O morcego é um animal mamífero da ordem Chiroptera, cujos integrantes apresentam uma fina membrana de pele entre os dedos, a qual se estende até as patas e se conecta às laterais do corpo, formando as asas. Distinguem-se das aves, pois estas possuem penas suportadas por ossos. Os morcegos são os únicos mamíferos com voo verdadeiro.PERACCHI, Adriano Lucio; DE LIMA, Isaac Passos; DOS REIS, Nélio Roberto; BAVIA, Lorena. Ordem Chiroptera. In: DOS REIS, Nelio Roberto; PERACCHI, Adriano Lucio; FANDIÑO-MARIÑO, Hernán; ROCHA, Vlamir José (orgs). Mamíferos da Fazenda Monte Alegre - Paraná. Londrina: Eduel, 2005. No Brasil, o morcego pode ser raramente chamado pelos seus nomes indígenas, de origem Tupi, andirá ou guandira.FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.1 158

Esse grupo abrange 21 famílias e 237 gêneros Mammal Diversity (2022). Acessado em 28 de setembro de 2022. Disponível em: . Representam um quinto (~ 20%) de toda as espécies de mamíferos do mundo Gunnell GF and Simmons NB (2005). Fossil evidence and the origin of bats. J Mammal Evol 12:209-246. São pelo menos 1 447 espécies, que possuem variedade de formas e tamanhos, podem ter uma envergadura de cinco centímetros a dois metros, capacidade de adaptação a quase qualquer ambiente (só não ocorrem nos polos) e uma ampla diversidade de hábitos alimentares.

Tradicionalmente, os quirópteros dividam-se em duas subordem: a Subordem Microchiroptera), que seriam os morcegos capazes de ecolocalizar pela laringe, e a Subordem Megachiroptera, que não apresentava a capacidade de ecolocalizar pela laringe. Entretanto, estudos moleculares indicaram que essa classificação não está de acordo com a filogenia do grupo, portanto, a classificação mais adequada atualmente é a divisão dos quirópteros em Yangochiroptera e Yinpterochiroptera Teeling EC, Springer MS, Madsen O, Bates P, O’brien SJ and Murphy WJ (2005) A molecular phylogeny for bats illuminates biogeography and the fossil record. Science 307:580-584.

Os morcegos têm a dieta mais variada entre os mamíferos, pois podem comer frutos, sementes, folhas, néctar, pólen, artrópodes, pequenos vertebrados, peixes e sangue.Kunz TH, Fenton MB. 2003. Bat ecology. Chicago: The University of Chicago Press. 799 p. Cerca de 70% dos morcegos são insetívoros, alimentando-se de insetos, sendo praticamente todo o restante frugívoros, ou seja, alimentam-se de frutas. Somente três espécies se alimentam exclusivamente de sangue: são os chamados morcegos hematófagos ou vampiros, encontrados apenas na América Latina. Dessa maneira, morcegos contribuem substancialmente para a estrutura e dinâmica dos ecossistemas,Kunz TH, de Torrez EB, Bauer D, Lobova T, Fleming TH. 2011. Ecosystem services provided by bats. Annals of the New York Academy of Sciences 1223(1):1-38. pois atuam como polinizadores, dispersores de sementes, predadores de insetos (incluindo pragas agrícolas), fornecedores de nutrientes em cavernas e vetores de doenças silvestres, dentre outras funções. Possuem ainda o extraordinário sentido da ecolocalização (biossonar ou orientação por ecos), que utilizam para orientação, busca de alimento e comunicação.

Etimologia O termo "morcego" tem origem no nome arcaico para "rato", "mur" (do latim mure) com "cego", significando, portanto, "rato cego".

