Aspásia ( ; depois de 428 a.C.) foi uma mulher meteca de Atenas Antiga. Nascida em Mileto, mudou-se para Atenas e começou um relacionamento com o estadista Péricles, com quem teve um filho chamado Péricles, o Jovem. De acordo com uma narrativa histórica tradicional, ela teria trabalhado como cortesã (hetera) e foi julgada por asebeia (impiedade), mas acadêmicos modernos questionam a base factual de qualquer uma dessas alegações, ambas derivadas da comédia antiga. Historiadores recentes tentam desconstruir mal entendidos ou mitos de que ela fora uma prostituta. Ela é a única mulher na Atenas Clássica cujo renome intelectual é conhecido, e mesmo assim era estrangeira.

Embora Aspásia seja uma das mulheres mais atestadas do mundo greco-romano e a mulher mais importante da história da Atenas do século V, quase nada é certo sobre sua vida. Seu papel na história fornece insights cruciais para a compreensão das mulheres da Grécia antiga, das quais muito pouco se sabe em seu período. Madeleine M. Henry afirmou que "fazer perguntas sobre a vida de Aspásia é fazer perguntas sobre metade da humanidade".

Aspásia é mencionada nos escritos de Platão, Aristófanes, Xenofonte, Antístenes, Ésquines Socrático e outros. Foi retratada na Comédia Antiga como prostituta e madame, e na filosofia antiga como professora e retórica. A partir de sua representação em obras por discípulos socráticos, e por ser referida no diálogo platônico Menêxeno como tendo sido orientadora de Sócrates, de Péricles e outros na arte da oratória, ela foi considerada na tradição clássica posterior como uma contraparte feminina de Sócrates.

Aspásia continuou a ser assunto de artistas visuais e literários até o presente. Ela aparece em várias obras importantes da literatura moderna. Sua ligação romântica com Péricles inspirou alguns dos romancistas e poetas mais famosos dos últimos séculos. Em particular, diversos escritores românticos do século XIX e romancistas históricos do século XX encontraram em sua história uma fonte inesgotável de inspiração. A partir do século XX, entre mulheres, teóricos de estudos de gênero e na literatura e artes, ela foi retratada como uma mulher sexualizada e sexualmente liberada, e como um modelo feminista lutando pelos direitos das mulheres na Atenas Antiga.

Evidências sobre Aspásia

Aspásia foi uma figura importante — e a mulher mais importante — na história da Atenas do século V, e é uma das mulheres do mundo greco-romano com as tradições biográficas mais substanciais. As primeiras fontes literárias a mencionar Aspásia, escritas durante sua vida, são da comédia ateniense, e no século IV a.C ela aparece em diálogos socráticos. Após o século IV, ela aparece apenas em breves menções a textos completos, ou em fragmentos cujo contexto íntegro se perdeu, até o século II d.C., quando Plutarco escreveu sua Vida de Péricles, o mais longo e completo tratamento biográfico de Aspásia na Antiguidade. As biografias modernas de Aspásia dependem de Plutarco, apesar de ele ter escrito quase sete séculos após a morte dela.

O problema principal permanece, como destaca Jona Lendering, de que nada sabemos com certeza sobre Aspásia além de que era amante de Péricles, o resto se baseando em hipóteses. Tucídides não a menciona; nossas únicas fontes são as representações e especulações não confiáveis registradas pelos homens na literatura e na filosofia. Portanto, na figura de Aspásia, temos uma série de retratos contraditórios; ela aparece considerada como desde uma boa esposa como Teano, até a alguma combinação de cortesã e prostituta como Targélia. Esta é a razão pela qual os estudiosos modernos expressam seu ceticismo sobre a historicidade da vida de Aspásia.

