Bartolomeu dos Mártires, O.P. (Lisboa, Mártires, 3 de maio de 1514 – Viana do Castelo, Convento de Santa Cruz, 16 de julho de 1590), foi um Arcebispo, que atuou em Braga entre 1559 e 1582. É lembrado como um modelo de benevolência e dedicação para a Igreja Católica.PEREIRA, 2013a, p.1

Participou do Concílio de Trento como defensor de um tempo de graça e renovação. Os resultados obtidos foram próximos aos desejados, devido ao seu entusiasmo como porta-voz de uma ala renovadora, mas também como testemunha viva do que já tinha começado e iria continuar praticando na Igreja.ORTIGA, 2015, p.3 Esteve presente nas reuniões de 1562 e 1563, na qual apresentou 268 petições. Defendeu a primazia bracarense em oposição ao Arcebispo de Toledo, já que ambos reivindicavam a primazia das Espanhas, a tal ponto que teve de ser aberta uma porta extra para que pudessem entrar ao mesmo tempo.MARQUES, 1999

O arcebispo primaz procurou aplicar as normas de Trento através do Sínodo Provincial de 1566. Acabou encontrando resistências no conservadorismo e comodismo das estruturas eclesiásticas de Braga. No entanto, isso não o impediu de continuar defendendo o que acreditava e almejar o ordenamento do clero e da população. D. Frei Bartolomeu dos Mártires privilegiou a formação dos futuros presbíteros com a fundação de um seminário, o primeiro depois de Trento. Teve atenção na formação permanente dos sacerdotes, escrevendo o “Catecismo ou Doutrina Cristã e Práticas Espirituais”, para que instruíssem os fiéis.PEREIRA, 2013b, p.29

Era muito popular e passava a maior parte do tempo em visita pastoral na sua longa e diversificada arquidiocese. Preocupou-se muito com várias questões sociais, durante a peste de 1570 e a crise econômica de 1574, as suas obras de caridade foram exemplares.

Durante a crise da sucessão de 1580 manteve a sua neutralidade, esperando que a questão se resolvesse politicamente. Mesmo assim, apesar da sua aparente imparcialidade, renunciou ao Arcebispado de Braga em 1582, logo que as Cortes aclamaram Filipe II de Espanha como Rei de Portugal e o seu discípulo Prior do Crato abandonou o país.

S. Bartolomeu passou seus últimos oito anos de vida recolhido no convento de Santa Cruz, em Viana do Castelo e com tal fama de homem santo, pai dos pobres e dos enfermos, que os vianenses tiveram de proteger o seu cadáver dos bracarenses que o reivindicavam.

O Papa Francisco concedeu, a 20 de janeiro de 2016, em audiência à Congregação para a Causa dos Santos, a autorização necessária à dispensa do milagre formalmente demonstrado para a declaração de Santidade do Beato D. Frei Bartolomeu dos Mártires. A canonização foi aprovada a 5 de julho de 2019.

Trajetória eclesiástica esquerda|miniaturadaimagem|348x348px|Estátua de São D. Frei Bartolomeu dos Mártires, inaugurada no ano de 2017, em Braga.

Primeiros anos Bartolomeu Fernandes, filho de Domingos Fernandes e de sua mulher Maria Correia, nasceu no dia 3 de maio de 1514, em Verdela, na freguesia dos Mártires, na região de Lisboa.SOUSA, 1946, p.15-21 Veio duma família humilde e, até ao fim da sua vida, manteve-se fiel às suas origens. A sua infância foi marcada pelo seu fervor religioso.

Ingressou na Ordem Dominicana a 11 de novembro de 1528, aos catorze anos de idade, sob o nome de Frei Bartolomeu dos Mártires, em alusão aos ditos que deram o seu nome às suas Paróquia e Freguesia de nascimento, e estudou no studium do Convento de São Domingos de Lisboa, dando início a um curso de Artes. Só começou seu primeiro curso de Teologia em 1542, aos vinte e oito anos, no Convento de Batalha. Ambos os estudos contribuíram para seu convívio com elementos da ordem Dominicana.

