Porto Feliz é um município brasileiro do estado de São Paulo, situado na Região Metropolitana de Sorocaba, Mesorregião Macro Metropolitana Paulista e na Microrregião de Sorocaba. Sua população, conforme estimativa do IBGE de 2025, era de habitantes.

História Porto Feliz nasceu na margem esquerda do rio Tietê, em um lugar que os indígenas nativos chamavam de Araritaguaba (termo tupi que significa "lugar de as araras comerem pedras", através da junção dos termos arara ("arara"), itá ("pedra") e u + -aba ("lugar de comer"), em referência aos paredões salitrosos, onde essas aves buscavam salitre. O mais antigo registro conhecido do local é de 1693 e refere-se a uma fazenda de António Cardoso Pimentel que originou o povoado.CARVALHO, M. C. W. (coord.). Plano diretor ambiental de Porto Feliz: levantamento histórico e elaboração de diretrizes para preservação e valorização do patrimônio cultural e paisagístico do Município de Porto Feliz. São Paulo: Marcos Carrilho Arquitetos, agosto de 2008. link.

Produção açucareira Entre 1790 e 1830, Porto Feliz, juntamente com as cidades de Itu e Campinas, controlava a produção açucareira da então Capitania de São Paulo. Era uma zona das mais povoadas, e o número de escravos pouco inferior aos de Itu e Campinas.

Depois de favorecido pela conjuntura do final do século XVIII, ocasião em que renasceram os engenhos paulistas, o açúcar brasileiro enfrentou uma fase de recessão, a partir de 1830, originada pelo aumento da concorrência nos mercados internacionais. Como consequência, com o passar dos anos a produção açucareira de Porto Feliz foi perdendo importância, muitos engenhos foram desativados e centenas de escravos vendidos.

Na década de 1870, começaram a ser criados no Brasil modernas fábricas de açúcar, os chamados Engenhos Centrais. Um grupo de fazendeiros de Porto Feliz resolveu também construir um engenho central, na tentativa de superar os problemas econômicos do município, e em 1876 organizou a Companhia Açucareira de Porto Feliz. No contrato que a Companhia assinou com o Governo Imperial para a garantia de juros, então em vigor para capitais empregados em estabelecimentos desse gênero, ficava proibida a utilização do trabalho escravo, ao mesmo tempo que facilitava a aquisição de terrenos devolutos para posterior revenda à imigrantes europeus.

Entretanto, não havia providencias concretas para a introdução de trabalhadores na região. Criado o Engenho Central, o cultivo do canavial e a fabricação do açúcar formaram dois setores separados, com a aplicação de métodos ‘’modernizantes” apenas no segundo setor. A deficiência de trabalhadores e de novas técnicas na lavoura, a deficiência dos meios de transporte da cana e o desinteresse dos plantadores em assumir compromissos de fornecimento, geraram uma série de crises no abastecimento de matéria prima.

miniatura|250x250px|Partida da Monção (1897), de Almeida Júnior. Retratando Porto Feliz, durante a partida de bandeirantes em viagens fluviais pelo Rio Tietê miniatura|Monumento em homenagem aos 500 anos do Brasil. miniatura|Carga de Canoas, pintura de Oscar Pereira da Silva (1920). Acervo do Museu do Ipiranga. Retratando a partida de monções no rio Tietê. miniatura|Monumento ao Bandeirantes

A rápida expansão da economia cafeeira do estado para o chamado “Oeste Paulista”, praticamente despovoado até meados do século XIX, ocorreu em um momento no qual o movimento abolicionista ganhou poder, que começou com a Lei Eusébio de Queirós de 1850, seguida pela Lei do Ventre Livre de 1871, a Lei dos Sexagenários de 1885 e finalizada pela Lei Áurea em 1888, e, assim reduzindo até proibindo a continuação de uso de escravos na produção.

