Manuel de Godoy y Alvarez de Faria Rios Sanchez Zarzosa (Badajoz, 12 de maio de 1767 – Paris, 4 de outubro de 1851) foi um político, diplomata e militar espanhol.
Duque de Alcudia e de Sueca, recebeu o título de Príncipe da Paz. Um dos favoritos de Carlos IV de Espanha e de sua esposa, a rainha Maria Luísa de Parma, foi ainda Príncipe de Bassano e, em Portugal, Conde de Évora-Monte.
Biografia
Primeiros anos Nasceu no número 18 da rua Santa Lucía, em Badajoz,Confirma-o ele próprio nas suas Memorias (livro I, cap. II, p. 23 ), embora seja frequente a confusão com um nascimento em Castuera, localidade de origem e solar da família, que, no entanto, já se tinha transferido para Badajoz no primeiro terço do século XVIII, no tempo dos seus avós. A casa solarenga de Castuera encontrava-se, nessa época, quase arruinada. a 12 de maio de 1767, filho de José Alfonso Godoy Cáceres Ovando y Ríos (1731–1808), regedor perpétuo de Badajoz e alcaide da Santa Hermandad pelo estamento nobiliárquico em 1768, 1778, 1779 e 1786, e da sua segunda esposa, María Antonia Justa Álvarez de Faria y Sánchez Zarzosa (1732–1836),Assim constam os seus nomes e apelidos na lista da Ordem da Rainha Maria Luísa (ed. 1998, p. 111). de origem portuguesa, embora nascida em Badajoz. Ambos pertenciam à nobreza provincial, o que lhes permitia o acesso a cargos que, na época, apenas podiam ser exercidos por nobres. Foi batizado com os nomes de Manuel Domingo Francisco.
O seu pai, José Godoy, coronel do exército e titular de cargos no governo municipal de Badajoz, empenhou-se, tanto quanto pôde, na instrução dos filhos, tanto no plano intelectual como físico, através da prática da equitação e da esgrima, indispensáveis para que pudessem seguir com êxito a carreira militar. Após concluir os estudos elementares, Godoy adquiriu conhecimentos de matemática, humanidades e filosofia.
Ascensão
Em 1784, aos 17 anos de idade, foi para Madrid e ingressou nas Guardas do Corpo do Rei. Ali teve a oportunidade de travar amizade com o então príncipe das Astúrias, que se tornaria rei como Carlos IV de Espanha em 1788. Dizem que, apresentado em 1785 aos príncipes das Astúrias, ganhou a amizade de ambos, vindo a tornar-se amante da princesa Maria Luísa de Parma. Quando subiram ao trono em 1788, a sua carreira (era então Cadete) progrediu rapidamente:
em 1789 já era coronel de Cavalaria; em Fevereiro de 1791 foi promovido a marechal-de-campo, sendo comendador da Ordem de Santiago; em Março de 1791 tornou-se gentil-homem da Câmara; em Julho de 1791 foi promovido a tenente-general, recebendo o título de duque de Alcudia; e em 15 de novembro de 1792, aos 25 anos de idade, foi nomeado Primeiro-Ministro em substituição ao conde de Aranda.
Primeiro-Ministro Como primeiro-ministro, diante da guerra aberta entre a Espanha e a França a partir de 1793, negociou o acordo de paz firmado em Basileia, na Suíça, em Julho de 1795.
No contexto da Revolução Francesa manteve, de início, uma política de neutralidade em relação aos acontecimentos, tentando proteger a vida de Luís XVI de França. Quando aquele soberano foi executado, a reação de Carlos IV de Espanha ao fato provocou a declaração de guerra à Espanha pela Convenção Francesa de março de 1793.
A guerra começou bem para a Espanha, com a invasão dos Pirenéus Orientais em abril de 1793. Ao final de 1794, entretanto, a França invadiu a Catalunha, conquistando a Fortaleza de Figueras em 25 de novembro, Rosas em fevereiro de 1795, e as províncias bascas em Julho, tomando Bilbau e Vitoria-Gasteiz.
