A Segunda Guerra Púnica foi a segunda de três guerras travadas entre Roma e Cartago, as duas principais potências do Mediterrâneo Ocidental no início do . As duas lutaram por supremacia durante dezessete anos, principalmente na Itália e Ibéria, mas também na Sicília, Sardenha e Norte da África. Os cartagineses foram derrotados depois de perdas imensas em ambos os lados. Macedônia, Siracusa e vários reinos númidas também envolveram-se na guerra, com forças ibérias e gauleses lutando em ambos os lados. Houve três teatros de operações principais: na Itália, onde Aníbal derrotou os romanos repetidas vezes, com ocasionais campanhas subsidiárias na Sicília, Sardenha e Macedônia; na Ibéria, onde Asdrúbal, irmão de Aníbal, defendeu as cidades coloniais cartaginesas com resultados mistos até seguir para a Itália; e no Norte da África, onde Cipião Africano finalmente conquistou a vitória para Roma.

A Primeira Guerra Púnica tinha terminado em com uma vitória romana após 23 anos e perdas enormes para ambos os lados. Cartago expandiu seus domínios na Ibéria após o conflito, onde em um exército sob o comando de Aníbal cercou, capturou e saqueou a cidade pró-romana de Sagunto. Roma declarou guerra no início de , com Aníbal surpreendendo-os ao marchar seu exército pela Ibéria, através da Gália e sobre os Alpes até a Gália Cisalpina. Ele obteve vitórias esmagadoras nas batalhas de Trébia e Lago Trasimeno. Aníbal seguiu para o sul da Itália em e derrotou os romanos novamente na Batalha de Canas, onde aniquilou o maior exército que os romanos já tinham formado. Vários dos aliados itálicos de Roma, notavelmente Cápua, desertaram para os cartagineses, dando a Aníbal controle de boa parte do sul da Itália. Os cartagineses tentaram conquistar a Sicília e Sardenha entre 215 e , mas sem sucesso. Os romanos foram tomando medidas cada vez mais drásticas para formarem mais legiões e combater Aníbal, incluindo convocar escravos, criminosos e aqueles que não se enquadravam nas qualificações normais; isto aumentou em muito o número de homens que tinham a disposição. A guerra no sul da Itália prosseguiu pela década seguinte, com os romanos lentamente recapturando a maioria das cidades que tinham perdido.

Os romanos estabeleceram uma base militar no nordeste da Ibéria em ; os cartagineses a atacaram várias vezes, porém falharam em destruí-la. Roma partiu para a ofensiva na Ibéria em e foram derrotados, mas conseguiram manter seu controle do nordeste. O novo comandante romano Cipião Africano capturou Nova Cartago em , a principal base cartaginesa na península. No ano seguinte ele derrotou Asdrúbal, porém este conseguiu recuar a maioria de suas tropas para a Gália Cisalpina em . Esta nova força de invasão foi depois derrotada na Batalha do Metauro. Cipião encerrou por completo a presença cartaginesa na Ibéria em após vencer a Batalha de Ilipa.

Cipião invadiu a África Cartaginesa em , forçando o Senado Cartaginês convocar Aníbal de volta. O último confronto da guerra ocorreu entre as forças de Cipião e Aníbal na Batalha de Zama em , onde Aníbal foi derrotado e Cartago pediu por paz. O tratado de paz ditado por Roma destituiu os cartagineses de todos os seus territórios de além-mar e alguns de seus africanos também. Uma indenização de dez mil talentos de prata foi imposta. Cartago foi proibida de guerrear fora da África e na África apenas com permissão romana. Desse momento em diante ficou claro que Cartago estava politicamente subordinada à Roma. Esta usou atividades militares cartaginesas contra os númidas como pretexto para declarar guerra novamente em , iniciando a Terceira Guerra Púnica. Os romanos invadiram a cidade de Cartago em e a saquearam, chacinando a maioria de sua população e demolindo-a por completo.

