O HMS Victory é um navio de linha operado pela Marinha Real Britânica, o mais antigo navio de guerra ainda oficialmente em comissão no mundo. Sua construção começou em julho de 1759 no Estaleiro Real de Chatham durante a Guerra dos Sete Anos, com várias vitórias britânicas em batalhas naquele ano possivelmente influenciado a escolha de seu nome. A Batalha da Baía de Quiberon, especialmente, teve um grande efeito no curso da guerra ao enfraquecer a Marinha Real Francesa, tirando o mar do foco dos confrontos. Consequentemente, não existia mais urgência para finalizar o navio e o Victory só foi ser flutuado para fora de sua doca em maio de 1765, dois anos depois do fim da guerra.

A embarcação foi finalmente comissionada em março de 1778 durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos, participando da Primeira Batalha de Ouessant em julho, pouco depois da França declarar apoio para as Treze Colônias britânicas na América do Norte, e da Segunda Batalha de Ouessant em dezembro de 1781. No ano seguinte ajudou a acabar com o Grande Cerco de Gibraltar e meses depois fez parte de uma frota que encontrou forças espanholas e francesas na Batalha do Cabo Espartel, porém os britânicos nem se importaram em combater e recuaram. Foi a última ação que participou na guerra e o Victory foi colocado na reserva pouco depois do final do conflito em 1783.

O navio depois quase foi reativado duas vezes, em 1787 e em 1790 por conta de desenvolvimentos internacionais, mas em ambos as questões se resolveram antes dele voltar a ação. O Victory serviu nas Guerras Revolucionárias Francesas, participando do Cerco de Toulon em agosto de 1793, da invasão da Córsega entre fevereiro e agosto de 1794, da Batalha das Ilhas de Hyères em julho de 1795 e da Batalha do Cabo de São Vicente em fevereiro de 1797. Foi a capitânia do vice-almirante Horatio Nelson em outubro de 1805 na Batalha de Trafalgar, durante a qual foi seriamente danificado. Depois disso atuou no região do Mar Báltico e em seguida foi usado um navio de guarda em casa de 1824 a 1922.

A condição do Victory se deteriorou bastante entre o final do século XIX e início do século XX, com várias campanhas para preservá-lo sendo lançadas. Foi colocado em uma doca seca em 1922 e transformado em um navio-museu. Pelas décadas seguintes passou por vários processos de restauração que devolveram ao navio sua aparência da Batalha de Trafalgar, trocaram muitas de suas madeiras podres e realizaram outros trabalhos. Entretanto, uma persistente infestação de besouros permanecesse um problema até hoje. Um enorme projeto de restauração foi iniciado em 2021 e tem previsão para durar mais de dez anos, com seus mastros sendo removidos e um andaime erguido ao seu redor.

Características O Victory tem 56,7 metros de comprimento no convés de bateria, 46,5 metros de comprimento na quilha, uma boca de 15,7 metros e profundidade de porão de 6,55 metros. Tem uma tonelagem de toneladas de carga e um deslocamento de toneladas. Possui 62,5 metros de altura da linha de flutuação até o topo do mastro do grande. Era impulsionado por até 37 velas, o número máximo que poderia ser desfraldado ao mesmo tempo, com uma superfície combinada de metros quadrados para uma velocidade máxima de onze nós (20,1 quilômetros por hora), com uma média de sete a oito nós em um vento de joanete. Quando abastecido e armazenado para seis meses de serviço, o calado do Victory era de 7,39 metros na proa e 7,77 metros na popa. Sua tripulação completa consistia em 850 oficiais e marinheiros.

thumb|esquerda|250px|O convés de bateria inferior do Victory com réplicas de canhões de 32 libras O Victory foi projetado nominalmente como um navio com cem canhões. Quando foi comissionado, tinha dez canhões de seis libras (2,7 quilogramas) no tombadilho e dois no castelo de proa, trinta canhões de doze libras (5,4 quilogramas) no convés superior, 24 canhões de 24 libras (onze quilogramas) no convés do meio e 32 canhões de 42 libras (dezenove quilogramas) no convés inferior, porém seu armamento mudou várias vezes no decorrer de sua carreira, tanto no número de canhões quanto em seu tamanho. Logo em maio de 1778, o almirante Augustus Keppel mandou que os canhões de 42 libras fossem substituídos por armas de 32 libras por acreditar que a perda de poder de fogo seria compensada por uma maior manobrabilidade e cadência de tiro. As armas de 42 libras foram restauradas em abril de 1779, mas o Victory voltou a levar canhões de 32 libras em 1803.

