A Campanha do Egito foi uma campanha militar realizada durante a Revolução Francesa e, por isso, deverá ser analisada no âmbito das Guerras da Revolução Francesa. Nesta campanha, os Franceses pretenderam ocupar o Egito para utilizarem este território como plataforma a partir de onde avançariam para a Índia, onde, com o apoio de forças locais, atacariam o domínio britânico daquela região. Nos dois primeiros anos (1798 e 1799), as forças militares francesas foram comandadas por Napoleão Bonaparte, que tinha defendido a realização desta expedição. Entre a França e o Egito fica a ilha de Malta, que foi conquistada pelos Franceses durante o trajeto. A campanha militar foi acompanhada de uma campanha científica, na qual participaram numerosos nomes dos meios académicos franceses, que foi um sucesso. A Pedra de Roseta foi encontrada durante esta campanha, permitindo, mais tarde, a decifração do Egípcio Hieroglífico por Jean-François Champollion. No entanto, em termos militares, "a campanha foi um desastre. Foi um desperdício de vidas, de dinheiro e de materiais. Não teve influência na balança do poder internacional ou na posição da marinha francesa no Mediterrâneo".Connelly, p. 97. No entanto, a Batalha das Pirâmides, o único sucesso francês na campanha, contribuiu para a reputação de Napoleão Bonaparte, contribuindo para a sua ascensão política.
Antecedentes thumb|esquerda|250px|Napoleão Bonaparte durante a Primeira Campanha de Itália. Edouard Detaille (1848-1912).
Depois da assinatura do Tratado de Campoformio, que punha fim à Guerra da Primeira Coligação, o exército de Itália francês ficou a guarnecer a linha de postos avançados na nova fronteira com a Áustria, ao longo do Rio Ádige e a ocupar os territórios que tinham sido anexados pela França (Piemonte), bem como os da República Cisalpina, formação política criada por Napoleão e controlada pelos Franceses. O Imperador Francisco I da Áustria tinha aceite a paz com a França e, assim, o estado de guerra continuava apenas contra o Reino da Grã-Bretanha.
No dia 27 de outubro de 1797, Napoleão Bonaparte foi nomeado comandante do Exército de Inglaterra. Este exército, criado por decisão do Diretório, a 26 de outubro, teria por objetivo a invasão do Reino da Grã-Bretanha. Napoleão chegou a Paris (vindo de Itália) no dia 5 de dezembro e começou de imediato a tomar providências relativas à organização do seu novo exército. No entanto, depressa constatou que uma operação desta envergadura, que envolvia meios terrestres e navais, para ter possibilidades de êxito, necessitava de ser realizada com domínio do mar, o que não acontecia, pois o poder naval era claramente favorável à Inglaterra. No dia 23 de fevereiro de 1798, Napoleão enviou um relatório ao Diretório, a explicar porque não considerava possível a invasão da Grã-Bretanha pelas tropas francesas.Marshall-Cornwall, pp. 79 e 80.
Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, ministro das "relações exteriores", propôs ao Diretório um projeto alternativo, também defendido por Napoleão: uma expedição para conquistar Malta e o Egito, com a finalidade de cortar as comunicações entre a Inglaterra e as suas possessões na Índia. Este não era um projeto novo, pois a França tinha proveitosos interesses comerciais com as populações costeiras da península dos Balcãs, Síria, Egito e ilhas do Mediterrâneo, e desde há muito tempo que as autoridades francesas consideravam o Egito um ponto estratégico na luta contra os interesses de outras potências na Índia e na Indonésia. Em 1790, os Franceses que habitavam no Egito eram muito poucos: vinte e nove no Cairo, dezoito em Alexandria e catorze em Roseta. O consulado francês tinha mudado do Cairo para Alexandria a fim de garantir o apoio dos navios franceses.
