Cabo Verde, oficialmente como República de Cabo Verde, é um país arquipelágico no Oceano Atlântico central, ao largo da costa da África Ocidental. É constituído por dez ilhas vulcânicas com uma área total de cerca de 4.033 quilómetros quadrados. Estas ilhas situam-se entre 600 e 850 quilómetros a oeste de Cabo Verde (ou seja, Dakar), o ponto mais ocidental de África continental, que lhes dá o nome. Cabo Verde faz parte da ecorregião da Macaronésia, juntamente com os Açores, as Ilhas Canárias, a Madeira e as Ilhas Selvagens.

O arquipélago permaneceu desabitado até a chegada dos portugueses no século XV. Entre 1460 e 1462, navegadores a serviço de Portugal chegaram às ilhas, e Ribeira Grande, na ilha de Santiago, tornou-se a primeira povoação fundada no arquipélago e o primeiro posto colonial europeu nos trópicos. Sua posição estratégica no Atlântico fez de Cabo Verde um importante entreposto do comércio entre a África, a Europa e as Américas, incluindo o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, sobretudo nos séculos XVI e XVII. A economia colonial também esteve ligada à produção e ao comércio de açúcar, algodão, índigo e tecidos, além da circulação de mercadorias provenientes da África Ocidental. A partir dos séculos XVIII e XIX, o declínio do tráfico de escravizados, as secas recorrentes e as dificuldades econômicas reduziram a importância de algumas atividades comerciais e estimularam a emigração. Posteriormente, a posição do arquipélago nas rotas marítimas do Atlântico favoreceu a recuperação de sua importância comercial, especialmente com o desenvolvimento de portos como Mindelo, que se tornou um importante centro de abastecimento e comércio no século XIX.

Cabo Verde tornou-se independente em 1975. Desde o início da década de 1990, tem sido uma democracia representativa estável e permanece um dos países mais desenvolvidos e democráticos da África. Sem recursos naturais, sua economia em desenvolvimento é predominantemente voltada para serviços, com um foco crescente no turismo e no investimento estrangeiro. Com uma população de cerca de 530 mil pessoas, está entre os países menos populosos da África. O povo cabo-verdiano traça sua ancestralidade principalmente a populações da África Ocidental, com contribuições adicionais dos primeiros colonizadores portugueses e de outros grupos que chegaram às ilhas. Existe uma diáspora considerável em todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos e em Portugal, que supera em muito o número de habitantes das ilhas. É um Estado-membro da União Africana.

A língua oficial é o português, enquanto a língua nacional reconhecida é o crioulo cabo-verdiano, falado pela grande maioria da população. De acordo com o censo de 2021, as ilhas mais populosas eram Santiago (269.370) – que alberga a capital e maior cidade do país, Praia – São Vicente (74.016), Santo Antão (36.632), Fogo (33.519) e Sal (33.347). As maiores cidades são Praia (137.868), Mindelo (69.013), Espargos (24.500) e Assomada (21.297).

Etimologia O nome do país provém do vizinho Cabo Verde, na costa senegalesa,Lobban, [ p. 4]. avistado por exploradores portugueses em 1444, alguns anos antes de as ilhas serem descobertas. Em 24 de outubro de 2013, foi anunciado nas Nações Unidas que o nome oficial não deveria mais ser traduzido para outras línguas. Em vez de traduções de "Cabo Verde" em diversas línguas, a designação em português está a ser usada para fins oficiais, como na Organização das Nações Unidas (ONU).

