thumb|Boto-cor-de-rosa A lenda do boto narra que um boto-cor-de-rosa sai dos rios da Amazônia nas noites de festa para se transformar em um homem elegante, seduzir moças e retornar às águas antes do amanhecer.
Essa lenda do folclore brasileiro tem origem indígena com influência portuguesa na região Norte do Brasil e é geralmente contada para justificar a gravidez inexplicável de uma mulher solteira ou adúltera.
Origem Os uiaras (do tupi ‘yîara, de ‘y, “água”, + îara, “dono(a), senhor(a)”, “donos ou senhores das águas”) são parte de um grupo maior de gênios protetores de elementos da natureza e da sociedade tupi-guarani, como água, plantas, minerais, animais, sentimentos, etc., chamados îaras. Dessas criaturas originaram-se, em meados do século XIX, as lendas do boto sedutor (que os indígenas amazônicos já identificavam como um ser capaz de alternar entre forma humana e cetácea, como no mito aruaque do herói cultural Poronominare [ajudando-o a curar seu escroto picado por formigas e a encurtar seu longuíssimo pênis], e chamavam-no, em tupi, de “uiara”, entre outros nomes) e da iara com características da sereia européia, inexistentes nos registros coloniais e desconhecidos pelos indígenas. O caráter sedutor de ambos e a forma sirênica da última são, segundo Câmara Cascudo, contribuições portuguesas.CASCUDO, 1988, pp. 140-142.
Diz-se que o boto tem o poder de se metamorfosear tanto em homens como em mulheres, brancos (às vezes também negros), para seduzir as pessoas à beira dos rios em noites de luar. Cascudo crê que o caráter sedutor do boto amazônico seja herança trazida pelo europeu e seu golfinho mediterrâneo, que, nas antigas lendas greco-romanas, contudo, tem predileção por rapazes em vez de moças, e é associado a Afrodite e a Vênus, as deusas grega e romana do amor e da sedução.
A lenda Os botos ou uiaras são animais carnívoros cetáceos que vivem nos rios amazônidos e que, segundo a lenda, durante as festas juninas ou em noites de luar, aparece transformado em um belo rapaz, elegantemente vestido de branco e sempre com um chapéu a cobrir a grande narina que não desaparece do alto de sua cabeça com a transformação, seduzindo as jovens moças, solteiras ou não.
Esse rapaz seduz as moças desacompanhadas, levando-as para o fundo do rio e, em alguns casos, engravidando-as. Por essa razão, quando um rapaz desconhecido aparece em uma festa usando chapéu pede-se que ele o tire para garantir que não seja um boto. Daí vem o costume de dizer, quando uma mulher tem um filho de um pai desconhecido, que ele é "filho do boto".
O boto seduz as moças de comunidades ribeirinhas aos principais afluentes do rio Amazonas e é o pai de todos os filhos de responsabilidade desconhecida. Nas primeiras horas da noite transforma-se num bonito rapaz, alto, geralmente branco, forte, grande dançador e bebedor, e aparece nos bailes, namora, conversa, frequenta reuniões e comparece fielmente aos encontros femininos. Antes da madrugada pula para a água e volta a ser o boto.
José Carvalho (1930) conta dois casos tradicionais do Pará: Em um baile no igarapé dos Currais apareceram dois moços, alvos, bonitos e desconhecidos. Dançaram e beberam muito. Antes, porém, de amanhecer, eles desapareceram. A casa em que dançavam ficava distante do rio, mas no meio do caminho havia um poço com pouca água. Com a chegada do dia, viram que nesse poço estavam dois botos. Os moradores e convidados arpoaram-nos, puxaram-nos para terra e os mataram. Partiram as cabeças dos mesmos, donde exalou o cheiro de pura cachaça.CARVALHO, 1930, p. 26.
Carvalho conta em seguida o outro caso: No Cachoeiri moravam duas moças órfãs, visitadas durante a noite por dois desconhecidos vestidos de branco. Desconfiaram que os namorados eram botos, e outros dois homens armaram-se de arpões de inajá (porque os de aço são inapropriados para isso) e esperaram a noite. Apareceu apenas um dos rapazes misteriosos. Atiraram-no com três arpões e o moço conseguiu alcançar o rio e jogar-se para dentro d'água, mergulhando. No outro dia apareceu boiando, morto, um grande boto, com três arpões de inajá fincados no dorso.CARVALHO, 1930, p. 27.