Para substituir a mão de obra escrava, os proprietários de terra passaram a atrair imigrantes europeus no exato momento que a crise econômica assolava vários países da Europa. Essa conjuntura favoreceu a implantação de um fluxo imigratório para a então província de São Paulo e, paulatinamente, os imigrantes europeus foram substituindo a mão de obra escrava nas grandes lavouras de café sob diversas formas como regime de parceria, imigração espontânea ou subvencionada.

O fluxo migratório europeu Enquanto nas então províncias do Sul do país predominou o sistema de estabelecimento dos imigrantes em colônias, como pequenos proprietários, em São Paulo a expansão da cafeicultura reduziu a disponibilidade de terras para esse tipo de fixação. Essa situação resultou na criação de núcleos coloniais oficiais pelo estado de São Paulo e a sua existência atendia direta ou indiretamente aos interesses da grande lavoura.

Funcionavam como fornecedores de gêneros a preços baixos, como focos de atração e fixação de imigrantes, ou então como reservas de mão de obra para seus períodos de maior atividade. A introdução de trabalhadores migrantes visava completar ou formar quadros de força de trabalho para as lavouras de café.

As regiões marginalizadas no surto cafeeiro, como foi o caso de Porto Feliz, na região de Campinas, não foram beneficiadas pelo fluxo imigratório da segunda metade do século XIX. Nesse período, a força de trabalho disponível naquele município resumia se a umas poucas centenas de escravos.

Núcleo colonial "Rodrigo Silva" Passados quase dez anos da inauguração do Engenho Central e para colaborar na solução da crise de fornecimento da cana de açúcar, recorreu se então às experiências já utilizadas na cafeicultura: os núcleos coloniais. Assim, nas zonas açucareiras de Porto Feliz e Lorena, onde também foi fundada uma colônia para atender às necessidades de um engenho central, os núcleos coloniais oficiais puderam atrair e fixar trabalhadores, que se transformariam em pequenos proprietários e assegurariam safras fixas de cana aos respectivos Engenhos Centrais.

Nessa época, a Sociedade Central de Imigração e outros interessados na transferência de mão de obra para o Brasil, desenvolviam uma intensa propaganda na Europa. Na Bélgica surgiram muitos candidatos, entre eles o padre Jean Baptiste Van Esse, atraído pela possibilidade dos lucros que certamente proporcionariam a formação de uma colônia belga no “Novo Mundo”.

miniatura|Mapa do Estado de São Paulo indicando a posição existentes e em projeto 1908"

Para a instalação do núcleo colonial em Porto Feliz, o governo brasileiro havia adquirido algumas propriedades nas imediações da cidade. Eram as terras compreendendo os sítio Grande e e sítio Marinoni e duas chácaras unidas. Nessa altura dos acontecimentos, Jean Baptiste Van já havia conversado com o Ministro da Agricultura brasileiro, na ocasião Rodrigo Augusto da Silva, ao qual fora apresentado por Edouard de Grelle, Ministro da Bélgica no Rio de Janeiro. Levaram o padre belga para conhecer as terras de Porto Feliz e ele entusiasmou- se com a fertilidade do terreno, considerado próprio para o cultivo de cana, cereais, café e tabaco. Depois da visita, Jean Baptiste Van Esse escreveu à Diretoria da Sociedade Central de Imigração uma carta, datada de 13 de janeiro de 1888, dando pormenores do seu projeto, no qual seriam investidos 50 mil francos belgas.

Autorizado pelo Aviso nº 111, de 16 de novembro de 1887 do Ministério da Agricultura, o Inspetor Geral das Terras e Colonização assinou, já no dia seguinte, um minucioso contrato com o padre Jean Baptiste Van Esse. De acordo com o contrato, 50 famílias, dentre as quais 45 necessariamente de agricultores, participariam da colônia a partir do início de maio de 1888 até 31 de maio de 1889. Cada família tinha, obrigatoriamente, de trazer um capital mínimo de 1 000 francos, mais os utensílios domésticos e os implementos agrícolas. As despesas com o transporte dos colonos e de suas bagagens ficavam por conta do governo brasileiro.