Diante de tantos revezes, Godoy assinou a Paz de Basileia em agosto de 1795, cedendo a ilha de São Domingos no Caribe, em troca das conquistas francesas na Espanha. Esse tratado valeu-lhe o título de Príncipe da Paz.
A 18 de agosto de 1796 pelo Tratado de Santo Ildefonso, Godoy aliou-se à França e declarou a guerra à Grã-Bretanha. A frota espanhola foi destruída na batalha do cabo de São Vicente (fevereiro de 1797), para o que contribuiu decisivamente o aviso, dado por uma fragata portuguesa, ao almirante Jervis da Marinha Real Britânica, da posição dos espanhóis. Jervis seria, por esse feito, recompensado pelo seu governo com o título de Lord St. Vincent.
Em 2 de outubro de 1797, não se tendo verificado a esperada invasão franco-espanhola de Portugal, o Príncipe-regente D. João concedeu-lhe o título de conde de Évora-Monte.
Em março de 1798, foi obrigado a demitir-se de todos os cargos, talvez por sua política em relação a Portugal, mas não perdeu a sua influência junto ao Rei.
Guerra das Laranjas
Godoy regressou ao governo em março de 1801, apoiado pelo novo primeiro-cônsul francês Napoleão Bonaparte, com quem assinou o Segundo Tratado de Santo Ildefonso, a 1 de outubro, pelo qual a Espanha obrigava-se a utilizar a sua frota para desbloquear a ilha de Malta e repatriar o Exército francês do Egito.
Entretanto, foi nomeado comandante-chefe do Exército que atacou Portugal em Maio, após a declaração de guerra de 27 de fevereiro de 1800. O ataque foi um sucesso, com fácil conquista de fortalezas na fronteira do Alentejo. O exército espanhol, tendo-se dirigindo posteriormente para a linha do Tejo, por Portalegre (que ocupou), mas sem conseguir conquistar Elvas e com dificuldades na conquista da Praça-forte de Campo Maior, não podia continuar a invasão sem a ajuda do Exército francês, estacionado diante da fronteira da Beira, em Ciudad Rodrigo. Tal situação levou Godoy, que não desejava um exército francês estacionado na Espanha muito tempo, a assinar rapidamente a paz, por meio do Tratado de Badajoz. Na ocasião conseguiu ficar com a Praça-forte de Olivença, mas não realizou o que tinha contratado com a França bonapartista — a ocupação das três províncias do Norte de Portugal (Minho, Trás-os-Montes e Beira) para poder negociar com a Grã-Bretanha a devolução da ilha Minorca (capital: Mahon), uma das ilhas Baleares e a ilha de Trinidad, nas Antilhas, ambas espanholas, além da de Malta, no Mediterrâneo.
Desde março de 1801 fora nomeado Generalíssimo e comandante-em-chefe das tropas que invadiriam Portugal pela região do Alentejo, dando lugar ao episódio conhecido como Guerra das Laranjas (por supostamente ter remetido, em gesto galante, um ramo de laranjeira ainda fresco até à sua soberana, a rainha Maria Luísa), e que, em 20 de maio, conquistaria a Praça-forte de Olivença, iniciando a Questão de Olivença, com desdobramentos diplomáticos até hoje. A vitória de Godoy teve duras consequências, pois a pequena vila alentejana não compensou a perda da ilha da Trindade, que foi obrigada a aceitar por Bonaparte quando este assinou o Tratado de Amiens com a Grã-Bretanha, em março de 1802. Godoy foi responsabilizado pelo desenlace, tendo-se começado a criar em torno do herdeiro, o futuro , um partido que se opunha a ele. A ilha da Trindade juntava-se à perda, em 1795, da parte espanhola da ilha de São Domingos (hoje República Dominicana), cedida à França, e à entrega, a este mesmo país em 21 de março de 1802, da Luisiana americana, além dos barcos de guerra que teve que entregar, pelas mais variadas razões — tratados e transferências de territórios insignificantes para a família italiana. As perdas espanholas durante as guerras da revolução, de 1793 a 1802, tinham sido enormes.