Um dos observadores iniciais da lenda foi o naturalista e explorador inglês Henry Walter Bates, que ficou onze anos (1848-59) na região amazônica estudando fauna e flora. Bates, descrevendo o boto, alude à superstição amatória: "Muitas histórias misteriosas são referidas acerca do boto, como é chamado o golfinho maior do Amazonas. Uma delas era de que o boto tinha o hábito de assumir a forma de uma bela mulher, com os cabelos pendentes até os joelhos, e saindo à noite, a passear nas ruas de Ega, encaminhar os moços até ao rio. Se algum era bastante afoito a segui-la até a praia, ela segurava a vítima pela cintura e a mergulhava nas ondas com um grito de triunfo. Nenhum animal do Amazonas é sujeito a tantas fábulas quanto o boto; é provável que isso não se originasse dos índios, mas dos colonos lusitanos."BATES, Henry Walter. The naturalist on the River Amazons. London: J. Murray, 1892. p. 309. (Tradução de Câmara Cascudo.)
Num encontro entre as lendas da iara e do boto, diz-se que ela pode transformar uma pessoa nesse animal após a morte, se ela foi, em vida, "abençoada" pelo boto: quando uma pessoa vai à margem do rio, ao sol da manhã ou da tarde, deixando a sombra refletir num perau (declive no leito de um rio), se um boto-vermelho, nessa ocasião, passar-lhe sob a sombra, isto é, cortá-la, ficará "botada"; mas para que a pessoa botada fique encantada, é preciso que, depois de morta, seja o seu corpo posto à mercê das águas, e que seja posto por qualquer parente ou amigo, pois Iara há de transformá-lo em boto-vermelho.CASCUDO, 1988, p. 139
Deus dos peixes Couto de Magalhães registrou que entre os indígenas amazônicos há um deus de nome Uauiará (Uauyará), um dos quatro deuses menores guardiões dos animais sob o comando de Guaraci, o deus Sol, e os peixes estão sob a sua proteção. Uauiará se transforma no boto para melhor cuidar de seus protegidos, e, muito namorador, assume a forma humana para se divertir nas festas à beira dos rios em noites de lua cheia, seduzindo as moças, e muitas delas lhe atribuem o seu primeiro filho.
Amuleto O olho do boto, seco, é um amuleto de incrível eficácia amorosa. Não há homem ou mulher que resista sendo olhado(a) através de um olho de boto, preparado pelos processos da pajelança amazônica. José Carvalho escreveu: "Um caboclo, no porto de Alenquer, foi a bordo de um gaiola (barco a vapor) vender seu olho de boto, preparado com todas as regras do rito do pajé, e ofereceu-o ao comandante. — Para que serve? perguntou este. — Ora, 'seu' comandante, para amores! E explicou: — É só olhar para a pequena por esta 'cajila', e ela fica logo... entregue! O comandante pegou no olho de boto e, sem segunda intenção, ocasionalmente, olhou, por ele, para o caboclo. E este, se remexendo todo, sorrindo, revirando os olhos, voz afeminada, explanou: — Deixe disso, 'seu' comandante! Diante dessa evidência, dessa prova fulminante, o comandante comprou a 'cajila', e comprou-a cara!".CARVALHO, 1930, p. 61.
Questão social A lenda do boto é frequentemente associada à realidade social da região amazônica como uma forma de encobrir ou camuflar casos de violência e abuso sexual, especialmente contra crianças e adolescentes. A narrativa folclórica que descreve o boto transformando-se em um homem galanteador que seduz mulheres e as engravida é usada simbolicamente para justificar a paternidade desconhecida ou a violência sexual, transferindo a culpa do agressor (humano) para uma entidade sobrenatural.
Nas mídias Essa lenda foi contada no cinema no filme Ele, o Boto (1987), com Carlos Alberto Riccelli no papel principal.
Na telenovela A Força do Querer (2017), a protagonista Ritinha (Isis Valverde) era, segundo sua mãe Edinalva (Zezé Polessa), filha do Boto (João Sabiá).
Em 2021, Victor Sparapane fez o papel de Manaus da Silva, um encantado que podia mudar entre as formas de boto e de homem, na primeira temporada da série de televisão Cidade Invisível da Netflix.
Ver também Árion Encantados Iara Mito do Ataíde
Bibliografia CARVALHO, José. O matuto cearense e o caboclo do Pará: contribuição ao folk-lore nacional. Belém: Officinas Graphicas Jornal de Belém, 1930. CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 6. ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1988. xxiv, 812 p. (Coleção Reconquista do Brasil, 2. série, v. 151).
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