miniaturadaimagem|Ilustração de engenho de Pernambuco por Frans Post. O ataque ao engenho Tracunhaém, também conhecido como tragédia de Tracunhaém ou chacina de Tracunhaém foi um conflito travado entre indígenas brasileiros e colonizadores portugueses em 1574 no atual estado do Pernambuco. O conflito ocorreu por meio de um ataque de indígenas potiguaras coordenado pelo chefe Iniguaçu contra o antigo engenho de Tracunhaém de Baixo, de um senhor chamado Diogo Dias, próximo a Goiana. Tal ataque, de acordo com Frei Vicente Salvador, foi motivado pelo sequestro da filha do chefe por um mameluco ( a indígena é erroneamente nomeada por alguns escritores atuais como Iratembé, porém não existe nenhuma fonte histórica conhecida que justifique o nome) que a levou até Olinda e, posteriormente, foi mantida cativa por Diogo Dias. Neste ataque, 2 mil indígenas dizimaram toda a população colonizadora da região e estima-se que morreram 614 trabalhadores livres e escravizados. Tal evento foi o marco da falência da capitania de Itamaracá e deu início à chamada Guerra dos Potiguaras e a conquista da Paraíba.
Contextualização miniaturadaimagem|314x314px|Povo potiguara da Baía da Traição - PB Depois do descobrimento do Brasil pelos portugueses, nas terras ainda por serem ocupadas, transitavam piratas e corsários, traficantes de pau-brasil. Estes traficantes eram na sua maioria franceses e logo formaram alianças com os indígenas potiguara, conhecidos como indígenas do litoral. Tal como nos dias atuais, os antigos potiguara costumavam viver na Baía da Traição, na antiga capitania de Itamaracá e posterior estado da Paraíba. Por outro lado, os portugueses formavam alianças com os indígenas tabajara, conhecidos como indígenas da serra. Tais alianças ocorriam por meio de escambo e cunhadismo. No escambo, os indígenas trocavam o pau-brasil e recebiam em troca objetos considerados sem valor pelos europeus, como espelhos, pentes, tesouras, dentre outros.
Já o cunhadismo se mostrou a forma mais eficiente de estabelecer alianças por meio de relacionamentos amorosos e sexuais entre indígenas e europeus, dando origem à filhos mestiços chamados mamelucos, unindo famílias portuguesas e povos indígenas. Um grande exemplo foi a relação entre Jeronimo de Albuquerque e a indígena tabajara Muira Ubi (também chamada de Tabira), que garantiu a aliança entre os tabajaras com os administradores coloniais de Olinda e Recife.
Para explorar as terras, a Coroa portuguesa dividiu o país em capitanias hereditárias, porções de terra administradas por um só dono, que tinha poder sobre tudo que acontecia dentro desta. Em 1534, D. João III doou a capitania de Itamaracá a Pero Lopes de Sousa. As suas terras iam desde a foz do rio Santa Cruz (hoje rio Igaraçu) em Pernambuco, até próximo ao rio Paraíba, que, nessa época, chamava-se São Domingos. A administração da capitania coube a Francisco Braga, que rivalizava com Duarte Coelho. Francisco Braga, no entanto, levou a capitania à falência. Foi substituído por João Gonçalves, que desenvolveu engenhos e fundou a Vila Conceição. Posteriormente, Brites de Albuquerque, esposa de Duarte Coelho Pereira e irmã de Jerônimo de Albuquerque, se tornou governadora de Pernambuco.
Por volta de 1570, um cristão-novo chamado Diogo Dias (não confundir com o navegante Diogo Dias), morador da Vila Conceição, recebeu braçadas de terra de Jerônimo de Albuquerque na região do rio Capimaribe-Mirim, afluente do rio São Domingos, hoje conhecido como rio Paraíba. Possivelmente, o rio Capimaribe-Mirim seja o rio Sirigi da atual cidade de Goiana, conhecido também como Sirgi. Nessas terras, Diogo Dias construiu diversos engenhos de açúcar, como o Goiana Grande, Jacaré, Três Paus e o Japumim.
