A Praça-forte de Peniche, ou Fortaleza de São Francisco, é uma construção fortificada de natureza abaluartada que servia de praça militar e cidadela da vila de Peniche, localizada na região Oeste e no extremo sul do distrito de Leiria em Portugal, que desde 1938 está classificada como Monumento Nacional.Ficha na base de dados SIPA
A fortaleza está implantada na encosta sul da Península de Peniche, sobre as falésias, entre o porto de pesca, a este, e a Gruta da Furninha a oeste.Nós e o nosso património - artigo de José Vale em Jornalíssimo, 23 de agosto 2019A cidadela do mar, roteiro do museu-fortaleza de Peniche de Jean-Yves Blot, edição da Câmara Municipal de Peniche, 1986Molhe do Portinho do Revez – artigo histórico sobre a construção dos molhes do porto de Peniche entre 1935 e 1974 em Ceocahing
Atualmente, a fortaleza aloja o Museu da Resistência e da Liberdade, o qual faz parte da Rede Portuguesa de Museus.Município de Peniche e Universidade Sénior dinamizam disciplina de conservação e restauro O passado, modos de usar – artigo do jornal Público de 26 de janeiro 2017
História O Castelo da Vila
O antigo lugar da Ribeira d’Atouguia, na foz desse rio, era um dos mais importantes portos portugueses da Idade Média, ponto de acesso privilegiado a localidades do centro do país (Lisboa, Óbidos, Torres Vedras,Santarém e Leiria), estando implicada em importantes episódios da História de Portugal.ORIGENS DE ATOUGUIA DA BALEIA no site da junta de freguesia da Atouguia da Baleia
Sendo alvo frequente de ataques de corsários, ingleses, franceses e berbéres,Piratas e Corsários Escravos da berbéria: a época em que europeus cristãos eram sequestrados o rei D.Manuel I (1495-1521) encarrega o conde de Atouguia de elaborar um plano para a defesa daquela linha de costa, o qual é finalizado já no reinado de D. João III (1521-1557). Os trabalhos de construção iniciados sob a supervisão de D. Luís de Ataíde em 1557, e correspondentes à estrutura abaluartada, são concluídos por volta de 1570, já no reinado de D. Sebastião (1557-1578).
Durante a Regência Filipina, é em Peniche que desembarcam os soldados ingleses, enviados por Isabel I de Inglaterra, os quais sob o comando de D. António Prior do Crato, marcham sobre Lisboa (julho de 1589), na tentativa gorada de restauração da independência.
A povoação pesqueira foi elevada a vila em 1609, depois de efetuados alguns reparos nas suas muralhas.Peniche, povoação elevada a vila em 1609 – apontamento histórico no site da CMP
A Guerra da Restauração e a fortificação abaluartada No contexto da Guerra de Restauração da Independência, o Conde D. Jerónimo de Ataíde prosseguiu as obras de fortificação de Peniche, sob projetos do engenheiro militar francês Nicolau de Langres e, posteriormente, do português João Tomaz Correia,Tal decisão inicia o processo de cedência das Fortalezas marítimas da Costa Sudoeste – artigo de António Quaresma, que destaca o seguinte : « As populações do Magrebe, arredadas do grande comércio que se desenvolvia à escala mundial, tinham no corso uma forma de sobreviver a uma crise que o tempo inexoravelmente agravava. O roubo e o rapto de pessoas destinadas aos mercados de escravos das cidades do Norte de África, ou a serem resgatadas, era o principal objectivo.» que ficaram concluídas por volta de 1645.Peniche vai ter um museu único na Europa do Sul – artigo de Isabel Salema no suplemento Ipsilon do jornal Público 28 de abril 2018PENICHE, A CHAVE DO REINO – catálogo da exposição no 400º aniversário (2009) da elevação de Peniche a vila (1609), referindo com desenhos o conjunto de todas as construções defensivas da península e da Berlenga (CMP)“PENICHE: A CHAVE DO REINO – 400 ANOS A DEFENDER PORTUGAL” - ilustrações com texto em inglês, francês e espanhol (CMP)Criação pelo Decreto-lei 709-B/76 do Museu da República e do catálogo da exposição (download PDF)
