Império Acádio (também chamado Império Acadiano ou Império da Acádia ou somente Acádia) foi o primeiro império multiétnico, governado a partir de um centro, conhecido da História. Situava-se na Mesopotâmia, centrado na cidade de Acádia e sua região circundante, que a Bíblia também chamava de "Acádia". Este uniu os falantes acádios e sumérios sob um único governo. O Império Acadiano exerceu influência na Mesopotâmia, no Levante e na Anatólia, ao enviar expedições militares ao sul até Dilmum e Magão (atual Barém e Omã) na Península Arábica.Mish, Frederick C., Editor in Chief. "Akkad" Webster’s Ninth New Collegiate Dictionary. ninth ed. Springfield, MA: Merriam-Webster 1985. ).

O período acadiano é geralmente datado de c. 2334 até c. 2154 a.C. Foi precedido pelo Período Dinástico Arcaico e sucedido pela Terceira Dinastia de Ur. Durante o , desenvolveu-se uma simbiose cultural muito íntima entre os sumérios e os acadianos, que incluiu o bilinguismo generalizado. O acadiano, uma língua semítica oriental, gradualmente substituiu o sumério como língua falada em algum momento entre o terceiro e o (a data exata ainda é uma questão em debate).

O Império Acadiano atingiu seu ápice político entre o e , seguindo as conquistas de seu fundador Sargão da Acádia.Zettler (2003), p. 20. Sob o regime de Sargão e seus sucessores, a língua acádia foi brevemente imposta aos Estados vizinhos conquistados, como Elam e Gutium. A Acádia é às vezes considerada como o primeiro império da história, embora o significado deste termo não seja preciso, além de haver requerentes sumérios anteriores.F Leo Oppenhiem - Ancient MesopotamiaLiverani (1993), p. 3. "The factual criticism is that empires existed even before Akkad: or more properly that the term and concept of 'empire' has been recently applied (on not worse grounds than in the case of Akkad) to other older cases, from the Uruk of the late-Uruk period to the Ebla of the royal archives, to the very state formations of the Sumerian south in the period called in fact 'proto-imperial'. In no case is the Akkad empire an absolute novelty [...] 'Akkad the first empire' is therefore subject to criticism not only as for the adjective 'first' but especially as for the noun 'empire'. Após a queda do Império Acádio, o povo da Mesopotâmia finalmente se uniu em duas grandes nações de língua acadiana: a Assíria, no norte, e, alguns séculos depois, a Babilônia, no sul.

Etimologia

O nome "Acádia" é provavelmente uma invenção suméria, aparecendo, por exemplo, na lista de reis sumérios, donde possivelmente deriva a forma semítica assírio-babilônica tardia akkadû ("da, ou pertencente à, Acádia").

É bastante provável que o nome não-semítico "Ágade" signifique "coroa (ago) de fogo (de)" em alusão a Istar, a "deusa brilhante" ou "refulgente", a divindade tutelar da estrela da manhã e do entardecer e deusa da guerra e do amor (cf. Vênus, Afrodite, Lúcifer), cujo culto era praticado nos absolutos primórdios da Acádia. Esse fato também é comprovado por Nabonido, que relata como a adoração a Istar terminou sendo suplantada pela da deusa Anunite, uma outra personificação da ideia de Istar, cujo santuário ficava em Sipar. É crucial deixar claro que havia duas cidades de nome Sipar: uma sob a proteção de Samas, o deus do sol; e uma sob a de Anunite, fato que vigorosamente indica uma provável proximidade entre Sipar e Ágade. Uma outra teoria, surgida em 1911, sugere que Ágade postava-se em frente a Sipar, do lado esquerdo da margem do rio Eufrates, e que era provavelmente a parte antiga da cidade de Sipar.

Na literatura babilônica que surgiria posteriormente, o nome Acádia, bem como Suméria, aparece como parte de títulos de nobreza, como o termo sumério lugal Kengi (ki) Uru (ki) ou o termo acádio šar māt Šumeri u Akkadi (ambos traduzidos como "rei da Suméria e da Acádia"), que terminaram significando simplesmente "rei da Babilônia".

