O distúrbio do colapso das colônias (DCC) se refere ao desaparecimento de populações de abelhas, atualmente ocorrendo em diversos países. O termo surgiu em 2006 nos Estados Unidos como colony collapse disorder, depois do relato de grande número de casos. Na sua definição clássica, o DCC implica uma maciça redução da população de operárias de uma colônia, com a preservação da rainha e de um grande estoque de mel. A maioria dessas colônias muito enfraquecidas não se recupera e acaba se extinguindo. As causas do DCC não são bem conhecidas, provavelmente seja uma combinação de fatores, como perda de habitat, doenças e uso de certos agrotóxicos, especialmente inseticidas de uso agrícola. São afetadas tanto as abelhas domesticadas como as selvagens. Depois de um dramático aumento na década de 2000, em anos recentes a incidência global de DCC tem declinado, mas fortes episódios regionais continuam sendo relatados quase continuamente, e as projeções para o futuro são muito incertas. Popularmente ainda reina grande confusão sobre o que consiste o DCC. Muitas mortes em massa de abelhas que têm sido relatadas se devem apenas ao envenenamento por agrotóxicos, e não devem ser considerados casos de DCC.
História
Fenômenos semelhantes foram registrados pelo menos desde 1869, e desde então várias denominações populares foram surgindo.Underwood, Robyn M. & Engelsdorp, Dennis van. Colony Collapse Disorder: Have We Seen This Before?. The Pennsylvania State University, Department of Entomology, 2010 Em 1906 foi bem documentado um caso de grandes perdas no Reino Unido. Na época as causas não foram determinadas, mas análises posteriores sugerem uma combinação de fatores.Neumann, Peter & Carreck, Norman L. "Honey bee colony losses". In: Journal of Apicultural Research, 2010; 49 (1): 1–6 Novas ocorrências foram documentadas em 1918 e 1919 nos Estados Unidos,"Bees leave hive". In: American Bee Journal, 1919; (59): 385 e outros casos se repetiram mais tarde em vários locais.
Na década de 1970 começou a se observado um dramático declínio nas abelhas selvagens dos Estados Unidos, e um declínio nítido, mas menos acentuado, entre as colônias domesticadas. Isso tem sido atribuído a uma combinação de fatores, incluindo a perda de habitats, avanço da urbanização, infecções e uso de pesticidas agrícolas.Watanabe, M. "Pollination worries rise as honey bees decline". In: Science, 1994; 265 (5176): 1170 No inverno de 2006/2007 o problema afetou pesadamente as abelhas norte-americanas. De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, de 30 a 60% das abelhas sumiram na Califórnia (oeste) e mais de 70% em algumas regiões da costa leste e no Texas (sul). 24 estados americanos e duas províncias canadenses foram afetadas."Desaparecimento em massa de abelhas nos EUA permanece inexplicável". Folha de S.Paulo, 06/04/2007 No geral, os apicultores relatavam perdas que variavam de 30 a 90%. No Reino Unido, no mesmo ano, as perdas nas colônias selvagens foi dita "catastrófica", e todos os outros insetos polinizadores estavam em declínio."Wild bee decline catastrophic". BBC News, 23/04/2008 Um fenômeno semelhante foi observado na mesma época por apicultores da Bélgica, França, Países Baixos, Polónia, Grécia, Itália, Portugal e Espanha.Dupont, Gaëlle. "Les abeilles malades de l'homme". Le Monde, 08/09/2007 Em vista disso, a Comissão Europeia tentou suspender temporariamente a aplicação de alguns agrotóxicos neonicotinoides mas enfrentou forte pressão dos fabricantes.
O DCC parece ser sujeito a ciclos de natureza e origem desconhecida, ocorrendo fases de agravamento seguidas de estabilização e até reversão nas tendências, e a distribuição mundial é bastante irregular e imprevisível."Mystery of the Missing Bees Looks Back at Colony Collapse Disorder". Nature Now, 14/11/2014Miller, Matt. "The Bees Are All Right". Slate, 29/07/2016 Um levantamento indicou que desde 2012 os casos de DCC têm declinado em nível global, mas erupções regionais de grande dimensão continuam sendo registradas, como nos Estados Unidos, que em 2014 perdeu 40% de suas colônias domesticadas.Casey, Michael. "40 percent of U.S. bee colonies died in past year". CBS News, 13/05/2015 Por outro lado, têm aumentado o número de perdas de colônias no verão, que ainda não foram bem explicadas. Especialmente nos países com inverno rigoroso, a sobrevivência a esta estação é um bom indicador da saúde das colônias, mas se os casos bem identificados como DCC dão sinais de declinar, as perdas estivais não se encaixam muito bem nessa definição e são um novo motivo de preocupação.United States Environmental Protection Agency. Colony Collapse Disorder.Kaplan, Kim. Bee Survey: Lower Winter Losses, Higher Summer Losses, Increased Total Annual Losses. United States Environmental Protection Agency, 13/05/2015
Características
Em 2007 a bióloga Diana Cox-Foster, que estudou o grande colapso que ocorreu naquele ano no Reino Unido, observou que a condição das colônias parecia diferente dos casos de infestação maciça pelo parasita Varroa, que vem sendo implicado no DCC. A maioria das colmeias mantinha um pequeno grupo de operárias em torno da rainha, geralmente dispondo de um grande estoque de mel e pólen. Todas as abelhas que permaneciam nas colônias estavam infectadas por muitos outros microrganismos causadores de doenças e que costumam aparecer em condições de estresse, e as colônias permaneciam muito tempo vazias antes de serem repovoadas, sugerindo a permanência residual de algum contaminante químico ou um patógeno desconhecido.
