thumb|A Inscrição de Siloé comemora o momento do encontro entre dois grupos de escavadores, com a abertura do aqueduto que levava as águas do rio Giom até à zona da Cidade de David em Jerusalém. O aqueduto foi construído por iniciativa de Ezequias, Rei de Judá, por volta de 703 a.C. – Museu Arqueológico de Istambul A arqueologia bíblica é um ramo da arqueologia especializado em estudos dos restos materiais relacionados direta ou indiretamente com os relatos bíblicos e com a história das religiões judaico-cristãs. A região mais estudada pela arqueologia bíblica, na perspectiva ocidental, é a denominada Terra Santa, localizada no Médio Oriente.
Os principais elementos desta ciência arqueológica são, em sua maioria, referências teológicas e religiosas, sendo considerada uma ciência em toda a sua dimensão metodológica. Assim como se dá com os registros históricos de outras civilizações, os manuscritos descobertos devem ser comparados com outras sociedades contemporâneas da Europa, Mesopotâmia e África.
As técnicas científicas empregadas são as mesmas da arqueologia em geral, com escavaçõesThe MoLAS archaeological site manual MoLAS, London 1994. ISBN 0-904818-40-3. Rb 128pp. bl/wh}} e datação radiométrica, entre outras. Em contraste, a arqueologia do antigo Médio Oriente é mais ampla e generalizada, tratando simplesmente do Antigo Oriente sem tentar estabelecer uma relação específica entre as descobertas e a Bíblia.
A alta crítica
A historicidade e autenticidade dos registros bíblicos tem sido alvo de controvérsia por parte de estudiosos críticos, cuja forma de pensar é usualmente chamada de alta crítica. Nestes estudos junto com a crítica textual, várias vezes são proferidas declarações polémicas sobre o que a autoridade escriturística exige e o que ela implica. Este ceticismo em relação à confiabilidade das Escrituras iniciou-se no e subsiste em muitos círculos acadêmicos. Esta alta crítica acabou por incentivar pesquisas arqueológicas mais extensas por parte de muitos historiadores e arqueólogos. O principal objetivo da ciência arqueológica não é provar ou desacreditar a Bíblia em sentido teológico. Neste sentido, o artigo arqueologia bíblica se concentra primariamente em pesquisas e descobertas arqueológicas relacionadas com os relatos bíblicos. Ainda assim, a arqueologia bíblica é uma matéria de estudo polémica, com várias perspetivas sobre qual o seu propósito e as suas metas. Analisando os comentários de historiadores e de destacados arqueólogos, podem encontrar-se os mais variados pontos de vista.
A arqueologia
thumb|500px|centro|<center>O estandarte de Ur: A «Cara da Guerra». Descoberto por Leonard Woolley nos anos 1920, encontra-se atualmente no Museu Britânico de Londres Para compreender plenamente o objetivo da arqueologia bíblica é necessário entender a arqueologia como método científico e a Bíblia como objeto de investigação.
A arqueologia é ao mesmo tempo técnica e ciência. Como técnica, busca os restos materiais das civilizações antigas e trata de reconstruir, na medida do possível, o ambiente e as civilizações de uma ou várias épocas históricas. Trata-se de uma ciência moderna, ainda considerada recente, com apenas duzentos anos.
Poder-se-ia pensar que a arqueologia tende a omitir os dados oferecidos pelas religiões e por muitos sistemas filosóficos. No entanto, além dos artefatos e locais arqueológicos tais como lugares de culto, relíquias e outros elementos de ordem sagrada bem como outros objetos cientificamente observáveis, existem aspectos que são igualmente importantes para a investigação científica arqueológica. Entre estes estão conceitos imateriais como os ritos, livros sagrados e a cultura. O mito é usualmente utilizado na arqueologia e na história como uma pista da verdade que poderá esconder. Esta nova percepção contemporânea do mito motivou a ciência arqueológica a buscar novos dados nos territórios descritos nos relatos bíblicos.
Campo de estudo thumb|300px|Museu de Israel, em Jerusalém, conserva tesouros apreciados para a investigação e a exploração científica e bíblica
A arqueologia bíblica é a disciplina que se ocupa da recuperação e investigação científica dos restos materiais de culturas passadas que podem iluminar os períodos e descrições da Bíblia. Usa-se como base de tempo, um amplo período entre o ano e Outros preferem falar de arqueologia da Palestina,J.M. Vernet, "Curso Básico de Arqueologia Bíblica", Teologado Salesiano Internacional de Ratisbonne, Jerusalém, 2001 (em italiano), p. 5 referindo-se aos territórios situados ao leste e oeste do Rio Jordão. Esta designação expressa o facto da arqueologia bíblica estar especialmente circunscrita aos territórios que serviram de cenário aos relatos bíblicos.Arqueólogo eter Kaswalder, professor de exegese e arqueologia do Antigo Testamento no Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém
A função da arqueologia bíblica não é confirmar ou desmentir os eventos bíblicos, nem pretende influenciar determinadas doutrinas teológicas, tal como a da salvação. Limita-se ao plano científico e não entra no terreno da fé. Ainda assim, alguns resultados da arqueologia bíblica podem e têm contribuído para: Aumentar o conhecimento sobre alguns dados históricos descritos nos relatos bíblicos envolvendo governantes, personagens, batalhas e cidades. Descrever alguns detalhes concretos referidos nos livros bíblicos tais como o Túnel de Ezequias, a piscina de Siloé, o Gólgota, entre outros. Fornecer dados que prestam uma ajuda fundamental aos estudos exegéticos.
