thumb|upright=1.0|Palácio das Tulherias, cerca de 1865. Da esquerda para a direita: a Ala Sul, o Pavilhão do Relógio, a Ala Norte, o Pavilhão do Teatro, a Galeria das Máquinas e o Pavilhão Marsan. À direita estende-se o Pátio do Carroussel. O Palácio das Tulherias () foi um palácio parisiense, cuja construção começou em 1564 sob o impulso de Catarina de Médici, num local ocupado anteriormente por uma fábrica de telhas (tuiles). Foi aumentado em reinados sucessivos, dispondo de uma imensa fachada com 266 metros de comprimento. Foi residência real de numerosos soberanos, desde Henrique IV a Napoleão III, até sua destruição por um incêndio em maio de 1871. Suas ruínas foram demolidas em 1882.
História O Antigo Regime O local onde se ergueria o palácio estava ocupado, no século XIII, por terrenos vagos e por fábricas de telhas. No século XIV, o magistrado de Paris, Pierre des Essarts, possuía ali uma casa e quarenta "arpents" (unidade de comprimento usada no Antigo Regime) de terra arável. No século XVI, Neufville de Villeroy, Secretário das Finanças de Luís XII, fez construir ali um hôtel particulier que, mais tarde, Francisco I comprou para a sua mãe.
Primeiras construções thumb|left|Antiga localização do palácio.
O conjunto destas construções foi comprado por Catarina de Médici, que desejava deixar o Hôtel des Tournelles onde Henrique II morrera num torneio. Mandou então arrasar os edifícios e encarregou os arquitectos Philibert Delorme e Jean Bullant de edificarem um palácio que deveria elevar-se a oeste do Palácio do Louvre, para lá do recinto de Carlos V. O projecto inicial era ambicioso: dois grandes edifícios paralelos reunidos por quatro construções mais curtas, compartimentando três pátios interiores. No entanto, só o edifício do Oeste foi finalmente construído, e seria a esta estrutura que se daria o nome definitivo de Palácio das Tulherias.
thumb|right|Pavilhão Bullant no Palácio das Tulherias.
Este edifício comportava um pavilhão central coroado por uma cúpula, dotado de uma escada suspensa sobre a abóbada que foi considerada como uma obra de mestre. Este pavilhão estava enquadrado por duas alas. A ala Sul terminava num pavilhão, chamado de Pavilhão de Bullant (construído em 1570) enquanto que a ala Norte não foi terminada. Com efeito, Catarina de Médici, muito supersticiosa, acabou por recusar-se a habitar nas Tulherias e instalou-se numa outra residência (chamada inicialmente de Hôtel de la Reine, e mais tarde de Hôtel de Soissons, no local onde fica a actual Bolsa de Comércio de Paris) que fez construir precipitadamente, em 1574, próximo da Igreja de Santo Eustáquio. Conta a lenda que o seu astrólogo, Cosimo Ruggieri, havia previsto que ela morreria próximo de Saint-Germain, encontrando-se o Palácio das Tulherias na vizinhança da Igreja de Saint-Germain-l'Auxerrois.
Durante o reinado de Carlos IX, o estaleiro de construção das Tulherias foi progressivamente abandonado. Henrique III deu algumas festas no palácio mas nunca chegou a residir ali; contudo, fugiu de Paris pelo Jardim das Tulherias, no dia 12 de Maio de 1588, aquando da "Jornada das Barricadas" (sublevação popular durante as Guerras da religião francesas).
O "Grande Propósito" thumb|right|As Tulherias, o Palácio do Louvre e a Grande Galeria em 1615. Planta de Mérian.
No início do século XVII, Henrique IV decidiu ligar o Palácio do Louvre ao Palácio das Tulherias, através de uma longa galeria ao longo do Sena, cujo começo já existia havia alguns anos. É a esta que se chama de "Grande Propósito". Esta Grande Galeria ou Galeria à borda de água (que ainda existe actualmente) foi edificada entre 1607 e 1610 por Jacques-Androuet du Cerceau. Ao mesmo tempo, o Palácio das Tulherias foi prolongado para Sul por uma ala chamada de Pequena Galeria, destinada a ligar o Pavilhão de Bullant à Grande Galeria: no cruzamento das duas construções foi edificado um pavilhão baptizado de Pavillon de la Rivière (Pavilhão do Rio) e rebaptizado em 1669 de Pavillon de Flore (Pavilhão de Flora). O Palácio do Louvre e este das Tulherias ficaram, a partir deste momento, ligados entre si.
