Thomas Hunt Morgan (25 de setembro de 1866 – 4 de dezembro de 1945) foi um biólogo evolutivo, geneticista e embriologista americano. Em 1933, recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina por suas descobertas sobre o papel dos cromossomos na hereditariedade.
Morgan obteve seu Ph.D. em zoologia pela Universidade Johns Hopkins em 1890 e realizou pesquisas em embriologia durante o período em que trabalhou no Bryn Mawr. Após a redescoberta da herança mendeliana em 1900, Morgan começou a estudar as características genéticas da mosca-das-frutas Drosophila melanogaster. Em sua famosa Sala das Moscas, no Schermerhorn Hall da Universidade Columbia, Morgan demonstrou que os genes são transportados pelos cromossomos e constituem a base mecânica da hereditariedade. Essas descobertas formaram a base da ciência moderna da genética.
Durante sua destacada carreira, Morgan escreveu 22 livros e 370 artigos científicos. Como resultado de seu trabalho, a Drosophila tornou-se um importante organismo-modelo da genética contemporânea. A Divisão de Biologia que ele fundou no Instituto de Tecnologia da Califórnia produziu sete vencedores do Prêmio Nobel.
Primeiros anos e educação Morgan nasceu em Lexington, Kentucky, filho de Charlton Hunt Morgan e Ellen Key Howard Morgan. Descendente, pelo lado paterno, de uma linhagem de proprietários de plantações e de escravos do Sul dos Estados Unidos, Morgan era sobrinho do general confederado John Hunt Morgan; seu bisavô, John Wesley Hunt, havia sido um dos primeiros milionários a oeste dos Montes Allegheny. Pelo lado materno, era bisneto de Francis Scott Key, autor de "The Star-Spangled Banner", e de John Eager Howard, governador e senador por Maryland. Após a Guerra Civil Americana, a família enfrentou dificuldades devido à perda temporária de direitos civis e de alguns direitos de propriedade daqueles que haviam apoiado a Confederação. Seu pai teve dificuldades para encontrar trabalho na política e passou grande parte de seu tempo organizando reuniões de veteranos.
A partir dos 16 anos, Morgan frequentou o Departamento Preparatório do State College of Kentucky, atual Universidade do Kentucky. Concentrou-se nas ciências; gostava especialmente de história natural e, durante os verões, trabalhou com o Serviço Geológico dos Estados Unidos. Formou-se como o melhor aluno de sua turma em 1886, obtendo o grau de bacharel em Ciências. Após passar um verão na Marine Biology School, em Annisquam, Massachusetts, Morgan iniciou estudos de pós-graduação em zoologia na recém-fundada Universidade Johns Hopkins. Depois de dois anos de trabalho experimental com o morfologista William Keith Brooks e de escrever várias publicações, Morgan tornou-se elegível para receber o título de mestre em Ciências pelo State College of Kentucky em 1888. A instituição exigia dois anos de estudos em outra instituição e um exame realizado pelo corpo docente da faculdade. A faculdade ofereceu a Morgan uma cátedra como professor titular; no entanto, ele optou por permanecer na Johns Hopkins e recebeu uma bolsa relativamente elevada para ajudá-lo a financiar seus estudos.
Sob a orientação de Brooks, Morgan concluiu sua tese sobre a embriologia das aranhas-do-mar — coletadas durante os verões de 1889 e 1890 no Marine Biological Laboratory, em Woods Hole, Massachusetts — com o objetivo de determinar sua relação filogenética com outros artrópodes. Concluiu que, do ponto de vista embriológico, elas estavam mais estreitamente relacionadas aos quelicerados do que aos crustáceos. Com base na publicação desse trabalho, Morgan recebeu seu Ph.D. pela Johns Hopkins em 1890 e também recebeu a Bruce Fellowship in Research. Utilizou a bolsa para viajar à Jamaica, às Bahamas e à Europa para realizar novas pesquisas.
