O tubarão-peregrino ou tubarão-frade (nome científico: Cetorhinus maximus) é uma espécie de tubarões lamniformes, única representante do género Cetorhinus e da família monotípica dos cetorrinídeos (Cetorhinidae). Com até 12 metros de comprimento, este tubarão planctívoro é o segundo maior peixe conhecido, apenas menor que o tubarão-baleia.
Um alimentador de filtro de movimento lento, de tal ordem que o seu nome comum em inglês (Basking) deriva do hábito de se alimentar à superfície, parecendo estar a aquecer-se nas águas mais quentes. Possui adaptações anatómicas à alimentação por filtragem, como a boca muito alargada e rastros branquiais altamente desenvolvidos. Tem um focinho cónico e as fendas branquiais estendem-se em redor da cabeça. Serve-se dos rastros branquiais, escuros e parecidos com cerdas, para capturar o plâncton à medida que a água filtra pela boca e sobre as brânquias. Conta com numerosos e muito pequenos dentes, os quais amiúde se chegam a embrincar em fileiras de 100. Os dentes têm uma única cúspide cónica, são curvados para trás e são os mesmos em ambos os maxilares, superior e inferior.
Esta espécie tem o menor tamanho de cérebro em relação ao peso de qualquer tubarão, o que reflete o seu estilo de vida relativamente passivo. A espécie tem distribuição cosmopolita, embora migrando sazonalmente em função das disponibilidades de plâncton, sendo encontrado nas águas temperadas de todos os oceanos. Com base em rastreamento por satélite, descobriu-se que os tubarões-peregrinos, ao contrário do que julgava com base em teorias anteriores, não hibernam. O tubarão-peregrino tem sido um peixe comercialmente importante como fonte de alimento, especialmente na caça às barbatanas, mas também para a confecção de rações animais e para a extracção de óleo de fígado. A superexploração desta espécie reduziu as populações até ao ponto de algumas desaparecerem e outras necessitarem de proteção.
Nomes comuns Dá ainda pelos seguintes nomes comuns: frade, peixe-frade (não confundir com a espécie Pomacanthus paru, que no Brasil também dá por este nome), padre e carago (também grafado peixe-carago). Regionalmente, em Cabo Verde, além dos nomes comuns «frade» e «peixe-carago», é ainda conhecido pelos regionalismos albafar (não confundir com a espécie Hexanchus griseus, que é conhecida por este nome no resto da lusofonia) e relengueiro. Regionalmente, no Brasil, também pode ser conhecido como cação-peregrino-argentino.
Taxonomia
O tubarão-peregrino é o único membro existente da família monotípica dos cetorinídeos (Cetorhinidae), parte da ordem dos lamniformes. Johan Ernst Gunnerus descreveu pela primeira vez a espécie como Squalus maximus, a partir de um espécime encontrado na Noruega, nomeando-o. Seguindo sua descrição inicial, mais tentativas de nomeação incluíram: Squalus isodus, em 1819 pelo zoólogo italiano Saverio Macri ; Squalus elephas, de Charles Alexandre Lesueur em 1822; Squalus rashleighanus, de Jonathan Couch em 1838; Squalus cetaceus, de Laurens Theodorus Gronovius em 1854; Cetorhinus blainvillei pelo biólogo português Felix Antonio de Brito Capello (1828–1879) em 1869; Selachus pennantii, de Charles John Cornish em 1885; Cetorhinus maximus infanuncula, pelos zoólogos holandeses Antonius Boudewijn Deinse e Marcus Jan Adriani em 1953; e Cetorhinus maximus normani, por Siccardi em 1961. Essa enorme quantidade de nomes se deve ao fato de os naturalistas trabalharem então quase exclusivamente com peças naturalizadas e que “é muito difícil manter esses animais em museus; se deformam à medida que secam e perdem um pouco de seu caráter; isso explica por que os números dados por diferentes autores diferem tanto uns dos outros.
