thumb|Busto de Epicuro. O epicurismo é o sistema filosófico que prega a procura dos prazeres moderados para atingir um estado de tranquilidade e de ausência de medo (ataraxia) junto da ausência de sofrimento corporal (aponia), pelo conhecimento do funcionamento do mundo e do estabelecimento de limites para os desejos. A combinação desses dois estados constituiria a felicidade na sua forma mais elevada.

Epicuro de Samos, filósofo ateniense do a.C., era um materialista atomista, seguindo os passos de Demócrito, combatendo as superstições e as ideias de intervenção divina. O epicurismo foi inicialmente um contraposto ao platonismo. Mais tarde, seu principal oponente passaria a ser o estoicismo. Embora o epicurismo seja uma forma de hedonismo, na medida em que declara o prazer como seu único objetivo intrínseco, o conceito de que o maior prazer é a ausência de dor e medo, e a defesa de uma vida simples, tornam o Epicurismo muito diferente do que é o entendimento comum de "hedonismo". Epicuro e seus seguidores geralmente se afastavam da política porque isso poderia levar a frustrações e ambições que entrariam em conflito com sua busca pela virtude e paz de espírito.

Ao contrário do objetivo Epicurista, os desejos exacerbados podem ser fonte de perturbações constantes, dificultando o encontro da felicidade que é manter a saúde do corpo e a serenidade do espírito. Segundo Epicuro, para ser feliz seria necessário controlar os nossos medos e desejos de maneira que o estado de prazer seja estável e equilibrado, com um consequente estado de tranquilidade e de ausência de perturbação.

Epicuro também é conhecido como o Filósofo do Jardim, como ficou conhecida a escola por ele fundada em Atenas, que consistia numa comunidade de amigos e seguidores. Lá escreveu mais de 300 trabalhos, dos quais nenhum sobreviveu; deles restam apenas notícias de discípulos ou fragmentos.MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. - 8ª Edição. - Rio de Janeiro: Jorhe Zahar Ed., 2001. Buckingham, W. et al. O Livro da Filosofia. São Paulo, Globo Livros, 2011. Sua filosofia é de cunho materialista, não havendo espaço para a imortalidade.AZEVEDO, Antonio Carlos do Amaral. Dicionário de termos e conceitos históricos. Colaboração de Rodrigo Lacerda. - Rio de Janeiro; Nova Fronteira, 1997. 2ª edição revista e ampliada.

A finalidade da filosofia de Epicuro não era teórica, mas bastante prática. Buscava sobretudo encontrar o sossego necessário para uma vida feliz e aprazível, na qual os temores perante o destino, os deuses ou a morte estavam definitivamente eliminados. Para isso, fundamentava-se em uma teoria do conhecimento empirista, em uma física atomista e na ética.

No mundo mediterrânico antigo, a filosofia epicurista conquistou grande número de seguidores. Foi uma escola de pensamento muito proeminente por um período de sete séculos depois da morte do fundador. Posteriormente, quase relegou-se ao esquecimento devido ao início da Idade Média, período em que se perderam a maioria dos escritos deste filósofo grego.

A ideia que Epicuro tinha era a de que, para ser feliz, o homem necessitava de três coisas: liberdade, amizade e tempo para filosofar. Na Grécia Antiga, existia uma cidade na qual, em todas as paredes do mercado, se havia escrito toda a filosofia da felicidade de Epicuro, procurando conscientizar as pessoas de que comprar e possuir bens materiais não as tornariam mais felizes, como elas então acreditavam.Documetário: Epicuro e a Felicidade. Francisco Marvão.

História O epicurismo foi uma corrente filosófica surgida durante o período da Antiguidade conhecido como helenismo, que se inicia no final do "Trata-se, portanto, do período iniciado com a formação dos reinos que dividiram entre si o império de Alexandre, o Grande, e que durou até a conquista romana, em 146 a.C., quando a Grécia foi declarada província romana. Segundo alguns historiadores, esse período iria até o advento de Augusto e a definitiva consolidação do Império Romano (aproximadamente 20 a.C.)".FILHO, Juvenal Savian. O Epicurismo e a ética: uma ética do prazer e da prudência. - Centro Universitário São Camilo - 2009;3(1):10-17.

Em Mitilene, capital da ilha de Lesbos, e depois em Lampsacus, Epicuro ensinou e conquistou seguidores. Em Atenas, Epicuro comprou uma propriedade para sua escola chamada "Jardim", que mais tarde se tornou o nome de sua escola. Seus membros incluíam Hermarco, Idomeneu, Colotes , Polieno e Metrodoro. Epicuro enfatizou a amizade como um ingrediente importante da felicidade, e a escola parece ter sido uma comunidade moderadamente ascética que rejeitou os holofotes políticos da filosofia ateniense. Eles eram bastante cosmopolitas pelos padrões atenienses, incluindo mulheres e escravos. As atividades comunitárias tiveram alguma importância, particularmente a observância do Eikas , uma reunião social mensal. Alguns membros também eram vegetarianos, pois, por poucas evidências, Epicuro não comia carne, embora não houvesse proibição de comer carne.

A popularidade da escola cresceu e se tornou, juntamente com o estoicismo, o platonismo, o peripateticismo e o pirronismo, uma das escolas dominantes da filosofia helenística, durando fortemente até o final do Império Romano. Pergaminhos carbonizados decifrados obtidos na biblioteca da Vila dos Papiros em Herculano contêm um grande número de obras de Filodemo, um epicurista helenístico tardio, e do próprio Epicuro, atestando a popularidade duradoura da escola. Júlio César também se inclinou consideravelmente para o epicurismo, o que o levou a apelar contra a sentença de morte durante o julgamento contra Catilina, onde ele falou contra o estoico Catão, o Jovem. Seu sogro, Lúcio Calpúrnio Pisão Cesonino, também era um adepto da escola. No , o comediante Luciano de Samósata e rico promotor da filosofia Diógenes de Enoanda eram epicuristas proeminentes.