Mencionada uma única vez no Antigo Testamento (cf. Gênesis 10:10 - O princípio do seu reino foi Babel, Ereque (ou Uruque), Acade e Calné, na terra de Sinar., também como Agade, dependendo da tradução), a Acádia é, em hebraico, é grafada como אכּד, ak-kad, a palavra em si provindo duma raiz infrequente que provavelmente significa "fortificar" ou "reforçar", ou ainda "fortaleza". Em variantes do grego antigo, é grafada como αχάδ (achad), αρχάδ (archad), ou ainda, apesar de raro, αξάδ (axad); em grego moderno, como Ακκάδ, Akkad. No Antigo Testamento, é descrita como uma das cidades principais: Acádia, Babel, Ereque e Calné, constituindo o núcleo do reino de Ninrode, presente em textos como a lista de reis sumérios. A forma semítica assírio-babilônica posterior, Akkadu, ou Accadu ("de ou pertencente à Acádia"), é provavelmente uma forma derivada de Ágade.

História e desenvolvimento do império

Acádia pré-sargônica thumb|A Acádia antes da expansão (em verde). O território da Suméria sob o seu último rei Lugal-Zage-Si aparece a laranja. Cerca de 2350 a.C. thumb|Sargão na sua estela de vitória, com um coque real, segurando uma maça e vestindo um manto real com franjas sobre o ombro esquerdo com um cinto largo (esquerda), seguido por um assistente segurando um guarda-sol real. O nome de Sargão em cuneiforme ("Rei Sargão") aparece tenuemente em frente ao seu rosto. Museu do Louvre. thumb|Oficial acadiano no séquito de Sargão da Acádia, segurando um machado O Império Acadiano tira o seu nome da região e cidade da Acádia, ambas localizadas na área geral de confluência dos rios Tigre e Eufrates. Embora a cidade da Acádia ainda não tenha sido identificada no terreno, é conhecida a partir de várias fontes textuais. Entre estas está pelo menos um texto anterior ao reinado de Sargão. Juntamente com o facto de que o nome Acádia é de origem não-acadiana, isto sugere que a cidade da Acádia pode já ter sido ocupada em tempos pré-sargônicos.

Sargão da Acádia

Os primeiros registos na língua acadiana datam da época de Sargão da Acádia, que derrotou o rei sumério Lugal-zage-si na Batalha de Uruque e conquistou o seu antigo território, estabelecendo o Império Acadiano. Dizia-se que Sargão era filho de um jardineiro na Lista de reis da Suméria. Lendas posteriores nomearam o seu pai como La'ibum ou Itti-Bel e a sua mãe biológica como uma sacerdotisa (ou possivelmente até uma hieródula) de Istar, o equivalente acadiano da deusa suméria Inana. Uma lenda de Sargão dos tempos neo-assírios cita-o dizendo:

Afirmações posteriores feitas em nome de Sargão indicavam que a sua mãe era uma sacerdotisa "entu" (alta sacerdotisa). As afirmações podem ter sido feitas para garantir um pedigree de nobreza, uma vez que apenas uma família bem posicionada poderia alcançar tal posição.

Originalmente um copeiro (Rabsaqué) de um rei de Quis com um nome semítico, Ur-Zababa, Sargão tornou-se assim um jardineiro, responsável pela tarefa de limpar canais de irrigação. O copeiro real nesta época era, de fato, uma posição política proeminente, próxima do rei e com várias responsabilidades de alto nível não sugeridas pelo próprio título do cargo. Isto deu-lhe acesso a um corpo disciplinado de trabalhadores, que também podem ter servido como os seus primeiros soldados. Depondo Ur-Zababa, Sargão foi coroado rei e iniciou uma carreira de conquistas no exterior.Samuel Noah Kramer, The Sumerians, Chicago University Press, 1971, Quatro vezes ele invadiu a Síria e Canaã, e passou três anos subjugando completamente os países do "oeste" para os unir com a Mesopotâmia "num único império".

