thumb|300px|Jean-Léon Gérôme - Ave Caesar, morituri te salutant (1859) thumb|300px|Gladiadores romanos

Gladiador, do latim gladiātor, de gladius (modelo de espada utilizada pelos romanos), era uma pessoa que, na Roma Antiga, lutava com outra pessoa ou animal, às vezes, até a morte, para o entretenimento do público romano.GLADIATOR. In: Cambridge Dictionary.

Surgimento dos jogos de gladiadores A origem dos combates entre gladiadores é provavelmente Etrusca, inicialmente realizados para homenagear alguns homens nos seus atos fúnebres, recebendo o nome de múnus, restrito a membros da elite romana, o primeiro relato data de , em Roma. Com o tempo as apresentações passaram para o grande público nos anfiteatros, sendo os primeiros construídos de madeira, como o de Pompéia, em , após foram construídas diversos outros pelo império, incluindo o maior dentre eles, o anfiteatro Flávio (Coliseu Romano), construído em , que poderia comportar entre cinquenta mil e oitenta espectadores de todas as camadas da sociedade romana.JUNIOR, Jason José Guedes; CANDIDO, Maria Regina. Gladiadores e o Império: os poderes nas arenas romanas (séculos I e II). Nearco: revista eletronica de antiguidade, vol. 1, ano VIII, n.1, 2015, p. 33, 2015

Os múnus A palavra múnus tem sua origem no latim múnus, que significava um papel, uma função de um cidadão perante a sociedade, como por exemplo, um cargo público. Na Roma antiga, essas obrigações “incluíam a distribuição de alimentos, provisões para o exército, manutenção de estradas, muralhas e aqueduto, construção de edifícios públicos, hospedagem de soldados e altos funcionários do Império.” (GARRAFFONI, 2005). Mas se atentando ao caso dos combates de gladiadores, o termo múnus fúnebre indicava um tributo a alguém que faleceu, portanto a palavra passa a ter um caráter privado, e não mais público.

A partir do , o papel dos múnus começa a mudar, e se percebe que os espetáculos faziam parte importante da vida das pessoas, seja da elite, ou na população em geral. Os gladiadores estavam presentes em diversos contextos da sociedade, seja no âmbito religioso, político, econômico, militar e até mesmo no cotidiano romano.

Assim como os combates de gladiadores mais conhecidos, estes de caráter fúnebre também eram até a morte, e, segundo as numerosas esculturas encontradas na cidade de Porcuna, podia haver funerais, como o de Viriato, com duzentos pares de lutadores combatendo até a morte em honra ao falecido.

A arqueologia confirmou esses rituais funerários. Essa tese institui que vários séculos antes da chegada dos romanos à península Ibérica em , já se celebravam como parte dos rituais funerários, combates sangrentos equivalentes aos gladiadores de Cápua e Roma.GARRAFFONI, Renata Senna. Gladiadores na Roma antiga. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2005. 225 p. 21, 31,31, 55 e 158

Declínio dos jogos Muitos estudiosos do século XIX que eram contrários aos jogos de gladiadores, tentaram encontrar na própria época dos jogos, alguma oposição a eles. Alguns estudiosos tacharam a filosofia dos estoicos gregos de que o “homem é sagrado ao homem” e também a Cristandade foram os responsáveis pelo declínio e posteriormente pelo desaparecimento dos jogos. Com estudos posteriores pôde se entender que não necessariamente por ter de argumentos contra os jogos de gladiadores que os filósofos gregos, católicos romanos ou até mesmo pagãos, eram a favor de sua abolição.

Quando o imperador proibiu os jogos de gladiadores em 399, como relatou Honório, foi especificamente por razões políticas. Portanto, o declínio dos jogos não ocorreu somente pela sua hostilidade considerada pelos cristãos ou filósofos. O que ocorreu foi a soma dessas problemáticas. Quanto as razões políticas, estavam ligadas a acidentes que ocorreram em alguns edifícios. Havia um perigo eminente para a audiência, e foi preciso ser implantado um regulamento para que não ocorressem mais tais fatalidades. Outro fator é relacionado ao receio do imperador da popularidade que os gladiadores acabavam ganhando com os jogos. O que seria uma ameaça ao seu poder.  Além dessa medida para prevenir rivais políticos, havia um receio por grandes concentrações de homens, que treinados para lutar, poderiam demonstrar grande ameaça se houvesse uma possível rebelião. Por exemplo, em o Senado introduziu restrições quanto ao número de gladiadores que Júlio César queria fornecer.

Os anfiteatros só começaram a ser construídos em I, assim como outros diversos edifícios públicos, dois séculos depois do primeiro combate de gladiadores romanos. Uma das explicações para esse fenômeno é a Romanização: “A construção de teatros, anfiteatros, fora, pontes, aquedutos, entre outras estruturas arquitetônicas [...] a repetição destas estruturas por distintas áreas da Hispânia indica que a urbanização a partir de Augusto era parte do processo de Romanização, de imposição dos valores romanos sobre as populações indígenas.” (MIERSE, 2000 p. 16 apud GARRAFFONI, 2005, p. 105-106).

Cotidiano A historiografia está marcada por tratar os gladiadores entre uma visão de heroísmo e de infâmia. Algumas profissões eram tachadas de infames, assim como os gladiadores, também os atores, prostitutas, donos de bordeis, etc. E essa situação gerou restrições jurídicas e políticas. Apesar de que todos os que lutassem em arenas fossem vistos com maus olhos, isto não fez com que eles quisessem recuperar sua reputação.GARRAFFONI, Renata Senna. Gladiadores na Roma antiga. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2005 p 184

Durante o as arenas começaram a se diversificar, e não estavam mais marcadas por lutas entre prisioneiros e escravos. A profissão de gladiador agora estava se profissionalizando. E apesar dessa visão de infames, havia uma vontade em ser um gladiador. Existem até mesmo registros de nomes de gladiadores, indicando assim, uma carreira e um certo triunfo.GARRAFFONI, Renata Senna. Gladiadores na Roma antiga. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2005 p. 187

A visão de gladiadores somente em arenas é inevitável, porém é importante ressaltar que essa atividade dos jogos eram a menor parte de seu cotidiano. Eles praticavam outras atividades, como o treinamento, gastronomia, tinham amigos, família, etc. Portanto, também tinham suas preocupações cotidianas.GARRAFFONI, Renata Senna. Gladiadores na Roma antiga. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2005 p.195

Armamentos utilizados

Alguns dos armamentos utilizados pelos gladiadores: elmos, coroas, proteção de ombros, braços e pernas, escudos, etc.. Essas armaduras variam muito quanto às cores e inscrições nelas feitas. Dependiam também do local e tipo de espetáculo que iriam ser utilizadas.“A representação de deuses em elmos, escudos e proteções de braços ou pernas expressam o imaginário religioso ainda presente nas lutas e, muito provavelmente, no cotidiano dos gladiadores. Já os símbolos de vitória (coroa, palmas) ou de boa fortuna permitem que pensemos sobre as crenças que se construíam dentro das arenas, bem como sobre a relação entre vida e morte vivenciada por estes homens e resignificada por aqueles que assistiam ao combate”. (GARRAFFONI, 2005, p. 160)GARRAFFONI, Renata Senna. Gladiadores na Roma antiga. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2005

Dieta Estudos recentes dos ossos no cemitério de Éfeso (cemitério de gladiadores, localizado, hoje, no território da Turquia Ocidental) nos revela como o gladiador se mantinha vivo: uma dieta vegetariana, contudo não relacionava com a pobreza ou com os direitos dos animais, rica em carboidratos, como a cevada e o feijão, de modo que Grossschimid explica: “Gladiadores precisavam de gordura subcutânea”, pois a capa de gordura protege de cortes, os nervos e vasos sanguíneos em combate. E com complemento de cálcio ocasional, visto que a dieta poderia deixar os gladiadores com déficit de cálcio, para repor ingeriam bebidas fermentadas de madeira queimada ou cinzas de ossos, Grosschimidt observa que os níveis de cálcio nos ossos dos gladiadores eram “exorbitantes” comparados com população em geral, “muitos atletas hoje precisam de suplementos de cálcio”, e “Eles também sabiam que precisavam”.CURRY, Andrew. The Gladiator Diet,Archaeology: a publication of the Archaeological Institute of America, volume 61, number 6, November/December 2008.

