O gnosticismo (do ; de , gnosis: 'gnose', e gnostikos: 'conhecedor, sábio') é um conjunto de correntes filosófico-religiosas sincréticas oriundas da região do mediterrâneo durante os séculos I e II d.C., alicerçado em interpretações de relatos bíblicos e apócrifos pelo viés filosófico médio-platônico e de cultos de mistérios greco-romanos e orientais. Mesclara-se ao cristianismo primitivo dos primeiros séculos desta era, e fora condenado como heresia após um período de prestígio entre os intelectuais cristãos.Jones, Peter. Ameaça Pagã, A (Velhas heresias para uma nova era). Editora Cultura Cristã. ISBN 8586886386

Com base em interpretações heterodoxas e alternativas do pentateuco e doutros relatos da Escritura hebraica e cristã, os gnósticos afirmam que o universo material (cosmo) foi criado por uma emanação imperfeita do Deus supremo chamada demiurgo, para prender a centelha divina (espírito) no corpo humano. Esta centelha divina poderia, então, ser liberta através da gnose: que seria o conhecimento intuitivo sobre o espírito e a natureza da realidade.

As ideias e ramos gnósticos floresceram no mundo mediterrâneo no século II d.C., em conjunto e trocando influências com os primeiros movimentos cristãos e médio-platônicos. Mesmo com um considerável declínio após o século II, o gnosticismo sobreviveu sub-repticiamente ao longo dos séculos na cultura ocidental, remanifestando durante o Renascimento através do esoterismo ocidental, assumindo a proeminência com a espiritualidade moderna. Do Império Persa, o gnosticismo se alastrou até a China através do maniqueísmo, ao passo que o mandeísmo ainda vive no Iraque.

As primeiras definições e tentativas de destrinchar o gnosticismo ocorreram no contexto da Era cristã.Adolf von Harnack (1885) definiu como uma "helenização aguda do cristianismo". Moritz Friedländer (1898) defendeu origem judaica helenística, enquanto Wilhelm Bousset (1907) defendeu origens persas.Karen L. King, What is Gnosticism? (2005) "Bousset considerou que o gnosticismo era uma religião pré-cristã, existindo ao lado do cristianismo. Era um produto Oriental, anti-judeu e anti-helenista..." Embora alguns estudiosos suponham que o gnosticismo seja anterior ou contemporâneo ao cristianismo, todos os textos gnósticos até hoje descobertos são posteriores à primeira metade do século I, época em que o cristianismo já estava estabelecido como religião através dos apóstolos."Até esta fase, ainda não foram encontrados quaisquer textos gnósticos que antecedem claramente a origem do cristianismo." J. M. Robinson, "Sethians and Johannine Thought: The Trimorphic Protennoia and the Prologue of the Gospel of John" em The Rediscovery of Gnosticism, vol. 2, Sethian Gnosticism, ed. B. Layton (Leiden: E. J. Brill, 1981), 662.

O estudo do gnosticismo e do cristianismo primitivo de Alexandria foram ambos reacesos após a descoberta da Biblioteca de Nag Hammadi, em 1945.R. van den Broek Studies in Gnosticism and Alexandrian Christianity Page vii 1996 "O estudo do gnosticismo e, em menor medida, do cristianismo primitivo da Alexandria receberam um forte impulso com a descoberta da Biblioteca de Nag Hammadi copta, em 1945"

O termo gnosticismo 135px|thumb|left|Bispo Ireneu, quem usou pela 1ª vez o termo "gnóstico" para descrever as heresias A terminologia gnosticismo, ipsis litteris, não consta em fontes antigas.Ismo Dunderberg Beyond gnosticism: myth, lifestyle, and society in the school of Valentinus. Columbia University Press, 2008. p16 "O problemas com o termo "gnosticismo" em si é conhecido: ele simplesmente não aparece em fontes antigas(...)" Cunhado por Henry More em um comentário sobre as Sete Igrejas do Apocalipse,Layton, Bentley. "Prolegomena to the Study of Ancient Gnosticism" In The Social World of the First Christians: Essays in Honor of Wayne A. Meeks, (editado por L. M. White e O. L. Yarbrough; Minneapolis: Fortress, 1995), p. 334-50 gnosticisme foi o neologismo escolhido por More para descrever a heresia tiatirense (), no mesmo sentido que seu contemporâneo Henry Hammond usou a expressão gnostick-heresi. Esta última expressão vem da literatura patrística e heresiológica do início do cristianismo, especialmente a do Bispo Ireneu de Lião.

