Lusitânia () foi o nome atribuído na Antiguidade ao território oeste da Península Ibérica, parte do qual onde viviam os povos lusitanos desde o Neolítico. Porém, após a conquista romana, aquando da cisão da Hispânia Ulterior, o termo passou a designar uma nova província romana. Essa nova província abrangia, além do território dos lusitanos, também as terras vizinhas, e teve designada pelos romanos como a sua capital Emerita Augusta (atual Mérida), justamente uma das áreas não-lusitanas da província.
A Lusitânia romana incluía aproximadamente todo o atual território português a sul do rio Douro, mais a Estremadura espanhola e parte da . Tornou-se uma província romana a partir de até ao fim do vínculo com Roma e entrega aos Alanos em 411.
Lusitânia pré-romana
thumb|260px|Mapa etnográfico e linguístico da Península Ibérica cerca de
A primeira referência à Lusitânia foi feita nas Histórias de Políbio.Polybius, Histories O historiador e geógrafo grego Estrabão (aprox. – ) descreveu a Lusitânia pré-romana, numa primeira análise, desde o Tejo à costa cantábrica, tendo a ocidente o Atlântico e a Oriente as terras de tribos célticas. A Lusitânia pré-romana é referido como o período até quando foi criada por Augusto a província Lusitânia, o limite ao norte passou a ser o rio Douro e ao sul ultrapassou o Tejo, anexando a Estremadura espanhola, Alentejo e Algarve; e a oriente ocupou parte das terras dos célticos.
Óxtracas, maior cidade dos lusitanos, segundo Apiano, ed. Iorwerth E. S. Edwards, Cambridge University Press. pág. 132. foi destruída em Apesar das fronteiras da Lusitânia não coincidirem com as de Portugal de hoje, os povos que habitaram aquela região são uma das bases etnológicas dos portugueses do centro e sul. Desde épocas remotas esta faixa territorial foi ocupada pelo ser humano. Dos tempos pré-históricos restam vestígios como as grutas naturais e artificiais no Estoril, Cascais, Peniche, Palmela Escoural ou também a cova chamada "Cuna de Viriato" em Valência de Alcântara ou em Cáceres (Estremadura espanhola). A cova de Escoural foi descoberta acidentalmente por uma detonação de uma pedreira e estudada de imediato pelo Dr. Farinha dos Santos que encontrou intactos os restos mortais dos ocupantes deste refúgio, abrigo e jazida funerária; outras jazidas com restos do paleolítico e neolítico são os conceiros do vale do Tejo e Sado, em Muge, da ribeira de Magos, dos arredores da Figueira. Mas principalmente a cultura megalítica, com os dólmens, monumentos de falsas cúpulas de Alcalar no Algarve, que teve no território português um dos seus maiores focos de expansão junto com o oeste estremenho (a célebre "ruta de los dolmenes" da Estremadura), constitui um testemunho, que desde épocas longínquas este território foi um «habitat» privilegiado.
Supõe-se que o Périplo de um navegador massaliota, efetuado por volta de , que descreve a sua viagem marítima ao longo das costas da Península, tenha sido aproveitado por Avieno, escritor do , para compor a Ode Marítima. No seu poema, Avieno refere-se aos "Lucis", que seria considerada, por alguns autores, a mais antiga menção aos lusitanos neste território. Além deles foram referidos os Estrímnios, os Draganos, e a sul, na atual região do Algarve, os cinetes ou cónios.
Muitos dos povos antigos que entraram na Península Ibérica deixaram no território da Lusitânia vestígios bem marcados dos contatos comerciais e de influência cultural. Ficariam perfeitamente acentuados e reveladores de uma assimilação mais profunda os vestígios da ocupação romana, a que se seguiriam as ocupações dos visigodos e dos árabes. Alguns historiadores antigos referem-se ao ouro da Lusitânia, riqueza que como a prata é hoje testemunhada pela frequência dos achados em Portugal, de numerosas joias típicas fabricadas com esses metais — colares, braceletes, pulseiras, arrecadas etc. O cobre, em abundância, extraía-se das minas do Sul. O chumbo encontrava-se, segundo Plínio, o Velho, na cidade lusitana de Medúbriga Plumbária, que da abundância local daquele minério teria recebido o nome.
