Durval Discos é um filme brasileiro de 2002, dirigido por Anna Muylaert em sua estreia como diretora. A história gira em torno de Durval, que em plena era do CD insiste em continuar vendendo discos de vinil (LP). O filme teve como fonte de inspiração as antigas lojas de vinil do bairro de Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo, como a Edgar Discos e a Eric Discos. Este filme é uma realização de estúdio de uma distribuição pela Europa Filmes, e pelo apoio da TV Cultura e o Governo do Estado de São Paulo. Na TV Cultura foi exibido no programa Cine Brasil.

O filme é notável por sua trilha sonora composta pela música brasileira dos anos 1970 que reflete o gosto do protagonista, já que ele é um hippie, além da trilha sonora original de André Abujamra, mais presente na segunda metade mais sombria do filme. A mudança de humor da primeira parte para a segunda foi anunciada como os lados A e B da vida, uma referência à homenagem do filme aos LPs.

Premissa No final da década de 1990, Durval (Ary França) é um homem de meia-idade que possui uma loja de discos no térreo da casa de sua mãe autoritária (Etty Fraser). Um hippie típico, Durval se recusa a vender CDs, apesar da queda no número de clientes. Ele percebe que sua mãe não está se dedicando tanto à cozinha e às tarefas domésticas como antes e sugere que contratem uma empregada doméstica, uma tarefa complicada, já que só estão dispostos a pagar 100 reais. Uma jovem (Letícia Sabatella) finalmente aparece disposta a aceitar o trabalho, mas desaparece depois de um dia. Logo descobrem que ela deixou uma menina chamada Kiki (Isabela Guasco) e um bilhete pedindo que cuidem dela por alguns dias. Durval e sua mãe se apegam a Kiki, mas logo descobrem que ela é, na verdade, filha de uma família rica do interior que foi sequestrada.

Elenco e personagens

Produção

Desenvolvimento A fonte de inspiração para o roteiro veio quando a irmã de Anna Muylaert lhe trouxe a notícia de que a Edgar Discos iria fechar. A loja localizada em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo, era do senhor Edgar que resolveu baixar as portas para começar vida nova em Santos, já com mais de 60 anos que era um dono que resistia ao CD e só vendia vinil. "Essa situação real foi o ponto de partida para a ficção", contou Muylaert, que morou no bairro de Pinheiros. O nome Durval é emprestado do avô da diretora. A Eric Discos, outra loja de Pinheiros que também serviu de inspiração para a cineasta e seus produtores, existe no número 1813 da Rua Artur de Azevedo. Neste local Anna gravou um demo-filme de Durval e onde pegou detalhes para criar a loja em que as filmagens foram feitas. O proprietário da Eric Discos é Eric Crauford, um inglês de Londres que veio para o Brasil com uma coleção de 28 mil álbuns, "Vim com minha família de avião e mandei os discos de navio", recorda Eric. Sua loja contabiliza hoje 100 mil títulos em LPs e, contra sua vontade, 4 mil CDs; "sou contra o CD, mas precisamos ter um pouco em estoque". Exportações são feitas para o Japão e países da Europa. Nos anos 70, Raul Seixas era cliente cativo, atrás de alguma peça rara de Jerry Lee Lewis, Chuck Berry ou Elvis Presley.

Escolha do elenco Muylaert escolheu Ary França para o papel, depois de testar mais de 20 atores para interpretar Durval, quando ele agiu "diferente de todos os outros atores, que respeitavam os apontamentos do roteiro e interpretavam Durval como um cara, além de passivo, calmo e paradão". A diferença é que "[França] trouxe para o filme o nervoso, a ansiedade, uma eletricidade de cão que ladra e não morde". André Abujamra foi finalista na seleção de atores para interpretar Durval, mas uma agenda de shows nos EUA com sua banda Karnak o fez desistir. A participação como Fat Marley o fez gravar e lançar um disco com o nome do personagem pelo selo Outros Discos. Isabela Guasco foi escolhida de cem candidatas; a menina já tinha uma pequena experiência em comerciais. A cantora de rock Rita Lee também tem uma breve participação como a cliente excêntrica Tia Julieta que esquece de pegar o vinil que ela acabou de comprar.

