Nas religiões abraâmicas, Moisés foi o profeta hebreu que conduziu os israelitas para fora da escravidão no Êxodo do Egito. É considerado o mais importante profeta do judaísmo e do samaritanismo, além de um dos mais importantes profetas do cristianismo, do islã, da Fé Bahá'í e de outras religiões abraâmicas. Segundo as escrituras abraâmicas, Deus ditou a Lei mosaica a Moisés, que a registrou por escrito e que passou a constituir parte da Torá.
Segundo o Livro do Êxodo, Moisés nasceu em um período no qual seu povo, os israelitas, uma minoria escravizada, crescia em número; por isso, o faraó egípcio temia que eles se aliassem aos inimigos do Egito. Quando o faraó ordenou que todos os meninos hebreus recém-nascidos fossem mortos para reduzir a população israelita, a mãe hebreia de Moisés, Joquebede, escondeu-o secretamente entre os juncos às margens do Nilo. A filha do faraó encontrou o bebê ali e o adotou como uma criança abandonada. Assim, ele cresceu no seio da família real egípcia. Depois de matar um egípcio que espancava um hebreu, Moisés fugiu para Midiã, onde encontrou o Anjo do Senhor, que lhe falou de dentro de uma sarça em chamas no Monte Horebe.
Deus enviou Moisés de volta ao Egito para exigir a libertação dos israelitas da escravidão. Moisés objetou que não sabia falar com eloquência, e, por isso, Deus permitiu que Aarão, seu irmão mais velho, falasse em seu nome. Após as Dez Pragas, Moisés liderou o Êxodo dos israelitas para fora do Egito e através do Mar Vermelho, depois do que se estabeleceram junto ao Monte Sinai, onde Moisés recebeu os Dez Mandamentos. Após quarenta anos vagando pelo deserto, Moisés morreu no Monte Nebo, aos 120 anos, avistando a Terra Prometida.
A maioria dos estudiosos considera o Moisés bíblico uma figura lendária, embora mantenha a possibilidade de que Moisés, ou uma figura semelhante a ele, tenha existido no século XIII a.C. O Judaísmo rabínico calculou para Moisés um período de vida correspondente a 1391–1271 a.C.;Seder Olam Rabbah Jerónimo propôs 1592 a.C.,Jerome's Chronicon (4th century) gives 1592 for the birth of Moses e James Ussher indicou 1571 a.C. como o ano de seu nascimento. Moisés foi frequentemente representado na arte, na literatura, na música e no cinema, além de ser tema de obras presentes em diversos edifícios governamentais dos Estados Unidos.
Etimologia do nome thumb|upright=1.15|A Descoberta de Moisés, pintura de Sir Lawrence Alma-Tadema, 1904
A raiz egípcia ("filho de") ou mose tem sido considerada uma possível etimologia, provavelmente como abreviação de um nome teofórico no qual o nome do deus foi omitido. O sufixo mose aparece em nomes de faraós egípcios, como Tutemés ("nascido de Tote") e Ramose ("nascido de Rá"). Um dos nomes egípcios de Ramessés era , que significa "nascido de Rá, amado de Ámon". Ms, isoladamente, também possui diversas ocorrências atestadas como nome pessoal egípcio no Império Novo. O linguista Abraham Yahuda, com base na grafia apresentada na Tanakh, argumenta que o nome combina "água" ou "semente" com "lagoa, extensão de água", produzindo, assim, o sentido de "filho do Nilo" ().Ulmer, Rivka. 2009. Egyptian Cultural Icons in Midrash. de Gruyter. p. 269.
O relato bíblico do nascimento de Moisés apresenta uma etimologia popular para explicar o significado aparente de seu nome.Naomi E. Pasachoff, Robert J. Littman (2005), A Concise History of the Jewish People, Rowman & Littlefield, p. 5. Diz-se que ele o recebeu da filha do faraó: "ele tornou-se seu filho. Ela lhe deu o nome de Moisés [, ], dizendo: 'Eu o tirei [, ] das águas'".Maciá, Lorena Miralles. 2014. "Judaizing a Gentile Biblical Character through Fictive Biographical Reports: The Case of Bityah, Pharaoh's Daughter, Moses' Mother, according to Rabbinic Interpretations". pp. 145–175 in C. Cordoni and G. Langer (eds.), Narratology, Hermeneutics, and Midrash: Jewish, Christian, and Muslim Narratives from Late Antiquity through to Modern Times. Vandenhoeck & Ruprecht. Essa explicação relaciona o nome à raiz semítica , , que significa "tirar para fora". O tosafista do século XI Isaac ben Asher ha-Levi observou que a princesa lhe dá o particípio ativo "aquele que tira" (, ), e não o particípio passivo "tirado" (, ), profetizando, com efeito, que Moisés tiraria outras pessoas para fora do Egito; essa interpretação foi aceita por alguns estudiosos.