Espaço O espaço geográfico da arqueologia bíblica envolve as terras bíblicas chamadas, no sentido religioso, de "Terra Santa". Assim sendo, os trabalhos de pesquisa centralizam-se especialmente em Israel, Palestina e Jordânia. Também existem outros cenários mencionados pelos relatos bíblicos com grande importância tais como o Egito, Assíria, Síria, Mesopotâmia e o Império Aquemênida. Outras regiões como a Ásia Menor, Macedônia, Grécia e Roma estão particularmente relacionadas com os relatos do Novo Testamento.
Tempo esquerda|thumb|350px|O Médio Oriente — cenário de acontecimentos que inspiraram os escritores bíblicos
Da mesma maneira que os critérios de espaço variam segundo os diversos pontos de vista de autores diferentes, o mesmo acontece com os critérios do tempo, ou seja, do período temporal sobre o qual as pesquisas devem incidir. Peter Kaswalder, professor de arqueologia do Antigo Testamento em Jerusalém, define esse tempo como um período que vai desde o , que corresponde às primeiras datações de Jericó, até o ano 700 que marca o início das invasões muçulmanas. Este período de tempo é muito discutido por alguns autores. Um segundo período ainda maior e também referido nos relatos bíblicos tem início na Idade do Bronze, por volta do ano que corresponde desde os Patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó), até finais do , com a morte do último apóstolo, João, o Evangelista, e o fim da chamada Igreja Apostólica. Estes termos, igreja primitiva ou dos apóstolos, refere-se à época de vida das primeiras pessoas que se identificavam como cristãs, tempo em que teriam vivido os apóstolos de Jesus, incluindo Paulo de Tarso. Este período apostólico terminou com a morte de João, o Evangelista, numa data desconhecida que se presume rondar o ano 110.
História A história da arqueologia bíblica é tão recente como a da arqueologia em geral. O seu desenvolvimento despontou com a descoberta de achados de primeira importância para a mesma. Alistam-se em seguida alguns dos achados arqueológicos bíblicos mais importantes das últimas décadas segundo a compilação do Centro de Estudos Ratisbonne de Jerusalém.El Teologado Salesiano Ratisbonne é um centro de estudos bíblicos localizado na cidade de Jerusalém afiliado a Pontifícia Universidade Salesiana (UPS) de Roma
Algumas descobertas relevantes direita|thumb|400px|Uma reconstrução de Jerusalém do , possivelmente graças à arqueologia Bíblica O Papiro P52:Conhecido também como o fragmento de São João, é um fragmento de papiro exposto na Biblioteca de John Rylands, Manchester, Reino Unido O Papyrus P52 da Biblioteca de Rylands é o texto mais antigo que se conhece do Novo Testamento. Foi descoberto em 1920, no deserto do Médio Egito, e tornou-se público em 1935. As cavernas de Qumrán descobertas em 1947 por beduínos e cujas escavações iniciaram-se em 1950. Entre 1962 e 1963 foi encontrado o papiroUm papiro é um manuscrito feito da planta do Papiro, um dos mais antigos materiais de escrita. Os textos mais antigos e conservados da Bíblia, foram escritos em papiro de Wadi Daliyyat, conhecido por Papiro de Samaria, da época persa. Em 1964 foi descoberto o Papiro de Ketej-Jericó da época persa-helenística.O professor de línguas semíticas da Universidade de Harvard, Frank M. Cross, reconstruiu e traduziu fragmentos de rolos do papiro encontrados numa caverna ao norte de Jericó. Diz-se que datam do Em 1991, foi descoberta a chamada Tumba de Caifás Em 1993 foi descoberta a Estela de Tel Dã:Trata-se duma pedra de basalto escuro que menciona a "Casa de David", com a inscrição bytdwd, (byt casa dwd David). Em 1996 foi descoberta a inscrição de Ecrom (Tel Mikné) contendo o nome da cidade filisteia de Ecrom e uma lista dos seus reis. Em 1997, foi descoberto o antigo monastério de Katisma. Em 1998, foi descoberta a sinagoga de Jericó datada do ano (Ehud Netzer). Em 2001 foi descoberta a Estela de Joás, rei de Judá. Em 2002 O Ossuário de Tiago, objeto de polêmica desde o seu descobrimento, após muita batalha judicial, de muitas análises e pareceres dos especialistas, foi finalmente reconhecida como legitima (o "Tiago" é identificado como sendo Tiago, irmão de Jesus).A revista "Isto É", edição 2140, de 12 de novembro de 2010, traz uma matéria intitulada: "Peritos negam que ossuário de irmão de Jesus seja falso". Link: http://www.istoe.com.br/reportagens/110487_PERITOS+NEGAM+QUE+OSSUARIO+DE+IRMAO+DE+JESUS+SEJA+FALSO Em 2007, foi encontrado o túmulo de Herodes.
A arqueologia bíblica é também objeto de célebres falsificações motivadas por múltiplos interesses. Uma das mais conhecidas surgiu em 2002 quando se publicou o suposto achado de um túmulo (ossário) com uma inscrição que dizia "Tiago, filho de José e irmão de Jesus". Na realidade, o artefacto havia sido construído apenas vinte anos antes, portanto numa época muitíssimo posterior. As características do objeto encontrado não correspondiam ao padrão do , revelando a sua falsidade e expondo as estranhas circunstâncias relacionadas com a sua posse e descoberta.
Etapas da arqueologia bíblica O desenvolvimento da arqueologia bíblica tem sido marcado por diferentes períodos da história da humanidade, entre os quais se referem os seguintes: Antiguidade: Ainda que se considere a arqueologia como uma ciência moderna, é necessário reconhecer que muitos autores, ao longo da história, têm contribuído com documentos valiosos que são hoje elementos de trabalho imprescindíveis. Entre muitos destes elos históricos, os mais importantes são Flávio Josefo, Orígenes, Eusébio de Cesareia e o Diário de Egéria.