thumb|350px|Château de Bonaguil, França: vista panorâmica. O Château de Bonaguil localiza-se na charneira entre as regiões francesas de Périgord e Quercy, na comuna de Saint-Front-sur-Lémance, embora seja propriedade da comuna de Fumel, em Lot-et-Garonne. É uma fortificação medieval à qual foi acrescentado um paço no século XVIII, estando o conjunto classificado como Monumento Histórico da França desde 1862.
Durante a Idade Média, Bonaguil foi a sede de uma das quatro baronias do Périgord. O seu castelo, em posição dominante sobre a confluência de dois estreitos vales, é um dos últimos exemplares de castelos-fortes no país.
A sua construção foi iniciada no século XIII, sendo inteiramente reformado entre o final do século XV e o início do século XVI pelo barão Bérenger de Roquefeuil, que lhe acrescentou todos os aperfeiçoamentos defensivos então em uso à época em termos de arquitectura militar. A estrutura estende-se por uma superfície de 7.500 m², constituíndo-se em um verdadeiro catálogo ilustrativo das técnicas de fortificação utilizadas do século XIII ao século XV, uma vez que, incorporou, a partir de 1480, as últimas inovações defensivas requeridas pela introdução da artilharia: formidáveis barbacãs cobrem os acessos ao castelo; dezenas de canhoneiras situadas tanto nas torres como nas muralhas, câmaras de tiro abobadadas ao abrigo das balas adversas e permitindo fogo baixo e rasante, estruturas abobadadas que interditam toda a circulação ao fundo do grande fosso, terraços de artilharia dispostos em patamares, situados junto ao corpo do lugar, que constituem recintos sucessivos a forçar, ordenamento - para fins defensivos - de uma gruta natural situada sob a elevação rochosa, etc. Aquando da sua conclusão, cerca de 1510, parecia contudo obsoleto no seu espartilho de pedra, austero e guerreiro. Com efeito, nessa época do início do Renascimento, as grandes famílias nobres, assim como o Rei e os seus parentes, começavam a construir os primeiros Palácios do Loire e, por todo o reino, numerosas fortificações medievais da pequena e média aristocracia, mesmo que conservando alguns dispositivos defensivos, iam, pouco a pouco, sendo transformadas em agradáveis residências, através do abatimento de uma parte das torres e das muralhas e da abertura à luz e ao campo.
Actualmente, o Château de Bonaguil encontra-se num notável estado de conservação. Nunca sofreu ataques e foi habitado até à Revolução Francesa.
História Origens do nome O nome "Bonaguil" significa bonne aiguille (boa agulha) e designa o local defensivo: um promontório rochoso e escarpado de calcário urgoniano, perfeitamente conveniente à instalação de um castelo-forte.
As primeiras construções Um primitivo castelo foi construído em Bonaguil na segunda metade do século XIII (entre 1259 e 1271, segundo Jacques Gardelle), sobre uma elevação rochosa, provavelmente por Arnaud La Tour, de Fumel. A única entrada da torre de menagem, construída sobre uma gruta natural, era uma porta a seis metros de altura, à qual se acedia por uma escada.
A primeira menção documental ao castelo encontra-se numa carta datada de 1271, que cataloga os bens do Rei da França, Filipe III, o Bravo. Nessa época, Bonaguil era um senhorio vassalo do feudo de Tournon e os edifícios do castelo limitavam-se a uma torre de menagem de planta poligonal alongada e a uma residência rectangular situada a oeste da torre, para lá de um estreito pátio interior, com algumas dezenas de metros de largura. A forma particularmente oblonga (três vezes mais longa que larga, assim como as suas extremidades afiladas) da torre de menagem foi estritamente ditada pelas dimensões e forma do suporte rochoso (calcário campano-urgoniano) sobre o qual se eleva. A ponta norte da torre de menagem, cuja alvenaria com uma espessura de mais de três metros forma um ângulo de cerca de 65º, está dirigida para o lado de ataque mais provável: a estreita crista situada imediatamente a norte da fortaleza.
No pátio do castelo, o alargamento e escavação natural de uma diaclase (falha vertical natural na rocha calcária) permitiram furar um poço com uma profundidade de 48 metros e um diâmetro de 2 metros. Desde o início da sua existência a fortificação tem, portanto, acesso a água.
Os senhores do castelo combateram pelo partido do Rei de Inglaterra durante a Guerra dos Cem Anos. Nesse contexto, o castelo foi tomado várias vezes, incendiado e abandonado, embora se tenha mantido sempre na posse da família de Fumel.
No dia 11 de Novembro de 1380, Jean de Fumel-Pujols, barão de Blanquefort e senhor do castelo, desposou a herdeira da poderosa família languedocence dos Roquefeuil (Casa de de Roquefeuil-Blanquefort), Jeanne Catherine de Roquefeuil, e abandonou o seu sobrenome, trocando-o pelo mais prestigioso da sua esposa. António, o filho de ambos, herdou os importantes bens das duas famílias. O filho deste último, Jean de Roquefeuil, desposou Isabeau de Peyre. O casal teve nove filhos, entre os quais Béranger, que nasceu em 1448. Jean e e sua esposa residiram esporadicamente em Bonaguil (a exemplo de todos os nobres que possuiam vários castelos), o que o incitou a realizar alguns reordenamentos no interior da austera fortaleza dos seus ancestrais.
A campanha construtiva de Jean de Roquefeuil thumb|250px|Château de Bonaguil, França: planta por Eugène Viollet-le-Duc (o norte fica para baixo).
Jean de Roquefeuil, que enviou o seu filho António a participar na Guerra da Liga do Bem Público contra o Rei, procedeu a algumas melhorias no castelo, tanto defensivas como de conforto:
As paredes da residência a oeste do pátio interior foram elevadas (este, na planta ao lado) com o fim de acrescentar um andar suplementar. Uma escada à vista foi reinstalada num novo torreão "hors d’œuvre" (de entrada) encostado contra o flanco oeste da torre de menagem, o que aumentou o espaço disponível no interior desta. O acesso à torre de menagem passou a efectuar-se, doravante, a partir do pátio, através de um lanço de escadas rectilíneas com uma boa vintena de degraus que conduziam a uma porta aberta na base do torreão escadaria. Esta porta era defendida por uma ponte levadiça pedonal e algumas pequenas canhoneiras de tiro rasante.
A campanha construtiva de Béranger de Roquefeuil Dos quatro varões - entre os nove filhos de Jean - foi o terceiro, Bérenger de Roquefeuil, apelidado "Bringon", que sobreviveu aos demais e herdou, em 1483, os bens dos seus pais. Anteriormente, Béranger havia frequentado a Corte de Luís XI de França, onde o seu pai o fizera entrar, provavelmente, como pagem. Em 1477, Béranger casou com Anne Guesrine du Tournel, no Real Château d'Amboise. Pertencia, sem dúvida, ao círculo de personagens da Corte próximas de Luis XI, pois este último, conhecido pela sua avareza, concedeu-lhe uma confortável pensão. Regressado da Corte após a morte do seu pai, Béranger de Roquefeuil viveu alguns anos entre a sua herdade de Castelnau-Montratier, situada a uma trintena de quilómetros e um dos seus outros castelos, em Blanquefort. Possuía, agora, uma vintena de castelos e quase trinta baronias (dito pelo próprio, alguns anos mais tarde, numa carta endereçada a Luis XII). Foi cerca de 1495 que Bérenger se instalou em Bonaguil, do qual fez a sua residência principal depois de ter procedido, uma dezena de anos antes, a importantes trabalhos que transformaram, aumentaram e reforçaram consideravelmente a velha fortaleza dos seus pais.
Os consideráveis trabalhos de defesa do castelo encontram, provavelmente, a sua fonte nas disputas entre o senhor de Bonaguil e o soberano, Carlos VIII de França, que o condena pela violência manifestada contra os seus servos e vassalos. Esboça-se assim um primeiro retrato psicológico de Béranger: era um poderoso e rico Barão, zeloso das suas prerrogativas senhoriais herdadas desde o tempo dos seus ancestrais, de carácter pouco fácil, orgulhoso em excesso (escreveu "... não temer as tropas do Rei de França se fôr desejo deste tomar assento frente a Bonaguil"). Mas por estes supostos traços do seu carácter, Béranger de Roquefeuil pouco se destingue da maior parte dos grandes senhores do final do século XV, cujo orgulho, independência e, sem dúvida, arrogância só viriam a ser reduzidos cento e trinta anos mais tarde, por Richelieu.
Béranger de Roquefeuil financiou os importantes trabalhos, que duraram trinta anos, graças à fortuna dos Roquefeuil, que possuiam terras da Gironda ao Golfo do Leão.
A primeira cerca thumb|300px|esquerda|Château de Bonaguil, França.
O principal perigo para as fortificações, no final do século XV, vinha dos progressos da artilharia. Esta, nascida mais de um século antes, não cessou de se aperfeiçoar, tanto em poder como em precisão e regularidade de tiro. Para prevenir, era necessário manter os canhões dos assaltantes o mais afastados possível, tendo em conta que estes, no final do século XV, deviam, para ser eficazes, ficar colocados em bateria a uma distância compreendida entre 50 e 100 metros das muralhas a destruir. Mais afastados, o seu tiro perdia potência e mais próximos, os soldados que colocavam as balas expunham-se perigosamente à resposta dos defensores. Tendo em conta estes imperativos técnicos, foi acrescentado ao castelo um recinto externo, com 350 metros de comprimento, constituído por muralhas baixas com baluartes (continham no seu interior uma massa de terra que formava um terraço defensivo na sua parte superior). Este sistema, permitia amortecer parcialmente, graças às grandes massas de terra, as vibrações destruidoras do impacto das balas contra a alvenaria. Este recinto externo de Bonaguil foi reforçado com torres baixas que não ultrapassavam o nível dos baluartes e equipado com canhões de tiro rasante, o que constituía a segunda inovação desta campanha construtiva: a previsão do emprego maciço da artilharia para a defesa do castelo, com um total de 104 vãos preparados para as bocas de fogo.
Tinham-se, por isso, em conta os últimos progresssos do armamento: por um lado afastava-se o tiro dos assaltantes, obrigando-os a posicionar os seus canhões bem mais longe do que desejariam e, por outro, dificultava-se a aproximação da infantaria devido aos múltiplos canhões que disparavam quase rasando o solo em todas as direcções. Por fim, os canhões de grande calibre da defesa eram instalados de preferência num ponto elevado, fosse nos terraços dos baluartes que cercavam o castelo, fosse nas casamatas situadas a meia altura das torres, isto a fim de bater as posições dos assaltantes ao longe. Bonaguil oferecia, portanto, níveis de defesa dispostos em andares, uma técnica que perduraria por vários séculos: os tiros remotos (tiros curvos, ditos "parabólicos") eram efectuados a partir das partes altas da fortaleza e os tiros de interdição de aproximação (tiros tensos e rasantes) disparados a partir das partes baixas. Estas múltiplas possibilidades de utilização da artilharia com fins defensivos eram reforçadas pelo recurso às armas individuais portáteis, tanto de arremesso (arcos e bestas que serviram até ao século XVI), como de fogo (arcabuzes), todas perfeitamente utilizáveis a partir das antigas seteiras dos séculos XIII e XIV, cuja designação foi conservada.