Em consequência do desgaste por tais fatos (os soberanos de ambos os países eram parentes e o conflito entre as duas Coroas não era, efetivamente, desejado), formou-se uma corrente política contrária à atuação de Godoy. Com o reacender da guerra entre a França e Grã-Bretanha, em 1803, a Espanha, que se tentou manter neutra, foi empurrada para a guerra pelas duas potências em dezembro de 1804. Mais uma vez, a guerra não correu bem, e em outubro de 1805 a enfraquecida frota foi destruída na batalha naval ao largo do cabo Trafalgar, perto de Cádis. A Espanha perdeu completamente o controlo das suas colônias americanas, de facto independentes. A sobrevivência política de Godoy estava, cada vez mais, dependente da vontade de Napoleão. Tentará manter a Espanha fora dos conflitos da França, mantendo conversações secretas com as cortes britânica e russa, e a divulgar a estranha proclamação de outubro de 1806, de apoio à Prússia, em guerra com a França, em que fala sobretudo das qualidades do cavalo andaluz! Napoleão resolveu rapidamente o problema com a Prússia, e bastante mais dificilmente com a Rússia. Após a assinatura dos Tratados de paz em Tilsit, tendo decidido obrigar Portugal a fechar os portos ao comércio britânico, obrigou a Espanha a participar na invasão de Portugal, sendo Godoy aliciado com o futuro Principado dos Algarves, a criar com as províncias do Alentejo e do Algarve.
Carlos IV, pai de Carlota Joaquina, foi aliciado com a criação do reino da Lusitânia-Setentrional, a formar com a província do Minho, e tendo por capital o Porto, para a rainha viúva da Etrúria, sua filha a infanta espanhola Maria Luísa. A política internacional da Espanha, centrada na Itália, era uma balbúrdia. Luís Pinto de Sousa, o ministro dos negócios estrangeiros da época, lhe chamou — um «turbilhão». Para que o Duque de Parma D. Fernando, irmão da rainha de Espanha Maria Luísa de Parma, não perdesse a sua coroa, Carlos IV e Godoy conseguiram que a França lhe desse o grão-ducado da Toscana, território retirado em 1797 por Napoleão a um príncipe Habsburgo, irmão de Maria Carolina de Nápoles (a esposa de Fernando IV, rei de Nápoles, irmão de Carlos IV).
Para que, no meio destas confusas relações familiares, todas as transferências se realizassem, a Espanha deu a Napoleão a Luisiana. Fernando, o último Duque de Parma da dinastia Bourbon, morreu agosto de 1801 sem ter tomado posse da Toscana; seu filho abdicou do ducado de Parma e tomou posse do Reino da Etrúria, em que tinha sido transformado entretanto o Grão-Ducado da Toscana. Luís, casado com a sua prima a infanta Maria Luísa, filha de Carlos IV, morreu em 27 de maio de 1803, deixando como sucessor um filho de dois anos, Carlos, desapossado da Etrúria em 10 de dezembro de 1807. Para que a filha não deixasse de ser rainha, Carlos IV lhe conseguiu o reino da Lusitânia-Setentrional, com territórios retirados à sua primogênita Carlota Joaquina, casada com o futuro rei de Portugal, D. João VI. A política de Espanha não agradava a ninguém. Dava territórios, navios, soldados a Napoleão e em troca não conseguia ficar com nada.
Em maio de 1808 só os Bourbons de Nápoles (Duas Sicílias) se mantinham como casa reinante, governando a Sicília, pelo apoio da Grã-Bretanha. Em novembro de 1807, de acordo com o Tratado de Fontainebleau, de 27 de outubro, que regulou a conquista e a divisão de Portugal, assim como as obrigações mútuas da França e da Espanha, três divisões espanholas apoiaram o exército de Junot na invasão de Portugal. Uma, vinda da Galiza, ocupou o Minho e o Porto; a segunda entrou em Portugal pela Beira Baixa e dirigiu-se, atrás do exército francês, para Lisboa; a terceira, comandada pelo general Solana, Marquês do Socorro, amigo de Godoy, invadiu o Alentejo, ocupou Elvas e Évora, dirigiu-se para Setúbal.