No final do , no entanto, havia poucos vestígios de sua existência. Com o crescente domínio do neoplatonismo e do peripateticismo e, mais tarde, do cristianismo, o epicurismo declinou.

Princípios filosóficos Epicuro viveu as contradições do mundo Helênico. Sua filosofia se opôs à metafísica de Aristóteles, cuja origem ele chama de espiritualismo de Platão, que defendia a ideia de uma dimensão além do insensível, supra-real, ao qual seria o fundamento que constituiria o mundo que vemos, tocamos e participamos. Com uma filosofia de não determinismo, Epicuro defende a ideia de que nada está além dos nossos sentidos, e que não existiria nenhuma realidade que não poderia ser entendida com auxílio dos nossos cinco sentidos, princípio denominado "naturalismo radical". Para esclarecer este fundamento, que é compreendido por três tomadas de consciência do indivíduo e funciona como um caminho para a felicidade, divide-se este princípio em três postulados, segundo o estudioso Juvenal Savian Filho:

Compreensão dos deuses Segundo a crença dos gregos, os deuses estariam preocupados com o ser humano, sendo responsáveis pelas suas vitórias ou desgraças, o que acarretaria um medo inerente ao homem, que temeria ser punido a qualquer momento por um de seus atos. Epicuro critica esta ideia e defende que os deuses existem, mas não estão preocupados conosco. Afinal, como afirma em sua metodologia do conhecimento, os juízos que temos dos deuses não se baseiam em prolepses, isto é, em imagens formadas pelas repetições, que produzem veracidade, e nos permitem chegar em conclusões sobre o real. Os deuses, para alguns estudiosos da filosofia de Epicuro, não tomam consciência dos humanos, afinal, na perfeição não poderia caber a imperfeição, sequer por conhecimento. Se os deuses não se encarregam de nosso destino, benção ou maldição, cabe a nós mesmos a responsabilidade. A felicidade ou o sofrimento depende das escolhas de cada um.

Compreensão da morte Para acabar com o temor da morte, Epicuro defende a ideia da morte como sendo o nada. A dor e o sofrimento residem nas sensações, na vida como fardo, e se a morte é o total aniquilamento do "viver", o sábio de nada tem a temer. A lógica é que se é a vida e as sensações que causam o sofrimento do indivíduo, a morte existiria para cessar as sensações, ser o nada, a privação total. Portanto, é inadmissível aceitar que ocorreria sofrimento, pois a morte ocasionaria o extermínio das sensações.

Compreensão dos desejos Eu aprendi que as inclinações corporais inclinam-se mais fortemente com a relação sexual. Se você não violar as leis, nem perturbar os bons costumes, nem entristecer alguém próximo a você, nem forçar o corpo, nem gastar o que for necessário para as necessidades, use sua própria escolha como quiser. É difícil imaginar, no entanto, que nada disso faria parte do sexo porque o sexo nunca beneficiou ninguém.

— Epicuro em Proverbios Vaticiais, LI

É necessário compreender a distinção entre os desejos naturais e desejos inúteis, infundados ou também chamados de frívolos. Para Epicuro, o desejo se origina de uma falta, que pode partir da natureza (desejo natural) ou de uma opinião falsa (desejo frívolo). Os desejos podem ser divididos em: Desejos naturais e necessários: que livram o corpo da dor da fome e da sede. São desejos limitados que estão presentes de forma inata em todos os humanos; faz parte da natureza humana tê-los. Eles são necessários por três razões: para a felicidade, para se estar livre de desconforto corporal, e necessários para viver. Vestuário e abrigo ligam-se às duas primeiras razões, enquanto o alimento à terceira. Desejos naturais, mas não necessários: são os desejos que surgem da vontade de variar, por exemplo o alimento ou a bebida, para variar também o prazer do corpo. São naturais ao ser humano, mas não precisam ser realizados para sua felicidade ou sobrevivência. Querer comer uma comida deliciosa quando se está com fome é um exemplo de desejo natural, mas não necessário. O principal problema com esses desejos é que eles não conseguem aumentar substancialmente a felicidade de uma pessoa e, ao mesmo tempo, exigem esforço para obtê-los e são desejados pelas pessoas devido a falsas crenças de que são realmente necessários. É por esta razão que devem ser evitados. Desejos não naturais e não necessários (ou desejos vãos e vazios): são os que nascem de uma opinião falsa sobre o mundo, incentivados por sentimentos de vaidade, orgulho ou inveja. Desejos de riqueza ou fama são não naturais e desnecessários, e devem ser evitados porque, em última instância, só trazem desconforto.

Epicuro tem uma finalidade concreta: a eliminação das dores e a busca dos prazeres. O sábio deveria desejar os objetos simples e naturais e saber que, por ser imperfeito, sentirá dor, inevitavelmente.DE CARVALHO, Ericsson Venâncio Coriolano Ruy. O DESEJO NO EPICURISMO."

O sábio é, portanto, aquele que toma consciência da própria existência e destino, não aceitando o determinismo de nenhum deus. Para ele, o importante na busca é a saúde física e a serenidade interior, ocasionadas pela escolha de quais desejos deverão ser saciados. A felicidade reside, então, na saúde do corpo e da alma, que não pode ser entendida, obviamente, como metafísica, mas parte fundamental da própria existência corpórea. Ser feliz é ter pleno domínio destes prazeres, o que pode ser alcançado com a compreensão da natureza dos deuses, da morte e dos desejos. Temas Ética