A esta altura, começou a fazer seu nome dentro da Ordem, alcançando grande prestígio entre seus colegas e chamando a atenção de seus superiores, que chegaram a pedir a intervenção do rei D. João III para que ele pudesse concorrer ao grau de Mestre na Universidade de Coimbra.PEREIRA, 2017, p.71 Após terminar seu magistério, em 1551, Frei Bartolomeu dos Mártires suspendeu suas lições e seguiu para o Capítulo Geral, celebrado em Salamanca, para receber seu grau de Mestre em Teologia.

Em 1552, o Frei foi chamado a Évora a fim de exercer a função de Mestre de D. Antonio, futuro Prior do Crato e pretendente à coroa portuguesa,PEREIRA, 2017, p.72 num colégio fundado por D. Henrique e com a direção de padres jesuítas. Não se sabe muito sobre seu trabalho nessa época, apenas que essa experiência serviu para o desenvolvimento de suas relações políticas, assim como sua espiritualidade. Passou a dar mais importância para a pregação, a catequese e pela participação ativa na comunidade, influenciado pelo contato com os jesuítas.PEREIRA, 2017, p.117 esquerda|miniaturadaimagem|314x314px|Catecismo ou Doutrina Cristã e Práticas Espirituais.

Primeiros escritos Frei Bartolomeu dos Mártires teria começado os seus primeiros trabalhos sobre a Suma Teológica de São Tomás de Aquino em 1542, durante seus os estudos sobre Teologia. Nesses escritos, ele fazia análises críticas e debatia questões polémicas. Depois, em 1548, ele iniciou suas lições sobre as questões da Secunda Secundae, na qual cita diversos teólogos durante as suas análises. Entre 1550 e 1551, também escreve sobre a Prima Secundae, até deixar o convento em 1552.PEREIRA, 2017, p.73

Ofereceu também a sua opinião sobre um tema bastante debatido na época, o preceito da correção fraterna. Frei Bartolomeu dos Mártires defendia a proteção da boa fama dos pecadores junto à comunidade, acreditando que pecados que eram cometidos em segredo deveriam ser corrigidos também em segredo, e não publicamente, algo que ia contra algumas premissas da Inquisição.PEREIRA, 2017, p.74

Seguindo as ideias de São Tomás de Aquino, Frei Bartolomeu dos Mártires acreditava que existiam dois tipo de infidelidade. O primeiro tipo de infiel era aquele que não conhecia e nunca tinha ouvido a palavra cristã e, ao morrer, era perdoado do seu pecado. Já o segundo tipo era aquele que conhecia, mas que negava a palavra de Cristo ou que se opunha a ela, não sendo perdoado caso morresse nesta condição.PEREIRA, 2017, p.87

Entre o fim de 1557 e início de 1558, Frei Bartolomeu dos Mártires torna-se Prior do Convento de Benfica, mas permanece no cargo por pouco tempo. Em 1558, D. Frei Baltasar Limpo, até então arcebispo de Braga primaz das Espanhas morre, sendo necessário nomear um substituto para a mais antiga diocese do reino. A escolha do arcebispo primaz requer um reconhecimento dos níveis de formação e carreira, no entanto, a escolha de Frei Bartolomeu dos Mártires deu-se também pela necessidade de efetuar uma reforma na Igreja, como refere o seu hagiólogo Frei Luís de Sousa. Foi consagrado em 3 de setembro de 1559, no Convento de São Domingos de Lisboa, pelas mãos de Dom João Soares, O.S.A., bispo de Coimbra, coadjuvado por Dom Julião de Alva, bispo de Portalegre e por Dom Pedro Fernando, bispo-titular de Hippos.Catholic Hierarchy

A cidade de Braga encontrava-se então “a ferro e fogo” com a prisão de 23 importantes mercadores no ano anterior, sob influência de Baltasar Limpo e de um Cabido da Sé igualmente empenhado nas atividades do inquisidor santo ofício. E esta foi a primeira grande revolução que Bartolomeu protagonizou – restaurar a paz social na capital do arciprestado.

Atuação no Concílio de Trento miniaturadaimagem|311x311px|Retrato do jovem Bartolomeu dos Mártires. O século XVI foi turbulento para a Igreja Católica. A vida de muitos membros era dominada por luxúria e ganância, com o consequente desleixo religioso. São conhecidas as desavenças que conduziram à formação de novas confissões cristãs.

