The Wall é o décimo primeiro álbum de estúdio da banda britânica de rock Pink Floyd. Lançado como álbum duplo em 30 de novembro de 1979 foi, posteriormente, tocado ao vivo com efeitos teatrais, além de ter sido adaptado para o cinema. É o último projeto a contar com a participação dos quatro membros que compõem a chamada formação clássica. A distribuição fonográfica se deu pela Harvest Records no Reino Unido e a cargo da Columbia Records nos Estados Unidos.

Seguindo a tendência dos três álbuns de estúdio anteriores da banda, The Wall é um álbum conceitual, tratando de temas como abandono e isolamento pessoal. Foi concebido, inicialmente, durante a turnê In the Flesh, em 1977, quando a frustração do baixista e letrista Roger Waters para com seus espectadores tornou-se tão aguda que ele se imaginou construindo um muro entre o palco e o público. The Wall é uma ópera rock centrada em Pink, um personagem fictício baseado em Waters. As experiências de vida de Pink começam com a perda de seu pai durante a Segunda Guerra Mundial, e continuam com a ridicularização e o abuso de seus professores, com sua mãe superprotetora e, finalmente, com o fim de seu casamento. Tudo isso contribui para uma autoimposta isolação da sociedade, representada por uma parede metafórica.

The Wall contém um estilo mais duro e teatral do que os lançamentos anteriores do Pink Floyd. O tecladista Richard Wright deixou a banda durante a produção do álbum, embora tenha continuado no processo de gravação como um músico pago, apresentando-se com o grupo na turnê The Wall. Comercialmente bem-sucedido desde o seu lançamento, o álbum foi um dos mais vendidos de 1980 e vendeu mais de 11,5 milhões de unidades nos Estados Unidos, atingindo a primeira posição da Billboard. Um dos singles lançados, "Another Brick in the Wall, Part 2", esteve em várias paradas ao redor do mundo. Em 2003, a revista Rolling Stone listou The Wall na 87.ª posição em sua lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos.

Antecedentes

A In the Flesh Tour foi a primeira turnê da banda em grandes estádios. Em julho de 1977, no último show, realizado no Estádio Olímpico de Montreal, um pequeno grupo de fãs barulhentos que estavam perto do palco irritou Roger Waters, gritando sugerindo músicas, e quando um deles gritou "toque 'Careful With That Axe', Roger!" o baixista cuspiu em um deles. Mais tarde, naquela noite, ao voltar do hospital para tratar uma lesão sofrida no pé, o músico conversou com o produtor musical Bob Ezrin, e um amigo dele, um psiquiatra, sobre os sentimentos de alienação que ele estava tendo na turnê. Ele articulou o seu desejo de isolar-se construindo um muro no palco, separando a banda do público. Mais tarde, Roger disse: "Eu odiava tocar em estádios... Eu dizia para as pessoas sobre essa turnê, 'Eu realmente não estou gostando disso... há algo muito errado com isso.'" além disso, a banda havia uma tecnologia de "guarda-chuvas automáticos" usados na turnê, que - segundo o livro de Nick Mason Inside Out: A Personal History of Pink Floyd - emergiam do chão quando precisavam. em uma das datas, David, num acesso de raiva, quebrou um deles, e em outra, Richard quase sufocou-se em um desses.

Enquanto Gilmour e Wright estavam na França gravando os álbuns David Gilmour e Wet Dream, e Nick Mason estava ocupado produzindo o álbum Green, de Steve Hillage, Waters começou a produzir novas canções para o Pink Floyd. O incidente da turnê deu o ponto de partida para um novo conceito, que explorou o isolamento do protagonista depois de anos de interações traumáticas com figuras de autoridade e a perda de seu pai quando criança. O conceito de The Wall era tentar analisar a situação psicológica do artista, usando uma estrutura física como um dispositivo metafórico e teatral.

thumb|250px|direita|O conceito do álbum foi criado pelo baixista Roger Waters. Em julho de 1978, a banda se reuniu no Britannia Row Studios, onde Waters apresentou duas novas ideias para álbuns conceituais. A primeira foi uma demonstração de noventa minutos com o título Bricks in the Wall. O segundo, um projeto sobre os sonhos de um homem em uma noite, que lidavam com o casamento, sexo, e os prós e contras da monogamia e da vida familiar versus a promiscuidade. A primeira opção foi escolhida pelo grupo para ser o novo projeto do Pink Floyd, enquanto a segunda ideia - na qual a gravadora havia gostado mais - se tornou um esboço para o primeiro disco solo de Roger em 1984, um álbum conceitual intitulado The Pros and Cons of Hitch Hiking.