Esta fortificação era coadjuvada pelo Forte da Praia da Consolação e pelo Forte de São João Baptista das Berlengas, formando um extenso sistema defensivo que entretanto se revelou ineficaz durante a Guerra PeninsularO Exército Português e o Apoio Britânico na Guerra Peninsular – artigo de Sérgio Coelho na Revista Militar, agosto/setembro de 2009 perante a invasão napoleónica de 1807 sob o comando de Jean-Andoche Junot), tendo permanecido ocupada por tropas francesas desde o final desse ano até agosto de 1808.Apontamento histórico da Câmara Municipal de PenichePeniche – Pormenores – XXVII – artigo em Largo dos Correios
Os invasores melhoraram no entanto as suas defesas e picaram as armas de Portugal no portão principal da fortificação. Ocupada por tropas inglesas sob o comando de William Carr Beresford, foram feitas novas melhorias nas defesas, o que se repetiu sob o reinado de Miguel I de Portugal (1828-1834), culminando na ampliação do perímetro defensivo.As grandes mentiras da História de Portugal - artigo no site Visão/Sapo (ver capítulo OS AMIGOS DE PENICHE), 24 de agosto 2011 A fortificação teve entretanto débil atuação durante a Guerra Civil Portuguesa.
Em 1836, a Praça-forte viveu dois eventos funestos: o incêndio que destruiu completamente o chamado Palácio do Governador (que não voltaria a ser recuperado) e uma explosão da pólvora armazenada num dos paióis.
Neste século, diante da progressiva perda da sua função defensiva, as suas instalações passaram a ser utilizadas como prisão (época das Invasões Napoleônicas) e posteriormente como prisão política (época das Guerras Liberais, quer para liberais, quer para absolutistas). Teve utilização militar até 1897. Um dos seus últimos governadores foi José Tomas de Cáceres (filho).Palácio do Governador – apontamento histórico no site da CMPPROJETO DE RESOLUÇÃO N.º 785/XIII do grupo parlamentar do Partido Socialista apresentado na Assembleia da República, 31 de março de 2017 (Recomenda ao Governo a preservação, conservação e dignificação da Fortaleza de Peniche)
Do século XX aos nossos dias 320x320px|thumb|Ameias da fortaleza|alt= No alvorecer do século XX foi utilizada, após a vitória inglesa na África do Sul, como abrigo para os bôeres que se encontravam refugiados na colónia portuguesa de Moçambique, com Peniche recebendo 340 pessoas. À época da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), nela estiveram detidos alemães e austríacos, convertendo-se, durante o Estado Novo português (1930-1974), em prisão política de segurança máxima (1934), época em que se tornaria palco de duas célebres e espetaculares fugas.13 ROSTOS – trabalho do jornal Público com filme e entrevistas em vídeo
Na madrugada de 18 para 19 de dezembro de 1954, António Dias Lourenço, o encarcerado dirigente do Partido Comunista, que quinze dias antes provocara um incidente para ser recolhido ao "segredo", conseguiu evadir-se por uma abertura de 20 x 40 centímetros que serrou na almofada da porta da cela, descendo em seguida 20 metros de muralha até ao mar com uma corda feita com lençóis rasgados em tiras. A improvisada corda rompeu-se, fazendo-o cair ao mar. Foi arrastado para o largo por refluxo das ondas. Com muito esforço, esgotado, conseguiu no entanto alcançar terra e lograr escapar esc\ondido, com a conivência de pescadores, numa camioneta de transporte de pescado.Brumas, filme de Ricardo Costa, em que Dias Lourenço descreve em pormenor a sua fuga da prisão numa visita guiada ao forte de Peniche (verão de 2001) A este episódio estão associados factos tendenciosamente omissos ou subestimados pela memória de um povo submisso em consequência de mais de quarenta anos de fascismo de Salazar, por historiadores propícios ao esquecimento ou por outras pessoas, ao ouvirem falar disso. A ajuda decisiva de pescadores de Peniche a Dias Lourenço, quando fugiu do forte, é revelador dos sentimentos da grande maioria das gentes humildes de Peniche, que bem sabiam dos horrores a que os presos entram submetidos. A pesca sempre foi vida ingrata como ingrata era a vida dos trabalhadores portugueses. Mantém-se votada ao esquecimento a “Guerra das Espoletas”, dramático episódio ocorrido em Peniche na década de trinta, que só recentemente mereceu a atenção de historiadores.
