Na história da composição textual da Bíblia, as escrituras sagradas hebraicas e do Novo Testamento foram escritas em hebraico, aramaico e grego. Os materiais mais usados foram o papiro e o pergaminho, que na época eram bastantes populares.
Etimologia da palavra Bíblia A origem da palavra bíblia remonta ao rolo de papiro, planta abundante às margens do rio Nilo, usada pelos antigos egípcios, gregos e romanos para escrever. A palavra grega para papiro é biblos, derivada do nome do porto fenício de Biblos (atual Jubayl / Líbano), através do qual o papiro era largamente exportado. O plural de biblos em grego era ta biblía, que significava literalmente 'os livros', e que acabou entrando para o latim eclesiástico para designar o conjunto de livros sagrados que compõem a Bíblia. Porém a palavra Bíblia não é mencionada em nenhum trecho dos escritos bíblicos, e sim as expressões: As Escrituras, O Livro, Sagradas Letras, Sagradas Escrituras.
Idiomas da Bíblia A Bíblia foi escrita em aramaico, hebraico e grego.
O aramaico (e sua variante posterior, o siríaco) e hebraico são línguas semíticas e o grego, e posteriormente o latim, são de origem indo-europeia.
O aramaico era a língua dos sírios (VI a.C) tornando-se a língua geral de todo o Oriente Próximo a partir de sua adoção pelo Império Persa Aquemênida. Algumas passagens da Bíblia foram escritas em aramaico: Esdras 4:8–6:18; 7:12-26 (67 versos); Daniel 2:4b–7:28 (200 versos), Jeremias 10:11(1 verso); Gênesis 31:47 (1 verso). O aramaico, como o latim, se dividiu e gerou várias línguas-filhas, como o mandaico, o siríaco e o neo-aramaico.
O hebraico é uma língua semítica, uma variante do contínuo linguístico fenício-cananeu.. Na Bíblia lemos que “os hebreus não falavam língua judaica” (da tribo de Judá) (Neemias 13:24. “língua canaã” (Isaías 19:18). Depois do exílio da Babilônia, o hebraico foi gradativamente deixado de ser falado, sendo substituído pelo aramaico. Evidências arqueológicas indicam, contudo, que em contextos religiosos e famílias em aldeias isoladas o hebraico continuou a ser usado no cotidiano até as revoltas judias do século II d.C. Fassberg, Steven, Moshe Bar-Asher, and Ruth Clements, eds. Hebrew in the Second Temple Period: The Hebrew of the Dead Sea Scrolls and of Other Contemporary Sources. Brill, 2013. A primeira evidência escrita do hebraico, o calendário de Gezer, data do século X a.C., os tempos dos reinados dos reis David e Salomão. O calendário de Gezer é escrito sem nenhuma vogal, e não usa consoantes substitutas de vogais, as chamadas matre lectiones. O escrito mais extenso escrito originalmente em hebraico é o Tanakh. As cópias existentes mais antigas da Bíblia foram encontradas entre os manuscritos do Mar Morto, escritos entre o século II a.C. e o século I d.C.
O hebraico moderno renasceu como língua falada durante o final do século XIX e começo do século XX. É a língua falada pela maioria dos habitantes do Estado de Israel, do qual é a língua oficial primária junto do árabe, no entanto, seu vocabulário e sintaxe são tão diferentes do hebraico bíblico quanto o português em relação ao latim.
O Novo Testamento foi escrito em grego. Conforme dados históricos, arqueológicos e o testemunho interno da própria Bíblia, o ambiente linguístico de Jesus e dos primeiros cristãos era poliglota Gleaves, Scott. Did Jesus Speak Greek? The Emerging Evidence of Greek Dominance in First‐Century Palestine. Eugene, OR. Pickwick, 2015, pp. 214., sendo utilizado simultaneamente o gregoJo 12:25, Lc 4:14-21; Mat 22:31-32; Mat 15:26-37; Atos 21:37, o aramaico Mt27:46; Jo5:2, e em menor grau, o hebraico Atos 1:19, e o latim João 19:19-20. O grego do Novo Testamento, chamado de koiné, é um desenvolvimento posterior do grego clássico, não sendo uma variante vulgar ou corrupta do grego.Lourenço, Frederico. "Introdução". Os Quatro Evangelhos. São Paulo, Companhia das Letras, 2017
Apesar de serem línguas bem distintas, havia confusão de nomenclatura entre hebraico e aramaico. Em várias ocasiões no Novo TestamentoPor exemplo em Atos 21:40; 22:2; 26:14, o aramaico é chamado de hebraico. Por exemplo, em João 19:17 narra que Jesus, "carregando sua cruz [,] foi a um lugar chamado lugar de uma caveira, que no hebraico Gólgota". A última palavra é, de fato, aramaico, embora seja cognata ao hebraico גֻּלְגֹּלֶת (gulgólet).