A etimologia hebraica presente no relato bíblico pode refletir uma tentativa de apagar os vestígios das origens egípcias — isto é, gentias — de Moisés. A natureza egípcia de seu nome foi reconhecida por antigos autores judeus, como Fílon e Josefo.Greifenhagen, Franz V. 2003. Egypt on the Pentateuch's Ideological Map: Constructing Biblical Israel's Identity. Bloomsbury. pp. 60ff n.65. . Fílon relacionou o nome de Moisés () à palavra egípcia — copta — para "água" (, ), em referência ao fato de ele ter sido encontrado no Nilo e à etimologia popular bíblica. Josefo, em suas Antiguidades Judaicas, afirma que o segundo elemento, , significava "aqueles que são salvos". A questão de como uma princesa egípcia — que, segundo o relato bíblico do Livro do Êxodo, deu-lhe o nome "Moisés" — poderia conhecer o hebraico intrigou comentaristas judeus medievais, como Abraham ibn Ezra e Ezequias ben Manoá. Ezequias sugeriu que ela teria se convertido ao judaísmo ou recebido a sugestão de Joquebede, mãe de Moisés.Shurpin, Yehuda. Is Moses a Jewish or Egyptian Name?. Chabad.org.Salkin, Jeffrey K. (2008). Righteous Gentiles in the Hebrew Bible: Ancient Role Models for Sacred Relationships. Jewish Lights. pp. 47ff .Harris, Maurice D. 2012. Moses: A Stranger Among Us. Wipf and Stock. pp. 22–24. A princesa egípcia que deu o nome a Moisés não é identificada no Livro do Êxodo. Josefo, porém, a conhecia como Termutis — identificada como Tarmut —, e alguns integrantes da tradição judaica procuraram identificá-la com uma "filha do faraó" mencionada em I Crônicas 4:17, chamada Bitia,Scolnic, Benjamin Edidin. 2005. If the Egyptians Drowned in the Red Sea where are Pharaoh's Chariots?: Exploring the Historical Dimension of the Bible. University Press of America. p. 82. embora outros observem que isso é improvável, pois não há indicação textual de que essa filha do faraó seja a mesma que deu nome a Moisés.
Ibn Ezra apresentou duas possibilidades para o nome de Moisés: acreditava que ele seria uma tradução do nome egípcio, e não uma transliteração, ou que a filha do faraó saberia falar hebraico.
Kenneth Kitchen argumenta que a etimologia hebraica é provavelmente a correta, pois os sons do hebraico não correspondem à pronúncia do egípcio no período relevante.Kenneth A. Kitchen, On the Reliability of the Old Testament (2003), pp. 296–297: "His name is widely held to be Egyptian, and its form is too often misinterpreted by biblical scholars. It is frequently equated with the Egyptian word 'ms' (Mose) meaning 'child', and stated to be an abbreviation of a name compounded with that of a deity whose name has been omitted. And indeed we have many Egyptians called Amen-mose, Ptah-mose, Ra-mose, Hor-mose, and so on. But this explanation is wrong. We also have very many Egyptians who were actually called just 'Mose', without omission of any particular deity. Most famous because of his family's long lawsuit in the middle-class scribe Mose (of the temple of Ptah at Memphis), under Ramesses II; but he had many homonyms. So, the omission-of-deity explanation is to be dismissed as wrong ... There is worse. The name of Moses is most likely not Egyptian in the first place! The sibilants do not match as they should, and this cannot be explained away. Overwhelmingly, Egyptian 's' appears as 's' (samekh) in Hebrew and West Semitic, while Hebrew and West Semitic 's' (samekh) appears as 'tj' in Egyptian. Conversely, Egyptian 'sh' = Hebrew 'sh', and vice versa. It is better to admit that the child was named (Exod 2:10b) by his own mother, in a form originally vocalized 'Mashu', 'one drawn out' (which became 'Moshe', 'he who draws out', i.e., his people from slavery, when he led them forth). In fourteenth/thirteenth-century Egypt, 'Mose' was actually pronounced 'Masu', and so it is perfectly possible that a young Hebrew Mashu was nicknamed Masu by his Egyptian companions; but this is a verbal pun, not a borrowing either way."
