Dom Luís Victor Sartori (Caxias do Sul, 30 de agosto de 1904 — Santa Maria, 9 de abril de 1970) foi um bispo católico brasileiro.
Era dono de um apreciado talento na oratória e foi um grande devoto de Nossa Senhora Medianeira, sendo um grande incentivador desta devoção. Desenvolveu destacada atuação como vigário de paróquias e como membro da Cúria Metropolitana em Porto Alegre, atuando também no jornalismo religioso. Exerceu seu episcopado em Montes Claros, no estado de Minas Gerais, e em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, com uma passagem em ambos locais marcada por grandes obras, sendo construtor de seminários, organizador de novas paróquias e dioceses e promotor de várias iniciativas religiosas, culturais e beneficentes. Foi um dos pioneiros do radialismo em Santa Maria, e ali também envolveu-se na política, sendo um ferrenho opositor do comunismo e um dos articuladores do golpe militar de 1964.
Sacerdócio
Era filho de Felicità dal Canale e Alberto Sartori, grande produtor de vinho, hoteleiro, dirigente da Associação dos Comerciantes e político republicano, e neto de Salvador Sartori, membro da Junta Governativa, conselheiro municipal (vereador) e um dos líderes da comunidade católica caxiense.Frantz, Ricardo André Longhi. Crônica das famílias Paternoster e Frantz e sua parentela em Caxias do Sul, Brasil: Estórias e História - Volume I. Academia.edu, 2020, pp. 193-207
Ainda um colegial, Luís Victor apareceu publicamente em 1914 recitando poesias numa festividade comemorativa da Proclamação da República.“15 de novembro”. O Brazil, 14/11/1914 Fez sua preparação sacerdotal no antigo Seminário Provincial Nossa Senhora da Conceição, em São Leopoldo, mantido pelos jesuítas, onde cursou Filosofia e Teologia,"Assembleia suspende sessão em memória de Dom Sartori". Diário de Notícias, 11/04/1970 e fundou com colegas a revista O Seminário, que circulou até 1967, periódico que tinha como objetivo ser um elo de união entre os seminaristas de todo o Brasil.Bohn, Remídio José. "Estudos Teológicos no Seminário Maior de Viamão". In: Hastentenfel, Zeno (org.). História dos cursos de teologia no Rio Grande do Sul. EDIPUCRS, p. 26 De acordo com Breno Sponchiado, a revista, além do seu objetivo declarado, "transformava-se em campo de luta, onde os alunos se digladiavam, cada um querendo [se] mostrar mais prendado no manuseio da pena, esforçando-se ao máximo para assinar artigos comovedores, valentes; vazados no melhor português, com direito a rebusqueios e explorando ao máximo a última flor do Lácio. Entre estes, destacam-se Luiz Vítor Sartori, que foi um dos fundadores e o primeiro diretor do periódico, em 1926, e Vítor Battistella”.Sponchiado, Breno Antonio. Mons. Vitor Battistella, padre e caudilho. Tese de Doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2003, p. 89
Foi ordenado sacerdote em Porto Alegre por dom João Becker em 9 de janeiro de 1927, em cerimônia na Matriz de São Pedro. Logo após retornou a Caxias e celebrou sua primeira missa na Catedral, como narra a imprensa, “perante grande multidão. Terminada a cerimônia religiosa, foi servido lauto banquete na Sociedade Príncipe de Nápoles, comparecendo as autoridades e pessoas gradas, trocando-se amistosos brindes”,“O padre Luiz Sartori”. A Federação, 26/01/1927 e no mesmo ano foi indicado capelão coadjutor da Catedral.Adami, João Spadari. História de Caxias do Sul 1864-1970, Tomo I. 2ª edição. Caxias do Sul, 1971 Em 1929 é citado fazendo um discurso no casamento de sua prima Ida Sartori Paternoster.“Consorcio”. Caxias, 09/05/1929 Foi lembrado por João Spadari Adami, historiador local, como “notável orador e escritor sacro”.Adami, João Spadari. Caxias, a Pérola das Colônias. Tipografia d’O Momento, 1950 Mais tarde, em 1949, o acadêmico e poeta Cyro de Lavra Pinto dedicar-lhe-ia um soneto, também louvando seu “condão verbal”, que “comove, com harmonia, e enleva os corações”.Pinto, Cyro de Lavra. “Monsenhor Luiz Sartori”. O Momento, 06/08/1949
