Os Megalópteros (Megaloptera; megalo=grande; pteron=asa) são uma ordem de insetos pterigotos (apresentam asas) cujo número de espécies descritas atinge cerca de 348, sendo composta de 30 gêneros. No Brasil, há 19 espécies dessa ordem, encaixando-se dentro das famílias Corydalidae e Sialidae, que podem ser diferenciadas facilmente pelo tamanho do corpo que, composto por cabeça, tórax e abdômen, varia entre 25 e 90 mm para Corydalidae e entre 10 e 25 milímetros para Sialidae. Possuem grande tamanho corporal e de sua mandíbula, que pode atingir até três centímetros em alguns insetos, principalmente nos Corydalidae. O elevado comprimento da mandíbula é predominante nos machos das espécies, relacionando-se ao processo de cópula para a reprodução. Apresentam desenvolvimento holometábolo, passando pelos estágios de larva, pupa e adulto. As larvas são aquáticas e ativas, alimentando-se de pequenos invertebrados, enquanto os adultos possuem hábitos noturnos, crepusculares ou diurnos, sendo encontrados próximos às margens de cursos d’água ou em locais sombreados.AZEVÊDO, C.A.S. 2003. Taxonomia e bionomia de imaturos de Megaloptera (Insecta) na Amazônia Central, Brasil. Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia/Fundação Universidade do Amazonas. Manaus, Amazonas São conhecidos popularmente como "Lacraias d'água" (devido as grandes larvas aquáticas, em especial da família Corydalidae) ou “Hellgrammite”, em inglês (etimologia incerta, uma hipótese proposta é Hell + Grim + Mite, possivelmente significando "Ácaro Ameaçador do Inferno"). Em outras regiões do país podem ser conhecidos como “Julião”, "Diabo-do-córrego"(Minas Gerais) e "Lacrau" (Rio de Janeiro).
Taxonomia e filogenia Relação com outros insetos Os Megaloptera pertencem à infraclasse Neoptera, podendo dobrar suas asas sobre o abdômen. São endopterigotos, também chamados holometábolos, isto é, são insetos que possuem os estágios de larva, pupa e adulto característicos, com habitat, ecologia e morfologia diferentes. Eles pertencem à superordem Neuropterida. Na nova filogenia, enquanto grupos como Raphidioptera (grupo não presente no Brasil) são indiscutivelmente monofiléticos, com todos os membros possuindo um ancestral comum, Megaloptera possui seu táxon construído para objetivos práticos e operacionais, sendo ainda comumente questionado quanto sua monofilia. A maior parte das espécies do grupo Neuropterida possuem larvas terrestres, com exceção dos Megaloptera e algumas espécies de Neuroptera. direita|250px|thumb|Exemplar macho de Corydalus cornutus. Vista dorsal e ventral direita|250px|thumb|Exemplar fêmea de Corydalus cornutus. Vista dorsal e ventral O cladogramaGullan & Cranston (2008). Os insetos. 3ª edição. Editora Roca. a seguir indica a relação entre os endopterigotos:
Relação entre famílias Megaloptera originou-se no final do Paleozóico (cerca de 260 milhões de anos), no período Permiano.CHANDLER, H.P. 1956. Megaloptera. In: Usinger, R.L. (Ed). Aquatic insect of California with keys to North American genera and California species. University of California Press, Berkeley, California. p 229-233 Atualmente, a ordem é composta por duas famílias: Corydalidae e Sialidae, 30 gêneros e pouco mais de 300 espécies descritas, das quais poucas localizam-se na Região Tropical, enquanto há maior distribuição para a Região Temperada.
A maioria dos gêneros de megalopteros são pequenos, contendo até dez espécies. Desse modo, os gêneros mais diversos são Archichauliodes (21 spp.), Neochauliodes (18 spp.), Protochauliodes (14 spp.), Chloronia (14 spp.), Corydalus (30 spp.) e Protohermes (42 spp.) para a família dos coridalídeos; e Sialis (60 spp.) para os sialídeos.