Núcleo Conselheiro Rodrigo Silva — Em novembro de 1887 foram adquiridas pelo governo as terras destinadas a este núcleo, no município de Porto Feliz, cuja área é de 1601 hectares, tendo custado 23:000$000.

Em virtude de contrato celebrado pelo governo geral com o padre João Baptista Vanesse, em 18 de novembro de 1887, destinam-se as referidas terras a imigrantes belgas, que devem ser introduzidos pelo referido sacerdote.

Obrigou-se o governo a mandar dividir e demarcar as terras adquiridas, em lotes de 25 a 30 hectares, e a fazer outros melhoramentos, entre os quais estão compreendidos edifícios para o culto divino, para escola, barracão provisório para os colonos, reparação da casa existente para a residência do diretor e do padre Vanesse, as estradas e caminhos vicinais necessários.Fonte: Relatório 1888 apresentado ao Exme. Sr. Presidente da Província de São Paulo Naquela época o “núcleo colonial” estava sujeito à jurisdição civil, segundo as leis e disposições em vigor no Império. O padre Jean Baptiste Van Esse, como “diretor espiritual”, seria um representante remunerado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. O ministério da Agricultura solicitou da Fazenda as necessárias ordens a fim de nesta repartição ser paga a contar de 1° de maio último, ao padre João Baptista Vanesse, a gratificação mensal de duzentos mil réis.Correio Paulistano - 26 de julho de 1888 Conforme o ofício de 19 de fevereiro de 1888, enviado por Edouard de Grelle ao Príncipe Chimay, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Bélgica, o Ministro Rodrigo Silva previa um brilhante futuro da Colônia de Porto Feliz, cuja criação “testemunhava a simpatia dos brasileiros pelos trabalhadores belgas”.

Para atrair as famílias da Bélgica, Jean Baptiste Van Esse redigiu um folheto no qual prometia grandes vantagens, tais como os lotes de 20 a 30 hectares custam em média 1 400 francos e poderiam ser totalmente pagos pelos colonos no prazo máximo de sete anos. Além disso, como o núcleo seria fundado com o objetivo de alimentar o engenho central, toda a produção de cana tinha comprador certo. O folheto esclareceu que, como as casas construídas pelo governo brasileiro eram precárias, seria preferível transportar da Bélgica casas pré-fabricadas com paredes, divisões e teto de ferro.

Às famílias, Jean Baptiste Van Esse sugeria a organização de uma cooperativa. Através dela, o excedente da produção seria colocado no mercado, a ela caberia a compra de alimentos e ferramentas, e mediante uma pequena contribuição mensal ela providenciaria assistência médica e medicamentos às famílias. A cooperativa poderia, posteriormente, se ligar a outras do mesmo gênero, a ser formadas em futuras colônias belgas.

Chegada dos imigrantes belgas As primeiras 25 famílias chegaram ao Brasil a bordo do navio Hipparchus, um vapor (belga, conforme o Monitor Campista de 19 de abril de 1880, ou inglês, conforme o Correio de São Paulo) que fez o translado Londres – Antuérpia – Brasil. O Jornal de Bruxelles de 30 de junho de 1888 informou que eram 20 famílias, com o total 122 belgas. Do porto de Santos partiram de trem com destino à Itu ou Sorocaba, de onde alcançariam Porto Feliz a pé ou em carro de bois. Em fins de maio de 1888, os 19 seguintes colonos requereram os seus lotes: Adelin Péters, Alexandre Libois, Auguste de Becquerot, Auguste Dubois, Augustine Detry, Edmonde Taupe, Edouard Leroy, Emile Gérard Ballion, Felix Wayens, Ferdinand Boudart, François Pierre, François Labenne, Genius Despontin, Gustave Dumont, Hubert Dumont, J.B. Vanerwyck, J.J. Descolte, Jules Bertz e Vital Kestemond. Segundo a pesquisadora Karen Teresa Marcolino Polaz, eles viriam da região da Valônia.

miniatura|Planta do Núcleo Colonial Rodrigo Silva, 1893 - Museu da Imigração