Fontes primárias thumb|esquerda|upright=0.6|Estela de Políbio, historiador grego A fonte mais confiável sobre a Segunda Guerra Púnica é o historiador Políbio, um grego enviado a Roma em originalmente como um refém. Ele é mais conhecido por Histórias, escrito em algum momento após . O trabalho de Políbio é considerado pelos historiadores modernos como sendo amplamente objetivo e em sua maior parte neutro entre os pontos de vista romano e cartaginês. Políbio era um historiador analítico e sempre que possível entrevistou participantes, de os ambos os lados, dos eventos que escreveu a respeito. Historiadores modernos consideram que Políbio tratou os parentes de Cipião Emiliano, seu patrono e amigo, de forma indevidamente favorável, mas o consenso moderno é aceitar seu relato como está escrito na maioria das vezes. O historiador moderno Andrew Curry considera que "Políbio acaba sendo bem confiável", enquanto Craige Champion o descreve como "um historiador notavelmente bem informado, trabalhador e perspicaz".

Boa parte do relato de Políbio sobre a Segunda Guerra Púnica está faltando após , ou existe apenas de forma fragmentária. Assim sendo, a principal fonte para o restante da guerra é o relato do historiador romano Lívio. Este é normalmente usado pelos historiadores modernos onde o relato de Políbio é inexistente. Lívio muito se baseou em Políbio, mas escreveu de uma forma mais estruturada e com mais detalhes sobre a política romana; era também abertamente pró-romano. Seus relatos sobre encontros militares são frequente e comprovadamente imprecisos; o classicista Adrian Goldsworthy disse que a confiabilidade de Lívio "é muitas vezes suspeita", já o historiador Phillip Sabin se referiu à "ignorância militar" de Lívio.

Existem outras histórias posteriores sobre a guerra, porém são fragmentárias ou resumidas. Historiadores modernos geralmente levam em conta escritos de Diodoro Sículo e Cássio Dião, dois autores gregos da era romana; John Lazenby os descreveu como "claramente inferiores" a Lívio, mas alguns fragmentos de Políbio mesmo assim podem ser recuperados desses textos. O grego Plutarco escreveu várias biografias de comandantes romanos em seu Vidas Paralelas. Outras fontes incluem moedas, inscrições, evidências arqueológicas e evidências empíricas vindas de reconstruções.

Exércitos

A maioria dos cidadãos romanos homens adultos eram elegíveis para o serviço militar e serviriam na infantaria, com a minoria equestres mais rica proporcionando o componente da cavalaria. Os romanos tradicionalmente levantavam duas legiões, cada uma com uma cavalaria de trezentos homens e uma infantaria de 4,2 mil homens. Aproximadamente 1,2 mil soldados de infantaria, que eram homens mais pobres e jovens incapazes de pagar pela armadura e equipamentos de um legionário padrão, serviam como escaramuçadores armados com lanças de arremesso, conhecidos como vélites. Eles carregavam várias lanças, que poderiam ser arremessadas a distância em combate, também levando uma mais uma espada curta e um escudo de noventa centímetros. O resto eram equipados como infantaria pesada com armadura, escudo grande e espada curta. Eles eram divididos em três classes, com a primeira também carregando duas lanças de arremesso e as outras duas levando uma lança comum. Duas subunidades de legionários e legionários individuais lutavam em ordem relativamente aberta. Um exército era geralmente formado pela junção de uma legião romana com uma legião de tamanho e equipamentos similares enviada por um de seus aliados latinos; estas legiões geralmente tinham um componente de cavalaria maior que o das romanas.