O rapto da filha de Iniguaçu O ataque à um desses engenhos do proprietário Diogo Dias foi motivado por uma relação entre um comerciante mameluco e uma indígena do povo potiguara, inimigos declarados dos portugueses e aliados dos franceses. Tal indígena era uma jovem de 15 anos, filha do chefe potiguara Iniguaçu. Iniguaçu e a filha viviam na aldeia de Copaôba, grafada também como Capaôba ou Capeôba, localizada no planalto da Borborema e onde atualmente está a cidade de Serra da Raiz, a alguns quilômetros da Baía da Traição. Anteriormente, essa cidade era conhecida como Serra da Copaoba. miniaturadaimagem|Ruínas do Castelo de Duarte Coelho em Olinda, por Frans Post. Um comerciante mameluco à serviço de Diogo Dias teria então se afeiçoado da filha de Iniguaçu e a desejado para casamento, e assim, Iniguaçu permitiu o matrimônio contanto que o mestiço vivesse na aldeia de Copaôba entre os demais potiguara e suas tradições. Em um primeiro momento, o mestiço aceitou às condições do chefe, mas após Iniguaçu sair para uma longa caçada, o homem fugiu com Iratembé e a levou até Olinda.
Após este ato de desobediência, Iniguaçu ordenou que seus filhos homens, Timbira e Japiaçu, saíssem à procura da sua irmã. Ambos então a encontraram em Olinda e exigiram seu retorno até Copaôba, negociação diplomática esta que sucedeu graças à intervenção de Antônio de Salema, governador do sul do Brasil e do Rio de Janeiro. Para impedir mais conflitos entre os indígenas e os portugueses, o governador proibiu também que mais mamelucos se relacionassem com os potiguara. Por ser amigo de Diogo Dias, Antônio concedeu também aos potiguara a permissão de passarem um pernoite em uma propriedade do senhor de engenho. Cruzando então a região do vilarejo de Goiana, entre Olinda ao sul e a Baía da Traição ao norte, os indígenas passaram a noite no dito engenho de Tracunhaém de Baixo, chamado também de Recuzaém, e durante o pernoite, Diogo Dias raptou a jovem indígena para si.
O Ataque Novamente, os indígenas reclamaram do cativeiro de Iratembé à Antônio de Salema, mas este nada fez. Paralelo à isso, os corsários franceses haviam sido atacados pela frota do capitão-mor Afonso Rodrigues Bacelar, também colega de Diogo Dias. Os indígenas tentaram exigir a soltura de Iratembé também para o capitão-mor, mas novamente, ele fez pouco caso deles. Dessa forma, Iniguaçu se aliou à Tijukupapo, chefe potiguara de uma aldeia que posteriormente originou o vilarejo de São Lourenço de Tijukupapo, atual distrito de Tejucopapo da cidade de Goiana. Iniguaçu se aliou também a indígenas tabajara da região e, juntos, coordenaram um ataque até o engenho onde Iratembé era mantida cativa por Diogo Dias e sua família.
Chegando ao engenho, os indígenas se esconderam estrategicamente nos arredores e, diante de um ataque inicial, Diogo Dias e outros homens saíram da propriedade para atacá-los. Quando o senhor de engenho deixou a propriedade à cavalo, contudo, os indígenas se revelaram em uma grandiosidade numérica muito maior que o esperado, cerca de 2 mil. Caindo na cilada, Diogo Dias foi atacado pelos indígenas e todos os demais invadiram a propriedade, a destruindo e matando cerca de 614 trabalhadores livres e escravizados. Com exceção de dois filhos de Diogo Dias, Boaventura Dias e Pedro Dias, nenhum membro de sua família e nenhum trabalhador do engenho sobreviveu.
Consequências Tempos depois, Boaventura Dias deixou a falida capitania de Itamaracá e retornou à Portugal com o objetivo de reclamar as posses de seu falecido pai, organizando também ataques contra os indígenas com o apoio da coroa portuguesa. Eventualmente, Boaventura Dias constrói, junto de Miguel de Barros, os engenhos Mariúna e Dois Rios em 1577. Os indígenas, contudo, continuaram resistindo à colonização portuguesa durante muitos anos.