No dia 12 de abril de 1798, um decreto do Diretório criava o Exército do Oriente e nomeava Napoleão Bonaparte como comandante desse exército.Marshall-Cornwall, p. 80; Tarlé, pp. 53 e 54. Napoleão entendeu que essa seria para si uma excelente oportunidade e afirmou: «Tudo aqui está feito, não terei glória suficiente. Esta pequena Europa não a proporciona mais. É preciso ir ao Oriente, todas as grandes glórias vêm de lá».Solé, p. 15. Para Napoleão, era uma oportunidade de encontrar a glória; para o Diretório, era uma forma de afastar aquele general, popular e ambicioso, e isso era importante numa época em que o poder em França se atingia por golpes de estado.
O teatro de operações As ações militares desenvolvidas por esta expedição realizaram-se em Malta, no Egito e na Síria. «Em fins do século XVIII, os boatos, as descrições que acerca das riquezas naturais do Egito e da Síria corriam, eram abundantes e sedutoras, pelo que o pensamento geral era fundar ali colónias e feitorias».Tarlé, p. 53.
Malta thumb|direita|300px|Muralhas da cidade de Valeta, Malta. Malta é uma ilha do Mar Mediterrâneo situada a sul da Sicília. É a maior ilha de um arquipélago de vinte e uma, em que apenas três são habitadas. As restantes, pela sua dimensão, não reúnem condições para isso e algumas não são mais que ilhéus. A sua costa possui inúmeras baías e pontos favoráveis ao desembarque de tropas. Valeta (a capital) possuía então o melhor porto do Mediterrâneo.Bertrand, p. 13.
A posse de Malta permite controlar o estreito da Sicília e, por isso, é importante do ponto de vista estratégico. Em 1798, a ilha estava sob domínio da Ordem dos Hospitalários (desde 1530).Marshall-Cornwall, p. 81. Embora a maior parte dos Cavaleiros fosse de origem francesa, eram profundamente hostis à Revolução e, em 1797, o governo francês tomou conhecimento, com algum alarme, de que a Rússia e a Áustria consideravam a possibilidade de se apoderarem desta ilha para usufruírem da sua posição estratégica e para impedirem a França revolucionária de o fazer.Harvey, p. 254. A ilha é rochosa e fortemente fortificada. Valeta, um bom porto de abrigo, estava protegida por muralhas e vários fortes.
Egito O Egito é um país árido. Basicamente, é um deserto atravessado, na direção Sul-Norte, pelo rio Nilo, o seu único rio. No território do Egito podem distinguir-se duas regiões distintas: o Baixo Egito, que compreende o delta do Nilo (normalmente designado apenas por “Delta”), e o Alto Egito, que compreende o vale do Nilo, desde o Delta até à fronteira com o Sudão. Fora do vale do Nilo, a maior parte do território egípcio é composto por desertos, em grande parte rochosos.
A maior parte do Egito tem um clima desértico, isto é, moderado ou quente durante o dia e frio durante a noite. A maior parte da precipitação verifica-se nas regiões costeiras. Para o interior, no deserto, as temperaturas podem atingir mais de 40 ºC. Trata-se, portanto, de um território onde não é fácil sobreviver longe do Nilo. Sendo este o seu único rio, é ao longo das suas margens e no Delta que encontramos a maior parte da vegetação e dos aglomerados urbanos. Por esta razão, é no Delta e ao longo do Nilo que se realizam a maior parte das operações militares destinadas a conquistar o Egito.M'Gregor, pp. 456 e 457; Bertrand, pp. 32 e 33. O Nilo é um rio navegável em grande parte da sua extensão. Para quem parte da foz, encontra o primeiro obstáculo em Assuão, na Primeira Catarata, onde hoje se situa a antiga barragem de Assuão. Atendendo a que as forças francesas estavam dependentes do apoio que lhes chegava nas embarcações que circulavam no Nilo, compreende-se que as operações não se tenham estendido para sul de Assuão.
thumb|esquerda|300px|Pirâmides do vale de Gizé. A fotografia mostra o tipo de terreno em que as tropas francesas tiveram de atuar.
As principais cidades ou povoados do Egito situam-se no Delta ou no vale do Nilo. No Delta, na costa mediterrânica do Egito, os Franceses ocuparam Alexandria situada quase no extremo ocidental. Para Oriente, fica Abukir e a sua baía, Roseta e Damieta. Estes eram os portos de que Napoleão dispunha no Egito. No extremo sul do Delta fica a cidade do Cairo que, naquele tempo, só ocupava a margem oriental do rio. Na margem ocidental, um pouco mais a norte, encontram-se as pirâmides de Guizé. Ao longo do rio, quer no Delta quer no Alto Egito, existem várias povoações. Assuão foi a povoação mais a sul atingida pelos Franceses.