Cidadãos cartagineses serviam no exército apenas se houvesse uma ameaça direta à própria cidade de Cartago. Quando serviam, lutavam em unidades de infantaria bem protegidas armadas com lanças longas, porém eram notoriamente mal treinados e disciplinados. Os cartagineses na maioria das vezes recrutavam estrangeiros para seu exército. Muitos vinham de diferentes regiões do Norte da África e eram frequentemente chamados de "líbios". A região proporcionava vários tipos de lutadores, incluindo: infantaria de ordem cerrada equipadas com escudos grandes, capacetes, espadas curtas e lanças longas; escaramuçadores de infantaria leve armados com lanças de arremesso; cavalaria de choque de ordem cerrada carregando lanças; e uma cavalaria leve de escaramuçadores, geralmente númidas, que usavam lanças de arremesso à distância e evitavam combate próximo. A infantaria líbia e a milícia cidadã lutavam em uma formação cerrada conhecida como falange. Em certas ocasiões a infantaria usava armaduras romanas capturadas, especialmente entre as tropas de Aníbal. Tanto a Ibéria quanto a Gália proporcionavam uma infantaria experiente, com tropas desprotegidas que atacavam ferozmente, mas que tinham a reputação de fugirem caso o combate se estendesse muito. A cavalaria gaulesa, e possivelmente outros iberos, usavam armadura e lutavam como tropas de ordem cerrada; a maioria ou todos os iberos montados eram de cavalaria leve. Fundibulários especialistas eram recrutados das Ilhas Baleares. Os cartagineses também empregavam elefantes de guerra; o Norte da África na época tinha elefantes-da-floresta nativos.

Deveres de guarnição e bloqueios terrestres eram as operações mais comuns. Ataques surpresa, emboscadas e estratagemas eram comuns quando exércitos estavam em campanha. Batalhas mais formais eram usualmente precedidas pelos dois exércitos acampando entre dois a doze quilômetros um do outro por dias ou semanas, chegando algumas vezes a entrarem em ordem de batalha diariamente. Eles poderiam marchar para longe se um dos comandantes achasse que estava em desvantagem. Forçar uma batalha era difícil em tais circunstâncias caso o comandante oponente não estivesse disposto. Formar uma ordem de batalha era uma questão complicada e premeditada, o que demorava várias horas. A infantaria geralmente era posicionada no centro da linha de batalha, com os escaramuçadores da infantaria leve na sua frente e a cavalaria nos flancos. Muitas batalhas eram decididas quando uma das forças de infantaria era atacada no flanco ou na retaguarda e era parcial ou totalmente cercada.

Ambos os estados possuíam grandes frotas no decorrer de toda a guerra. Entretanto, a frota cartaginesa raramente foi colocada no mar, sendo usada usualmente apenas para escoltar transportes de tropas. Ela raramente agiu de forma agressiva, o que deu aos romanos a superioridade naval pela duração da guerra.

Antecedentes thumb|upright=1.35|esquerda|Territórios controlados por Roma e Cartago antes do início da Primeira Guerra Púnica A República Romana estava expandindo-se agressivamente no sul da península Itálica no século que precedeu à Primeira Guerra Púnica. Ela já tinha conquistado toda a península ao sul do rio Arno até quando cidades gregas na Magna Grécia se renderam ao final da Guerra Pírrica. Durante esse período, Cartago tinha dominado o sul da Ibéria, boa parte das regiões litorâneas no Norte da África, Ilhas Baleares, Córsega, Sardenha e a metade ocidental da Sicília. Por volta de , Cartago era a potência externa dominante na Sicília, enquanto Roma e Cartago eram as principais potências do Mediterrâneo Ocidental. As relações entre ambos eram boas e os dois estados já tinham declarado sua amizade mútua, além de possuírem boas conexões comerciais. Segundo o classicista Richard Miles, a atitude expansionista romana depois de conquistar o sul da Itália, combinada com a abordagem proprietária cartaginesa sobre a Sicília, fez com que as duas potências entrassem em conflito mais por acidente do que por planejamento. A causa imediata da Primeira Guerra Púnica foi o controle da cidade-Estado siciliana independente de Messana. A guerra entre os dois começou em .