thumb|250px|Capela do Bonfim.

A Capela Nosso Senhor Jesus do Bom Fim, conhecida simplesmente como Capela do Bom Fim, é uma igreja católica localizada na Avenida Osvaldo Aranha número 462 da cidade brasileira de Porto Alegre.

Fundada em 1867 e consagrada em 1883, construída em estilo neoclássico, é uma das mais tradicionais igrejas da cidade, em torno da qual o bairro Bom Fim se organizou e cresceu. Sofreu um incêndio em 1982 que destruiu seu altar-mor original e outros elementos, mas foi restaurada e é um bem tombado pelo Município.

Origens

A área onde hoje se ergue a Capela do Senhor do Bom Fim era inicialmente uma grande estância de propriedade de Antônio da Silva Pereira, que foi vendida ao escravo forro Garcia de Souza, que dela fez um vasto milharal em 1777. Nesta época já era conhecida como Várzea. Por ali fora aberta uma estrada, chamada de Estrada do Meio ou Caminho do Meio, e depois de Avenida Bom Fim, a atual Avenida Osvaldo Aranha. thumb|direita|O Senhor Jesus do Bom Fim.

A devoção ao Senhor do Bom Fim originou-se em torno de um crucifixo entronizado na Matriz de Nossa Senhora da Conceição. O grupo de devotos, liderado por Joaquim de Santana Sodré, celebrou sua primeira festa a 23 de agosto de 1858. Crescendo o seu número, em 17 de janeiro de 1864 criaram uma irmandade, e autorizados em 13 de junho pelo bispo D. Sebastião Dias Laranjeiras, começaram a angariar esmolas para a construção de uma capela. A primeira doação foi de 100 mil réis, ofertada por José Joaquim Mariante. A 25 de março de 1866 requereram à Irmandade da Conceição que lhe cedesse a imagem que veneravam, no que foram atendidos com a condição de não a retirarem do altar enquanto não tivessem igreja própria.Cadernos de Restauro II: Capela Nosso Senhor Jesus do Bom Fim. Prefeitura de Porto Alegre, 1989, pp. 2-11

Fundação Em 1866 D. Feliciana Alexandrina da Silva Câmara doou um terreno em frente à Várzea para a construção do templo, cuja edificação foi autorizada em 16 de novembro. O local escolhido foi assinalado com a instalação de um mastro em 20 de janeiro de 1867, e a pedra fundamental foi lançada em 30 de maio deste ano. Até ser terminada, os ofícios foram realizados em um barracão de madeira erguido em meio às obras.

Em 1870, por estar sendo construída a Capela na região, a Várzea passou a ser chamada de Campo do Bom Fim. Em 1871 a Capela ainda em obras recebeu a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes que foi encomendada em Portugal e destinada à sua igreja que começava a ser construída, mas logo em seguida foi transferida para a Capela do Menino Deus.Franco, Sérgio da Costa. Porto Alegre: Guia Histórico. Editora da UFRGS, 4ª edição, 2006, pp. 283-284"17 de dezembro de 1919 - Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes". Correio do Povo, 16 de dezembro de 2019

Em virtude da escassez de recursos, a construção tardou e a Capela só foi consagrada em 1 de setembro de 1883, e no dia 3 de setembro a imagem do Senhor do Bom Fim foi trasladada da Igreja da Conceição com grande pompa e festa. A procissão solene foi liderada pelo Bispo Diocesano, que proferiu sermão e depois foi cantado um Te Deum.

A construção não foi dada por completa em sua inauguração. Melhorias, reformas e ampliações continuaram a acontecer pelo menos até 1913, após o que não se documentam mais alterações significativas. Mesmo assim diversas outras intervenções menores se verificaram, como pinturas externas e internas, reformas no soalho e no telhado, instalação de sanitários e vitrais, e o prédio esteve em obras quase permanentemente ao longo de toda a sua história. A Capela se tornou um ponto de referência na região e em seu redor cresceu o bairro Bom Fim.