Os lusitanos, considerados antepassados dos portugueses do centro e sul do país e dos estremenhos, foram um povo celtibérico que viveu na parte ocidental da Península Ibérica. Inicialmente, uma única tribo que vivia entre os rios Douro e Tejo ou Tejo e Guadiana. Ao norte do Douro limitavam com os galaicos e ástures — que constituem a maior parte dos habitantes do norte de Portugal, depois integrados na província romana de Galécia, a sul com os Béticos e a oeste com os celtiberos na área mais central da Hispânia Tarraconense. A figura mais notável entre os lusitanos foi Viriato, o mais destacado dos seus líderes no combate aos romanos.
Guerra com Roma e a resistência lusitana
thumb|1ª Divisão provincial da Hispânia, thumb|2ª Divisão provincial da Hispânia, de Augusto, thumb|3.ª Divisão provincial da Hispânia, de Diocleciano,
A invasão romana da Península Ibérica iniciou-se no contexto da Segunda Guerra Púnica , quando as legiões romanas, sob o comando do cônsul Cipião, para ali se movimentaram, a fim de atacar pela retaguarda os domínios de Cartago na região. A estratégia visava enfraquecer as forças cartaginesas, afastando os seus exércitos da península Itálica. Contudo, a derrota dos cartagineses não garantiu a ocupação pacífica da Península Ibérica. Segundo Plutarco, os rendimentos provenientes de metais preciosos da Hispânia cobriam todas as despesas da guerra. Para além da exploração das minas de ouro e prata uma grande receita provinha dos tributos, impostos, resgates e saques que incluíam objectos de ouro e prata dos tesouros públicos.
A partir de , registaram-se choques com tribos de lusitanos, conflitos que se estenderiam até , denominados por alguns autores como guerra lusitana. A disputa foi mais acesa pelos territórios mais prósperos, especialmente na região da atual Andaluzia. Nestes confrontos destacou-se um grupo de lusitanos liderados por Viriato, chefe eleito por aclamação. Este grupo infligiu várias derrotas às tropas romanas na região da periferia andaluza, tornando-se um mito da resistência peninsular.
Em , o pretor Sérvio Galba estabeleceu um acordo de paz com os lusitanos, na condição de entregarem as armas. Aproveitando-se desta paz para os chacinar, fez lavrar ainda mais a revolta. Durante oito anos os romanos sofreram pesadas baixas, numa luta que levou ao assassínio de Viriato traído por três dos seus aliados pagos pelos romanos. Mas a luta não parou, e Roma enviou à Península o cônsul Décimo Júnio Bruto Galaico, que fortificou Olisipo, estabeleceu a base de operações em Méron próximo de Santarém, e marchou para o Norte, matando e destruindo tudo o que encontrou até à margem do rio Lima. Nem assim Roma conseguiu a submissão total e o domínio do norte da Lusitânia só foi conseguido muitos anos após a tomada de Numância, na Celtibéria que apoiava os castros de Noroeste. No , consegue-se a Pax Augusta: a Hispânia é dividida em três províncias. Neste período o geógrafo Estrabão, e o historiador universal Trogo Pompeu dedicam-se a descrever os seus habitantes. Segundo Trogo: «Os hispanos [de Hispânia] têm o corpo preparado para a abstinência e fadiga, e ânimo para a morte: uma dura e áustera sobriedade para todos. […] Em tantos séculos de guerra com Roma, não tiveram nenhum outro capitão a não ser Viriato, um homem de tal virtude e continência que, depois de vencer os exércitos consulares durante 10 anos, nunca quis distinguir-se no seu modo de vida de qualquer soldade raso».