História

Colonização europeia

thumb|esquerda|Uma aquarela de Cidade Velha de 1646, de autoria de Caspar Schmalkalden thumb|esquerda|Igreja Nossa Senhora do Rosário, construída em 1495, a mais antiga igreja colonial do mundo, na Cidade Velha, na Ilha de Santiago

A história refere que a descoberta de Cabo Verde se deu no século XV, mais precisamente em 1460. A colonização portuguesa começou logo após a sua descoberta, sendo as primeiras ilhas a serem povoadas as de Santiago e Fogo. Para incentivar a colonização, a corte portuguesa estabeleceu uma carta de privilégios aos moradores de Santiago relativa ao comércio de pessoas escravizadas na Costa da Guiné. Na Ribeira Grande, na ilha de Santiago, estabeleceu-se a primeira feitoria, que serviu ponto de escala para os navios portugueses e para o tráfego e comércio de pessoas escravizadas, que começava a crescer por essa época. Mais tarde, com a abolição da escravatura, o país começou a dar sinais de fragilidade e entrou em decadência, revelando uma economia pobre e de subsistência.Chabal, Patrick (1993). "Some reflections on the postcolonial state in Portuguese-speaking Africa". Africa Insight. 23: 129–135.

No século XX, a partir da década de 50, começam a surgir os movimentos independentistas no continente africano. Cabo Verde vinculou-se à luta pela libertação da Guiné-Bissau, lutando contra o colonialismo português e promovendo marchas pela independência em todo o país.

A posição estratégica das ilhas nas rotas que ligavam Portugal ao Brasil e ao resto da África contribuiu para o facto de essas serem utilizadas como entreposto comercial e de aprovisionamento. Abolido o tráfico de escravos em 1876, o interesse comercial do arquipélago para a metrópole portuguesa decresceu, só voltando a ter importância a partir da segunda metade do século XX. No entanto, a partir de então, já haviam sido criadas as condições para o Cabo Verde independente de hoje: europeus e africanos uniram-se numa simbiose, criando um povo de características próprias.

Durante a colonização portuguesa, as secas crónicas devidas à desflorestação levaram a fomes regulares, sem que a colónia recebesse qualquer ajuda alimentar. Entre 1941 e 1948, 50 mil pessoas morreram, ou seja, mais de um terço da população, enquanto as autoridades portuguesas permaneceram indiferentes.Antoni Castel, Cabo Verde: Historia, identidad y cultura, La Catarata, 2020

Independência As origens históricas nacionais da independência de Cabo Verde podem ser localizadas no final do século XIX e no início do século XX. Foi um processo gradual. Surgiu como uma tentativa de solução para as reivindicações da elite crioula de então, que protestava contra o desleixo e a negligência da metrópole portuguesa em relação ao que se passava em Cabo Verde.António Costa Pinto, "The transition to democracy and Portugal's decolonization", in Stewart Lloyd-Jones and António Costa Pinto (eds., 2003). The Last Empire: Thirty Years of Portuguese Decolonization (Intellect Books, ISBN 978-1-84150-109-3) pp. 22–24. Com o processo de formação nacional, muito cedo a máquina administrativa foi sendo assegurada pelos nascidos em Cabo Verde, ou pelos que já tinham grande identificação com a colónia, com excepção aos cargos elevados como governadores, chefes militares etc., ainda reservados aos representantes da soberania de Portugal. Esta "autossuficiência" administrativa de Cabo Verde estava associada a uma escolarização relativamente desenvolvida e à existência de uma imprensa mais ou menos dinâmica introduzida por Portugal, que contribuíram para o surgimento de uma elite intelectual e burocrática. Esta começou, no século XX, a discutir cada vez mais a questão da independência, gerando um clima de atrito com os representantes da metrópole. Os leitores que acompanhavam a imprensa oficial entendiam que se devia lutar pela independência ou, pelo menos, por uma autonomia honrosa. thumb|Bandeira de Cabo Verde (1975-1992)