No entanto, Sargão levou este processo mais longe, conquistando muitas das regiões circundantes para criar um império que se estendia para oeste até o Mar Mediterrâneo e talvez Chipre (Kaptara); para o norte até as montanhas (um texto posterior na língua hitita afirma que ele lutou contra o rei hatiano Nurdaggal de Burushanda, bem adentro da Anatólia); para o leste sobre Elão; e até o sul até Magan (Omã) — uma região sobre a qual reinou supostamente por 56 anos, embora apenas quatro "nomes de anos" sobrevivam. Ele consolidou o seu domínio sobre os seus territórios substituindo os antigos governantes opositores por nobres cidadãos da Acádia, a sua cidade natal, onde a lealdade estava assim garantida.

thumb|left|Prisioneiros escoltados por um soldado, numa estela de vitória de Sargão da Acádia, cerca de 2300 a.C. O penteado dos prisioneiros (cabelo encaracolado no topo e curto nas laterais) é característico dos sumérios, como também visto no Estandarte de Ur. Museu do Louvre. O comércio estendeu-se desde as minas de prata da Anatólia até as minas de lápis-lazúli no atual Afeganistão, os cedros do Líbano e o cobre de Magan. Esta consolidação das cidades-estado da Suméria e da Acádia refletiu o crescente poder econômico e político da Mesopotâmia. O celeiro do império era o sistema agrícola de sequeiro e uma cadeia de fortalezas foi construída para controlar a produção imperial de trigo.

Imagens de Sargão foram erguidas nas margens do Mediterrâneo, como sinal das suas vitórias, e cidades e palácios foram construídos no seu país com os despojos das terras conquistadas. Elão e a parte norte da Mesopotâmia também foram subjugados, e rebeliões na Suméria foram reprimidas. Foram encontradas tabuletas de contrato datadas dos anos das campanhas contra Canaã e contra Sarlague, rei de Gutium. Ele também se gabava de ter subjugado os "quatro cantos" — as terras que cercam a Acádia ao norte, ao sul (Suméria), ao leste (Elão) e ao oeste (Martu). Alguns dos primeiros textos historiográficos (ABC 19, 20) sugerem que ele reconstruiu a cidade da Babilônia (Bab-ilu) no seu novo local perto da Acádia.Dalley propõe que estas fontes possam originalmente ter-se referido a Sargão II da Assíria em vez de Sargão da Acádia. Stephanie Dalley, "Babylon as a Name for Other Cities Including Nineveh", em Proceedings of the 51st Rencontre Assyriologique Internationale, Oriental Institute SAOC 62, pp. 25–33, 2005

Os problemas multiplicaram-se no final do seu reinado. Um texto babilônico posterior afirma:

Refere-se à sua campanha em "Elão", onde derrotou um exército de coligação liderado pelo Rei de Avã e forçou os vencidos a tornarem-se seus vassalos.

Também pouco depois, ocorreu outra revolta:

Rimus e Manistusu

thumb|upright=1.2|Soldados acadianos a matar inimigos, cerca de 2300 a.C., possivelmente de uma Estela de Vitória de Rimus. Sargão esmagara a oposição mesmo na velhice. Estas dificuldades irromperam novamente no reinado dos seus filhos, onde revoltas eclodiram durante o reinado de nove anos de Rimus (2278–2270 a.C.), que lutou muito para manter o império e foi bem-sucedido até ser assassinado por alguns dos seus próprios cortesãos. De acordo com as suas inscrições, ele enfrentou revoltas generalizadas e teve de reconquistar as cidades de Ur, Umma, Adabe, Lagaxe, Der e Cazalu de ensis rebeldes: Rimus introduziu o massacre em massa e a destruição em grande escala das cidades-estado sumérias, e manteve registos meticulosos das suas destruições. A maioria das principais cidades sumérias foi destruída, e as perdas humanas sumérias foram enormes:

Baixas sumérias das campanhas de RimusCidades destruídas:Adabe e ZabalaUmma e KI.ANUr e LagaxeCazalu(Três batalhas na Suméria)TOTAL Mortos15.7188.9008.04912.05211.32256.041 Capturados e escravizados14.5763.5405.4605.862_29.438 "Expulsos e aniquilados"_5.6005.985_14.10025.685

O irmão mais velho de Rimus, Manistusu (2269–2255 a.C.) sucedeu-lhe. Este último parece ter travado uma batalha naval contra 32 reis que se tinham reunido contra ele e assumido o controlo do seu país pré-árabe, constituído pelos atuais Emirados Árabes Unidos e Omã. Apesar do sucesso, à semelhança do seu irmão, ele parece ter sido assassinado numa conspiração palaciana.

Narã-Sim

thumb|Retrato de Narã-Sim, com inscrição em seu nome