Outro historiador romano, Tito Lívio escreve também sobre o carácter do homem hispânico: «Ágil, belicoso, inquieto. A Hispânia é distinta da Itálica, mais disposta para a guerra por causa do agreste terreno e do génio dos homens».
Lúcio Aneu Floro (entre os séculos I e II), um historiador amigo de Adriano, também teceu algumas considerações: «A nação hispânica, ou a Hispânia Universa, não soube unir-se contra Roma. Defendida pelos Pirenéus e pelo mar, podia ter-se tornado inacessível. O seu povo foi sempre valoroso, mas muito mal hierarquizado» [i.e., apesar de cada tribo ou povoação dispor de um líder, não existia nenhuma forma de coordenação].
Ao iniciar-se a fase imperial romana, a Pax Augusta fez-se sentir na Península: a partir de , as legiões ocuparam a região norte peninsular, mais inóspita, ocupada por povos cântabros e ástures. Com esta ocupação, asseguravam-se as fronteiras naturais e pacificava-se essa região mais atrasada, de modo a que não constituísse ameaça para as populações do vale do rio Ebro e da chamada Meseta, já em plena fase de romanização.
Divisão administrativa
thumb|A Lusitânia no tempo de Adriano , mostrando as principais vias romanas, assentamentos de legionários e minas de ouro e prata (Au/Ag). Nomes e localidades "bárbaros" de acordo com a obra de Tácito (escrita )"
A Lusitânia estava densamente povoada especialmente a sul do Tejo, existindo nela diversas comunidades, tal como descrevem os geógrafos Estrabão, Pompónio, Plínio, o Velho e Ptolomeu entre os séculos e
A província foi subdividida entre o império de Augusto e o de Cláudio em três conventos jurídicos, unidades territoriais presididas por cidades capitais com assento de tribunal e de assembleias conjuntas de romanos e indígenas (convento) que aconselhavam o governador na administração da justiça, entre outras possíveis atribuições:
Convento Emeritense, com capital em Emerita Augusta (Mérida, Espanha); Convento Escalabitano, com capital em Escálabis Júlia (Santarém, Portugal); Convento Pacense, com capital em Pax Júlia (Beja, Portugal).
Os conventos presidiam um total de 46 povos, sendo 5 cidades de colonos romanos, entre as quais Pax Júlia (Beja), Escálabis (Santarém) e Olisipo (Lisboa), município de direito romano, e três que usufruíam o direito lácio - Ebora (Évora), Mírtilis (Mértola) e Salácia (Alcácer do Sal); finalmente 37 eram da classe estipendiária, entre as quais se destacam Emínio (Coimbra), Balsa (Tavira), Miróbriga (Santiago do Cacém). Algumas dessas comunidades encontram-se por localizar com precisão: Ossónoba (Faro?), Cetóbriga (Setúbal?), Colipo (Leiria?), Arábriga (Alenquer?).
Principais cidades da Lusitânia romana
thumb|Teatro de Mérida, construído sob o cônsul Marco Vipsânio Agripa
thumb|Templo romano de Évora, , Évora
thumb|Ponte de Alcântara sobre o Tejo, sob o imperador Trajano, Estremadura espanhola
thumb|Pavimento de mosaico em Conímbriga, Portugal
Emérita Augusta Emérita Augusta, atual Mérida, foi fundada a por Públio Carísio, representante de Octávio Augusto com a finalidade de estabelecer um posto intermédio para as legiões V Alaudas e X Gêmea. Emérita era um enclave estratégico na margem do rio Anas (Guadiana) que servia de eixo de comunicação entre a província Bética com as terras do noroeste peninsular e as do eixo meridional (Olisipo) edificada no território dos Vetões e que rapidamente se converteu numa das cidades mais importantes de Hispânia, tornando-se capital da Lusitânia. O Conjunto Arqueológico de Mérida, um dos principais e mais extensos conjuntos arqueológicos de Espanha, foi declarado Património Mundial em 1993 pela UNESCO.
Pax Júlia