Família linguística semítica Línguas semíticas meridionais: Antigo árabe do sul Língua ge'ez (etiópico) Orientais: Acadiano Eblaíta Línguas Semíticas Setentrionais: Árabe Setentrionais-Noroeste: Aramaico (Aram) Siríaco Mandaico Neo-siríaco Cananeu: Ugarítico Fenício Hebraico Púnico Moabita
A escrita da Bíblia
Os textos bíblicos foram compostos, raras exceções, por escribas ou amanuenses.Breed, Brennan W. Nomadic Text: A Theory of Biblical Reception History. Indiana UP, 2014 Jeremias 36:4; Romanos 16:22 Nesse processo, boa parte dos textos circulavam (às vezes por gerações) de forma oral até serem fixados em texto escritoÊxodo 13:8—9, 14—16; Prov 25:1 pelos escribas. Na composição dos textos bíblicos, era comum incorporarem fontes anterioresLc 1:1-4; Josué 10:13; 2 Sam 1:18; Num 21:14-15) e os escribas tinham a liberdade de editar ou adicionar ao texto. Jeremias 36:28, 32
Os textos bíblicos que chegaram até o presente estão escritos em três escritas alfabéticas: a fenício-cananeia, a escrita hebraica quadrada e o grego (uncial e cursivo).
A representação da linguagem por sinais gráficos iniciou-se com inscrições cuneiformes gravadas em plaquetas de barro, na região da Mesopotâmia, por volta do ano 3200 a.C. Fischer, Steven Roger Fischer. História da escrita. Tradução de Mirna Pinsky. São. Paulo: Editora UNESP, 2009. 295p Por volta do ano 3000 a.C. os egípcios também desenvolveram a escrita, a qual era hieroglífica. Nos séculos XV a XIV a.C, no norte de Canaã, na cidade de Ugarit, se desenvolveu uma forma simplificada de escrita cuneiforme com 30 sinais.
Por volta do século XVI a.C. aparecem no Sinai, em Canaã e no Sul do Egito formas simplificadas da escrita hieroglífica egípcia que registravam acrofoneticamente só as consoantes. No entanto, não era um sistema com sinais padronizados e era utilizado somente para fins de epigramas (pichações, amuletos e marcar a propriedade de um objeto).WOODARD, Roger D. The ancient languages of Syria-Palestine and Arabia. Ed. by Roger D. Woodard. Cambridge: Cambridge University Press, 2008. Esses sinais evoluiram para uma escrita plena quando cerca do ano 1100 a.C os fenícios sintetizam os sinais para 22 letras, criando o alfabeto. É criada assim a base do Alefbeit hebraico. Os fenícios eram o mesmo povo cananeu da Bíblia, chamados pelos gregos de fenícios (vermelho = sangue) numa alusão a tintura comercializada por eles.
Era a característica dos alfabetos fenícios, aramaicos e ugaríticos a não utilização das vogais porque em toda a Antiguidade o texto era um mero auxílio à memória na recitação oral.
No século VIII a.C. o uso da escrita começou a se popularizar na região de Israel e Fenícia. Os sinais se tornaram mais padronizados, o que indica a existência de escolas escribais. Contudo, a adoção do papiro (que em média duravam 30 anos de uso) fez com que poucos textos sobreviveram dessa época, exceto em inscrições monumentais e cópias posteriores dos livros bíblicos. SCHNIEDEWIND, William M. Como a Bíblia tornou-se um livro. A textualização no Antigo Israel. São Paulo: Loyola, 2011. Nessa época, alguns trechos dos livros dos profetas, como Amós, Oseias, Miqueias e parte de Isaías, bem como alguma versão com parte do Pentateuco foram vertidos em texto. Thomas Römer et Léonie Bischoff, Naissance de la Bible: comment elle a été écrite, Bruxelles, Le Lombard, coll. « La Petite Bédéthèque des savoirs » (no 23), 2018. O registro linguístico era o antigo hebraico ou hebraico arcaico.