Em 1930 integrou-se à revolução desencadeada por Getúlio Vargas atuando como capelão militar.Sponchiado, p. 117 Em 1931 ainda é registrado em Caxias, participando da homenagem ao cônego João Meneguzzi pelo seu jubileu sacerdotal,Brandalise, Ernesto A. Paróquia Santa Teresa - Cem Anos de Fé e História (1884 - 1984). EDUCS, 1985 mas no mesmo ano mudou-se para Porto Alegre, onde seus dotes de oratória também foram reconhecidos e requisitados, pregando “com grande brilho”“Secção Catholica”. A Federação, 19/05/1931 e dando “apreciadas conferências apologéticas”.“Conferencia”. A Federação, 18/08/1931
Foi pároco assistente da paróquia São João e organizou a paróquia São Francisco, foi membro da Cúria Metropolitana, cura da Catedral,“Faleceu D. Victor Sartori”. A Razão, 10/04/1970 capelão da Igreja do Espírito Santo, do Asilo da Providência e do convento das carmelitas,"A Irmandade do Divino Espírito Santo visitou, domingo, S. Excia. o General Flores da Cunha e o Arcebispo Metropolitano". A Federação, 30/03/1937 diretor do Departamento Militar da Ação Católica“O próximo juramento da bandeira no Tiro de Guerra 318”. A Federação, 29/08/1935 e assessor eclesiástico da União Católica dos Militares."Convite". A Federação, 11/06/1937 Foi organizador e locutor do programa Hora Católica, na Rádio Farroupilha, lançado por ocasião do Congresso Eucarístico Nacional de 1937,"A Hora Católica na Rádio Farroupilha". A Federação, 03/06/1937“Seção Católica”. A Federação, 03/06/1937 do qual foi presidente da Comissão Organizadora, e participou da fundação e edição do Jornal do Dia. Mais tarde passou a dirigir a construção do Seminário Maior de Viamão como presidente da Comissão de Obras.Beozzo, José Oscar. Padres Conciliares no Vaticano II: participação e prosopografia –1958-1965. Tese de Doutorado. USP, 2001
Episcopado Foi sagrado bispo em Porto Alegre em 1º de junho de 1952, com cerimônia presidida pelo arcebispo dom Vicente Scherer, sendo designado para a Diocese de Montes Claros, estado de Minas Gerais. Sua genealogia episcopal procede de Scipione Rebiba, cardeal-bispo de Sabina.Catholic Hierarchy. Bishop Luís Victor Sartori. Em Montes Claros sua atividade deixou uma forte marca, sendo descrito por Dário Cotrim como “grande propulsor da fé e do progresso na cidade; reorganizou a Obra das Vocações Sacerdotais, instalou o Seminário Menor, apoiou a Ação Católica, bem como a criação da Diocese de Januária e atuou junto aos poderes públicos para a iluminação da cidade por meio da Companhia Energética de Minas Gerais”.Cotrim, Dário Teixeira. Ensaios Históricos de Itacambira. Editora Millennium/Cotrim Ltda., 2014 Segundo Laurindo Pereira, o abastecimento de eletricidade na região entrara em crise e em 1953 havia sido iniciado um racionamento, e a liderança do bispo pressionando o presidente Juscelino Kubitschek, o governador Clóvis Salgado e outras autoridades foi decisiva para a liberação de verbas estatais e a construção de uma nova usina. O deputado Teófilo Pires, envolvido com as reivindicações populares, propondo a criação de um comitê sob a presidência do bispo para aglutinar as forças políticas opostas e assim resolver a “situação de abandono” em que se encontrava o município, disse que Sartori tinha uma "reconhecida autoridade moral”, era inegável seu “alheamento às lutas partidárias” e era o “denominador comum, eliminador de arestas que, porventura, ainda se mostrassem demasiado vivas”.Pereira, Laurindo Mékie. Dependência, Favores e Compromissos: Relações Sociais e Políticas em Montes Claros nos anos 40 e 50. Dissertação de Mestrado. Uberlândia, 2001, pp. 20-27 thumb|left|Adelia e José Costamilan com o bispo Luís Victor Sartori e outro prelado em visita a Passo Fundo na década de 1960.