A família Corydalidae apresenta insetos de tamanho grande, com larvas de 20 a 80 mm e adultos com envergadura de asa de 16 a 18 cm. Os adultos possuem três ocelos, olhos que não são capazes de formar imagens, percebendo apenas a intensidade luminosa, e mandíbulas grandes em forma de foice. As larvas apresentam oito pares de filamentos abdominais laterais e um par de falsas pernas terminais com ganchos. Esta família abriga duas subfamílias (Chauliodinae e Corydalinae), 24 gêneros e aproximadamente 120 espécies que se distribuem nas zonas Oriental, Neoártica e Neotropical.
Os adultos da subfamília Corydalinae apresentam mandíbulas muito grandes em relação a cabeça, com formato de foice. Patas com duas unhas e, às vezes, modificação no último par de estigmas abdominais, e suas larvas apresentam tufos branquiais ventrais. Já Chauliodinae apresenta mandíbulas menos desenvolvidas, fusão de algumas estruturas na cabeça e redução dos apêndices genitais, além da ausência dos tufos brânquiais nas larvas.
A família Sialidae apresenta insetos de tamanho mediano, com larvas de 0,8 a 12 mm e adultos com cerca de 12 mm de asa e sem ocelos. As larvas apresentam sete pares de filamentos abdominais laterais e um longo filamento terminal. Esta família abriga seis gêneros, distribuídos pelas zonas Paleoártica, Neotropical e Neoártica.
Morfologia e anatomia direita|200px|thumb|Larva de Corydalidae "Hellgrammite" Larva As larvas dos megalópteros são alongadas e achatadas dorso-ventralmente. Possuem cabeça prognata (cujas peças bucais são voltadas frente, formando com a cabeça um ângulo de 180º ), levemente quadrangular, com peças bucais (como mandíbula e maxila) bem desenvolvidas e voltadas para frente. Apresentam antenas com quatro a cinco segmentos (antenomeros) de tamanho semelhante ao da maxila. A cabeça e o tórax são esclerotizados. As pernas possuem tarso longo, não segmentado, terminando em dois ganchos. Em Sialidae, há sete pares de filamentos laterais longos e um filamento longo na região terminal do abdome. Nos Corydalidae, são oito pares de filamentos laterais longos e um par de falsas pernas anais, cada qual com dois ganchos na região terminal do abdome. direita|200px|thumb|Pupa de Sialis lutaria
Pupa As pupas desse grupo são ativas e móveis, ou seja, suas pernas são livres e podem movimentar-se e utilizar suas mandíbulas para defesa. A cabeça é similar à da larva em forma e proporção, no entanto as antenas e olhos compostos já estão desenvolvidos.
Adulto esquerda|200px|thumb|Exemplar de Chloronia hieroglyphica Em adultos, o primeiro tagma, a cabeça, contém os olhos, antenas e peças bucais (lábio, labro, mandíbula e maxila). O segundo tagma é o tórax, que abrange três segmentos cada qual com um par de patas e um quarto segmento com um par de asas. O terceiro e último tagma é o abdome que consiste de dez segmentos, o último com um par de cercos simples.AZEVÊDO, C.A.S; Hamada, N. Insetos aquáticos na Amazônia brasileira: taxonomia, biologia e ecologia. Editora do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, Manaus, 2014. pp 335-342 Em geral, possuem coloração parda, com exceção do gênero Chloronia, que apresenta coloração amarela.