«Em fins do século XVIII, os boatos, as descrições que acerca das riquezas naturais do Egito e da Síria corriam, eram abundantes e sedutoras, pelo que o pensamento geral era fundar ali colónias e feitorias». Embora naquela época não houvesse o conhecimento do Egito que há hoje, aquele era um território cobiçado. Para isso contribuiu não só a imaginação das pessoas relativamente aos lugares exóticos, mas também as perspetivas que cresciam sobre as possibilidades de desenvolver o comércio com toda aquela região.
Em 1798 o Egito pertencia ao sultão otomano, isto é, fazia parte do Império Otomano. Na realidade, era governado com um elevado grau de autonomia por uma casta governante de Mamelucos, que pagavam ao sultão um tributo anual. O Egito não passava de um conjunto de feudos, cujos senhores (os Mamelucos) eram proprietários das melhores terras. O sultão mantinha no Cairo um vice-rei, o Paxá do Egito, mas a sua autoridade era mais simbólica que real. Os árabes eram parte importante da população e ocupavam posições relevantes, tanto no comércio como na agricultura.Marshall-Cornwall, pp. 80 e 81; Tarlé, p. 58.
thumb|direita|250px|Mapa da Síria Otomana, datado de 1851, que mostra as províncias de Alepo, Damasco, Trípoli, Acre e Gaza.
Síria O território da Síria que foi percorrido pelas tropas francesas correspondia aos atuais territórios da Síria, Líbano, Israel, Faixa de Gaza, Cisjordânia e faixa costeira norte da Península do Sinai. É uma zona menos desértica que o Egito e dispõe de pequenos cursos de água ao longo do caminho, com exceção da Península do Sinai, zona desértica onde a água escasseia. Houve várias ações militares na Síria mas, as mais importantes foram em Acre e perto do Monte Tabor.
Acre é hoje uma cidade portuária no Estado de Israel, onde ainda existem as muralhas e a parte antiga que vem do tempo das Cruzadas. O Monte Tabor não foi o local da batalha mas a referência que lhe deu o nome. Esta região, que incluía Acre e o Monte Tabor, pertencia à administração de Damasco. Entre o Egito e Acre (o objetivo mais a Norte atingido pelos Franceses) encontram-se várias povoações que, na época, foram palco destes acontecimentos, em especial Alarixe, nas terras áridas do norte do Sinai, e Jafa, no atual território de Israel.
As forças militares envolvidas O Exército do Oriente Antes de ser publicado o decreto que criava o Exército do Oriente, Napoleão enviou ao Diretório, a 5 de março, um relatório em que apresentava uma estimativa das forças necessárias para a invasão do Egito. De acordo com essa estimativa, eram necessários 25 mil homens de infantaria, 3 mil de cavalaria, 60 bocas de fogo de artilharia de campanha e 40 de artilharia de cerco. Paul Guitry apresenta, no Volume I da sua obra, um documento elaborado pelo Payeur Général de l'Armée, datado de 6 de junho de 1798, que indica os fundos necessários para pagar um mês de soldo ao Exército do Oriente.Guitry, pp. 31 a 36. De uma forma resumida, e de acordo com aquele documento, o Exército do Oriente era constituído por quase homens, distribuídos da seguinte forma:
Estado-Maior - 143 oficiais (incluindo Napoleão); O chefe do estado-maior era o General Louis-Alexandre Berthier;
Infantaria Ligeira - homens;
Infantaria de Linha ou de Bataille, como lhe chamam os Franceses - homens;
Corpo de Guias (a pé e a cavalo) - 480 homens;
Cavalaria - homens, mas apenas 300 possuíam montadas; para os restantes, seriam requisitados cavalos no Egito;Bertrand, p. 5.
Artilharia e Engenharia - homens;
Administração e Serviços - 787 homens.