Etimologia Relativamente ao nome científico:
O nome genérico, Cetorhinus, vem do grego antigo, resultante da aglutinação dos étimos κῆτος (cetos), que significa «monstro marinho» ou «baleia», e ῥινός (rhinos), que significa «nariz» ou «tromba». Do que toca ao epíteto específico, maximus, este provém do latim e significa «maior». Relativamente aos nomes comuns:
O epíteto popular, peregrino, que é partilhado com o francês (pèlerin), tem origens morfológicas. Segundo Alfred Brehm, "chama-se peregrino pela semelhança que queríamos encontrar entre os colares do manto do peregrino (o pelerine) e as dobras flutuantes formadas pela borda livre das membranas interbranquiais desse tubarão". O epíteto popular, frade, segue essencialmente o mesmo raciocínio que no epiteto «peregrino», em que se associam as dobras flutuantes formadas pela borda livre das membranas interbranquiais desse tubarão aos hábitos monacais dos frades. O regionalismo «relengueiro», usado em certas partes de Cabo Verde, provém da palavra portuguesa «relengo» ou «relego», que significa «moderação; calma; sossego», tratando-se portanto de uma alusão à forma lenta e pachorrenta com esta espécie se desloca na água, quando se está a alimentar. Quanto ao nome popular em inglês, Basking (refastelante), deriva do hábito de se alimentar à superfície, parecendo aquecer-se nas águas mais quentes.
História evolutiva
Os membros mais antigos conhecidos de cetorinídeos (Cetorhinidae) são membros do extinto gênero Keasius, do Eoceno Médio da Antártida, do Eoceno do Oregão e possivelmente do Eoceno da Rússia. Membros do gênero moderno Cetorhinus aparecem durante o Mioceno, com membros das espécies modernas aparecendo durante o Mioceno Tardio. A associação do Pseudocetorhinus do Triássico Superior da Europa com os cetorinídeos é duvidosa.
Distribuição e habitat
O tubarão-peregrino é um tubarão costeiro-pelágico encontrado em todo o mundo em águas boreais a temperadas. Vive ao redor da plataforma continental e ocasionalmente entra em águas salobras. É encontrado desde a superfície até pelo menos 910 metros ( pés). Prefere temperaturas de 8 a 14,5°C (46,4 a 58,1°F), mas foi confirmado que atravessa as águas muito mais quentes no equador. Muitas vezes é visto próximo à terra, inclusive em baías com aberturas estreitas. O tubarão segue as concentrações de plâncton na coluna de água, por isso é frequentemente visível na superfície. Migra caracteristicamente com as estações do ano.
Em todo o mundo, estão presentes de forma localizada ao largo das costas de 50 países. No Atlântico Norte, são observados de sudeste a sudoeste através do norte, desde o Senegal e vários países da Europa (incluindo o mar Mediterrâneo), passando pela Noruega, Suécia e Rússia, até à Islândia, Canadá (Terra Nova, Nova Escócia, Nova Brunsvique), a costa leste dos Estados Unidos e o golfo do México mais a oeste. No Pacífico Norte, também são observados de sudoeste a sudeste com uma ponta norte, do Japão, China e ilhas Aleutas, ao Alasca, Colúmbia Britânica e costa oeste dos Estados Unidos e México (Baixa Califórnia e norte do golfo da Califórnia).
Anatomia e aparência
Morfologia geral
O tubarão-peregrino atinge regularmente 7–8,5 metros (23–28 pés) de comprimento com alguns indivíduos atingindo 9–11 metros (30–36 pés). O comprimento médio de um adulto é de cerca de 7,9 metros (26 pés) pesando cerca de 4,65 toneladas (4,58 toneladas longas; 5,13 toneladas curtas). Avistamentos históricos sugerem que tubarões-peregino com cerca de 12 metros (39 pés) de comprimento, incluindo três exemplares estimados em ~ 40 fod (12,5 metros (41 pés)) e um ~ 45 fod (14 metros (46 pés)), foram relatados entre 1884 e 1905, mas essas estimativas visuais carecem de boas evidências. Um espécime de 12,27 metros (40,3 pés) preso em uma rede de arenque na Baía de Fundy, Canadá, em 1851, foi creditado como o maior registrado. Seu peso foi estimado em 16 toneladas (16 toneladas longas; 18 toneladas curtas). Um estudo que analisa o crescimento e a longevidade do tubarão-peregrino sugeriu que indivíduos maiores que ~ 10 metros (33 pés) são improváveis. Esta é a segunda maior espécie de peixe existente, depois do tubarão-baleia.