direita|300px|thumb|Ilustração de Corydalus cornutus. 1-antenas; 2-mandibula; 3-olhos; 4,5,6-patas; 7,8-asas; A-cabeça; B-tórax; C-abdome Os Megaloptera possuem cabeça prognata, quadrangular e levemente achatada, com um par de olhos compostos posicionados lateralmente e ocelos em Corydalidae. As antenas são longas, com padrões que variam entre moniliforme, cujos segmentos são arredondados; filiforme, com todos os antenômeros (segmentos da antena) semelhantes em tamanho e alongados; seriada, em que os antenômeros têm expansões laterais pontiagudas, semelhantes aos dentes de uma serra; ou pectinada, cujos antenômeros possuem expansões laterais longas e finas, semelhantes a um pente. Apresentam mandíbulas muito desenvolvidas, que também indicam dimorfismo sexual em algumas espécies nas quais os machos tem mandíbulas longas e mais esclerosadas que as fêmeas. No entanto, esses machos não possuem força nessas mandíbulas, utilizando-as apenas para o acasalamento, ao contrário das fêmeas que possuem mordidas muito potentes. O palpo maxilar possui de quatro a cinco artículos, e o palpo labial, de três a quatro. A placa gular encontra-se exposta.AZEVÊDO, C.A.S; Hamada, N. Insetos aquáticos na Amazônia brasileira: taxonomia, biologia e ecologia. Editora do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, Manaus, 2014. pp 335-342
O tórax tem três regiões bem desenvolvidas; o protórax, que está mais próximo da cabeça, é pouco alongado e quadrangular; o mesotórax (segundo anel do tórax dos insetos, entre o protórax e o metatórax) que é grande e visivelmente segmentado; e o metatórax que é semelhante ao mesotórax porém menor. É no tórax que se localizam os apêndices e as asas. São três pares de patas ambulatórias, adaptadas para locomoção e semelhantes entre si. Há um par de patas em cada uma das três regiões, enquanto os pares de asas encontram-se nas duas regiões mais posteriores. As quatro asas são membranosas, semelhantes em textura e espessura. O par posterior é mais largo na base do que o anterior e possui a área anal bem desenvolvida. Quando em repouso, a base das asas posteriores dobra-se em leque.COSTA LIMA. 1943. Insetos do Brasil. Escola Nacional de Agronomia. Série didática Nº 5.
O abdome é macio e flexível, mais ou menos alongado e cilíndrico. Possui dez segmentos, sendo que do 1 ao 8 apresentam espiráculos (aberturas traqueais). As fêmeas possuem um par de gonapófises, valvas que formam um ovipositor (órgão utilizado para depositar ovos) distinto, e seus gonopódios não são salientes.COSTA LIMA. 1943. Insetos do Brasil. Escola Nacional de Agronomia. Série didática Nº 5.
Ciclo de vida e desenvolvimento direita|250px|thumb|Ilustração de um coridalídeo. a-larva; b-pupa; c-macho adulto; d-fêmea adulta. Abaixo-folha com massa de ovos Cópula Os casais são atraídos durante a corte com vibrações abdominais (estridulação) produzidos tanto por machos quanto por fêmeas para reconhecimento da espécie. Os machos também fazem uso de feromônios (atrativos odoríferos) produzidos em glândulas eversíveis próximas a genitálias para atrair as fêmeas. O comportamento pré-cópula varia dependendo do grupo. Entre machos do gênero Corydalus pode ocorrer confrontos, já entre os Platyneuromus ocorre apenas exibição das mandíbulas. Também são realizados rituais de dança e toque entre as antenas do casal (Corydalus). Em Platyneuromus soror, os machos perseguem as fêmeas, balançando as asas e levantando o abdome. Ocasionalmente, a cópula pode ser forçada com o macho utilizando suas mandíbulas super desenvolvidas para segurar a fêmea. A cópula sempre ocorre perto de cursos de água para facilitar a oviposição. A transmissão do espermatozoide ocorre de forma indireta, isto é, através de um espermatóforo gelatinoso.
Oviposição esquerda|150px|thumb|Massa de ovos de megalóptero As fêmeas adultas de Megaloptera põem seus ovos em pedras, troncos caídos, folhas entre outros substratos próximos a fontes de água. Os ovos são postos em grande número (até vários milhares de ovos) e recobertos por uma substancia branca. Em coridalídeos, podem haver de uma a cinco camadas de ovos, enquanto em sialídeos há apenas uma. O ovo é sub-cilíndrico, com micrópole e córion em diferentes tonalidades entre pardo e preto, e seu desenvolvimento embrionário ocorre em cerca de 13 dias.
Desenvolvimento Ao eclodirem, as larvas caem na água ou rastejam em busca de substrato para se abrigar. Possuem brânquias abdominais laterais e seu desenvolvimento leva de dois a cinco anos, dependendo da espécie, e da localização - em maiores altitudes o desenvolvimento pode levar mais tempo.CONTRERAS-RAMOS, A. 1998. Systematics of the Dobsonfly genus Corydalus (Megaloptera: Corydalidae). Entomological society of America. Thomas Say Publications in Entomology: Monographs. USA. 360 pp