Samarcanda (; ; ; ; ), também conhecida como Marcanda (Markanda), é a terceira maior cidade do Usbequistão, situada no sudeste do país. É a capital da província homónima e uma das cidades mais antigas continuamente habitadas da Ásia Central. O município tem 89,4 km² de área e em 2020 tinha habitantes (). A área metropolitana tinha cerca de habitantes. É uma das maiores atrações turísticas e um dos centros de comércio mais importantes do país.
Embora não haja evidências diretas de quando a cidade foi fundada, algumas teorias propõem que foi fundada no ou No tempo do Império Aqueménida da Pérsia, era capital da satrapia soguediana. Foi conquistada por em A cidade foi depois governada por uma sucessão de líderes iranianos e turcomanos até ter sido conquistada pelos mongóis durante o reinado de em 1220. Samarcanda prosperou graças à sua localização, num vale fértil irrigado e na Rota da Seda, no caminho entre a China e o Mediterrâneo e em algumas ocasiões foi a maior cidade da Ásia Central.
A cidade é também famosa por ter sido um importante centro de estudos islâmicos, onde nasceu o movimento cultural e científico conhecido como Renascimento Timúrida. No , Timur (Tamerlão) fez dela a capital do seu império (Timúrida), dotando-a de magníficos edifícios dignos de uma capital imperial, como o seu mausoléu, o Gur-i Amir. Outros locais notáveis da cidade antiga são, por exemplo a Mesquita de Bibi Hanim, reconstruída durante o período soviético, e a Praça Reguistão, o antigo centro da cidade, que é rodeada por três edifícios monumentais. A cidade preservou cuidadosamente as tradições dos antigos ofícios, como os bordados, nomeadamente , tecelagem de seda e trabalhos em cobre e madeira entalhada. Entre 1925 e 1930 foi a capital da República Socialista Soviética Usbeque. Em 2001 foi inscrita na lista do Património Mundial da UNESCO com o nome "Samarcanda - cruzamento de culturas".
A Samarcanda moderna está dividida em duas partes: a antiga e a nova. Esta última desenvolveu-se durante os anos do Império Russo (a partir de 1868) e da União Soviética e é onde se situam os os edifícios governamentais, centros culturais e estabelecimentos de ensino. Na parte antiga encontram-se os monumentos históricos, lojas e as casas antigas.
Etimologia Samarqand provém dos termos soguediano samar ("fortaleza") e kand ("pedra" ou "rocha"). Aquando da conquista de , em , a cidade era conhecida em sânscrito como Marcanda , que foi transcrito em como (Maracanda). Mais recentemente, há autores que defendem uma origem etimológica anacrónica: Samarkand é um nome com origem no sânscrito e no persa antigo que significa "campo de batalha" — em sânscrito samar significa "batalha" ou "conflito" e kand ou kent "lugar" ou "área". Desta forma, o topónimo ilustra bem a posição de Samarcanda no limite dos mundos turcomano e persa.
História Da Pré-história até à conquista islâmica no Embora não haja evidências diretas de quando a cidade foi fundada, algumas teorias propõem que foi fundada no ou , pelo que, juntamente com Bucara, Samarcanda é uma das cidades mais antigas da Ásia Central. Desde os seus primeiros tempos que Samarcanda foi um dos principais centros políticos, culturais e comerciais da civilização soguediana. Durante o Império Aqueménida persa, a cidade foi a capital da satrapia soguediana. A sua localização, num vale fértil irrigado e na Rota da Seda, no caminho entre a China e o Mediterrâneo, ajudou a que prosperasse e em diversas alturas da história foi a maior cidade da Ásia Central. Ao longo da sua história, foi ocupada ou governada por diversos povos e teve comunidades religiosas muito diversas, como o budistas, zoroastristas, hindus, maniqueístas, judeus, cristãos (principalmente orientais, mas também católicos) e muçulmanos.