O armamento foi aprimorado em 1783 com a substituição dos canhões de seis libras por armas de doze libras, bem como com a adição de duas coronadas de 68 libras ao tombadilho. Na Batalha de Trafalgar, estava com esse armamento mais pesado junto com outros dois canhões de doze libras no tombadilho, trinta de 32 libras no convés inferior, 24 de 24 libras no convés do meio e trinta de doze libras no convés superior, totalizando 104 armas. Também havia uma única coronada de dezoito libras (8,2 quilogramas) guardada no porão para uso em ações envolvendo botes. Os canhões de 24 libras foram substituídos por armas de dezoito libras em 1806. Estas foram removidas em 1828 para dar espaço para canhões mais curtos de 24 libras, já as armas no convés superior foram substituídas por canhões de mesmo tamanho mas com canos mais comprido.

Carreira Construção William Pitt, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, pediu em dezembro de 1758 que doze novos navios de guerra fossem construídos, com encomendas chegando no Estaleiro Real de Chatham apenas alguns dias depois para que trabalhos começassem em um navio de linha de primeira classe assim que uma doca seca estivesse disponível. Navios de linha da época eram embarcações de três mastros com velame completo, sendo resistentes e poderosos o bastante para operar em uma linha de batalha. Navios classificados como de primeira classe eram os mais formidáveis, levando cem ou mais canhões distribuídos em três conveses de bateria contínuos.

Sir Thomas Slade, um arquiteto naval e na época o Inspetor da Marinha, foi selecionado para projetar o navio e copiou as linhas gerais do HMS Royal George, um navio de linha que sido construído três anos antes pelo Estaleiro Real de Woolwich. O mestre construtor encarregado da construção em Chatham foi inicialmente John Lock, mas depois de sua morte em 1762 a posição passou para Edward Allin, filho de sir Joseph Allin, um ex-Inspetor da Marinha. O batimento de quilha ocorreu em 23 de julho de 1759 na Antiga Doca Única, depois renomeada para Doca Nº 2 e hoje conhecida como Doca Victory, com o nome Victory sendo escolhido em outubro de 1760.

A Guerra dos Sete Anos estava em andamento na época da construção e não estava indo bem para a Grã-Bretanha até 1759, quando o país venceu as batalhas de Quebec, Minden, Lagos e Baía de Quiberon. Este foi o Annus Mirabilis, ou Ano Maravilhoso, com essa série de vitórias possivelmente tendo influenciado de alguma forma a escolha do nome do navio. Alternativamente, Victory talvez tenha sido escolhido porque era o único nome que não estava em uso entre os sete que tinham sido pré-selecionados. Houve certa preocupação se a escolha desse nome era apropriada, pois o navio anterior chamado HMS Victory tinha afundado em 1744 matando toda sua tripulação.

Aproximadamente seis mil árvores foram cortadas para proporcionarem a madeira para a construção embarcação, enquanto 150 trabalhadores foram necessários para sua montagem. De toda a madeira usada nas obras, noventa por cento foi carvalho e o restante foi ulmeiro, pinheiro e abeto, mais uma pequena quantidade de lignum vitae. Rebites de cobre de 1,8 metro foram usados para segurar a armação, tendo o suporte de cavilhas de madeira para os elementos menores. Assim que a armação era construída, era normal cobri-la e deixá-la intocada por vários meses a fim que a madeira secasse. Entretanto, o poderio naval francês tinha sido muito diminuído após aos eventos da Batalha da Baía de Quiberon e assim não havia necessidade imediata para o Victory, assim ele foi deixado intocado por quase três anos. Este período de secagem adicional teve efeitos benéficos para sua longevidade. A construção recomeçou em 1763 e o navio foi flutuado para fora da doca em 7 de maio de 1765, tendo custado 57,7 mil libras esterlinas. O Victory foi um de apenas dez navios de linha de primeira classe construído pela Marinha Real Britânica no século XVIII.

