thumb|200px|Machado de Assis O Enfermeiro é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, que foi publicado originalmente na Gazeta de Notícias de 13 de julho de 1884, sob o título "Cousas Íntimas". Posteriormente foi incluído na coletânea Várias Histórias, publicada no ano de 1896. Trata-se de um conto psicológico-criminal, que narra a história de um crime perfeito, nunca descoberto, cometido por um enfermeiro que, após sofrer múltiplas agressões de seu paciente, acaba o assassinando.

Enredo O conto é narrado na primeira pessoa, com foco narrativo no protagonista Procópio José Gomes Valongo. Ele trabalha como copista de documentos latinos e fórmulas eclesiásticas em uma paróquia de sua região, e vê nessa função um meio para estudar. Um dia, o vigário da paróquia lhe pede que preste serviços de enfermeiro a um coronel chamado Felisberto, pois este está muito doente e precisa de companhia. Procópio sabe que o homem, apesar de precisar deste tipo de serviço, trata mal a todos que lá iam e com isso ninguém ficava no emprego, mesmo sendo tão bem pago. Como Procópio está cansado do trabalho de copista resolve aceitar o emprego.

Quando lá chega não passam mais que sete dias para que Procópio fique tão chateado como os seus colegas que por lá passaram. O homem o xinga, usa palavrões o tempo todo, o que o deixa bastante constrangido. Pede demissão mas o Coronel nega e pela primeira vez pede desculpas, confessando que esperava do enfermeiro paciência para o seu jeito de rabugento. Fazem as pazes, mas por pouco tempo. A tortura retoma, até o momento em que o coronel Felisberto atira uma vasilha d’água que acerta a cabeça do enfermeiro. Ele então, cego com a dor, voa sobre o velho, esganando-o; o aneurisma que o coronel possuia acaba por romper, nesse exato momento, resultando em sua morte.

Após uma semana de desassossego, aflição e medo de que alguém desconfiasse que Felisberto não morrera de causas naturais, o enfermeiro recebe uma carta do vigário com o testamento do coronel, anunciando que ele é seu herdeiro universal. Procópio, que a princípio decidiu doar todo o dinheiro, logo desiste. Resolve converter todos os bens em títulos e dinheiro, guarda a maior parte para si, e distribui algo aos pobres. Dá à igreja matriz uns paramentos novos e faz construir em homenagem ao coronel um túmulo de mármore. Tempos depois, Procópio, conversando com vários médicos, chega à conclusão de que a morte do coronel era certa mesmo se ele não o tivesse esganado. Aos poucos, vai fixando essa e outras ideias que amenizam sua culpa, até que a esquece por completo, confessando que a herança teve parte em seu consolo.

TRECHO: Chegando à vila, tive más notícias do coronel. Era homem insuportável, estúrdio, exigente, ninguém o aturava, nem os próprios amigos. Gastava mais enfermeiros que remédios. A dous deles quebrou a cara. Respondi que não tinha medo de gente sã, menos ainda de doentes; e depois de entender-me com o vigário, que me confirmou as notícias recebidas, e me recomendou mansidão e caridade, segui para a residência do coronel.ASSIS, Machado de. O enfermeiro. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/o-enfermeiro/31060 . Acesso em: 26 dez. 2025.

Análise da trama "O Enfermeiro" é um conto psicológico, por se tratar de uma leitura da interioridade humana. O narrador se impõe, intervindo de forma determinante no fato narrado. Os sentimentos que envolvem Procópio perpassam a linha da moral, reverberado sobre o julgo entre o que se deve e o que se deseja fazer. Nesse conflito, Procópio enfrenta, durante o seu exercício de enfermeiro, um dilema, que se agrava com o óbito do Sr. Felisberto, provocando alucinações desencadeadoras. Procópio busca constantemente alternativas para justificar suas ações perante as situações que vão se desvelando, no decorrer da narrativa, antes e após a morte do coronel.BALDOW, Virginia Silveira; JAURIS, Roberta Bolzan; SANTOS, Fabiana Andrade. “O Enfermeiro” de Machado de Assis: um embate entre a essência e a aparência em conversas com a Psicologia. fólio – revista de letras, v. 10, n. 1, p. 131–144, 2018. DOI: 10.22481/folio.v10i1.3845.

Há um trecho desse conto que não pode passar despercebido:

"Valongo? Achou que não era nome de gente, e propôs chamar-me tão somente Procópio, ao que respondi que estaria pelo que fosse do seu agrado."

Havia no Rio de janeiro um local chamado Cais do Valongo, no qual acontecia o desembarque e o comércio de escravos.Cais do Valongo: a história da escravidão no porto do Rio de Janeiro Por causa disso, o coronel desprezou o nome completo de Procópio. Entre 1850 e 1920, a área em torno do antigo cais tornou-se um espaço ocupado por negros escravizados ou libertos de diversas nações - área que Heitor dos Prazeres chamou de Pequena África.

Para Luiz Antonio Aguiar, "o conto é ora perturbador, ora cínico, e coloca o leitor numa sinuca de bico quanto a sua capacidade de julgar o personagem."AGUIAR, Luiz Antonio. Almanaque Machado de Assis: vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias. Rio de Janeiro: Record, 2008. ISBN 978-85-01-08099-8.

Adaptações O conto foi adaptado para o cinema em 1998. A produção foi dirigida por Mauro Farias. Com roteiro de Melanie Dimantas, o filme é protagonizado por Paulo Autran e Matheus Nachtergaele (no papel título).

Este conto, assim como "A Cartomante, "A Causa Secreta", "Uns Braços" e "O Alienista", foi adaptado como romance gráfico na série Literatura Brasileira em Quadrinhos, da editora Escala Educacional.ROSSI, Gisele. Clássicos da literatura brasileira são adaptados para a linguagem dos quadrinhos. Gazeta do Povo Online, 23 abr. 2007. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/classicos-da-literatura-brasileira-sao-adaptados-para-a-linguagem-dos-quadrinhos-agbu1zs0od4vzycnvpkfqpyz2/ . Acesso em: 29 dez. 2025.

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