Bengasi ou Bengazi ( ou ; em árabe líbio: ), chamada Berenice e Hespérides ou Euespérides na Antiguidade, é a segunda maior cidade da Líbia e a mais importante da região da Cirenaica. Situa-se na margem do mar Mediterrâneo e constitui a maior parte do distrito homónimo.
A população de todo o distrito, constituída por habitantes de acordo com o censo de 1995, aumentou para no censo de 2006. Em 2011, a cidade tinha 314 km² e habitantes (). Em 2007 residiam na área metropolitana cerca de pessoas.
Bengasi é um importante porto e centro de comércio da Líbia. A cidade não possui pontos de grande interesse histórico ou arquitetónico, com exceção das ruínas de antigos edifícios que se encontram nas proximidades da zona portuária. Apesar disso, é usada como base para a visita de alguns dos pontos turísticos mais atrativos do país, como Jabal Acdar ("Montanhas Verdes") e as praias que se situam em redor da cidade.
Durante o período monárquico, Bengasi gozou de um status de co-capital, juntamente com Trípoli; o rei costumava residir na cidade vizinha de Baida e a família real dos Senussi em geral eram mais associados com a Cirenaica do que com a região da Tripolitânia. Atualmente, Bengasi continua a ter instituições e organizações que normalmente se encontram em capitais nacionais, o que incentiva rivalidades entre as duas cidades e, por extensão, entre as regiões da Cirenaica e da Tripolitânia.
Foi em Bengasi que, em fevereiro de 2011, ocorreram os primeiros protestos que rapidamente conduziriam à guerra civil e à deposição do regime de Muamar Gadafi. Durante essa guerra civil, a cidade foi a capital do Conselho Nacional de Transição.
História
Colónia grega thumb|upright|Ânfora panatenaica grega encontrada no local onde se situava Euespérides, a antecessora gregos da atual Bengasi
A antiga cidade grega que existiu na área que a cidade moderna foi fundada cerca de com o nome de Euespérides ou Hespérides e fez parte da chamada Pentápole ("cinco cidades") da Cirenaica, o nome dado às cidades mais importantes daquela região, que incluía também Cirene, Barca, e Taucheira.
Segundo a lenda, Euespérides foi fundada em por um irmão do rei de Cirene. A cidade é mencionada pela primeira vez em fontes históricas por Heródoto quando relata uma revolta em Barca e uma expedição persa à Cirenaica em A cidade estava rodeada por tribos hostis e o historiador grego Tucídides fala de um cerco à cidade levado a cabo por líbios, possivelmente nasamões, em
Um dos rei da Cirenaica cujo destino está ligado à cidade é , que usou a sua vitória em carros de guerra nos Jogos Píticos de para atrair novos colonos a Euespérides. Arcesilau acabaria assassinado em em Euespérides, para onde tinha fugido na sequência de uma revolta em Cirene; com ele terminou o reinado de quase dois séculos da da . A Cirenaica foi apoiante de Alexandre e depois deste morrer passou a fazer parte do Reino Ptolemaico.
A cidade foi rebatizada Berenice e mudada de local depois do casamento de Ptolemeu III do Egito com Berenice, filha do rei Magas de Cirene, em meados do A colónia grega durou até meados do
Período romano e bizantino thumb|Mapa duma parte da Pentápole da Cirenaica na Tabula Peutingeriana, um mapa viário do Império Romano desenhado por um copista no , onde aparece Berenice
A Cirenaica foi legada em testamento a Romana por , que morreu em Berenice prosperou durante a maior parte dos cinco séculos em que foi uma cidade romana. A partir do chegou mesmo a ultrapassar Cirene e Barca como o principal centro da Cirenaica. Com o advento do cristianismo tornou-se sede duma diocese, que a partir de 325 fez parte do Patriarcado de Alexandria. A diocese já não existe atualmente, mas Berenice ainda é atualmente uma sé titular.
Na primeira metade do , a região foi tomada pelos vândalos liderados por Genserico , passando a integrar o Reino Vândalo. Foi conquistada no século seguinte pelo imperador bizantino Justiniano , que promoveu várias obras de reconstrução. Durante o reinado de Maurício , a Cirenaica passou a fazer parte da província bizantina do Egito.
