeiros soninquês em regiões de domínio uolofe. Essa relação é, no entanto, contestada por alguns linguistas, visto que os radicais do soninquê estariam tornando-se sufixos no uolofe, fenômeno de estrangeirismo bastante incomum. Do árabe há uma série de empréstimos relacionados a hábitos e cultura, como estrangeirismos religiosos, leis, encantações e moralidade. Há também outros empréstimos mais relacionados à vida prática, como o sistema de escrita uolofal (hoje em desuso), o calendário, termos para camelos, cavalos e seus equipamentos e termos de saudação.miniaturadaimagem|Pronúncia de ke ngato em uolofe, empréstimo do francês gateau, "bolo".Empréstimos europeus são decorrentes da importação de produtos industrializados, como têxteis, embalagens, entre outros. Há, também, uma relação importante entre os nomes de frutas no uolofe e em línguas europeias, decorrente da importação de muitas dessas frutas pelos colonizadores franceses. Os nomes de frutos sofrem também influência da língua portuguesa, pois os portugueses realizaram comércio com os uolofes por bastante tempo.

Criptoletos O uolofe possui uma certa riqueza de criptoletos, isso é, formas secretas ou inventadas de uma língua empregadas por um grupo específico, para manter ou não informações sigilosas. O uolofe, junto a outras línguas senegambianas, apresenta uma quantidade alta de criptoletos em relação ao número de falantes.