Em todos os verões de 1910 a 1925, Morgan e seus colegas da famosa Sala das Moscas da Universidade Columbia transferiam seu programa de pesquisa para o Marine Biological Laboratory. Além de atuar como pesquisador independente no MBL entre 1890 e 1942, envolveu-se intensamente na administração da instituição, inclusive como membro de seu conselho de administração entre 1897 e 1945.
Carreira e pesquisa
Bryn Mawr Em 1890, Morgan foi nomeado professor associado — e chefe do departamento de biologia — da instituição irmã da Johns Hopkins, o Bryn Mawr College, substituindo seu colega Edmund Beecher Wilson. Morgan ministrava todos os cursos relacionados à morfologia, enquanto o outro integrante do departamento, Jacques Loeb, ministrava os cursos de fisiologia. Embora Loeb tenha permanecido ali por apenas um ano, esse período marcou o início de uma amizade que duraria por toda a vida. Morgan dava aulas de biologia cinco dias por semana, com duas aulas por dia. Frequentemente incorporava suas pesquisas mais recentes às aulas. Embora fosse um professor entusiasmado, seu principal interesse estava na pesquisa de laboratório. Durante seus primeiros anos em Bryn Mawr, produziu estudos descritivos sobre cracas, ascídias e sapos. Em 1894, Morgan publicou, em coautoria com a estudante japonesa de Bryn Mawr Ume Tsuda, um artigo sobre a divisão do ovo de Rana temporaria; esse trabalho é considerado o primeiro artigo científico escrito em inglês por uma mulher japonesa.
Em 1894, Morgan recebeu uma licença de um ano para realizar pesquisas nos laboratórios da Stazione Zoologica, em Nápoles, onde Wilson havia trabalhado dois anos antes. Ali trabalhou com o biólogo alemão Hans Driesch, cujas pesquisas sobre o estudo experimental do desenvolvimento despertaram o interesse de Morgan. Entre outros projetos realizados naquele ano, Morgan concluiu um estudo experimental sobre a embriologia dos ctenóforos. Em Nápoles e por intermédio de Loeb, familiarizou-se com a escola de biologia experimental conhecida como Entwicklungsmechanik — aproximadamente, "mecânica do desenvolvimento". Era uma reação à Naturphilosophie vitalista, extremamente influente na morfologia do século XIX. Morgan passou da morfologia tradicional, em grande parte descritiva, para a embriologia experimental, que buscava explicações físicas e químicas para o desenvolvimento dos organismos.
Na época, havia intenso debate científico sobre como um embrião se desenvolvia. De acordo com a teoria mosaico do desenvolvimento de Wilhelm Roux, alguns acreditavam que o material hereditário era dividido entre as células embrionárias, predestinadas a formar partes específicas do organismo adulto. Driesch e outros defendiam que o desenvolvimento se devia a fatores epigenéticos, nos quais as interações entre o protoplasma, o núcleo do óvulo e o ambiente podiam afetar o desenvolvimento. Morgan apoiava essa segunda interpretação; seu trabalho com Driesch demonstrou que blastômeros isolados de ovos de ouriço-do-mar e de ctenóforos podiam se desenvolver em larvas completas, contrariando as previsões — e as evidências experimentais — dos defensores de Roux. Um debate relacionado envolvia o papel dos fatores epigenéticos e ambientais no desenvolvimento; nesse campo, Morgan demonstrou que ovos de ouriço-do-mar podiam ser induzidos a se dividir sem fertilização mediante a adição de cloreto de magnésio. Loeb deu continuidade a esse trabalho e tornou-se conhecido por produzir sapos sem pai utilizando o método.