É difícil tirar conclusões firmes sobre a verdadeira Aspásia a partir de qualquer uma dessas fontes: como diz Robert Wallace, "para nós, a própria Aspásia possui e pode possuir quase nenhuma realidade histórica". Portanto, Madeleine M. Henry sustenta que "as anedotas biográficas que surgiram na antiguidade sobre Aspásia são extremamente coloridas, quase completamente inverificáveis e ainda estão vivas e bem no século XX". Ela finalmente conclui que "é possível mapear apenas as possibilidades mais simples da vida [de Aspásia]". De acordo com Charles W. Fornara e Loren J. Samons II, "pode muito bem ser, pelo que sabemos, que a verdadeira Aspásia foi mais do que uma equivalente para sua contraparte fictícia".

Além de seu nome, nome do pai e local de nascimento, a biografia de Aspásia é quase inteiramente inverificável, e os escritos antigos sobre ela são frequentemente mais uma projeção de seus próprios preconceitos (em grande parte masculinos) do que fatos históricos. A biografia completa por Madeleine Henry cobre o que se sabe da vida de Aspásia em apenas nove páginas.

Biografia

Primeiros anos Aspásia nasceu, provavelmente, não antes de 470 a.C, na cidade grega jônica de Mileto (na moderna província de Aydın, Turquia). Pouco se sabe sobre sua família, exceto que o nome de seu pai era Axíoco, de uma família rica. Seu nome, relacionado ao grego aspázomai (ἀσπάζομαι, "abraçar"), podia significar "a desejada", "a mulher abraçada/abraçadora", "a deleitante", "acolhida" ou "bajuladora", o que levou a trocadilhos antigos e desentendimento por alguns historiadores que, levados por tais significados, consideraram esse nome como possivelmente não sendo seu verdadeiro. Era comum, porém, que alguns nomes femininos populares na Grécia possuíssem significados como "amada" e "doçura".

Um escoliasta de Élio Aristides afirma erroneamente que Aspásia era uma prisioneira de guerra cária que se tornou uma escrava; isso talvez se deva à confusão com a concubina de Ciro, o Jovem, também chamada Aspásia. Essas declarações são geralmente consideradas falsas.

A vida em Atenas

As circunstâncias da mudança de Aspásia para Atenas são desconhecidas. Uma teoria, apresentada pela primeira vez por Peter Bicknell com base em uma inscrição no túmulo do século IV, sugere que Alcibíades de Escambônidas, o avô do famoso Alcibíades, casou-se com a irmã de Aspásia enquanto ele estava exilado em Mileto após seu ostracismo, e Aspásia foi com ele quando voltou para Atenas. Bicknell especula que isso foi motivado pela morte do pai de Aspásia, Axíoco, na revolta em Mileto após sua secessão da Liga de Delos em 455–454 a.C.

De acordo com um entendimento convencional inicial da vida de Aspásia, baseado em declarações disputadas dos escritores antigos e de alguns estudiosos modernos, ela teria se tornado hetera (ou hetaira) e depois dirigiu um bordel.Aristófanes, Acarnânios, 523–527 As hetairas eram artistas profissionais de alta classe, bem como cortesãs. Além de exibir beleza física, diferiam da maioria das mulheres atenienses por serem educadas (geralmente com um alto padrão, como evidentemente Aspásia era), por terem independência e por pagarem impostos. Segundo Plutarco, Aspásia era comparada à famosa Targélia, outra renomada hetera jônica dos tempos antigos.Plutarco, Péricles, XXIVminiaturadaimagem|Busto de Péricles, Museu Antigo, Berlim|364x364px