Decadência e restauro

Com a crescente urbanização e modernização do bairro, a maior parte da sua arquitetura histórica foi demolida e a Capela acabou por encontrar-se em um entorno descaracterizado, cercada de arranha-céus e casarões decadentes, defronte a uma avenida movimentada com abrigos para ônibus e pesada fiação para iluminação pública na avenida. thumb|direita|Remanescente de pintura mural na capela-mor.

Em 20 de março de 1953 a propriedade do imóvel foi doada à Congregação do Santíssimo Redentor, que passou a administrar o prédio e os serviços religiosos. A partir daí, entrou em declínio. A Capela original veio a ser dilapidada pelo tempo e pela intervenção humana, por sucessivas modificações que seguiam os gostos de cada época, pela ação de agentes naturais de degradação como térmitas, umidade e fungos, e a estrutura sofreu abalos por acomodações imprevistas no subsolo.

Foi finalmente fechada para o público em 7 de setembro de 1972, dada sua condição quase ruinosa, e a Congregação Redentorista elaborou planos para sua demolição e substituição por um templo bem mais amplo. Porém a comunidade local posicionou-se contrária à ideia, ocorreram manifestações de rua e o poder público entrou em ação. A mobilização resultou na constituição em 1974 de uma comissão para estudar seu tombamento junto com 59 peças do seu acervo, mas o debate acabou levando a um impasse, e a disputa com os redentoristas chegou aos tribunais. Em 16 de setembro de 1977 a Prefeitura a incluiu no inventário dos bens de valor histórico e cultural e de expressiva tradição,Giovanaz, Marlise. Lugares de História: a preservação patrimonial na cidade de Porto Alegre (1960- 1979). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1999, p. 148 e foi tombada em 21 de dezembro de 1979."Capela do Bom Fim". Prefeitura de Porto Alegre, consulta em 27 de setembro de 2026 thumb|direita|Coro restaurado e outros remanescentes de pintura mural.

Em 1982 veio a deflagrar-se um incêndio, que acreditou-se ter sido criminoso."Incêndio Criminoso na Capela do Bom Fim". Zero Hora, 5 de fevereiro de 1982 O sinistro destruiu o grande altar-mor de madeira de talha neoclássica, grande parte do telhado e diversos outros elementos da decoração, e por pouco a perda não foi total. Depois disso a Capela só não foi efetivamente demolida porque conseguiu-se a confirmação do tombamento em 1983.

Neste mesmo ano iniciou-se sua restauração. O telhado foi refeito, estabilizou-se as paredes e o grande arco cruzeiro, removeu-se acréscimos espúrios como confessionários externos, refez-se o revestimento interno e externo, os forros e o piso. As pinturas murais se perderam quase em totalidade, e o projeto de restauro manteve o que foi possível em janelas abertas no novo rebocamento, bem como algumas esquadrias queimadas, como testemunhos da história do edifício.

As obras foram concluídas em outubro de 1986, mas em abril de 1987 o culto ainda não havia sido retomado, levando o vereador Rafael Santos a protestar em sessão da Câmara:

"A restauração foi feita, e a Congregação está-se negando a receber a Capela com alegações que não são verdadeiras, com alegações que não procedem, simplesmente, para não reiniciar os serviços religiosos na Capela, que é a única obrigação que ficou para a Congregação. Em troca, foram separados terrenos. Em troca foi oferecido índice de construções. Tudo isso foi feito para que a Capela fosse restaurada e fosse colocada à disposição dos moradores do Bom Fim e, no entanto, no momento em que o Município concluiu sua tarefa, realmente nada foi feito, e os redentoristas se negam a receber a Capela para reiniciar os seus trabalhos".Ata da 28ª Sessão Ordinária da 5ª Sessão Legislativa Ordinária da 9ª Legislatura. Câmara de Vereadores de Porto Alegre, 27 de abril de 1987

O vereador Caio Lustosa somou-se ao protesto, dizendo:

"Repetidas vezes, já falei, em anos passados, da questão da Capela do Bom Fim, a pedido dos moradores do Bairro. A referida Congregação está se furtando ao cumprimento de uma obrigação que ela assumiu nos autos do processo judicial que houve, em que uma das cláusulas era esta, a única cláusula a que ela está obrigada, pois foi amplamente beneficiada, inclusive com a construção de um valioso prédio, nos fundos, o qual até desfigura o entorno arquitetônico daquela Capela. Foi por demais beneficiada. Acho que V.Exa. também concordaria em que é hora de reclamarmos da Procuradoria-Geral do Município que acione, até por medida judicial, a aludida Congregação".

A missa de reabertura só ocorreu em 12 de dezembro de 1987. Depois da restauração a Capela sofreu novos acréscimos, alguns destoando do estilo primitivo do edifício, como a parede de azulejos azuis no local onde se erguia o altar-mor.

Características

O corpo do edifício preserva elementos de suas diferentes etapas construtivas, tendo iniciado em estilo colonial português em alvenaria de tijolos maciços, que elevou uma capela com cerca de metade da altura atual, etapa que sobrevive visivelmente em algumas aberturas com arco abatido nas fachadas laterais; depois recebendo intervenções neogóticas, restando algumas aberturas ogivais nas fachadas laterais e dois altares secundários, quando foi elevada a altura com pedras irregulares e foram acrescentadas as tribunas, e sua remodelação neoclássica no início do século XX, que predomina, com a reforma da fachada e da capela-mor e acréscimo do átrio, do coro e da torre sineira.

A entrada se dá por um portão de ferro ladeado de balaustrada, conduzindo a um pequeno adro com curta escadaria. A fachada é consistentemente neoclássica, com três portas entalhadas sob arco pleno com tímpano envidraçado, sendo a central ladeada de dois pares de pilastras toscanas de fuste liso, com base elevada, que terminam em uma cornija reta e estreita. O nível superior espelha as aberturas inferiores, com três janelas em arco decoradas com vitrais, mas já com pilastras coríntias, também de fuste liso.

O frontão é um triângulo isósceles, com cruz no vértice superior e um óculo redondo ao centro, e está inserido em uma área retangular de onde se ergue uma estátua em cada extremidade, e uma torre sineira centralizada e livre, também com dois pares de pilastras coríntias mas de fuste canelado, emoldurando um arco redondo aberto para o sino, encimado por outro óculo redondo. O coruchéu tem arcos abatidos nas faces e uma pequena cúpula em quatro águas, com uma cruz no topo. Todo o cornijamento é liso e simples. O telhado tem duas águas com beirais, de telhas coloniais capa-canal. As fachadas laterais e posterior são desprovidas de qualquer adorno, e possuem aberturas em intervalos e alturas irregulares, com arcos tanto abatidos como ogivais. As que abrem para a nave são guarnecidas de vitrais. A Capela conta com uma capela-mor com tribunas, e uma nave única de pé-direito bastante alto para as dimensões da nave.

Acervo A Capela preserva dois altares laterais de talha neogótica, um coro com gradil de ferro trabalhado, uma base de retábulo de talha rococó com douraduras, e imagens de valor artístico e histórico, como uma Nossa Senhora da Conceição com olhos de vidro e resplendor de prata, ascendendo sobre uma nuvem apinhada de anjos; um grupo em gesso representando a Sagrada Família; outro mostrando Nossa Senhora do Rosário; um Menino Jesus de Praga e uma Santa Teresinha.

Mais importantes são a imagem primitiva do Senhor do Bom Fim, de estilo barroco tardio, e um grande crucifixo missioneiro em madeira em tamanho natural, de efeito dramático e patético, que substituiu a outra no altar-mor. Segundo consta no Livro de Atas da Assembléia Geral da Devoção do Bom Fim, a peça foi coletada nas Missões Jesuíticas por um agente do então major José Joaquim de Andrade Neves. Após a coleta, o agente enviou uma carta ao major, dizendo: