Nos mamíferos, as glândulas suprarrenais (ou adrenais) são duas glândulas endócrinas pares, de coloração amarelada e localização retroperitoneal, situadas no polo ântero-superior de cada rim. Em seres humanos adultos, cada glândula pesa cerca de 4 a 5 gramas e mede aproximadamente 5 centímetros de comprimento por 3 centímetros de largura e 1 centímetro de espessura. Apresentam assimetria morfológica notável: a glândula suprarrenal direita possui formato tipicamente piramidal ou triangular, ao passo que a esquerda exibe conformação semilunar e costuma ser discretamente mais volumosa.
Cada suprarrenal é estrutural e funcionalmente composta por duas entidades biológicas distintas envoltas por uma cápsula fibrosa comum: o córtex adrenal periférico (de origem mesodérmica, responsável por cerca de 80% a 90% do volume da glândula) e a medula adrenal central (de origem neuroectodérmica, derivada da crista neural).
O córtex divide-se em três zonas concêntricas especializadas na síntese de hormônios esteroides (esteroidogênese): a zona glomerulosa produz mineralocorticoides (com destaque para a aldosterona, essencial no equilíbrio hidroeletrolítico e controle da pressão arterial), a zona fasciculada sintetiza glicocorticoides (principalmente o cortisol, regulador central do metabolismo energético e das respostas inflamatórias ao estresse) e a zona reticular secreta androgênios adrenais (como a deidroepiandrosterona ou DHEA). Por sua vez, a medula adrenal opera fisiologicamente como um gânglio simpático especializado, cujas células cromafins descarregam catecolaminas (adrenalina e noradrenalina) diretamente na corrente sanguínea em situações agudas de alerta, deflagrando a clássica resposta de "luta ou fuga".
Anatomia macroscópica e relações topográficas As glândulas suprarrenais repousam no espaço perirrenal do abdómen, imediatamente acima e anteromedialmente aos polos superiores dos rins, ao nível da 12.ª vértebra torácica (T12) e 1.ª vértebra lombar (L1). Encontram-se encerradas pela fáscia renal (fáscia de Gerota), inseridas em meio ao coxim adiposo perirrenal. Um septo fascial delgado separa a glândula da superfície renal propriamente dita; em virtude dessa clivagem anatômica, a ptose renal (deslocamento caudal do rim) não acarreta o deslocamento conjunto da suprarrenal, que permanece ancorada à fáscia e ao diafragma.
As relações de contiguidade diferem acentuadamente entre os dois lados: Glândula suprarrenal direita: De silhueta piramidal, apoia-se como um barrete sobre o polo superior do rim direito. Anteriormente, relaciona-se medialmente com a veia cava inferior (VCI) e ântero-lateralmente com a face nua do fígado (lobo hepático direito), deixando frequentemente uma impressão na víscera. Posteriormente, repousa contra a cúpula do músculo diafragma. Glândula suprarrenal esquerda: Em formato semilunar ou de crescente, estende-se inferiormente ao longo da borda medial do rim esquerdo até as imediações do hilo renal. Relaciona-se anteriormente com a face posterior do estômago (separada por este pela bolsa omental), com o corpo e cauda do pâncreas e com a artéria esplênica. Posteriormente, repousa sobre o pilar esquerdo do diafragma.
Vascularização e inervação
Suprimento arterial thumb|right|250px|Disposição anatômica das artérias e veias suprarrenais e suas relações com os vasos renais e os grandes troncos vasculares abdominais. As glândulas adrenais exibem uma das mais densas vascularizações relativas do corpo humano, perfundidas por um fluxo sanguíneo arterial que atinge cerca de 5 mL/g/min em condições basais. A irrigação provém de três origens arteriais distintas em cada lado: 1. Artéria suprarrenal superior: Composta por múltiplos ramos delgados (em média de 6 a 30) originados da respectiva artéria frênica inferior; 2. Artéria suprarrenal média: Ramo de calibre variável emergente diretamente da face lateral da aorta abdominal, logo acima da origem das artérias renais; 3. Artéria suprarrenal inferior: Um ou mais ramos volumosos originados da artéria renal homolateral antes de sua penetração no hilo renal.