Hoje a definição clássica do que consiste o distúrbio do colapso das colônias se conformou à sua descrição: uma colônia com um pequeno grupo de operárias e uma rainha, algumas operárias mortas no entorno da colmeia, e muita comida à disposição. Como essas poucas operárias não podem levar a cabo todas as atividades necessárias, as colônias em regra acabam morrendo completamente. Ainda não se sabe que fim levam as abelhas desaparecidas. Elas não são encontradas mortas no entorno da colônia ou em seu interior. A presença de bons estoques de mel e pólen parece eliminar como causas a fome (mas não descarta má nutrição crônica) e ataques das colônias para saque, como às vezes fazem outras espécies de abelhas, besouros e formigas. Esses estoques, depois das colônias serem extintas, não são logo consumidos por outros animais, sugerindo que de alguma forma estão contaminados. A presença costumeira de muitas larvas descarta um abandono natural, como quando ocorre a divisão da colônia para a fundação de uma nova, pois muito raramente as abelhas abandonam suas larvas sem deixarem operárias em número suficiente para criá-las. As operárias sobreviventes são em geral jovens e relutam em aceitar alimentação artificial. Outra particularidade é a não sazonalidade, ocorrendo durante todo o ano."Discussion of phenomenon of Colony disorder collapse". Canadian Honey Council, 27/01/2007Van Engelsdorp, Dennis et al. "Colony Collapse Disorder: A Descriptive Study". In: Plos One, 2009; 4 (8): e6481 Alguns cientistas têm observado em anos recentes uma modificação no perfil clássico do distúrbio e a polêmica continua sobre o assunto, assim como as perdas continuam grandes.Raphael, T.J. "Seven years later, scientists are still looking for answers about Colony Collapse Disorder". Public Radio International, 30/09/2014 Contudo, muitos casos recentes de mortandade de abelhas têm sido atribuídos principalmente ao envenenamento por agrotóxicos, não caracterizando DCC, pois são encontradas grandes quantidades de abelhas mortas perto ou dentro das colônias.
Origem
thumb|left|Grãos de pólen variados.
A opinião científica predominante permanece sendo de que o DCC se deve a uma combinação de causas e não a um só agente.Watson, Kelly & Stallins, J. Anthony. "Honey Bees and Colony Collapse Disorder: A Pluralistic Reframing". In: Geography Compass, 2016; 10 (5): 222–236 Os agrotóxicos há anos têm sido muito apontados como uma parte importante do problema, e já foi acumulada vasta evidência de que são responsáveis também no declínio em todo o mundo de outros polinizadores como os morcegos, os beija-flores, besouros e borboletas.Ibama [Rocha, Maria Cecília de Lima e Sá de Alencar]. Efeitos dos agrotóxicos sobre as abelhas silvestres no Brasil: proposta metodológica de acompanhamento. Ibama, 2012NAPPC Pesticide Task Force. Protecting Pollinators: Why and How Pesticide Applicators Can Help Them. North American Pollinator Protection Campaign"Study strengthens link between neonicotinoids and collapse of honey bee colonies". Harvard University News, 09/05/2014 Todos os continentes (salvo a Antártida) têm mostrado grandes níveis de declínio em seus polinizadores, mas em proporções desiguais. Muitas espécies de plantas têm declinado em função desse desaparecimento. A abelha Apis mellifera, tanto domesticada quanto selvagem, a mais importante para o homem, tem declinado acentuadamente nos Estados Unidos e na Europa.FAO. Rapid Assessment of Pollinators' Status, 2008, pp. 1-5 As abelhas podem não ser o alvo dos venenos, mas elas acabam contaminadas por se alimentarem em culturas contaminadas. Pequenas doses repetidas podem não matar, mas têm efeito cumulativo e no longo prazo têm sido ligadas ao desenvolvimento de padrões de comportamento anormais, desorientação, diminuição da longevidade, comprometimento da divisão de trabalhos, irritabilidade excessiva, declínio ou interrupção da postura de ovos pela rainha, mortalidade e má formação das larvas, perda de vigor e a uma redução da resistência das abelhas ao estresse e a doenças, além de contaminar o mel produzido.
Por outro lado, é frequente o tratamento químico de colônias para combater diversos problemas, isso às vezes ocorre empregando várias substâncias sucessivamente, mas substâncias que não são letais podem se tornar quando interagem com outras, mesmo através de resíduos.FAO. Honey bee diseases and pests: a practical guide. FAO Agricultural and Engineering Technical Reports, 2006 O imidacloprido é um campeão mundial de vendas no mercado de inseticidas. Foi desenvolvido nos anos 1970 pela Shell e, na década de 1980, pela Bayer. As vendas globais estimadas de imidacloprido totalizam pouco mais de 1 bilhão de dólares por ano. O segundo lugar em faturamento cabe ao tiametoxam, da Syngenta, com mais de US$ 600 milhões ao ano. Conforme pesquisa publicada em 21 de março de 2017, no Journal of Economic Entomology, o fungicida iprodiona, normalmente usado em pomares de amendoeiras, pode matar as abelhas melíferas em aproximadamente dez dias após exposição à substância.Fisher II, Adrian et al. "The Synergistic Effects of Almond Protection Fungicides on Honey Bee (Hymenoptera: Apidae) Forager Survival". In: Journal of Economic Entomology, 2017; 110 (3): 802–808 Ainda há grande polêmica a respeito do papel dos pesticidas, mas efeitos letais e subletais agudos e crônicos sobre abelhas têm sido documentados com crescente solidez, e permanecem como uma das principais preocupações.