No Brasil também se usam raramente os termos "andirá" ou "guandira" que têm sua origem no tupi andyrá.FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. pp.117,872

A ordem dos morcegos, "Chiroptera", tem sua origem etimológica nos termos gregos χείρ [cheir], "mão" e πτερόν [pterón], "asa".χείρ, Henry George Liddell, Robert Scott, A Greek-English Lexicon, on Perseus

Classificação

Há duas subordens clássicas de morcegos: Megachiroptera, raposas-voadoras; Microchiroptera, verdadeiros morcegos.

thumb|left|200px|Uma raposa-voadora Pteropus giganteus (Megachiroptera: Pteropodidae). Os Megachiroptera são encontrados na África, Oceania e Ásia. Como o seu nome indica, nesta subordem que encontram-se os maiores morcegos do mundo, os quais chegam a 2 metros de envergadura e comem frutas. Não utilizam a ecolocalização, à excepção do gén. Rousettus. A subordem Microchiroptera contém os mais variados hábitos alimentares, comendo desde frutas (frugivoros) até peixes (piscivoro), e com frequência dependem da ecolocalização para navegação e para encontrar presas. Três espécies se destacam por terem desenvolvido um hábito alimentar por sangue, os hematófagos: Desmodus rotundus, Diphylla ecaudata e Diaemus youngi).

Acreditava-se que essas duas subordens tinham se desenvolvido de forma independente e que suas características similares eram resultado de evolução convergente. Porém, análises filogenéticas mostraram que os dois grupos têm um ancestral voador comum.Simmons NB. 1994. The case for chiropteran monophyly. American Museum Novitates 3103:1-54. Estudos filogenéticos mais recentes, feitos com dados moleculares, têm mantido essa teoria do ancestral comum (a ordem Chiroptera seria mesmo um grupo monofilético). Porém, a divisão em duas subordens está sendo alterada, porque na verdade as raposas-voadoras parecem estar contidas dentro de uma linhagem evolutiva dos demais morcegos.Teeling EC, Springer MS, Madsen O, Bates P, O'Brien SJ, Murphy WJ. 2005. A Molecular Phylogeny for Bats Illuminates Biogeography and the Fossil Record. Science 307(5709):580-584

Sabe-se pouco sobre a origem dos morcegos, já que seus esqueletos são pequenos e delicados e os ambientes em que viviam (florestas e cavernas) não eram favorávies a fossilização. A espécie mais antiga conhecida, o Onychonycteris finneyi, viveu no Eoceno inferior há cerca de 52,5 milhões de anos.Simmons, N., Seymour, K., Habersetzer, J. et al. Primitive Early Eocene bat from Wyoming and the evolution of flight and echolocation. Nature 451, 818–821 (2008). https://doi.org/10.1038/nature06549. Outros fósseis desse período também foram descobertos, como Icaronycteris, Archaeonycteris, Palaeochropteryx e Hassianycteris, mas eles já eram muito semelhantes aos Microchiroptera modernos.Simmons NB, Geisler JB. 1998. Phylogenetic relationships of Icaronycterys, Archaeonycterys, and Palaeochropteryx to extant bat lineages, with comments on the evoluion of echolocation and foraging strategies in Microchiroptera. Bulletin of the American Museum of Natural History 235:1-182. Além disso, foram descobertos fósseis de Megachiroptera datados do Oligoceno médio (cerca de 30 milhões de anos atrás). Os morcegos eram usualmente agrupados, junto com os Scandentia, Dermoptera e primatas, na superordem Archonta, mas novos estudos genéticos, morfológicos e paleontológicos revelaram que os morcegos não ligam-se a estes animais. Com a exclusão dos Chiroptera, o grupo passou a ser batizado de Euarchonta. Os morcegos parecem estar mais relacionados com uma fauna originada no supercontinente Laurasia, os Laurasiatheria, que incluem também os insetívoros verdadeiros (Eulipotyphla), ungulados (Artiodactyla e Perissodactyla, Carnivora e os pangolins (Pholidota).Nery MF, González DJ, Hoffmann FG, Opazo JC. 2012. Resolution of the laurasiatherian phylogeny: Evidence from genomic data. Molecular Phylogenetics and Evolution 64:685-689

thumb|right|Variedade de formas entre morcegos.