Domínio islâmico e otomano Em 643, quando a Cirenaica foi conquistada pelos muçulmanos comandados pelo general árabe Anre ibne Alas, Berenice mais não era do que uma aldeia insignificante rodeada de magníficas ruínas históricas. Passou então a ser conhecida como Barnique.
No , o pequeno povoado ganhou um papel importante no comércio florescente entre os mercadores genoveses e as tribos do interior do país. Nos mapas do , aparece o nome de Marça ibne Gazi. Devido à sua situação de porto estratégico, os otomanos invadiram Bengasi em 1578, que em 1711 passou a estar na dependência dos Karamanlis, os governadores hereditários da Tripolitânia vassalos do Império Otomano. Em 1835, a cidade passou a ser administrada diretamente pelo governo otomano.
Ocupação italiana e Segunda Guerra Mundial thumb|A Praça al Shajara durante a colonização italiana, na primeira metade do
Em 1911, Bengasi e a Cirenaica foram invadida pelos italianos. Houve resistência à ocupação liderada por , mas foi definitivamente suprimida no início da década de 1930. Bengasi desenvolveu-se muito sob a administração italiana, liderada pelo governador Italo Balbo, tornando-se uma cidade moderna.
Durante a Segunda Guerra Mundial foi conquistada e reconquistada várias vezes por forças Aliadas e do Eixo, tendo sofrido grandes danos, nomeadamente devido a bombardeamentos pesados. Foi depois reconstruída com os rendimentos do petróleo então descoberto na região, tornando-se um dos cartões de visita da moderna Líbia.
Bengasi contemporânea Em 1949 tornou-se a capital do Emirado de Cirenaica, que em 1951 seria unido com a Tripolitânia e a Fezânia para formar o Reino da Líbia governado por Saíde Idris, líder da ordem Senussi e emir da Cirenaica. O reino tinha duas capitais — Bengasi e Trípoli. A cidade perdeu o estatuto de co-capital após a queda da monarquia com o golpe de estado liderado por Muamar Gadafi, em 1969, quando foi proclamada a República Árabe Líbia.
esquerda|thumb|Postal da Praça al Shajara ca. 1958–164
Em 15 de abril de 1986, Bengasi foi um dos alvos do bombardeamento norte-americano levado a cabo por iniciativa do presidente Reagan, em resposta ao atentado bombista ocorrido 10 dias antes numa discoteca de Berlim e ao alegado apoio de Gadafi ao terrorismo.
Em 2000 ocorreram protestos contra o governo em Bengasi, que teve como uma das respostas a demolição estádio do clube de futebol local Al-Ahly.
Foi em Bengasi que em fevereiro de 2011 começaram os protestos contra Gadafi que rapidamente dariam origem à guerra civil que culminaria na deposição e morte do ditador líbio no poder desde 1969. Durante os protestos foram mortas pelas forças de Gadafi mais de 500 pessoas em Bengasi. No final de fevereiro de 2011 o governo perdeu o controlo da cidade para o Conselho Nacional de Transição, que lá instalou a sua sede.
Após o final da guerra civil, a cidade entrou num clima de grande instabilidade devido à fraqueza dos governos provisórios, às discordâncias entre o governo de Trípoli e as Forças Armadas da Líbia, aos confrontos entre milícias e ao ressurgimento da militância islâmica. Em 2012 a cidade voltou a ser notícia em todo o mundo devido ao ataque terrorista ao consulado norte-americano da cidade, no qual morreram 11 pessoas, entre elas o embaixador americano.
Ao longo da segunda guerra civil líbia, iniciada em 2014, a cidade foi palco e combates encarniçados entre forças leais ao governo da Câmara dos Representantes e militantes islâmicos do Conselho da Shura de Revolucionários de Bengasi e o (Wilayat Barqa, o ramo líbio do Daexe). Só no final de dezembro de 2017 é que as forças governamentais tomaram o controlo do último bairro controlado pelos islamistas.