Em escavações arqueológicas realizadas nos limites da cidade (em Syob e no centro da cidade) e em áreas suburbanas (em Hojamazgil e Sazag'on), foram descobertos vestígios que atestam atividade humana no Paleolítico Superior, há . Nos subúrbios de Sazag'on-1, Zamichatosh e Okhalik há um conjunto de sítios arqueológicos mesolíticos do 12.º ao Os canais de Syob e de Darg'om, que abastecem de água a cidade e os seus subúrbios, foram aparentemente construídos cerca dos séculos VII a , na Idade do Ferro primitiva.
A cidade foi provavelmente fundada por soguedianos, um povo cita, que se sedentarizou na região durante o , e deu o nome a Soguediana. A cultura e a língua soguediana foram gradualmente desaparecendo com a chegada de persas muçulmanos e turco-mongóis durante a Idade Média. No entanto, os habitantes de algumas poucas aldeias em volta da cidade ainda continuam a falar um dialeto de origem soguediano. O sítio arqueológico de Afrassíabe, situado na parte nordeste da cidade, foi escavado pela missão arqueológica franco-usbeque de Soguediana (MAFOUZ). Nela foram descobertos vestígios de ocupação esporádica ao longo da Idade do Bronze e da Idade do Ferro, muralhas e um sistema de abastecimento de água urbano, que atestam uma fundação urbana entre 650 e Também foram desenterrados as ruínas duma antiga cidadela e fortificações, o palácio do soberano, que tem pinturas murais, e bairros residenciais e de artesãos.
thumb|esquerda|upright|Detalhe do mural Pintura dos Embaixadores, representando embaixadores estrangeiros, encontrado nas ruínas duma casa aristocrática de Afrassíabe do tempo do reinado do rei soguediano de Samarcanda Varcumã ()
Alexandre, o Grande conquistou Maracanda em As fontes históricas fornecem apenas algumas pistas sobre o subsequente sistema de governo, mencionando que um tal Orépio se tornou governante "não pelos seus ancestrais, mas como um presente de Alexandre". Embora a cidade tivesse sofrido danos significativos durante a conquista inicial de Alexandre, ela recuperou rapidamente e floresceu sob a nova influência helenística. Nesta altura surgiram novas técnicas de construção importantes — os tijolos oblongos foram substituídos por quadrados e foram introduzidos métodos mais avançados de alvenaria e reboco. As conquistas de Alexandre introduziram a cultura grega clássica na Ásia Central e durante algum tempo, a estética grega influenciou fortemente os artesãos locais. Este legado helenístico perdurou quando a cidade integrou vários estados sucessores nos séculos seguintes, como o Império Selêucida, o Reino Greco-Báctrio e o Império Cuchana (apesar dos cuchanas terem as suas origens na Ásia Central). Após o estado cuchana ter perdido o controlo de Soguediana durante o , Samarcanda entrou em declínio como centro económico, cultural e político, do qual só recuperou significativamente dois séculos depois.
Em 260 Samarcanda foi tomada pelos persas sassânidas. Durante o período sassânida a região tornou-se um centro importante do culto maniqueísta e contribuiu fortemente para a disseminação dessa religião na Ásia Central. No os heftalitas (hunos brancos) conquistaram a cidade e controlaram-na até terem sido derrotados pelos goturcos em aliança com os sassânidas na batalha de Bucara, . O domínio dos goturcos foi breve, terminando na sequência de terem sido derrotados na em 589. Depois da conquista muçulmana da Pérsia em meados do , a cidade foi conquistada pelo Canato Turco Ocidental, que poucos anos depois sucumbiu com as da Dinastia Tang. A cidade passou então a ser um protetorado chinês, que pagava tributo aos Tang.