Tipos de gladiador Durante os tempos da república, a maioria dos gladiadores usavam armaduras semelhantes às do exército, ou seja, Lorica Hamata (malha) ou Lorica Squamata (escamas), e não havia grande variedade de combatentes. Porém, após as reformas feitas pelo imperador Augustus, os gladiadores foram divididos em várias categorias, baseados em seu estilo de luta e sua armadura.

Não existe iconografia clara que confirme todos os tipos de gladiador que são citados em fontes literárias e em inscrições, portanto é difícil dar descrições exatas. As principais categorias encontradas foram:

Samnitas O mais antigo tipo de gladiador, foi chamado assim pois utilizava equipamentos deixados pelos guerreiros Samnitas (inimigos de Roma nos primórdios da república). Usavam um escudo retangular, um espada curta (gladius) e um elmo decorado com penas. Eventualmente caíram em desuso no governo de Augustus, pois ofenderiam os cidadão samnitas, agora aliados de Roma.

Trácios Guerreiros vindos da província Trácia, utilizavam um escudo quadrado, uma proteção no braço direito e geralmente empunhava uma espada curva ou angulada (sica). Seu elmo era peculiar: possuía uma crina inclinada para frente, e na ponta era esculpido uma cabeça de grifo e penas.

Hoplomachus Estilo difícil de identificar, pelo fato de ser parecido com o gladiador Trácio. Usava proteções nas pernas e um impressionante elmo ornado, mas distinguia-se do Trácio por usar uma espada reta e um pequeno escudo redondo.

Retiarius Um dos gladiadores mais reconhecíveis, utilizava um tridente e uma rede. Utilizava a rede para imobilizar o oponente, para então atacar com o tridente. Se perdesse a rede, poderia utilizar o tridente para desferir golpes segurando a arma com as duas mãos. Outra característica marcante era o uso do galerus, uma placa de bronze usada no ombro esquerdo.

Secutor Como costumava lutar contra o Retiarius, o Secutor também era chamado de Contraretiarius. Utilizava uma espada reta e um elmo pequeno e redondo, sem adornos, para evitar que ficasse preso na rede do Retiarius, e combatia o oponente de perto, uma tática útil contra um inimigo que usava rede e tridente.

Murmillo O Murmillo possui este nome devido ao peixe (murma) esculpido em seu elmo, que é facilmente reconhecido pelas aberturas na frente e pela crina reta na parte superior. Ele lutava principalmente contra Trácios e Hoplomachos, e como outros gladiadores, lutava com o peito exposto. Empunhava uma gladius, e usava um grande e pesado escudo retangular.

Provocator Não há muita informação sobre o Provocator, além de que usava uma proteção até metade da perna, um elmo com visor e sem crina e usava um escudo retangular. Provocatores costumavam lutar contra outros gladiadores da mesma categoria.

Eques Os Eques eram gladiadores peculiares pelo fato de lutarem montados em cavalos. Utilizavam espada curta ou lança, junto a um escudo redondo pequeno, com uma túnica de vestimenta. Lutavam contra outros Eques, simulando batalhas de cavalaria.

Combates de caráter fúnebres Assim como os combates de gladiadores mais conhecidos, estes de caráter fúnebre também eram até a morte, e, segundo as numerosas esculturas encontradas na cidade de Porcuna, podia haver funerais, como o de Viriato, com duzentos pares de lutadores combatendo até a morte em honra ao falecido.A. Rouveret, op. cit., 331: K. Papaioannou, op. cit., 55. A arqueologia confirmou esses rituais funerários. Essa tese institui que vários séculos antes da chegada dos romanos à península Ibérica em , já se celebravam como parte dos rituais funerários, combates sangrentos equivalentes aos gladiadores de Cápua e Roma.J.M. Blázquez, op. cit., 210 il. 138.