Ano de 1956: « São demolidas as antigas casernas militares e construídos (por presos de delito comum) três blocos prisionais de alta segurança, os Blocos A, B e C, da autoria do arquitecto Rodrigues LimaTeatro do Mundo, texto na Biblioteca Digital), tendo passado a ser designada por Cadeia do Forte de Peniche ».Programa Preliminar Pág. 7 do concurso público, da Ordem dos Arquitectos thumb|Fosso da cidadela (a oeste)|alt=|esquerda
A 3 de janeiro de 1960, tem lugar a memorável "fuga de Peniche", protagonizada por Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Carlos Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel,Francisco Miguel Nota biográfica José Carlos, Guilherme Carvalho, Pedro Soares, Rogério de Carvalho e Francisco Martins Rodrigues, graças à conivência de um guarda republicano que anuiu à imobilização com clorofórmio de um seu colega responsável pela vigilância dos prisioneiros. O guarda em questão conduziu os fugitivos, um a um, agachados debaixo do seu capote de oleado, até a um troço mais escuro da muralha, de onde desceram para o exterior com o auxílio da referida corda feita de lençóis.Fuga de Álvaro Cunhal – breve nota em CITI, sem dataPeniche 1950 - Lembranças de uma fuga – artigo, PCP, Organização Regional de Lisboa, sem dataEvocação da Fuga de Peniche – vídeo da RTP, 3 de janeiro 2010] Desses negros anos outros testemunhos restam, ditados por outros ideários.«Viagem ao centro do mundo da Maria José e do Zé Luís» – entrevista a Maria José Morgado e a José Luís Saldanha Sanches publicada na pág. de Caminhos da Memória a 6 de outubro 2008A GNR fez 100 anos e deixou de meter medo – artigo no jornal Público, 26 de maio 2011
Em 25 de abril de 1974, ao eclodir a Revolução dos Cravos, o forte foi um dos objetivos principais da ação dos militares revolucionários. Passou depois a ser utilizada como abrigo para os retornados dos ex-territórios ultramarinos portugueses na África quando do processo de descolonização.Uma Ilha na Península: o centro de acolhimento para refugiados de Peniche (1977-1982) – tese de mestrado de Alexandre Audigane, ISCTE / IUL, 2011Terra prometida – artigo de Ruy Belo em Caminhos da Memória, 20 de abril 2010Como uma Ideia Moderna se Corrompe pela Periferia – filme de José Nascimento e Ana Pissarra para a RTP 2, episódio 1 de 3, duração: 54 min (o filme retrata a vida de uma elite de colonos portugueses em Maputo)
Museu
No início dos anos oitenta, quando os retornados saíram do forte, apoiado pela Câmara Municipal de Peniche, um grupo de cidadãos, com a colaboração de pessoas e entidades de diversas áreas entre as quais o Museu Nacional de Arqueologia, criou no Forte de Peniche um museu vocacionado para invocar por um lado factos e memórias da resistência antifascista contra o Estado Novo (sector da resistência) e por outro do passado de Peniche, dando relevo ao mar como elemento dominante no seu contexto natural e histórico (sector local) A maior parte do património provém de doações feitas nessa altura. Nessa fase também várias iniciativas culturais foram realizadas com regularidade no Salão Nobre do forte, que desapareceu com as obras feitas em 2019, sem qualquer justificação.Salão Nobre da fortaleza de Peniche na pág. da CMPPeniche, a chave do reino – exposição no Salão Nobre do Forte de Peniche, de 12 de novembro de 2009 a 26 de septembro de 26, 2010