Em setembro, a banda estava passando por dificuldades financeiras. A Norton Warburg Group (NWG) tinha investido cerca de três milhões de libras (quase 14 milhões no valor contemporâneo) do grupo em capital de risco para reduzir as suas obrigações fiscais. A estratégia falhou, deixando a banda enfrentando altas taxas fiscais, que chegava a até 83 por cento. O Pink Floyd terminou seu relacionamento com a NWG, exigindo a devolução de fundos não investidos. A banda, assim, precisava urgentemente produzir um álbum para ganhar dinheiro. Devido ao projeto de 26 faixas ter apresentado um desafio maior do que os álbuns anteriores da banda, Waters decidiu trazer um produtor externo. Mais tarde, disse: "Eu precisava de um colaborador que estivesse em um lugar musicalmente e intelectualmente semelhante aonde eu estava."

Por sugestão da então namorada de Waters, Carolyne Christie, que havia trabalhado como secretária de Ezrin, a banda o contratou para coproduzir o álbum. Desde o início, Waters deixou Ezrin em dúvida quanto a quem estava no comando: "Você pode escrever o que quiser, só não espere qualquer crédito." Ezrin e Gilmour leram o conceito de Roger, mantendo o que eles gostaram e descartando o que eles achavam que não estava bom o suficiente. O baixista e Ezrin trabalharam principalmente sobre a história, melhorando o conceito. Seu script de quarenta páginas foi apresentado ao resto da banda, com resultados positivos: "No dia seguinte, no estúdio, tivemos uma mesa de leitura, como você faria em um jogo, mas com toda a banda, e os olhos de todos brilharam, porque eles poderiam ver o álbum." Ele ampliou a história, distanciando-a da obra autobiográfica que Waters tinha escrito, baseando-se em um composto, ou um personagem chamado Pink.

O engenheiro Nick Griffiths disse, mais tarde, a respeito do produtor canadense: "Ezrin foi muito bom em The Wall, porque ele conseguiu puxar a coisa toda em conjunto. Ele é um cara muito forte. Houve muita discussão entre Roger e Dave sobre como ele deve soar, e ele preencheu a lacuna entre eles." Waters escreveu a maior parte do material do álbum, dividindo com Gilmour os créditos em "Comfortably Numb", "Run Like Hell", e "Young Lust", e com Erzin "The Trial".

Conceito e história thumb|160px|direita|Exposição sobre The Wall no Hall da Fama do rock mostra Pink (no meio) em cima do muro ao lado de duas versões do professor. The Wall é uma ópera rock que explora o abandono e o isolamento, simbolizada por uma parede metafórica.; ; As músicas tratam a história de vida do protagonista Pink, baseado em Roger Waters. A narrativa inicia-se pela sua infância com a ausência do pai, morto durante a Segunda Guerra Mundial. Pink é oprimido pela mãe superprotetora, e atormentado na escola por professores tirânicos, autoritários e abusivos. Cada um desses traumas se tornam os "tijolos no muro". O protagonista se torna uma estrela do rock e suas relações são marcadas por infidelidade, uso de drogas, e explosões de violência. Como seu casamento desmorona, ele termina a construção de seu muro, completando o seu isolamento do contato humano.