Isto ocorre no contexto do tratado do Pe. Ireneu, Contra as heresias, (; elenchos kai anatrope tes pseudonymou gnoseos) onde o termo pseudonymos gnosis ("falsamente chamada gnose") abrange vários grupos tachados por Ireneu como sectários da Igreja (não apenas o do heresiarca Valentim), e é uma citação direta da exortação paulina para manter "horror aos clamores vãos e profanos da falsamente chamada ciência (coiné: Γνωσις, gnosis), a qual professando-a alguns, se desviaram da fé." (I Timóteo 6:20-21)Dominic J. Unger, John J. Dillon — 1992 St. Irenaeus of Lyons Against the heresies, Vol.1 p3 "the final phrase of the title "knowledge falsely so-called" is found in 1 Timothy 6:20.

O significado comumente aceito de gnostikós em clássicos gregos é "aquele que sabe" ou "que entende", como na comparação entre "o que pratica" (praktikós) e "o que entende" (gnostikós) usada no colóquio entre Platão, Sócrates e o jovem estrangeiro no tratado Político (258e).LSJ entry γνωστ-ικός , ή, όν, A. of or for knowing, cognitive: ἡ -κή (sc. ἐπιστήμη), theoretical science (opp. πρακτική), Pl.Plt.258e, etc.; τὸ γ. ib.261b; “ἕξεις γ.” Arist.AP0.100a11 (Comp.); “γ. εἰκόνες” Hierocl.in CA25p.475M.: c. gen., able to discern, Ocell. 2.7. Adv. “-κῶς” Procl.Inst.39, Dam.Pr.79, Phlp.in Ph.241.22. A preferência de Platão pelo vocábulo gnostikós é muitíssimo típica nos clássicos.In Perseus databank 10x Platão, Cratylus, Theaetetus, Sophist, Statesman 2x Plutarco, Compendium libri de animae procreatione + De animae procreatione in Timaeo, 2x Pseudo-Plutarco, De musica

Durante o período helenístico, gnostikós passou também a ser associado aos cultos de mistérios greco-romanos, tornando-se até sinônimo de mistério (gr. μυστήριον, mustḗrion). Gnostikós não é usado no Novo Testamento para se referir a grupos ou indivíduos específicos além da supracitada e genérica menção paulina em Timóteo, mas Clemente de Alexandria no Livro Sétimo do Stromata enaltece o "culto" gnostikós autenticamente cristão. A aplicação de gnostikós na forma pejorativa e associada às heresias começa com as análises críticas de Ireneu. Alguns estudiosos, por exemplo A. Rousseau e L. Doutreleau, tradutores da edição francesa (1974),A. Rousseau and L. Doutreleau Saint Irénée de Lyon : Traité contre les hérésies 1974 consideram que Ireneu às vezes escrevia gnostikós querendo dizer apenas "entendedor", como em 1.25.6, 1.11.3, 1.11.5, e "seitas de entendedores" (Adv. Haer. 1.11.1) quando queria criticar designações e seitas específicas. Evidências em favor disso aparecem quando Ireneu começa a utilizar comparativos como gnostikeron (i.e. "mais entendido" ou "mais sábio"), já que nunca existiu a forma "mais gnóstico" como nome próprio de uma seita.Williams Rethinking "Gnosticism": an argument for dismantling a dubious category 1999 p36: "Mas vários dos usos da designição gnostikos por Ireneu são mais ambíguas e não é tão claro se ele está indicando a seita específica novamente ou usando "gnósticos", agora apenas como uma referência abreviada para todos os praticamentes(...)"; p37: "Eles argumentam que Ireneu usa gnostikos em dois sentidos: (1) com o significado básico e habitual de "erudito" (sábio), e (2) com referência aos adeptos da seita específica chamada de 'heresia gnóstica' in Adv. haer. 1.11.1."; p271: "1.25.6 onde eles pensam que gnostikos significa 'aprendido' está em 1.11.3 ('Um certo outro famoso professor deles, alcançou uma doutrina mais elevada e aprendeu [gnostikoteron] ...') e 1.11.5 ('... para que eles)" Dentre os grupos que Ireneu identificou como "seitas de entendedores" (gnostikós), estavam os marcelinos e os setianos ou barbelognósticos, um dos mais notórios a se autoidentificar com o nome gnostikós. Mais tarde, o Bispo Hipólito aplicou gnostikós indiscriminadamente como labéu contra heresiarcas como Cerinto e os ebionitas, enquanto Epifânio fez o mesmo somente contra seitas específicas.