Após a morte de Henrique IV, em 1610, o palácio conheceu novamente um longo período de abandono.
Foi Luís XIV que decidiu reactivar o estaleiro. O Palácio das Tulherias era assimétrico: a Pequena Galeria construída por Henrique IV não tinha, com efeito, qualquer contraponto a Norte. Entre 1659 e 1666, Louis Le Vau e François d'Orbay construiram várias estruturas: primeiro um pavilhão destinado a fazer contraponto com o Pavilhão de Bullant (e que foi baptizada de Pavillon du Théâtre - Pavilhão do Teatro), de seguida uma galeria destinada a fazer contraponto com a Pequena Galeria (e que foi baptizada de Galerie des Machines - Galeria das Máquinas), e por fim um pavilhão destinado a fazer contraponto com o Pavilhão de Flora (e que foi baptizado de Pavillon de Pomone - Pavilhão de Pomona, e depois Pavillon de Marsan - Pavilhão de Marsan).
thumb|left|Palácio e jardim das Tulherias no final do século XVII. Da esquerda para a direita: o Pavilhão de Marsan, a Galeria das Máquinas, o Pavilhão do Teatro, a Ala Norte, o Pavilhão do Relógio, a Ala Sul, O Pavilhão de Bullant, a Pequena Galeria e o Pavilhão de Flora. Em primeiro plano o tanque octogonal.
O palácio ficava, assim, simétrico e completo de Norte a Sul. Contudo, tinham passado várias décadas entre a construção das estruturas situadas a Sul do pavilhão central e aquelas situadas a Norte. O edifício sofreu, por isso, de uma grande heterogeneidade no seu plano arquitectónico. O Rei ordenou que Le Vau fizesse grandes alterações ao plano inicial. O Pavilhão central (baptizado de Pavillon de l'Horloge - Pavilhão do Relógio) foi inteiramente reconstruído ao Estilo Clássico: mais largo, mais elevado, foi recoberto por uma cúpula volumosa; as alas que o flanqueavam, assim como a Pequena Galeria, foram igualmente reconstruídas.
No final do século XVII, o Palácio das Tulherias apresentava o aspecto que conservaria definitivamente durante dois séculos, com um comprimento de 260 metros desde o Pavilhão de Marsan, a Norte, até ao Pavilhão de Flora, a Sul. A Oeste do palácio estendia-se o jardim das Tulherias, até à futura praça Luis XV (actual Place de la Concorde); a Este encontrava-se um vasto pátio, chamado de Pátio do Carrousel, ele próprio prolongado por uma praça (a Place du Carrousel), depois por um quarteirão de velhas casas (situadas no local da actual pirâmide de vidro) e por fim pelo Pátio Quadrado do Louvre.
Durante o Ancien Régime, os principais habitantes das Tuileries foram: Anne Marie Louise d'Orléans de Montpensier, Duquesa de Montpensier, chamada de "Grande Mademoiselle" (de 1638 a 1652), Luís XIV (de 1664 a 1667) e Luís XV (de 1715 a 1722). No dia 26 de Agosto de 1728 teve lugar nas Tulherias um lit de justice (sessão particular do Parlamento com a presença do Rei, própria do Antigo Regime). O palácio foi, em seguida, abandonado e ocupado pelos cortesãos aos quais o Rei concedia alojamentos e favor, bem como por artistas, aposentados e pessoas de todas as condições.
Apanhado por um incêndio no Palais Royal, no dia 6 de Abril de 1763, a Ópera Nacional de Paris instalou-se nas Tulherias, na sala de espectáculos que fôra criada por Luis XIV na Galeria das Máquinas; a Ópera ficou naquela sala até voltar para o Palais Royal, em1770, data em que foi substituída pela Comédie-Française, que permaneceu no palácio até 1782. A estreia d'O Barbeiro de Sevilha, de Beaumarchais, teve lugar nas Tulherias, no dia 23 de Fevereiro de 1775.
O palácio durante a Revolução e o Consulado No dia 6 de Outubro de 1789, Luís XVI, Maria Antonieta e os seus filhos instalaram-se no palácio depois de serem trazidos do Palácio de Versailles pelos revolucionários. As Tulherias entravam, assim, na grande história: durante 80 anos, o palácio seria a principal residência de Reis e Imperadores, assim como cenário de importantes acontecimentos políticos.
right|thumb|A tomada das Tulherias.