Filmagens O filme se passa no bairro de Pinheiros. Um sobrado de uma antiga casa na Rua Alves Guimarães nº 367, foi alugado para se transformar no território de Durval, na frente, sua loja de discos; nos fundos e no segundo piso, as dependências da casa que divide com a mãe. Terminadas as filmagens (e o contrato de locação), o sobrado foi demolido, para dar lugar a um prédio, o edifício Letícia. Muylaert incorporou ao filme a cena em que teto e paredes da antiga construção vêm abaixo.

Grandes planos do filme são filmados em steadicam, como a introdução, filmada na Rua Teodoro Sampaio, famosa em São Paulo pela sua concentração de lojas de instrumentos musicais.

Lançamento A première de Durval Discos ocorreu em 15 de agosto de 2002 no 30° Festival de Gramado, no Rio Grande do Sul, no Palácio dos Festivais. Sua estreia ocorreu com êxito em Gramado, ocasião em que foi consolidado como grande vencedor com sete prêmios, incluindo o Troféu Kikito de Melhor Filme e Melhor Roteiro, e, posteriormente, foi selecionado para inúmeros festivais ao redor do mundo. Fez sua estreia internacional no Festival Internacional de Cinema de Montreal, no Canadá, em 29 de agosto de 2002.

Nos Países Baixos, o filme foi selecionado para o tradicional Festival Internacional de Cinema de Roterdão, com apresentação em 27 de janeiro de 2003. Dois meses mais tarde, na França, foi selecionado para o Festival de Cinema Latino-Americano de Toulouse, sendo exibido em 23 de março de 2003. Nos cinemas do Brasil, o lançamento oficial ocorreu em 28 de março de 2003 pela Europa Filmes. O filme foi comercializado também nos cinemas da Argentina em 5 de agosto de 2004. O filme foi exibido na mostra Cine Brasil no Festival do Rio.

Em 23 de novembro de 2023, em comemoração aos vinte anos do longa-metragem, foi lançado novamente nos cinemas do Brasil de forma remasterizada com digitalização em Resolução 4K, pela Sessão Vitrine Petrobrás.

Recepção

Bilheteria De acordo com dados da Ancine, o filme teve distribuição limitada nos cinemas brasileiros. Ao longo de sua exibição oficial, foi assistido por 58.543 espectadores, correspondendo a uma receita de R$ 406.930,00 em bilheteria.

Resposta da crítica Durval Discos recebeu avaliações positivas da crítica especializada desde a sua estreia. Marcelo Hessel, do site Omelete, avaliou o filme com 4 em 5 estrelas, classificando-o como "Ótimo", e escreveu que "A virada pode desagradar a audiência acostumada com comédias-família, mas, vista com sensibilidade, configura mais um ponto a favor da produção (não seria, afinal, graças ao lado A que Durval Discos sairia coroado da concorrida disputa do Festival de Gramado 2002 com sete prêmios). Ao fim da sessão, mesmo com a melancolia das cenas derradeiras, fica a certeza de que o filme não celebra somente os colecionadores de discos, mas todos aqueles que cultivam alguma fantasia numa cidade impessoal e violenta como São Paulo".

Para a Variety, Dennis Harvey considerou a estreia de Muylaert em longas-metragens como "auspiciosa" e que merecia ser "considerado por distribuidoras internacionais de qualidade". Harvey escreveu que "O humor ligeiramente subversivo e furtivo é muito favorecido pela inteligente fotografia de Jacob Solitrenick, que frequentemente permite que as piadas se desenrolem à distância em planos longos e impassíveis. O design de produção dinâmico e descolado de Ana Mara Abreu é outro ponto positivo, assim como a excelente trilha sonora repleta de sucessos do Brasilpop dos anos 70 e músicas de suspense levemente satíricas de André Abujamra". Harvey também elogiou o elenco: "O olhar abatido de França e seu corte de cabelo típico dos anos 70 fazem dele um contraponto perfeito para o septuagenário exuberante e excêntrico de Fraser. A pequena Guasco, uma desconhecida escolhida entre 100 crianças que fizeram teste, demonstra um talento nato para as telas. O pacote técnico é de primeira qualidade".