Nessa época, Soguediana, de que Samarcanda era a principal cidade, era um dos centros mais importantes do comércio mundial, situada numa localização ideal, no cruzamento das rotas entre a China, Índia, Pérsia e o Império Bizantino. Os mercadores soguedianos conheceram então o seu apogeu e controlavam um vasto império comercial que dominava as trocas comerciais em toda a Ásia Central, penetrando até nos grandes impérios, em particular na China dos Tang. Os mercadores soguedianos dominaram durante muito tempo o comércio chinês graças a disposições legais que os favoreciam e alguns soguedianos chegaram mesmo a ser nomeados para casrgos importantes na administração chinesa. A maioria dos caravançarais da Rota da Seda eram de estabelecimentos soguedianos. O célebre peregrino e viajante chinês Xuanzang passou por volta de 631 por Tasquente e Samarcanda, no decurso do seu périplo em busca de manuscritos sagrados budistas e deixou o seguinte testemunho sobre a cidade:
Da conquista islâmica do até ao XIX
Cerca de 710, os exércitos do Califado Omíada comandados por tomaram a cidade aos turcos durante a conquista da Transoxiana. Em Samarcanda conviviam então diversas religiões, desde ao zoroastrismo, seguido pela maior parte da população, ao cristianismo nestoriano, passando pelo judaísmo, hinduísmo, budismo e maniqueísmo. Em geral Cutaiba não fixou árabes na Ásia Central; obrigava os governantes locais a pagarem-lhe tributo mas em larga medida dava-lhes grande autonomia. Samarcanda foi uma exceção a essa sua política: Cutaiba colocou uma guarnição e uma administração árabe na cidade, o templos do fogo zoroastristas foram demolidos, foi construída uma mesquita e grande parte da população foi convertida ao islão. Em resultado disso, a longo prazo a cidade desenvolveu-se como um centro de ensino árabe e islâmico.
Segundo a lenda, durante o Califado Abássida, foi obtido o segredo do fabrico de papel de dois prisioneiros chineses da batalha de Talas de 751, o que levou à criação da primeira do mundo islâmico em Samarcanda. O segredo espalhou-se depois para o resto do mundo islâmico e posteriormente para a Europa.
O controlo abássida direto de Samarcanda dissipou-se rapidamente e foi substituído pelo dos samânidas , que nominalmente ainda eram vassalos do califa enquanto tiveram a cidade. A cidade tornou-se a capital do Império Samânida e ganhou ainda mais importância como cruzamento de numerosas rotas comerciais. Cerca do ano 1000 os samânidas foram derrubados pelos caracânidas. Nos dois séculos seguintes, Samarcanda foi governada por uma sucessão de tribos turcomanas, incluindo os seljúcidas e os corásmios.
O autor persa do Alistacri, que viajou na Transoxiana, dá-nos uma vívida descrição das riquezas naturais da região, a que ele chamou "Soguediana Samarcandiana" (Sogd Samarcandiana): «Não conheço qualquer lugar nela ou na própria Samarcanda onde uma pessoa não veja verdura e um local aprazível se subir a um sítio alto, e em nenhum lugar perto dela há montanhas que tenham falta de árvores ou uma estepe poeirenta [...] Soguediana Samarcandiana [...] estende-se oito dias de viagem através de verdura e hortas contínuas [...] O verde das árvores e e dos terrenos semeados estende-se pelas duas margens do rio [Soguede] [...] e para além destes campos há pastagens para rebanhos. Em cada uma das cidades e aldeias há uma fortaleza [...] É o mais fecundo de todos os países de Alá; nele estão as melhores árvores e frutos, em todas as casas há hortas, cisternas e água a correr.»
O matemático, astrónomo e poeta persa Omar Caiame residiu na cidade de 1072 a 1074, antes de se instalar em Ispaã, no Irão, por convite do sultão seljúcida . Foi em Samarcanda que escreveu um tratado de álgebra.
thumb|esquerda|Painel de alabastro do período islâmico ()
Os mongóis conquistaram Samarcanda em 1220. Apesar de de "não ter perturbado de forma alguma os habitantes [da cidade]", o historiador persa Juveini relatou que os mongóis mataram todos os que se refugiaram na cidadela e na mesquita, saquearam a cidade completamente e recrutaram à força jovens e igual número de artesãos. A cidade sofreu pelo menos mais um saque dos mongóis, por , para obter o financiamento que precisava para pagar um exército. A cidade integrou o Canato de Chagatai, um dos quatro estados sucessores do Império Mongol) até 1370.