Quando Morgan retornou a Bryn Mawr, em 1895, foi promovido a professor titular. Suas principais linhas de trabalho experimental envolviam regeneração e desenvolvimento larval; em ambos os casos, seu objetivo era distinguir causas internas e externas para esclarecer o debate Roux-Driesch. Escreveu seu primeiro livro, The Development of the Frog's Egg "O Desenvolvimento do Ovo do Sapo" (1897). Iniciou uma série de estudos sobre a capacidade de regeneração de diferentes organismos. Investigou enxertos e regeneração em girinos, peixes e minhocas; em 1901, publicou suas pesquisas como Regeneration "Regeneração".
A partir de 1900, Morgan começou a trabalhar no problema da determinação sexual, que anteriormente havia descartado quando Nettie Stevens descobriu a influência do cromossomo Y na determinação do sexo. Também continuou estudando os problemas evolutivos que haviam sido o foco de seus primeiros trabalhos.
Universidade Columbia Morgan trabalhou na Universidade Columbia durante 24 anos, de 1904 a 1928, quando deixou a instituição para assumir um cargo no Instituto de Tecnologia da Califórnia.
Em 1904, sua amiga Jofi Joseph morreu de tuberculose, e Morgan sentiu que deveria lamentar sua morte, enquanto E. B. Wilson — que continuava abrindo caminho para seu colega mais jovem — convidou Morgan para se juntar a ele na Universidade Columbia. Essa mudança permitiu que Morgan se concentrasse integralmente no trabalho experimental. direita|miniaturadaimagem|200x200px|Em um experimento típico de genética com Drosophila, moscas machos e fêmeas com fenótipos conhecidos são colocadas em um recipiente para acasalar; as fêmeas precisam ser virgens. Os ovos são depositados em uma papa da qual as larvas se alimentam; quando o ciclo de vida é concluído, a descendência é examinada para determinar a herança da característica de interesse. Quando Morgan assumiu a cátedra de zoologia experimental, passou a se concentrar cada vez mais nos mecanismos da hereditariedade e da evolução. Publicou Evolution and Adaptation "Evolução e Adaptação" (1903); assim como muitos biólogos da época, reconhecia evidências da evolução biológica — como a ancestralidade comum de espécies semelhantes —, mas rejeitava o mecanismo proposto por Darwin de seleção natural atuando sobre pequenas variações produzidas continuamente.
Extensos trabalhos em biometria pareciam indicar que a variação natural contínua possuía limites definidos e não representava mudanças hereditárias. O desenvolvimento embriológico apresentava um problema adicional na visão de Morgan, pois a seleção não poderia atuar sobre os estágios iniciais e incompletos de órgãos altamente complexos, como o olho. A solução então comum do mecanismo lamarckista de herança de caracteres adquiridos, que ocupava posição de destaque na teoria de Darwin, era cada vez mais rejeitada pelos biólogos. De acordo com o biógrafo de Morgan, Garland Allen, suas ideias sobre taxonomia também representavam um obstáculo: Morgan considerava as espécies criações inteiramente artificiais que distorciam a faixa continuamente variável das formas reais, ao mesmo tempo em que mantinha uma visão "tipológica" dos táxons maiores e não conseguia conceber uma forma pela qual um desses grupos pudesse se transformar em outro. Embora Morgan tenha permanecido cético quanto à seleção natural durante muitos anos, suas teorias sobre hereditariedade e variação foram radicalmente transformadas após sua adesão ao mendelismo.
Em 1900, três cientistas, Carl Correns, Erich von Tschermak e Hugo de Vries, haviam redescoberto o trabalho de Gregor Mendel e, com ele, as bases da genética. De Vries propôs que novas espécies eram criadas por mutação, dispensando tanto o lamarckismo quanto o darwinismo. Como Morgan rejeitava ambas as teorias evolutivas, procurou demonstrar a teoria da mutação de De Vries por meio de seu trabalho experimental sobre hereditariedade. Inicialmente, era cético em relação às leis de hereditariedade de Mendel — assim como em relação à teoria cromossômica relacionada à determinação sexual —, que começavam a ser consideradas uma possível base para a seleção natural. direita|miniaturadaimagem|250x250px|Herança ligada ao sexo da mutação de olhos brancos.