Guilherme Coral, do site Plano Crítico, classificou o filme com 5 em 5 estrelas, considerando-o "Obra-Prima", e escreveu que "Apesar das bruscas mudanças, é preciso observar a coesão do roteiro, que desde cedo vai introduzindo elementos aqui e lá, apenas para resgatá-los posteriormente, tornando toda a narrativa fluida e orgânica. A própria loja que dá nome ao longa-metragem já funciona para nos preparar para o centro dos problemas enfrentados pelos personagens mais adiante: a inabilidade de Durval em contrariar sua mãe. A loja de LPs, em plena era de CDs dialoga com o fato do protagonista ainda morar com a mãe, ele se recusa a sair do lugar, da zona de conforto, a evoluir, permanecendo preso na mesma situação de sempre".

Pâmela Eurídice, do CineSet, escreveu que Durval Discos é uma obra atemporal do cinema brasileiro e que o filme "é uma prova do talento de Anna Muylaert, mesmo antes do aclamado Que Horas Ela Volta?. A diretora conseguiu equilibrar cotidiano e absurdo em uma mesma balança sem pesar a mão, por meio de personagens atraentes, bem construídos e que nos irritam e emocionam na mesma proporção, além de construir uma narrativa pautada de fato na linguagem audiovisual. Tudo isso torna esta uma obra atemporal do cinema nacional".

Prêmios e indicações +AssociaçõesAnoCategoriaRecipiente(s)ResultadoRef.Cine PE - Festival do Audiovisual2003Melhor AtrizEtty FraserMelhor RoteiroAnna MuylaertMelhor Direção de ArteAna Mara AbreuFestival de Cinema de Torino2002Melhor FilmeDurval DiscosMelhor RoteiroAnna MuylaertFestival de Gramado2002Melhor Filme de Longa-metragem (Júri Oficial)Durval DiscosMelhor Filme de Longa-metragem (no Voto Popular)Melhor Filme de Longa-metragem (Prêmio da Crítica)Melhor DireçãoAnna MuylaertMelhor RoteiroMelhor Direção de FotografiaJacob SolitrenickMelhor Direção de ArteAna Mara AbreuFilme Fashion2004Melhor Filme de Longa-metragem do PúblicoDurval DiscosMostra Internacional de Cinema de São Paulo2002Melhor FilmePrêmio ACIE de Cinema2004Melhor DireçãoAnna MuylaertMelhor AtorAry FrançaPrêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro2004Melhor Roteiro OriginalAnna MuylaertMelhor Trilha SonoraAndré AbujamraPrêmio Guarani de Cinema Brasileiro2004Melhor FilmeDurval DiscosMelhor DireçãoAnna MuylaertMelhor AtorAry FrançaMelhor AtrizEtty FraserMelhor Roteiro OriginalAnna MuylaertMelhor MontagemVânia DebsMelhor Trilha SonoraAndré AbujamraMelhor SomMiriam Biderman e Romeu QuintoMelhor Direção de ArteAna Mara AbreuMelhor RevelaçãoAnna Muylaert

Trilha sonora Na trilha sonora, domina o som típico do bairro Pinheiros e as únicas músicas surgem quando Durval decide ouvir algum de seus discos. Com um repertório típico dos anos 70, escolhido por Anna e o produtor musical Pena Schmidt a partir das lembranças da diretora como Novos Baianos, Jorge Ben, Sá, Rodrix e Guarabyra, Luiz Melodia e outros, "são músicas que me lembram a adolescência", contou Muylaert. Quando a história é dominada pela loucura de Carmita, surge a trilha especialmente composta por André Abujamra, que pretende ressaltar a tensão. A relação do músico, que faz uma participação no filme, teve altos e baixos; como revelou Anna no depoimento ao site oficial do filme, "as coisas foram um pouco complicadas no começo, pois ele agiu livremente e eu odiei. Não via sentido para a liberdade dele. Tivemos de sentar e conversar sobre o sentido de cada sequência e, uma vez que ele colocou a música a serviço da narrativa do filme, nenhuma nota mais foi alterada".

01. Mestre Jonas - Os Mulheres Negras 02. Que Maravilha - Jorge Ben 03. Maracatu Atômico - Gilberto Gil 04. Madalena - Elis Regina 05. Irene - Caetano Veloso 06. Ovelha Negra - Rita Lee 07. Back In Bahia - Gilberto Gil 08. Alfômega - Caetano Veloso 09. Besta É Tu - Novos Baianos 10. Xica da Silva - Jorge Ben 11. London, London - Gal Costa 12. Pérola Negra - Luiz Melodia 13. Mestre Jonas - Sá, Rodrix e Guarabyra

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