Essas artérias ramificam-se livremente na superfície da cápsula fibrosa, constituindo um plexo arterial subcapsular. A partir desse plexo derivam arteríolas curtas e capilares sinusoides fenestrados que atravessam o córtex de forma centrípeta (entre as colunas celulares), além de raras arteríolas medulares diretas que cruzam o córtex sem se ramificar para alcançar diretamente a medula. Essa arquitetura de fluxo centrípeto garante que a medula adrenal receba sangue portador de concentrações extremamente elevadas de glicocorticoides corticais, fator essencial para a regulação enzimática da síntese de catecolaminas.
Drenagem venosa Ao contrário do afluxo arterial profuso e disperso, a drenagem venosa de cada glândula é efetuada predominantemente por um único vaso calibroso central, a veia suprarrenal, cuja terminação exibe assimetria cirurgicamente crítica: Veia suprarrenal direita: Muito curta (geralmente com menos de 4 a 5 milímetros de comprimento), drena de modo quase horizontal e direto para a face póstero-lateral da veia cava inferior. Sua brevidade e fragilidade impõem extremo cuidado técnico durante intervenções cirúrgicas de adrenalectomia laparoscópica à direita. Veia suprarrenal esquerda: Mais longa (cerca de 2 a 4 centímetros), desce obliquamente, recebe comumente a veia frênica inferior esquerda e desemboca na face superior da veia renal esquerda, a qual cruza adiante da aorta para tributar na veia cava inferior.
Drenagem linfática e inervação Os vasos linfáticos adrenais originam-se em dois plexos (um subcapsular e outro medular) e acompanham os trajetos venosos para drenar nos linfonodos lombares para-aórticos e paracavais adjacentes à origem das artérias renais.
A inervação é profusa e deriva primariamente dos nervos esplâncnicos maior, menor e imo, através dos plexos celíaco, renal e suprarrenal. Notavelmente, a imensa maioria dessas fibras corresponde a axônios pré-ganglionares simpáticos mielinizados (colinérgicos). Tais fibras penetram na glândula sem fazer sinapse nos gânglios paravertebrais e terminam diretamente em contato com as células cromafins da medula adrenal, que funcionam embriológica e funcionalmente como neurônios pós-ganglionares modificados. O córtex, por sua vez, é desprovido de inervação sináptica motora direta; sua regulação é quase exclusivamente hormonal humoral.
Histologia Microscopicamente, a suprarrenal é envolvida por uma cápsula conjuntiva densa que emite septos delgados para o interior da glândula transportando vasos sanguíneos e nervos. Abaixo da cápsula identificam-se claramente o córtex e a medula.
thumb|Micrografia óptica histológica do córtex suprarrenal corado em hematoxilina-eosina, evidenciando a zona glomerulosa (ZG), a zona fasciculada (ZF) e a zona reticular (ZR).
Córtex adrenal Representa cerca de 80% a 90% do parênquima glandular. Suas células possuem as características ultraestruturais típicas de células secretoras de esteroides: mitocôndrias abundantes com cristas tubulovesiculares, extenso retículo endoplasmático liso (REL) e inclusões citoplasmáticas lipídicas (gotículas de colesterol). Subdivide-se funcional e morfologicamente em três zonas concêntricas sem limites rígidos:
Zona histológica Proporção cortical Organização celular e características Principal classe hormonal Hormônio representativo Fator estimulador primário Zona glomerulosa ~15% Células colunares ou piramidais pequenas reunidas em cordões encurvados e ninhos arqueados rodeados por capilares; gotas lipídicas esparsas. Mineralocorticoides Aldosterona Angiotensina II, K⁺ extracelular Zona fasciculada ~75% Células poliédricas volumosas (espongiócitos) arranjadas em cordões longitudinais retilíneos paralelos, perpendiculares à cápsula; citoplasma vacuolizado rico em lipídios. Glicocorticoides Cortisol (humanos)Corticosterona (roedores) ACTH (corticotropina) Zona reticular ~10% Células menores, basofílicas, organizadas em cordões anastomosados formando rede tridimensional; contêm grânulos de lipofuscina e poucas gotas lipídicas. Androgênios adrenais Deidroepiandrosterona (DHEA) e Androstenediona ACTH
Medula adrenal Ocupa o núcleo central da glândula. É formada por cordões e aglomerados de células cromafins (ou feocromócitos) imersos em um estroma reticular sustentado por ampla rede capilar sinusoidal e veias medulares de músculo liso espessado. O termo "cromafim" decorre da propriedade histológica clássica dessas células: quando expostas a soluções contendo sais de cromo (dicromato de potássio), seus grânulos citoplasmáticos de catecolaminas oxidam-se e precipitam sob a forma de um pigmento castanho-escuro insolúvel.