thumb|250px|Ilustração do Victory em 1778 Quando chegou a hora de mover o Victory para fora da doca, um "capataz a bordo" percebeu que o navio era muito largo para passar pelas portas. Medidas confirmaram que o vão era 2,9 metros muito estreito. Allin considerou abandonar o lançamento, mas o construtor Hartly Larkin chamou a ajuda de todos os construtores disponíveis que, com seus enxós, removeram madeira suficiente dos portões para permitir a passagem do navio. Várias problemas ficaram aparentes assim que o Victory foi flutuado. Um perceptível adernamento para estibordo foi corrigido com a adição e redistribuição do lastro, mas isto exacerbou um problema mais sério: sua tendência a ficar baixo na água a ponto que a abertura de seus canhões estavam a apenas 1,4 metro da linha de flutuação. Isto não pode ser corrigido, assim as instruções de navegação do navio destacavam que em clima ruim as aberturas deveriam ficar fechadas. Isto tinha o potencial de limitar o pode de fogo do Victory, mas ele nunca chegou a participar de uma batalha em mares agitados.

Como nesta altura a guerra já tinha acabado, não havia necessidade de uma grande presença naval e assim o Victory foi deixado no rio Medway e colocado na reserva. Foi equipado pelos quatro anos seguintes a um custo adicional de 5,4 mil libras e realizou seus testes marítimos. A Guerra de Independência dos Estados Unidos começou em 1776, porém o navio permaneceu no Medway porque era muito grande para operar nas águas rasas da América do Norte e porque foi considerado que já havia uma presença naval britânica suficiente dado que os americanos não tinham uma frota própria. Isto mudou em 1778 quando a França entrou na guerra com sua poderosa marinha. O Victory foi então armado com canhões de alma lisa e ferro fundido e mobilizado para uso no Canal da Mancha.

Início de serviço Primeira Batalha de Ouessant

thumb|esquerda|250px|Batalha de Ouessant, 23 de julho de 1778, pintura de Theodore Gudin de 1839 O Victory foi comissionado em março de 1778 sob o comando do capitão sir John Lindsay. Este devia apenas supervisionar a equipagem e entrega do navio em Portsmouth e ficou na posição até maio, quando o almirante Augustus Keppel fez da embarcação sua capitânia e escolheu o contra-almirante John Campbell e o capitão Jonathan Faulknor como seus primeiro e segundo capitães. O Victory deixou Spithead em 9 de julho com uma frota de 29 navios de linha e encontrou no dia 23 uma frota francesa aproximadamente com a mesma força e números a alguns quilômetros ao oeste de Ouessant. O tenente-general dos exércitos navais francês Louis Guillouet, Conde de Orvilliers, tinha sido instruído a evitar conflito, mas foi impedido de voltar a Brest apesar de manter a vantagem do vento. As movimentações dos navios foram prejudicadas pela mudança constante dos ventos e chuva, porém um confronto ficou inevitável e os britânicos se arranjaram aproximadamente em uma coluna. Os franceses não estavam tão organizados mas conseguiram passar pela linha britânica com seus navios de vanguarda. O Victory abriu fogo às 11h45min contra o Bretagne, que estava sendo seguido pelo Ville de Paris. A vanguarda britânica evitou danos significativos, mas a divisão de ré do vice-almirante sir Hugh Palliser, 1º Baronete, foi seriamente danificada. Keppel ordenou uma perseguição, mas Palliser não cumpriu e a batalha terminou.