Depois voltou para o seu estado natal, transferido para Santa Maria em vista da enfermidade do bispo dom Antônio Reis, sendo nomeado seu coadjutor com direito à sucessão, sendo recebido em 6 de maio de 1956 e sucedendo seu predecessor em 14 de setembro de 1960.Sponchiado, p. 206 Consagrou a cidade de Santa Maria a Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graças, promovendo ativamente sua devoção. Criou a Comissão Pró-Construção de um Santuário e Altar-Monumento dedicado à Medianeira, obra terminada por seus sucessores, hoje uma basílica que atrai milhares de peregrinos.Basílica Nossa Senhora Medianeira Medianeira. Breve História da Devoção, 10/03/2012Prefeitura de Santa Maria. Memorial da Nossa Senhora Medianeira. Criou uma peregrinação da Imagem Milagrosa de Nossa Senhora Medianeira que percorria quase todas as paróquias da Diocese, iniciativa que deu origem a outra, destinada a suscitar vocações, formando a Comissão Diocesana de Vocações e um grupo de voluntários que levavam capelinhas aos domicílios.Borin, Marta Rosa. "As fronteiras do catolicismo e as interfaces com a religiosidade popular: o Movimento Apostólico de Schöenstatt". In: Revista Brasileira de História das Religiões, Edição Especial, jan/2013 Criou as paróquias de São Roque de Taquaruçu do SulDiocese de Frederico Westphalen. Paróquia São Roque de Taquaruçu do Sul. e Nossa Senhora da Glória de Camobi,Paróquia Nossa Senhora da Glória. Histórico da Paróquia Nossa Senhora da Glória – Camobi. organizou as novas dioceses de Frederico Westphalen e Cruz Alta,Diocese de Frederico Westphalen. Histórico da Diocese de Frederico Westphalen.Diocese de Cruz Alta. Histórico. instalou o Conselho Presbiteral Diocesano, construiu o Seminário Diocesano São José e presidiu sua inauguração em 1966."Novo Seminário Diocesano de Santa Maria será inaugurado a 1º de maio". Diário de Notícias, 27/04/1066"Inaugurado em Santa Maria o Seminário Diocesano São José". Diário de Notícias, 06/05/1966 Foi presidente de um dos tribunais rogatoriais no processo de beatificação e canonização de Madre Paulina,Barbosa, Fidélis Dalcin. Madre Paulina, a coloninha. Loyola, 1988, 11ª ed. 2005, p. 187
Por outro lado, conforme a opinião de Sponchiado, devido ao seu caráter legalista, ortodoxo e inflexível, não via com muita simpatia a Ação Católica, pelo fato de ela "valorizar e tornar o leigo protagonista da evangelização", incentivando apenas seu ramo da Juventude, mas sob uma supervisão estrita, e suprimiu o Movimento Apostólico de Shoenstatt, promovido por um grupo de sacerdotes palotinos, "num sinal veemente de que a autoridade do bispo sobressaía a qualquer movimento ou modismo". Segundo Marta Borin, o bispo discordava da pedagogia do Movimento de Shoenstatt e temia que suas expressões fossem confundidas com práticas espíritas, mas procurou conciliar-se com os palotinos, a quem dedicava "elevada consideração, profunda estima e gratidão", preservando sua atuação em outras esferasBorin, Marta Rosa. "Continuidades e rupturas no campo religioso santa-mariense". In: Zanotto, Gizele (org.). Religiões e Religiosidades no Rio Grande do Sul. Clube de Autores, 2008, pp. 201-204 e entregando-lhes o governo da paróquia de Santa Cecília de Humaitá.Diocese de Frederico Westphalen. Paróquia Santa Cecília de Humaitá. Ao mesmo tempo entrou em conflito com eclesiásticos que se mantinham apegados a "velhas práticas e tradicionais métodos" de atuação pastoral, em particular o monsenhor Vítor Battistella, seu antigo colega de seminário, que estava encarregado da paróquia de Barril e havia adquirido uma grande influência sobre a população durante o episcopado de dom Antônio Reis.Sponchiado, pp. 206-208