Ultraestruturalmente, as células cromafins contêm densos grânulos secretórios de centro eletrodenso envolvidos por membrana (grânulos cromafins), onde as catecolaminas permanecem estocadas em complexo com proteínas solúveis chamadas cromograninas, íons cálcio e ATP. Distinguem-se dois subtipos celulares: as células secretoras de adrenalina (cerca de 80% do total em humanos, com grânulos menores e matriz homogênea) e as secretoras de noradrenalina (cerca de 20%, com grânulos maiores e centro intensamente denso). Entre as células cromafins observam-se ainda neurônios ganglionares simpáticos isolados ou em pequenos grupos.
Embriogênese O desenvolvimento embrionário da glândula suprarrenal é um processo singular que conjuga dois tecidos de origens blastodérmicas completamente independentes: Origem do córtex: Durante a 5.ª e 6.ª semanas de gestação, células do epitélio celômico mesodérmico proliferam entre a raiz do mesentério dorsal e a crista urogenital embrionária, invadindo o mesênquima subjacente. Essas células diferenciam-se inicialmente para constituir o imenso córtex fetal (ou córtex provisório). Logo em seguida, uma segunda onda de células mesenquimais do mesotélio celômico envolve a massa primitiva, originando a camada precursora do córtex permanente. Origem da medula: Simultaneamente, células neuroectodérmicas pluripotentes originadas da crista neural migram ventralmente ao longo dos gânglios da cadeia simpática primária e penetram no córtex fetal pela sua face medial por volta da 7.ª semana. Ali, agregam-se no centro da glândula e diferenciam-se em feocromócitos (células cromafins).
O córtex fetal e a adrenarca pós-natal Durante a vida intrauterina, a suprarrenal fetal atinge dimensões desproporcionais: por volta do 4.º mês de gestação, a glândula é maior do que o próprio rim contíguo e, em proporção ao peso corporal, é de dez a vinte vezes maior do que a suprarrenal do indivíduo adulto. A imensa massa do córtex fetal opera como elemento-chave da chamada "unidade feto-placentária", sintetizando vultosas quantias de sulfato de desidroepiandrosterona (DHEA-S), precursor que a placenta converte no estrogênio materno estriol.
Logo após o nascimento, com a secção do cordão umbilical e a perda dos estímulos tróficos placentários, o córtex fetal sofre apoptose e involução hemorrágica maciça. Como resultado, a glândula suprarrenal perde cerca de um terço a metade de sua massa nas primeiras duas a três semanas neonatais, não recuperando seu peso original de nascença até os 2 a 3 anos de idade. As camadas adultas estruturam-se gradativamente: a zona glomerulosa e fasciculada estão organizadas no lactente, enquanto a zona reticular consolida-se funcionalmente apenas por volta dos 5 a 8 anos de vida, evento endócrino denominado adrenarca, que deflagra o surgimento dos primeiros pelos pubianos e axilares (pubarca) e a alteração do odor corporal na infância tardia.
Fisiologia e vias de biossíntese hormonal
Esteroidogênese adrenal thumb|320px|Visão geral das vias bioquímicas da esteroidogênese a partir do colesterol no córtex suprarrenal.