Alguns acadêmicos questionaram essa visão. Peter Bicknell observou que os "epítetos pejorativos aplicados a ela por dramaturgos cômicos" não são confiáveis. Madeleine Henry, por sua vez, argumentou em sua biografia de Aspásia que "não somos obrigados a acreditar que Aspásia era uma prostituta porque um poeta cômico diz que ela era", e que o retrato de Aspásia como envolvido no comércio sexual deveria "ser considerado com grande suspeita". Cheryl Glenn afirmou que Aspásia, na verdade, abriu uma academia para mulheres que se tornou "um salão popular para os homens mais influentes da época", incluindo Sócrates, Platão e Péricles, e Rebecca Futo Kennedy sugeriu que as acusações em comédia de que ela era uma dona de bordel derivavam disso. Apesar desses desafios à narrativa tradicional, muitos acadêmicos continuaram acreditando que Aspásia trabalhou como uma cortesã ou madame. Konstantinos Kapparis alegou que os tipos de ataques cômicos feitos a Aspásia não seriam aceitáveis para uma mulher respeitável e que, portanto, é provável que Aspásia tivesse uma história como trabalhadora do sexo antes de começar seu relacionamento com Péricles. Se Aspásia trabalhou ou não como cortesã, sua vida posterior, na qual ela aparentemente alcançou algum grau de poder, reputação e independência, tem semelhanças com as vidas de outras hetairas proeminentes, como Friné.

Como uma mulher não ateniense, Aspásia estava menos ligada às restrições tradicionais que confinavam amplamente as esposas atenienses a suas casas e parece ter aproveitado a oportunidade para participar da vida pública da pólis. Lá, Aspásia conheceu e começou um relacionamento com o estadista Péricles, e se tornou a companheira dele por volta de 445 a.C. Depois que ele se divorciou de sua primeira esposa (talvez c. 450 a.C.), Aspásia começou a morar com ele, embora seu estado civil seja contestado. É também incerto como eles se conheceram; se a tese de Bicknell estiver correta, ela pode tê-lo conhecido através de sua conexão com a casa de Alcibíades. Kennedy especula que quando Clínias, filho do mais velho Alcibíades, morreu na Batalha de Coroneia, Péricles pode ter se tornado o kurios (guardião) de Aspásia. O relacionamento de Aspásia com Péricles começou em algum momento entre 452 e 441 a.C. A natureza exata do relacionamento de Péricles e Aspásia é contestada. Autores antigos a retratavam como uma prostituta, sua concubina ou sua esposa. Os acadêmicos modernos também estão divididos. Rebecca Futo Kennedy argumenta que eles eram casados; Debra Nails descreve Aspásia como "a esposa de fato de Péricles"; Madeleine Henry acredita que a lei de cidadania de Péricles de 451–450 a.C. tornou ilegal o casamento entre um ateniense e alguém meteco, e sugere uma pallakia ("concubinato") quase conjugal imposta por contrato; e Sue Blundell descreve Aspásia como uma hetaira e amante de Péricles.

A partir das descrições, considera-se que, nos círculos sociais, Aspásia era conhecida por sua habilidade como conversadora e conselheira, e não apenas como um objeto de beleza física. Plutarco escreve que amigos de Sócrates traziam suas esposas para ouvi-la conversar.

Aspásia e Péricles tiveram um filho, Péricles, o Jovem, nascido o mais tardar em 440–439 a.C. Na época do nascimento de Péricles, o Jovem, ele tinha dois filhos legítimos, Páralo e Xantipo. Em 430–429 a.C., após a morte de seus dois filhos mais velhos, Péricles propôs uma emenda à sua lei de cidadania de 451–450 a.C. que tornaria Péricles, o Jovem, capaz de se tornar cidadão e receber herança. Embora muitos estudiosos acreditem que isso foi especificamente para Péricles, alguns sugeriram que uma exceção mais geral foi introduzida, em resposta ao efeito da Peste de Atenas e da Guerra do Peloponeso nas famílias dos cidadãos.

Anos tardios e morte Em 429 a.C., durante a Praga de Atenas, Péricles testemunhou a morte de sua irmã e de seus dois filhos legítimos, Páralo e Xantipo, de sua primeira esposa. Com o moral debilitado, ele morreu neste mesmo ano. Pouco antes de sua morte, os atenienses permitiram uma mudança na lei de cidadania de 451 a.C., que fez seu filho meio ateniense com Aspásia, Péricles, o Jovem, cidadão e herdeiro legítimo.Plutarco, Péricles, XXXVII