Narrativa bíblica Profeta e libertador de Israel
thumb|right|Moisés diante do faraó, miniatura do século VI da Bíblia Siríaca de Paris Os israelitas haviam se estabelecido na Terra de Gósen durante a época de José e Jacó, mas surgiu um novo faraó, que oprimiu os filhos de Israel. Nesse período, Moisés nasceu, filho de Anrão, filho — ou descendente — de Coate, o levita que entrara no Egito com a família de Jacó; sua mãe era Joquebede — também chamada Yocheved —, parente de Coate. Moisés tinha uma irmã sete anos mais velha, Miriã, e um irmão três anos mais velho, Aarão. O faraó ordenara que todas as crianças hebreias do sexo masculino fossem afogadas no Nilo, mas a mãe de Moisés colocou-o em um cesto e o escondeu entre os juncos à margem do rio. Ele foi encontrado e adotado pela filha do faraó, sendo criado como egípcio. Certo dia, já adulto, Moisés matou um egípcio que espancava um hebreu. Para escapar da pena de morte imposta pelo faraó, fugiu para Midiã — uma região desértica ao sul de Judá —, onde se casou com Zípora.
Ali, no Monte Horebe, Deus apareceu a Moisés sob a forma de uma sarça em chamas, revelou seu nome como YHWH — provavelmente pronunciado Javé — e ordenou-lhe que retornasse ao Egito e conduzisse seu povo eleito — Israel — para fora do cativeiro e até a Terra Prometida, Canaã. Durante a viagem, Deus tentou matar Moisés por ele não ter circuncidado seu filho, mas Zípora salvou-lhe a vida. Moisés retornou para cumprir a ordem divina, mas Deus permitiu que o faraó se recusasse, e somente depois de submeter o Egito às dez pragas o faraó cedeu. Moisés conduziu os israelitas até a fronteira do Egito, mas Deus endureceu novamente o coração do faraó para destruir o soberano e seu exército na Travessia do Mar Vermelho, como demonstração de seu poder a Israel e às demais nações.Ginzberg, Louis (1909). The Legends of the Jews Vol III : Chapter I (Translated by Henrietta Szold) Philadelphia: Jewish Publication Society. thumb|Vitória, ó Senhor!, pintura de 1871 de John Everett Millais, representa Moisés segurando seu cajado, auxiliado por Aarão e Hur, que sustentam seus braços durante a batalha contra Amaleque. Depois de derrotar os amalequitas em Refidim, Moisés conduziu os israelitas ao Monte Sinai, onde recebeu de Deus os Dez Mandamentos, escritos em tábuas de pedra. Como Moisés permaneceu por muito tempo na montanha, parte do povo temeu que ele estivesse morto e fez uma estátua de um bezerro de ouro, que passou a venerar como ídolo de Deus, desobedecendo e enfurecendo Deus e Moisés. Tomado pela ira, Moisés quebrou as tábuas e, mais tarde, ordenou a eliminação daqueles que haviam adorado a estátua de ouro, a qual foi derretida e dada aos idólatras para que a ingerissem. Deus escreveu novamente os Dez Mandamentos em outro conjunto de tábuas. Posteriormente, no Monte Sinai, Moisés e os anciãos estabeleceram uma aliança pela qual Israel se tornaria o povo de YHWH, obedeceria às suas leis e teria YHWH como seu Deus. Moisés transmitiu as leis divinas a Israel, instituiu o sacerdócio entre os filhos de seu irmão Aarão e destruiu os israelitas que abandonaram o culto a Deus. Em seu último ato no Sinai, Deus deu a Moisés instruções para a construção do Tabernáculo, o santuário móvel que o acompanharia com Israel até a Terra Prometida.