População Demografia thumb|Manifestantes anti-Gadafi em Bengasi em 6 de julho de 2011, durante a Revolução de 2011
À semelhança de outras cidades líbias, há alguma diversidade étnica em Bengasi. No passado, a população da Líbia oriental, incluindo Bengasi, era predominantemente e ascendência berbere. No entanto, nos tempos mais recentes houve um afluxo de imigrantes da África subsariana e do Egito. Há também uma pequena comunidade grega; a ilha grega de Creta é relativamente perto da cidade e há muitas famílias em Bengasi que têm apelidos cretenses. Também ainda há algumas famílias de ascendência italiana, que ali se instalaram no período colonial italiano, antes da Segunda Guerra Mundial.
A esmagadora maioria dos líbios de Bengasi são de ascendência berbere, havendo uma minoria descendentes de árabes. No , a tribo árabe Sa'ada dos imigrou para a Cirenaica. Historicamente, cada uma das sub-tribos Sa'adi controlava uma parte da Cirenaica. Bengasi e as áreas vizinhas era controlado pela tribo Barghathi. Nos tempos mais recentes, instalaram-se em Bengasi numerosos líbios originários de diversas partes do país, principalmente desde o período monárquico. Muitos desses imigrantes vieram de Misurata. Bengasi tem fama de cidade acolhedora para os forasteiros — os beduínos locais chamam-lhe Benghazi rabayit al thayih, que pode ser traduzido como "Bengasi ergue o perdido", devido ao facto de no passado muitos imigrantes que chegaram do Magrebe ocidental ou do Alandalus (Península Ibérica) com muitos poucos bens foram cuidados muito generosamente pela população beduína local, o mesmo tendo acontecido com aqueles que chegaram da Líbia ocidental a seguir à guerra com Itália.
Religião thumb|esquerda|Praça al Baladiya, com a Mesquita Atiq ao fundo e vários edifícios do período colonial italiano, como a antiga sede municipal à esquerda
Praticamente todos os habitantes da cidade são seguidores do islão sunita. Durante os feriados islâmicos, como o Ramadão, muitos habitantes abstêm-se de comer durante o dia e a generalidade dos restaurantes só têm clientes à noite, à exceção de alguns estrangeiros. As bebidas alcoólicas são proibidas por lei em Bengasi e na generalidade da Líbia, seguindo os preceitos do islão. Na cidade há muitas mesquitas. As mais antigas e mais conhecidas, como a Atiq e de Osmã, situam-se na almedina ou nas suas imediações.
Há uma pequena comunidade cristã em Bengasi. A igreja franciscana da Imaculada Conceição, mantida pelo serve a comunidade católica, que em 2010 tinha cerca de membros. Há também uma catedral, que foi construída pelos italianos entre 1929 e 1939 e que foi encerrada em 1977. Em 2009 estava a ser restaurada por uma empresa italiana. A comunidade copta egípcia tem uma igreja, que no passado foi a grande sinagoga da cidade.
Bengasi teve uma comunidade judia desde o tempo dos romanos até 1967, quando a maior parte dos judeus da Líbia foram evacuados de avião para Israel na sequência de vários tumultos depois da guerra israelo-árabe de 1948. Atualmente não há judeus residentes na Líbia.
Educação thumb|O Palácio el Manar, onde funcionou a Universidade da Líbia entre 1955 e 1968
A universidade mais antiga da Líbia, a , foi fundada por decreto real em 1955 e funcionava em Bengasi e em Trípoli. A primeira faculdade abriu em Bengasi no palácio real de Al Manar. Em 1968 a secção de Bengasi foi transferida para um novo campus. Em 1973 a universidade foi dividida nas universidades (mais tarde rebatizada Universidade Al Fateh) e . Na cidade há também algumas universidades privadas, como a .
Pelo menos até à queda do regime de Gadafi, o ensino na Líbia era gratuito e obrigatório até ao 9.º ano de escolaridade. Em Bengasi há várias escolas públicas primárias e secundárias espalhadas pela cidade, além de algumas escolas privadas. O ensino superior é grátis para todos os cidadãos líbios que vivem em Bengasi. Há várias escolas estrangeiras, como a Escola Europeia de Bengasi e a International School Benghazi. A maior biblioteca da Líbia, com mais de obras, situa-se em Bengasi e está ligada à universidade.
Geografia thumb|Fotografia de satélite de Bengasi|esquerda