Escondido atrás de sua parede, a crise de Pink aumenta e culmina em uma performance alucinante no palco. Nela, ele acredita ser um ditador fascista. Envolvido por culpa, ele se coloca em julgamento, onde seu juiz interior ordena-lhe que mande abaixo o seu próprio muro e se abra para o mundo exterior. O álbum inclui várias referências ao ex-membro da banda, Syd Barrett. A canção "Nobody Home" sugere a sua condição durante a turnê do Pink Floyd nos Estados Unidos abortada de 1967, com letras como "selvagens, olhos arregalados". "Comfortably Numb", por sua vez, foi inspirada por injeções de relaxante muscular em Waters para combater os efeitos da hepatite durante a In the Flesh Tour. A canção "Vera" faz referência à letra de "We'll Meet Again", bem como à própria Vera Lynn.

Gravação The Wall foi gravado em vários locais. Na França, o Super Bear Studios foi usado entre janeiro e julho de 1979, com Waters gravando seus vocais perto dali, no estúdio Miraval. Michael Kamen supervisionou os arranjos orquestrais no CBS Studios, em Nova York, em setembro. Ao longo dos próximos dois meses a banda utilizou o Cherokee Studios e The Recorder Village, em Los Angeles. Um plano para trabalhar com os Beach Boys no Sundance Productions em Los Angeles foi cancelado. Durante uma semana em novembro, os músicos trabalharam no Producers Workshop, também em Los Angeles.

James Guthrie, recomendado por Alan Parsons, antigo colaborador da banda, chegou no início do processo de produção. Ele substituiu o engenheiro Brian Humphries, emocionalmente drenado por seus cinco anos com a banda. Guthrie foi contratado como coprodutor, mas não tinha consciência do papel de Ezrin: "Eu me vi como um novo e quente produtor... Quando chegamos, eu acho que nós dois sentimos que tínhamos sido separados para fazer o mesmo trabalho." As primeiras sessões no Britannia Row foram carregadas de emoção, pois Ezrin, Guthrie e Waters tinham ideias fortes sobre a direção que o álbum iria tomar. Pelo fato das relações internas entre o quarteto estarem em baixa, e o papel de Ezrin se expandiu como uma ponte entre Roger e os outros três integrantes do Pink Floyd.

Como o Britannia Row foi inicialmente considerado um estúdio inadequado para The Wall, a banda atualizou muito do seu equipamento. Mais tarde, em março, uma série de demos estavam feitas. No entanto, a antiga relação do grupo com a NWG colocou-os em risco de falência, e eles foram aconselhados a deixar o Reino Unido antes de 6 de abril de 1979, por um período mínimo de um ano. Como na época não residentes não pagavam impostos no Reino Unido, dentro de um mês todos os quatro membros e suas famílias haviam deixado o país. Waters mudou-se para a Suíça, Mason para a França, e Gilmour e Wright para ilhas gregas. Alguns equipamentos do Britannia Row foram realocados para o Super Bear Studios, perto de Nice.

Pelo fato de Gilmour e Wright terem gravado seus discos solo no início de 1978 no Super Bear, estavam familiarizados com o estúdio e gostavam de sua atmosfera. Mason, mais tarde, mudou-se para perto da casa de Waters, perto de Vence, enquanto Ezrin ficou em Nice. A pontualidade de Ezrin causou problemas com a agenda apertada de Waters. As partes de Ezrin sobre os royalties foi menor do que o resto da banda e ele viu Roger como um bully, especialmente quando o baixista zombava dele pela sua menor parte dos royalties. Ezrin admitiu mais tarde que ele tinha problemas conjugais e não estava "na melhor forma emocionalmente".

Mais problemas tornaram-se aparentes quando a relação de Roger com Wright quebrou. Os quatro raramente iam juntos ao estúdio. Ezrin, Guthrie e ​​Mason previamente gravaram faixas juntos, e Guthrie também trabalhou com Waters e Gilmour durante o dia, retornando à noite para receber as contribuições de Wright. Wright, preocupado com o efeito que a adesão de Ezrin teria nas relações internas da banda, estava ansioso para ter o crédito de produtor no álbum. Até aquele momento, todos álbuns da banda tinham créditos de produção para todo o Pink Floyd. Waters concordou com um período experimental com a produção de Wright. No entanto, depois de algumas semanas, ele e Ezrin expressaram sua insatisfação com os métodos do tecladista. Gilmour também expressou sua irritação, queixando-se que a falta de Wright estava "deixando-os todos loucos".