Mais livros foram escritos durante o período do exílio da Babilônia e domínio persa, com o Pentateuco e os livros dos Profetas chegando em sua forma canônica no fim do período persa e início do período helenístico Thomas Römer et Israël Finkelstein, Aux origines de la Torah: Nouvelles rencontres, nouvelles perspectives, Bayard, 2019.. A partir da experiência do exílio, os textos bíblicos passaram a ser compilados em antologias e recitados sistematicamente em serviços sagrados e novas camadas editoriais foram adicionadas. Breed, Brennan W. Nomadic Text: A Theory of Biblical Reception History. Indiana UP, 2014) Nesse período do Segundo Templo houve uma substituição da escrita paleo-hebraica ou cananeia pela escrita assurit ou quadrada da língua aramaica. O registro linguístico utilizado é o hebraico clássico, com o uso de algumas consoantes para marcar algumas vogais (matre lectiones).
Durante o período helenista as tecnologias de produção textual desenvolvidas em Alexandria e Pérgamo foram rapidamente adotadas nos textos bíblicos. Passaram a utilizar o couro (pergaminho), a divisão em colunas, parágrafos e alguns sinais de separação de palavras e pontuações. Seria nesse período que os restos dos Escritos (Ketuvim) atingiram sua estabilidade canônica. O registro linguístico é o hebraico clássico tardio, cheio de aramaísmo e helenismo. Nesse período, o grego ganhou adesão dos judeus da Diáspora e da Palestina e seria nessa língua que a Bíblia seria traduzida na versão da Septuaginta e no Novo Testamento cristão. A própria Torá foi influenciada pelas práticas editoriais gregas, sendo o Livro da Lei divido em cinco livros (em grego, Pentateuco), mesmo que continuasse a ser antologizado em um só rolo.
Nos manuscritos do Mar Morto, descoberta arqueológica Bíblica que aconteceu em 1947 em Qumram a oeste do Mar Morto foram encontrados diversas grutas foram encontrados rolos que faziam parte da biblioteca dos essênios, judeus que viveram no tempo de Jesus Cristo. Esses manuscritos, datados do século III a.C. ao século I d.C., são evidências importantes das práticas escribais. Os manuscritos evidenciam que na mesma comunidade circulavam diferentes versões dos mesmos textos bíblicos, com um limitado número de copistas possuindo as habilidades de reproduzirem os textos.Tov, Emanuel. Scribal Practices and Approaches Reflected in the Texts Found in the Judean Desert. Brill, Netherlands, 2004.
Os Unciais, os mnuscritos do Novo Testamento mais antigos foram feitos com maiúsculas, escritos em pergaminhos ou em velino. Alguns exemplos de códices Unciais são: Códice Vaticano (325-350); Códice Sinaítico (Alef) em grego, descoberto no Monte Sinai; Códice Alexandrino (século IV); Códice Efraimita (345) em Alexandria, no Egito; Códice Beza ou Códice de Cambridge, descoberto no Mosteiro de Santo Irineu, em Lião (Lyon), França; dentre outros.
Os Minúsculos ou textos bizantinos são manuscritos do Novo Testamento datados do século IX ao XV e de qualidade inferior, mas que serviram de base para as primeiras edições críticas da Bíblia impressa, o Textus Receptus.
A partir do século V d.C surgiram famílias de copistas, os massoretas (texto massorético), que desenvolveram padrões para copiar com regras meticulosas e precisão o texto hebraico. Estes criaram sinais para produzir as vogais curtas. Existiam três sistemas de pontuação: babilônico, palestinense e tiberiano (de Tiberíades). As duas famílias que mais produziram textos entre os três sistemas foram Ben Naftali e Ben Asher.
Tecnologias na escrita da Bíblia
O emprego do papiro como suporte para escrever representou um grande avanço, pois o mesmo, por ser leve, fino e mais facilmente manuseável, originou o que hoje conhecemos como “folha”. Os antigos egípcios dominavam a técnica de colar até 20 folhas seguidas, resultando em rolos com até 40 metros de comprimento. Para desenhar os símbolos, os escribas recorriam a uma varinha de caniço de 20 centímetros cuja tinta preta “era composta de uma mistura de pó de fuligem e água, mais um fixador como a goma-arábica” (JEAN, 2002: 41).