miniaturadaimagem|esquerda|280px|Perfil da cabeça de tubarão-peregrino mostrando o focinho protuberante
Eles possuem o típico plano corporal lamniforme de tubarão e foram confundidos com tubarões-brancos. Em repouso, caracteriza-se por suas fendas branquiais alongadas, ocupando praticamente toda a altura da cabeça, seu focinho pontudo e sua boca larga. Quando caça, é visto com a boca escancarada, fendas branquiais distendidas lateralmente, filtrando o plâncton, enquanto deixa aparecer na superfície da água a barbatana dorsal e a parte superior da barbatana caudal, que tem a forma de meia-lua. O corpo é fusiforme, terminando gradativamente em um ponto para trás desde a origem da primeira nadadeira dorsal – onde atinge seu maior diâmetro – até o pedúnculo caudal. A cabeça, curta em relação ao tronco, é ligeiramente comprimida lateralmente ao nível da boca. O focinho é muito curto, pontiagudo e cônico, prolongado em probóscide, truncado na frente e terminando em uma ponta com numerosas ampolas de Lorenzini na superfície dorsal. Os olhos, localizados um pouco atrás da origem da boca, são pequenos, sem membrana nictitante ou pregas suboculares. As fendas branquiais do tubarão-peregrino são muito grandes, estendendo-se da parte superior da cabeça até o nível da garganta. O primeiro é o mais longo, o quinto o mais curto. Os rastros branquiais cobrem a face interna dos arcos branquiais. Por seu número e sua forma de barbatana, constituem uma peneira eficaz que filtra o plâncton na água engolida. A boca é grande e ocupa quase todo o comprimento da cabeça. Arredondado no adulto, é quase transversal no jovem. A articulação da mandíbula é muito flexível nas sínfises, conferindo-lhe grande extensibilidade lateral. Os dentes são pequenos, medindo três milímetros de comprimento em um tubarão de quatro metros, por apenas seis milímetros em um indivíduo de 10 metros e têm forma de gancho.
Barbatanas
280px|miniaturadaimagem|esquerda|Exemplar com a boca aberta
A origem da primeira barbatana dorsal localiza-se um pouco à frente da metade do comprimento (caudal excluído). Forma um triângulo equilátero. A borda anterior é reta ou levemente convexa; a borda posterior é ligeiramente côncava, às vezes muito ligeiramente convexa. A parte superior é arredondada sem ser pontiaguda. A borda posterior é livre por cerca de um quarto de seu comprimento na base. O meio desta barbatana é aproximadamente equidistante entre a ponta do focinho e o centro deprimido da forquilha caudal. A segunda dorsal é muito menor; sua altura atingindo apenas cerca de um quarto da primeira. Localiza-se aproximadamente na origem do terço posterior do comprimento total. Seus três lados são sensivelmente iguais; o ápice é bem arredondado, a borda posterior côncava. O comprimento da aresta livre é igual ao comprimento da base desta aleta.
A barbatana caudal mede entre 20 e 25% do comprimento total. Em forma de meia-lua, seu lobo superior, muito mais desenvolvido que o inferior, é endireitado como em todos os lamnídeos (Lamnidae). A borda posterior, inclinada a 60° em relação à horizontal, é quase reta com entalhes subterminais bem marcados. O comprimento do lobo inferior da barbatana caudal é igual a 60-65% do lobo superior. A inclinação de sua borda posterior é de aproximadamente 70° em relação à horizontal.
miniaturadaimagem|Gravura de Jonathan Couch; a coloração do tubarão-peregrino muda de azul-ardósia, na parte superior, para branco, na parte inferior