Classificação moderna dos morcegos:

Ordem Chiroptera Blumenbach, 1779 Subordem Yinpterochiroptera Springer, Teeling, Madsen, Stanhope & de Jong, 2001 Pteropodidae Gray, 1821 Superfamília Rhinolophoidea Craseonycteridae Hill, 1974 Megadermatidae H. Allen, 1864 Rhinolophidae Gray, 1825 Rhinopomatidae Bonaparte, 1838 Subordem Yangochiroptera Koopman, 1985 Superfamília Emballonuroidea Van den Bussche & Hoofer, 2004 Emballonuridae Gervais, 1855 Nycteridae Van der Hoeven, 1855 Superfamília Vespertilionoidea Molossidae Gervais, 1856 Natalidae Gray, 1866 Vespertilionidae Gray, 1821 Superfamília Noctilionoidea Furipteridae Gray, 1866 Mormoopidae Saussure, 1860 Mystacinidae Dobson, 1875 Myzopodidae Thomas, 1904 Noctilionidae Gray, 1821 Phyllostomidae Gray, 1825 Thyropteridae Miller, 1907

Anatomia thumb|left|Foto do esqueleto de morcego.

O osso do metacarpo e o segundo e quinto dedos dos membros anteriores são alongados, e entre eles existe uma membrana, chamada "quiropatágio". Esta membrana estende-se entre os dedos dos membros anteriores ao longo do corpo e até à base dos membro posteriores. A asa inteira de um morcego é chamada "patágio". Há muitas espécies que têm também uma membrana entre os membros posteriores incluindo a cauda, à qual se chama "uropatágio". Por último, à membrana que se estende entre o braço e o corpo dos morcegos chama-se "plagiopatágio".

thumb|left|Desenho de asa de morcego.

thumb|right|Esqueleto de um morcego vampiro comum (Desmodus rotundus); note a dentição especializada.

O patágio está cheio de delicados vasos sanguíneos, fibras musculares e nervos. No tempo frio, os morcegos enrolam-se nas próprias asas como num casaco. Quando está calor, abrem-nas para refrescar o corpo.

O polegar e, às vezes, o segundo dedo dos membros anteriores, têm garras, bem como os cinco dedos dos membros posteriores. As garras traseiras permitem aos morcegos agarrarem-se aos galhos ou saliências. Os morcegos conseguem se locomover no solo, porém de forma desajeitada. Apenas os hematófagos (América do Sul) e mistacinídeos (Nova Zelândia) possuem hábitos cursoriais desenvolvidos, com adaptações para esse estilo de vida.

Quase todos os morcegos são ativos à noite ou ao crepúsculo, com exceção do grupo das raposas-voadoras, que inclui muitas espécies diurnas. Os seus sentidos de olfato, paladar e audição são excelentes e, ao contrário do que muitos pensam, morcegos possuem uma boa visão. Eles possuem também o sentido da ecolocalização (biossonar), que levou a diversas modificações morfológicas em várias espécies de morcegos, chegando a aparências bizarras como a dos morcegos Centurio. Algumas espécies de morcegos estão entre os tetrápodes voadores vivos mais rápidos do planeta. A espécie morcego-sem-rabo-brasileiro (Tadarida brasiliensis) alcança velocidades de até 160 km/h.

Seus dentes, no geral, se parecem com os dos mamíferos da ordem Eulipotyphla (toupeiras e musaranhos). Porém, há uma grande variedade de dentições entre os morcegos, relacionadas às suas linhagens evolutivas e hábitos alimentares. Por exemplo, morcegos frugívoros costumam ter um grande número de dentes, tendo molares e pré-molares bem largos e fortes, que usam para mastigar a polpa fibrosa de muitos frutos. Já morcegos que se alimentam de néctar têm poucos dentes, que são de menor tamanho, já que esses morcegos só bebem líquidos. Morcegos-vampiros, por sua vez, têm dentes incisivos grandes e afiados, que usam para fazer cortes precisos e superficiais nas suas presas, das quais lambem o sangue.

Ecolocalização