A distribuição interior do palácio era a seguinte:
Entrando no palácio pelo lado do Pátio do Carrousel, pelo vestíbulo do Pavilhão do Relógio, à direita encontrava-se uma escadaria que num primeiro troço levava até à capela e num segundo troço, depois de uma meia volta, até à Salle des Cent-Suisses (Sala dos Cem Suiços) (futuro Salon des Maréchaux - Salão dos Marechais); A Sul desta sala, e até ao Pavilhão de Flora, encontrava-se uma fileira de salas, viradas sobre o pátio; a Antecâmara do Rei, a Câmara de Parada, o Grande Gabinete do Rei e a Galeria de Diana. Do lado do jardim encontrava-se o apartamento da Rainha e seguidamente o apartamento de Inverno do Rei, ocupado por Luís XVI à sua chegada às Tulherias.
Durante a Revolução, o antigo apartamento da Rainha foi ocupado por Maria Teresa de França (1778-1851) e o seu irmão, o Delfim de França. Maria Antonieta instalou-se no rés-do-chão do lado do jardim, enquanto que Isabel de França (1764-1794), irmã de Luís XVI, ocupou o primeiro andar do Pavilhão de Flora.
A Família Real residiu durante três anos no palácio. No dia 21 de Junho de 1791, os membros da Família Real tentaram fugir mas, sendo apanhados em Varennes, foram obrigados a regressar às Tulherias.
No dia 10 de Agosto de 1792, às 7 horas da manhã, a Família Real teve que deixar as Tulherias, cercados pelos revolucionários, para se refugiarem na sala da Menagem (a qual abriga actualmente a Assembleia Legislativa da França) que se encontrava ao longo do jardim (no actual cruzamento da Rue de Rivoli com a Rue de Castiglione). A guarnição de guardas suiços permaneceu em volta do palácio, agora vazio. Este foi invadido e pilhado, e cerca de 600 guardas morreram durante o combate ou depois deste, massacrados pela multidão. Uma centena de guardas conseguiu, contudo, escapar graças à cumplicidade de uma parte da população de Paris. No dia 21 de Agosto de 1792, a guilhotina foi montada a na Praça do Carrousel, a Este do palácio.
No dia 10 de Maio de 1793, a Convenção instalou-se na Galeria das Máquinas das Tulherias. O palácio recebia agora o nome de palais national (palácio nacional). O Comité de Saúde Pública ocupou a Pequena Galeria enquanto que o Comité de Segurança Geral se instalou num palacete particular situado a Norte do Pátio do Carrousel, nas proximidades do Pavilhão de Marsan. Nesta época, numerosos acontecimentos políticos tiveram o seu desenvolvimento nas Tulherias, nomeadamente a proscrição dos Girondinos e a queda de Robespierre.
Durante o Directório, as Tulherias abrigariam o Conselho de Anciões (1795-1799).
No dia 19 de Fevereiro de 1800, Napoleão Bonaparte, Primeiro Cônsul, instalou-se no Palácio das Tulherias. Tomou para alojamento o primeiro andar do palácio, ocupando o antigo apartamento do Rei (dormia na cama de Luís XIV, Luís XV e Luís XVI). Já Cambacérès, Segundo Cônsul, preferiu residir em Elbeuf, e o Terceiro Cônsul, Lebrun, instalou-se no Pavilhão de Flora.
O Império, a Restauração e a Monarquia de Julho Napoleão I manteve-se nas Tulherias, que era agora a residência oficial do Imperador. Este ocupava o primeiro andar da ala Sul, os antigos apartamentos dos reis, mantendo a disposição e denominação das restantes divisões. Em 1806, uma sala de espectáculos e uma capela foram instaladas na Galeria das Máquinas, enquanto que as decorações interiores foram alteradas pelos arquitectos Charles Percier e Pierre François Léonard Fontaine.
thumb|right|O Palácio das Tulherias, antes de 1871, visto a partir do jardim.
Foi igualmente em 1806 que estes mesmos arquitectos edificaram o Arco do Triunfo do Carrousel. Esta estrutura ainda existente, imitando o arco do triunfo de Septímio Severo, de Roma, constituía a nova entrada oficial do palácio em substituição da antiga porta do século XVII. O arco do triunfo dava acesso para Este, depois da Praça do Carrousel, ao pátio de honra das Tulherias, ele próprio separado da praça por um longo gradeamento.