Per se, a aplicação do termo gnosticismo como categoria genérica é problemática, pois mesmo Ireneu e seus sucessores conceituaram uma única tipologia para os vários grupos existentes à época. Essa noção varia um pouco ao perceber-se que o gnosticismo admite muitas exceções. E ainda, o termo "gnosticismo" tem sido aplicado como labéu a diversas seitas modernas com cerimoniais arcanos e iniciáticos, ou mesmo ressignificado para enquadrar ideologias políticas e facções sociais (como faz Eric Voegelin), mesmo que muitas delas não explicitem nenhuma autoidentificação com os gnósticos históricos. Longe de esclarecerem, essas generalizações só obscurecem ainda mais o conceito e dificultam a verdadeira compreensão histórica do gnosticismo enquanto movimento.

Características gerais Não existe um sistema gnóstico único e uniforme. No entanto, há semelhanças suficientes para justificar uma caracterização geral, lembrando que nem todos os sistemas incluem todos os elementos e nesses termos.The Teology website (em inglês) - Church History Study Helps: Characteristic Features of Gnosticism Estas características são particulares ao gnosticismo cristão (de forma antagónica ou não à figura de Cristo):

A estimativa do mundo, devido ao que precede, como uma falha ou produto de um "erro", mas, possivelmente, benévolo na medida do que o limite material permitir; A introdução de um deus criador distinto ou demiurgo, que é uma ilusão e depois emanação a partir do único mónada ou fonte. Este segundo deus é um deus menor, inferior ou falso. Esse deus criador é comumente referido como o demiourgós. O demiurgo gnóstico apresenta semelhanças com as figuras de Platão em Timeu e A República. No primeiro caso, o Demiurgo é uma figura central, um criador benevolente do universo que trabalha para tornar o universo tão benevolente quanto possível dentro do que as limitações da matéria permitirão, neste último, a descrição de um desejo "leonino" no modelo de psique de Sócrates tem semelhança com as descrições do demiurgo como tendo a forma de um leão, a passagem relevante de A República foi encontrada dentro da Biblioteca de Nag Hammadi; Jesus é identificado por alguns gnósticos como uma encarnação do Ser Supremo para trazer a gnōsis para a terra. Entre os mandeístas, Jesus foi considerado um mšiha kdaba ou "falso messias", que perverteu os ensinamentos que lhe foram confiados por João Baptista. Outras tradições identificam Maniqueu e Sete, como o terceiro filho de Adão e Eva, como a figura de salvação; Desejo de conhecimento especial e íntimo dos segredos do universo. A salvação gnóstica era da ignorância e não do pecado. O conhecimento não era apenas o meio de salvação, era a única real salvação. O conhecimento era o conhecimento do verdadeiro self, seu lugar no Pleroma e um retorno de lá.

Dualismo e monismo Normalmente, os sistemas gnósticos são vagamente descritos como sendo de natureza "dualista" , o que significa que eles têm a visão de que o mundo é composto ou explicável através de duas entidades fundamentais. Hans Jonas escreve: "A característica fundamental do pensamento gnóstico é o dualismo radical que rege a relação de Deus e do mundo, e, correspondentemente, a do homem e do mundo".Hans Jonas, The Gnostic Religion, p. 42, Beacon Press, 1963, ISBN 0-8070-5799-1; 1st ed. 1958

Dualismo radical