Devido a localização geográfica, acredita-se que as terras do engenho de Tracunhaém de Baixo se localizem atualmente onde hoje ficam as ruínas do engenho Japumim, onde se encontram duas colunas que estabelecem o marco zero de Goiana, conhecidas como Pontas de Roma. Também em Goiana se localizam ruínas de outros engenhos atacados e destruídos durante o período colonial, como o engenho Mariúna.
Associação com Iracema José de Alencar, autor brasileiro do romance indianista Iracema, possui uma personagem com nome e história semelhantes à lendária Iratembé da história do ataque ao engenho de Tracunhaém. Em uma nota de rodapé, o autor afirma que o nome da "virgem dos lábios de mel" provém das palavras "ira" (mel) e "tembé" (lábios), e que "tembé" se altera na palavra "ceme", como em "ceme-iba". Não se sabe se Alencar teria se inspirado na história do ataque para criar sua personagem, mas desde então, muitos paralelos entre a história da potiguara Iratembé e da tabajara Iracema foram traçados.
Polêmica miniaturadaimagem|Capa do livro "Escritos de Corpus: carnes, tempos, histórias, sofrimentos" No mês de agosto de 2026, o professor Dr. Waldeci Ferreira Chagas, docente da Universidade Estadual da Paraíba, e o professor Me. Júlio César Miguel de Aquino Cabral publicaram o artigo intitulado “Iratembé: a gestação de um corpo indígena enquanto mito de fundação da Paraíba”. O texto integra o décimo terceiro capítulo do livro “Escritos de Corpus: carnes, tempos, histórias, sofrimentos”, organizado pelos professores Dr. Durval Muniz de Albuquerque Júnior, Dr. Álvaro Luis Lins e Dr. Thiago Venícius de Sousa. O artigo aponta para um processo de construção de um mito de fundação da Paraíba baseado na figura de uma indígena de 15 anos, citada por Frei Vicente Salvador no século XVII. O estudo demonstra como um corpo inicialmente desprovido de características específicas foi, pouco a pouco, atravessado por diferentes sentidos e significados, sendo associado a imagens como as de selvagem, perigosa e feiticeira. A pesquisa indica que foi possivelmente apenas no século XXI que surgiram os primeiros textos a associar, de forma arbitrária, o nome “Iratembé” à indígena citada por Frei Vicente Salvador. Desde então, a representação dessa indígena passou a adquirir também uma conotação erótica: ela seria a “virgem dos lábios de mel”, tendo a beleza como um de seus principais atributos.
Após a divulgação do artigo por meio de uma publicação no Instagram, teve início um debate sobre a legitimidade da denominação “Iratembé” para uma obra pública. Segundo os autores do estudo, o nome teria sido atribuído à indígena citada por Frei Vicente Salvador apenas recentemente e passou, posteriormente, a ser associado a representações que erotizam a figura de uma indígena de 15 anos. O debate envolve uma lagoa localizada no município de Serra da Raiz, na Paraíba, que passa por obras de revitalização. A partir da repercussão do estudo, foi articulado um movimento que busca pressionar a Prefeitura Municipal de Serra da Raiz a alterar a denominação da obra. Os integrantes do movimento argumentam que a manutenção do nome pelo poder público contribuiria para a continuidade de uma representação considerada inadequada da indígena. Um dos autores do artigo publicou uma carta aberta direcionada à prefeitura do referido município. Segue a sua descrição:"Venho, por meio desta carta aberta, reivindicar que a Prefeitura Municipal de Serra da Raiz respeite a história indígena de nossa região. Toda instituição está sujeita a cometer equívocos; contudo, reconhecer um erro, retratar-se e corrigi-lo é uma demonstração de responsabilidade com a sociedade.
1. É historicamente injustificável atribuir o nome Iratembé ("Lábios de Mel") à jovem indígena de 15 anos mencionada por Frei Vicente Salvador no século XVII. Não existe qualquer fonte histórica conhecida que identifique essa personagem por esse nome. Assim, denominar uma lagoa, uma obra pública ou qualquer outro espaço oficial com um nome inventado, desprovido de respaldo documental e que contribui para a erotização da imagem de uma adolescente indígena, representa uma grave distorção da história. Não deveria ser necessária uma repercussão ainda maior desse caso para que prevaleçam o bom senso e o respeito à memória indígena.