O processo de independência Cabo-Verdiana esteve sempre ligada a Guiné-Bissau, na altura também uma colónia Portuguesa. Em 1956, partidários pela independência de ambos os países formaram o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), estando entre os fundadores vários Cabo-Verdianos radicados em Guiné-Bissau, tais como Amílcar Cabral (líder do movimento até à sua morte em 1973) Aristides Pereira, e Luís Cabral. O PAIGC tinha como objectivo a lutar contra o que chamavam de "deplorável política ultramarina portuguesa", e eventualmente unir as duas colónias num único sistema político. Ao contrário do que aconteceu em Guiné-Bissau, nunca foram realizadas atividades de guerrilha no território de Cabo Verde. Apesar de o PAIGC ter organizado uma estrutura clandestina nas ilhas, problemas de logística, controlo apertado da PIDE, uma seca prolongada, e a falha do previsto apoio Cubano tornaram impossível uma maior presença do movimento em Cabo Verde.

Com o fim do regime político do Estado Novo em Portugal a 25 de abril de 1974, foi criada em Cabo Verde a Frente Ampla Nacional e Anticolonial, tendo como objectivo unir os diferentes nacionalistas Cabo-Verdianos numa única organização. Ao mesmo tempo, ocorreram manifestações pela libertação de prisioneiros políticos encarcerados no campo de concentração do Tarrafal, e o PAIGC começou a enviar os primeiros guerrilheiros para as ilhas. A 26 de Agosto de 1974 foi assinado o Acordo de Argel, que reconheceu formalmente a independência de Guiné-Bissau e “o direito do povo de Cabo Verde à autodeterminação e independência”. A 14 de Setembro desse mesmo ano o Presidente da República Portuguesa, António de Spínola, visitou Cabo Verde, tendo sido recebido por manifestações da população (incitada pelo PAIGC) a exigir uma resolução rápida para o problema da independência.

No entanto, Portugal ainda hesitava em entregar poder ao PAIGC devido a vários motivos: a percepção por Spínola e outros políticos (como Mário Soares, que preferia autonomia administrativa semelhante a Açores e Madeira, em vez de independência) de que Cabo Verde era culturalmente mais similar a Portugal do que a Guiné-Bissau, a falta de consenso sobre o PAIGC entre a população Cabo-Verdiana, e a viabilidade económica do novo estado que atravessava uma seca de 7 anos e era muito dependente de Portugal. Além disso, no contexto da Guerra Fria, a posição geoestratégica de Cabo Verde teria grande interesse para os Estados Unidos, que se poderia opor à independência, visto que o PAIGC era aliado à União Soviética. Em resposta o PAIGC tomou uma posição mais agressiva, tendo havido confrontos entre apoiantes do PAIGC e elementos das forças armadas Portuguesas, a PSP, e a Polícia Militar, e tendo sido realizada uma greve da função pública com forte adesão. Ao mesmo tempo, o PAIGC começou a preparar uma possível ação armada no arquipélago (até à demissão de António de Spínola, que levou a uma alteração desses planos).LOPES, José Vicente. Cabo Verde, as Causas da Independência. Praia, 2005.

A 19 de Dezembro de 1974 foi assinado um acordo entre o governo Português e o PAIGC que afirmava “o direito do Povo de Cabo Verde à autodeterminação e independência” (artigo 1º), e previa que um governo de transição seria nomeado até à efectivação de independência. Esse governo de transição, liderado pelo Alto-Comissário Almirante Vicente Almeida d’Eça, e composto por elementos apontados pelo PAIGC, tomou posse 12 dias mais tarde. Foi função deste governo começar a lidar com os muitos problemas do país, incluindo a seca, a falta de bens alimentares, o desemprego generalizado, as dificuldades de financiamento, e o regresso de emigrantes vindos de Angola.

Pós-independência thumb|esquerda|Sede do Partido Africano da Independência de Cabo Verde

A independência foi finalmente declarada na cidade de Praia a 5 de Julho de 1975, tendo o PAIGC (e o seu sucessor PAICV) estabelecido um sistema de partido único que governou as ilhas até 1990, quando as primeiras eleições multipartido foram realizadas, e o artigo que considerada o PAICV como a única força política foi removido da Constituição.