D. Frei Bartolomeu dos Mártires também ansiava por uma reforma, mas não com esse desfecho, já que defendia a plena comunhão eclesial, na terceira fase do Concílio de Trento. Tratava-se de uma reforma para a qual há muito se preparava pelo modo de viver simples e despretensioso, piedoso e dedicado de frade dominicano.

A sua participação no Concílio de Trento marca uma importante época na vida de D. Frei Bartolomeu dos Mártires, que teve um papel principal na assembleia. Há inclusivamente muitos historiadores que o elegem como “a figura maior do Concílio”. Igualmente reconhecido é o seu pioneirismo na aplicação nas normas e doutrina lá definidas.

O Arcebispo de Braga Primaz das Espanhas estava entre os três prelados portugueses que atenderam ao chamado de Roma para participar do Concílio e seu vasto conhecimento teológico e o fato de ter sido um dos primeiros a atender a convocação, fizeram com que logo ele fosse respeitado entre os presentes.PEREIRA, 2017, p.120

A sua acção no Concílio foi marcada pela defesa do princípio da correção fraterna e da força episcopal como principal força da reforma. Após chegar a cidade de Trento, D. Frei Bartolomeu dos Mártires ficou por alguns meses esperando pelo início das suas sessões e, durante esse período, escreveu a Suma Geral dos Concílios, o Stimulus Pastorum e outras 260 petições que tratavam do estado da Cúria e da necessidade de uma reforma.PEREIRA, 2013, p.7 Ele defendeu a importância dar fim ao absenteísmo e à negligência dos bispos e afirmou o poder episcopal frente à investida dos embaixadores de Portugal e de Espanha.

alt=|miniaturadaimagem|314x314px|Assinatura dos decretos tridentinos por D. Fr. Bartolomeu dos Mártires. Num dos seus escritos, Estímulo de Pastores (1565), que acabou por se tornar um dos maiores espelhos dos bispos da época, D. Frei Bartolomeu dos Mártires discorre sobre o ofício episcopal e sobre sua responsabilidade para com a manutenção dos bons costumes cristãos e a salvação dos fiéis sob sua jurisdição.PEREIRA, 2013a, p.8 Esta obra reforça que a posição do Arcebispo de Braga Primaz das Espanhas era diferente do procedimento inquisitorial, uma vez que ele defendia a aplicação de punições mais leves aos fiéis, por acreditar que os castigos muito árduos mais afastavam as pessoas do que as ajudavam. Para ele, apenas casos muito graves mereciam punições severas. D. Frei Bartolomeu dos Mártires também divergia da Inquisição por não priorizar a perseguição dos cristãos-novos e sim outros delitos que não recebiam tanta atenção nos tribunais inquisitoriais, como a feitiçaria e o luteranismo.MARCOCCI, 2003, p.133-143

O que também fica muito claro nos seus escritos é a importância que D. Frei Bartolomeu dos Mártires dá para a prática das visitas na atividade pastoral. Ele as utilizou como meio de afirmar sua autoridade frente ao Cabido da Sé, com o qual teve inúmeros conflitos, e à Inquisição. Até o momento em que obteve sua dispensa do cargo de Arcebispo de Braga, o Frei já havia percorrido diversas vezes toda sua Arquidiocese, colocando as viagens junto das atividades na cidade de Braga.

Actuação no Arcebispado de Braga alt=|esquerda|miniaturadaimagem|Fachada da atual Sé de Braga. Preocupado com o despreparo do clero e com a falta de conhecimento da doutrina católica por parte dos fiéis, Bartolomeu escreveu um catecismo, que foi distribuído a todos os clérigos do Arcebispado de Braga. Este catecismo foi separado em duas partes. Uma primeira fazia uma exposição da oração do Pai Nosso, da profissão de fé (o Credo ou Creio), dos Dez Mandamentos, dos pecados capitais e dos sacramentos. A segunda parte possuía práticas e sermões a serem lidos aos fiéis aos domingos e dias de festa. A leitura deste catecismo se fez obrigatória a todos aqueles que não eram profundos conhecedores (doutos) da Sagrada Escritura, de Teologia ou dos Cânones, o que abrangia grande parte da população, e por esse motivo a obra se difundiu por todo o território português. Bartolomeu tinha como objetivo atingir as camadas mais simples da população, abordando a doutrina cristã de forma acessível, para que todos tivessem conhecimento dos pecados contra a fé, especialmente a feitiçaria, para que esse crime fosse erradicado.